domingo, 28 de dezembro de 2014

Moisés e Deus



Diálogo no Facebook, à propósito do novo filme de Redley Scott.

 Fui ao cinema ver Êxodo. Sala lotada para ver a velha história sob novos efeitos especiais. Eu e Verônica (minha filha) quase congelamos com o ar condicionado no máximo. Quem assiste naturalmente fica dividido entre o mito e a racionalidade desse clássico episódio bíblico. O diretor Redley Scott, sempre fascinado por antropologia, humaniza Moisés, atualiza a leitura da bibliografia judaica, porém insiste na possibilidade humana de sintonizar forças e inteligências de outras dimensões do universo. Para ele os fenômenos relatados continuam sendo metáforas de situações-limite da existência. O homem vê Deus como uma criança petulante e Deus vê o homem como um adulto que não abandonou a infância. Legal.

Sidnei* -Difícil a relação do homem com Deus, não acha?

Dalmo - Relação de amor e ódio, até que as polaridades se tornem uma coisa só. Demora milhões de anos.

S- Nós inventamos Deus fora de nós e o vemos como uma outra pessoa ou outro ser. Na visão de Santo Agostinho isso é pecado. O que você pensa disso?

D- Agostinho via o pecado como como um desvio natural que precisa ser corrigido diariamente. Nós não inventamos Deus, ele sempre esteve em nós. Como somos humanos, Deus obviamente se torna humano, lutando contra o exterior (os instintos). Se negamos a razão e cultivamos a animalidade, Deus desaparece, embora permaneça oculto. Na medida que avançamos na razão Deus deixa de ser alguém (pessoal) e passa ser alguma coisa não humana. Kardec pergunta aos Espíritos o que é Deus e não quem é Deus. Zenon o definiu como o Logos Spermatikus. Nossa semelhança com Deus é a mente e não o corpo. Spinoza e Einstein definem Deus com a mente universal.

S- Estava vendo alguns vídeos ontem que contestam a teoria evolucionista. Inclusive um que afirma que o ser humano vive na terra há bilhões de anos. E, num certo ponto lá, o autor fala que admitir a teoria evolucionista seria considerar o homem apenas matéria, quando na verdade trata-se se matéria, mente e consciência, de acordo com religião védica.

D- A oposição criacionismo versus evolucionismo é ideológica e maniqueísta. Darwin só corfirma Deus como uma inteligência que atua pelas leis da natureza e não como magia simples. A tese de Teilhard Chardin (Fenômeno Humano) é a que mais se aproxima da leitura científica. A tradição védica é amelhor de todas elas (Doutrina Secreta de Helena Blavatsky). A Gênese de Kardec faz uma síntese de tudo isso.

S- No caso, o Autor afirma que a comunidade científica esconde evidências de forma a manter uma ditadura do conhecimento e evolucionismo para preservar as suas carreiras. Mas, o que achei interessante mesmo é que a consciência individual evoluiria também e numa velocidade diferente do corpo físico, o que justificaria os ciclos e a presença aqui há muito tempo do que admite a nossa vã filosofia.

D- É provável, pois instituiu-se uma luta ideológica entre pseudos cientistas e pseudos teólogos. A briga se enveredou para uma disputa de argumentos sem fim e perdeu o foco e a razão. Provar versus negar. A evolução da consciência é atemporal, embora precise do tempo biológico na fase inicial.

S- Agora, como é possível suportar todo o saber e todas as nossas experiências num único corpo físico sujeito ao tempo e numa vida tão curta. Seria preciso muito mais anos ou será que somos tão amaldiçoados que temos apenas que nos conformar com a nossa finitude e as nossas escolhas erradas?

D- Seria impossível. Uma existência física é um limite para realizar experiências que precisam ser contínuas, em outras existências. Isso acontece em todas as formas e sêres. Dormimos no Mineral, sonhamos no Vegetal, acordamos parcialmente no Animal e finalmente caímos em si no Hominal. E as crises continuam...

S- Difícil. Deus então seria totalmente racional? Ou melhor, o caminho é através da razão? Como fica a providência nesse caso, então?

D- Segundo os entendidos é a Razão, não a razão humana, cheia de lacunas e incompleta. Razão Plena. Somos uma imitação.

S- A Força, de Guerra nas Estrelas, por exemplo?

D- Providência são as leis da Natureza, intervenções espontâneas. A Lei do Amor e da Justiça são expressões da inteligência divina, provisões divinas para corrigir erros no percurso humano. A Providência ainda é incompreensível pela razão humana. As "fêmeas" compreendem, embora não saibam explicar. Elas são um ótimo exemplo de providência, enquanto os "machos" são exemplos de provisão. Aquele roteiro filmado por George Lukas é uma metáfora da lei da polaridade universal e quem também se manifesta no interior humano. No planeta Terra existe o mito dos Dragões se opondo ao Cordeiro, há muitos milênios.

S- O que é a suposta consciência da realidade, que leva ao livre arbítrio e etc?

D- Percepção do tempo. Se entendermos o tempo, assumimos o controle das circunstâncias. A maioria de nós  percebe o tempo de forma distorcida e não temos o controle das situações.

S- Percepção do tempo? O que vem a ser isso? O tempo a que estamos sujeitos?

D- Tempo biológico (cronológico) e tempo psicológico (mental). Kronos e Kairós dos gregos. A fusão desse dois tempos é a consciência.

S- Mas, quem é o senhor do momento oportuno? Nós ou a divindade? Isso causa muita frustração.

D- Creio que é a Divindade, enquanto nossa percepção for limitada. Ao ampliar a percepção a Divindade permite o amplo uso do livre arbítrio. Mesmo porque nesse processo contínuo cometemos tantos erros que seria impossível termos liberdade total de ação.

S- Trata-se então de ampliar a percepção. Mas essa ampliação não ocorre somente através do livre arbítrio? Então como atingir? Então a Divindade estaria sendo paternalista conosco?

D- Essa é uma imagem pedagógica criada por Jesus ou pelos tradutores dos Evangelhos. É uma imagem que se aproxima muito das tentativas humanas de compreender Deus. O tempo e a percepção que temos dele é chave do Universo. Einstein não veio ao mundo só para mostrar a língua.

S- Os próprios princípios da física quântica, a dualidade onda/partícula e a interferência da observação humana na formação da realidade. Mas, nada disso dá conta da imensa solidão que sentimos nessa terra insuportável e do silêncio da divindade. Do jeito que coisa anda nunca encontraremos Kairós e se encontrarmos não o reconheceremos. Toda a nossa vida, nossos propósitos, projetos, carreira e tudo o mais está orientado por Chronos. Ele é o senhor deste mundo: Chronos, o devorador.

D- Inexovável. Mas temos a mente, inviolável, exclusividade divina em nós. Não dependemos só do relógio. Temos a Bússola.

S- Acho que eu desanimei.

D- Você sabe que muitos assassinos (psicopatas) matam porque sentem a ausência da figura paterna ou materna, que também é incapacidade de compreender Deus. Incapacidade de amar. Os que se matam também sofrem essa crise. Matar a si é uma tentativa de matar Deus.

S-  Aí a crise já enveredou para a aniquilação do próprio ser. A impressão que dá é que fomos abandonados aqui e foi dito: se vira malandro, agora é com você. Tipo jogos vorazes sabe? Onde está o amor em tudo isso? Se formos analisar bem, este mundo é um absurdo total.

D- Adaptação. Quando Deus quer falar com o homem de forma mais dura, ele diz: Adapte-se! Assumir o comando da própria vida é isso.

S- Olha, Dalmo, não tenho dúvidas que essa experiência nossa aqui é muito enriquecedora. Seria maluco se não dissesse isso e jamais teria sentido o amor se negasse o fato. Mas, cara, como é duro.

D- A dor e o destino. Os doze trabalhos de Hércules.

S- Então, isso que é o ótimo da coisa. Mas é o medo que dá, a sensação de que a ponte é curta demais, que o bicho está te alcançando. Isso é que é foda. Vou te falar uma coisa, quando eu morrer e chegar lá não sei onde e tirar o espectro do meu corpo e ficar somente o espírito, direi a quem me receber: pô, meu, dá um tempo, a coisa toda é muito louca.

D- Dá um tempo.... Quanto tempo mais?

S- A eternidade, eu acho... kkkk

D- Se for preciso. Alguns dizem temos essa prerrogativa. Outros dizem que não.

S- Acho que o limite é a paciência. Será que é infinita como o amor ou são a mesma coisa. Acho que não né, senão não haveria apocalipse e outras ameaças.

D- Os chineses afirmam que a paciência é a mais difícil das virtudes. Levam-se milênios para se conquistar.


*Sidnei Malena é sociolólogo e advogado. Trabalhamos juntos em São Paulo como educadores na segunda metade década de 1980.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Lágrimas e soluços

As impurezas da mente podem ser afastadas pela meditação ou pelo exercício do pensamento positivo. Algumas impurezas do coração também podem ser limpas pelo perdão, a busca da alegria e o propósito de transformação íntima, pelo arrependimento. Entretanto, algumas delas, quando adquiridas em situações alta gravidade, só podem ser extintas pelas lágrimas e soluços, que durante as provas removem com força avassaladora tudo de mal que ficou gravado na memória e nos sentimentos de culpa. Esse é o sentido das bem-aventuranças, condição íntima não assimilada pela razão humana, porém profundamente compreendida pelas necessidades do Espírito exilado na carne.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

A justiça do tempo


Em visita ao presídio do Carandiru no início dos anos 1970, Chico Xavier foi abordado por um detento que , segurando desesperadamente suas mãos, fez a seguinte comentário:

"Não tenho mais salvação. Vou para o inferno. Matei e prejudiquei muitas pessoas. Não tem mais jeito".

O médium fechou os olhos por alguns segundos e depois lhe disse:

 "Acabo de ser informado que já existe um plano de futuras existências nas quais muitos dos seus desafetos mortos voltarão com você à Terra e serão seus filhos".

 Feliz Natal!

 

domingo, 21 de dezembro de 2014

Enterrado vivo

A novela Império revive a paranoia mais incômoda do século XIX. Isso mesmo: ser enterrado vivo era o principal medo da sociedade vitoriana. Os ricos planejavam túmulos ventilados e espaçosos para evitar a agonia claustrofóbica. Allan Kardec esclareceu o assunto na Revista Espírita e no livro O Céu e o Inferno, publicando a mensagem de um Espírito que tinha sido enterrado vivo. A entidade lembrava seus momentos de horror e também de culpa quando, em outra existência, também havia enterrado a mulher viva. Mais informações em Nova História do Espiritismo - Editora do Conhecimento.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Cidadãos do mundo

Moradores de rua são moradores do mundo. Seus lares internos ainda não permitem que suas casas externas sejam de tijolos e cimento e que tenham o endereço fixo dos bairros. Existe uma razão para que, na época de festas e de verão eles sejam atraídos para as praias: a de olharem para o infinito do céu e do mar. E não devemos ficar chocados porque simplesmente isso se chama esperança.

O que aconteceu com o Esperanto?

Durante décadas os espíritas sofreram uma intensa propaganda para aderir ao movimento esperantista, sobretudo pelas entidades federativas. A campanha incluía não somente artigos em jornais e revistas mas também trechos em livros psicografados mostrando que o idioma universal já era uma realidade no mundo espiritual.

Mesmo assim, com a globalização dos negócios capitalistas e do idioma inglês, a língua criada por Zamenhof ainda sofre grande resistência e continua sendo associado a uma utopia. 

No movimento espírita o Esperanto também não vingou, apesar dos intensos esforços dos seus cultivadores. 

O que vai acontecer com o Esperanto? 

Será que tem chances de se tornar um idioma universal? 

É uma possibilidade ou continuará sendo uma utopia, como indica o próprio nome?

Foto (Wikipédia): Encontro de esperantistas na Alemanha.

domingo, 7 de dezembro de 2014

O impacto do trabalho voluntário



Segundo o jornalista André Trigueiro (G1 e Rádio CBN, em 6 de dezembro de 2014) o Brasil possui 16,5 milhões de voluntários, número que considerado muito baixo se for levado em conta a nossa população. Isso significa 11% de todos os brasileiros. Se esses voluntários fossem remunerados por um salário mínimo (724 reais) seria necessário recursos mensais da ordem de 22 bilhões de reais.  Dados divulgados no mesmo dia no twitter da jornalista Maria Lúcia Guimarães (Globo e Estadão) apontam que nos EUA - com uma população de pouco mais de 300 milhões- existem 62.6 milhões de voluntários. Essa diferença não é explicada pelas estatística demográfica e sim pela tradição e cultura de voluntariado na sociedade norte-americana.

A qualidade de vida dos países desenvolvidos, entre outros indicadores, pode ser mensurada pelos índices de ação social voluntária. Nos países ricos ela é vista como uma atividade importante; nos pobres ela é certamente uma atividade essencial para preencher não somente a ausência do Estado mas também também o vazio existencial de milhares de pessoas que solucionam ou aprendem conviver com seus problemas ajudando pessoas que possuem problemas diferentes ou mais graves.

Somente três em cada dez brasileiros realizaram trabalho voluntário, segundo uma pesquisa recente do Data Folha –Itaú Social. A pesquisa questionou o motivo dessa baixa participação e teve como resposta as seguintes razões: falta de tempo; nunca foram convidados; nunca pensaram sobre isso. A mesma pesquisa revela que oito em cada dez jovens nunca fizeram trabalho voluntário. 

Na avaliação de Trigueiro, o voluntariado é o principal contrapeso dos limites do papel do Estado, cujos governos não podem assumir a responsabilidade de todos os problemas sociais. Para ele o trabalho voluntário realiza ações extremamente importantes, como é o caso dos membros de Alcóolicos Anônimos (AA) e Neuróticos Anônimos (NA),  que amparam diariamente milhares de dependentes químicos e pessoas com distúrbio mentais. André Trigueiro lembrou também das ligações telefônicas recebidas pelos plantonistas do CVV, que ultrapassam o número de 1 milhão de chamadas por ano, assim como das ações ecologistas dos que protegem as matas e a fauna através de programas ambientais. Todas essas pessoas doam seu tempo sem nenhuma preocupação material e sim por questões humanitárias e de consciência social.

Resumindo, a cultura do voluntariado é, há muito tempo, a mais eficiente ferramenta para combater a injustiça, a desigualdade e a pobreza, criando oportunidades reais de transformação.