quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Suicidio entre jovens cresce 20% no Brasil

A coragem religiosa do reverendo Chad Varah: sim ao humanismo e não ao salvacionismo.

A notícia publicada esta semana na imprensa já vinha sendo prevista há anos pela Organização Mundial de Saúde - OMS. Mas esse é um assunto que continua na lista das coisas desagradáveis que o ser humano centrado em si mesmo não gosta muito de conversar ou lembrar que existe. A não ser quando acontece com os outros, de preferência com alguma celebridade cujo ato destrói de imediato a imagem ilusória que ela tem diante das massas. Mas quando se trata de crianças e jovens, deveria haver, no mínimo, um gesto de preocupação e compaixão, já que os adultos que se matam continuam sendo visto como símbolos da fraqueza e do fracasso existencial. Crianças e jovens, nos quatro momentos da vida física, ainda tem pela frente os dois campos de provas geralmente mais difíceis e poderiam receber mais atenção daqueles que são mais experientes. Sabemos que os suicidas em potencial são mais tentados, pois a maioria deles são reincidentes, fator que agrava a prova e até antecipa o confronto com situações difíceis e conflitantes.
É uma tragédia que persegue a Humanidade, desafia a ciência e provoca as religiões e filosofias morais.
O primeiro serviço de prevenção do suicídio do mundo foi criado dentro de uma pequena igreja anglicana de Londres em 1948. Seu fundador logo percebeu que a doutrina religiosa tinha pouco a dizer e muito a fazer ao adotar uma postura filosófica de respeito ao livre-arbítrio e à essa condição horrível do sentimento de autodestruição. O trabalho separou-se da doutrina religiosa, cuja tendência salvacionista condenava e repudiava o suicida. Foi uma postura corajosa e que até hoje ainda confunde aqueles que oferecem ajuda condicionada à conversão. O Reverendo Chad Varah sustentou essa postura dos Samaritanos até o seu desencarne em 2007.
No Brasil , o CVV, que originou-se de uma turma de Escola de Aprendizes na Federação Espírita de São Paulo, também percebeu o equivoco e abandonou essa tendência condicionadora dos religiosos – herança do “crê ou morre” – e firmou-se numa postura areligiosa, verdadeiramente cristã e humanista de estar ao lado e não contra o suicida. Coisa difícil de entender com a razão, mas fácil de compreender quando nos referimos ao coração. Mesmo nesses casos, o livre-arbítrio é coisa séria, divina, e exclusividade de quem usa. A experiência mostrou que Chad Varah sempre esteve certo. A própria psicologia passou por essa trajetória entre a abordagem diretiva e não diretiva. Os educadores já estão aprendendo essa lição com os seus próprios alunos. Outro argumento importante defendido por Chad é que o salvacionismo , além de não aceitar a condição moral do suicida, também não respeita sua crença e sua cultura, revelando uma triste arrogância e falsa postura de superioridade. Ele sabia que grande parte dos voluntários do CVV eram espíritas e membros de outras religiões e filosofias, mas sempre sorria ao dizer: Somos todos samaritanos!
Ps.
Certa vez, numa palestra em São Bernardo do Campo em 1983, vimos Chad Varah contando a seu modo a parábola do bom samaritano. Segundo ele , era um sujeito comum que, ao passar pela famosa vítima de assaltantes, fingiu que não viu e passou reto. Corroído pela consciência durante aqueles poucos segundos de percurso , olhava para os lados e perguntava : Cadê o sacerdote? Cadê as autoridades? Esse problema não é meu, sou apenas um simples samaritano... Como não obteve respostas, aí, sim, resolveu, muito contrariado, tomar a atitude que todos nós conhecemos.

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