quarta-feira, 29 de junho de 2011

Misayo, uma criança que aprendeu a lutar pela vida

Uma alegria indescritível. Esta foi a sensação que tivemos ao conversar recentemente com a primeira plantonista do CVV, Misayo Ishioka. Ao conhecer os relatos sobre a fundação dessa ONG de prevenção do suicídio sentimos uma enorme curiosidade de saber o que se passou com ela no primeiro plantão daquela quarta-feira, 28 de março de 1962. Depois de muitas buscas a encontramos numa pequena cidade do interior paulista. A conversa aconteceu na tarde do dia 28 de junho de 2011 em apenas alguns minutos de um telefonema que nos pareceu muito longo. Ficamos com receio de assustá-la com uma ligação até então estranha, mas quando dissemos do que se tratava percebemos uma rápida mudança no tom de voz. Depois achou engraçado a forma com havia sido localizada e logo foi comentando sobre as coisas que nós queríamos saber. Misayo nasceu no Japão e veio para o Brasil antes da guerra, com apenas sete anos de idade. A família se instalou numa fazenda de proprietários italianos em Guatapará, pequeno município da região de Ribeirão Preto. Somente depois da guerra, aos 19 anos, foi para São Paulo onde, depois de muitas dificuldades, conseguiu realizar seus estudos, pois não falava quase nada de português. Formou-se em enfermagem somente aos 30 anos, ingressando logo após como funcionária pública do Hospital das Clínicas. Ali se aposentou no cargo de enfermeiro chefe. Budista de formação, freqüentou vários grupos religiosos em São Paulo, quando, em 1959, foi convidada por uma amiga do HC para freqüentar a escola da Federação Espírita do Estado de São Paulo, cuja turma seria a base dos primeiros voluntários do Centro de Valorização da Vida. Hoje aos 84 anos ela relembra que , apesar de ter permanecido pouco tempo como voluntária, aprendeu muito sobre si mesma e que isso foi muito importante para compreender e respeitar as pessoas, sobretudo as que sofrem. Lembra com muita alegria e naturalidade o fato de ter sido a primeira plantonista do CVV – não lembra se foi escolhida por sorteio ou se a colocaram numa escala semanal– mas que recebeu a notícia como um compromisso muito importante e no qual não poderia faltar. Para ela isso era uma coisa natural. Era respeito pela vida. Das recordações daquela época e dos anos anteriores à sua vinda para a Capital, Misayo fala que tudo era muito diferente para uma criança que veio de muito longe e que, como muitos na família, não entendia porque havia deixado seu país para tentar a vida num lugar tão diferente. A vinda deles para o Brasil não foi motivada apenas pelas dificuldades econômicas, mas talvez por uma dessas intrigantes questões do destino. Misayo passou sua primeira infância talvez na cidade mais famosa do Japão, não por suas belas paisagens, mas por seu triste lugar na história contemporânea. Ela nasceu e viveu em Hiroshima, a cidade onde 140 mil pessoas foram sacrificadas pela explosão da bomba atômica, em 6 de agosto de 1945.


NOTA: Imagem ilustrativa feita em Hiroshima depois do ataque norte-americano


Um comentário:

Ricardo Alves da Silva disse...

Legal, Dalmo!
A conversa para você deve ter sido emocionante. E imagino para ela também, que é, de alguma forma, uma das muitas heroínas "anônimas" que existem mundo afora.
Passei o texto para uma amiga de Natal/RN, que é integrante da entidade mantenedora do CVV local.
Ela não conhecia as pessoas por trás da história do início do plantão.
Como ela, outros também não devem conhecer.
Felicidades!