terça-feira, 19 de maio de 2009

Espiritismo e diversidade sexual


Pesquisa do Datafolha, realizada em São Paulo durante a 9ª Parada GLBT revelou um dado muito interessante quanto a concepção filosófico-religiosa dos participantes: católicos, 36% Espíritas kardecistas e espiritualistas (19%), Nenhuma (18%), Evangélica Pentecostal (4%), Não Pentecostal (3%), Umbanda (3%), Candomblé e outras afro-brasileiras (3%), Judaica (1%), Outras (9%), Ateus (5%). A pesquisa teve uma pequena variação entre a diversidade de preferência sexual dos pesquisados (gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e outros diversos).

Os dados do Censo 2000 escondiam essa particularidade cultural GLBT e colocava as concepções filosófico-religiosas da seguinte forma: católicos (73,8%), evangélicos ou protestantes (15,5 – 10% pentecostais) e espíritas kardecistas (1,4%).


Segundo a reportagem da Folha de São Paulo ( 19/06/2005), que foi comentada pelo sociólogo da USP, Antonio Flávio Pierucci, essa preferência do grupo sócio-cultural GLBT pelo kardecismo seria motivada forte rejeição dos evangélicos ou protestantes pelo homossexualismo e, por outro lado a rejeição da população pelas igrejas pentecostalistas.


Os números do censo também mudam, embora na mesma ordem, quando se trata do perfil da população da cidade de São Paulo: católicos (59%), evangélicos ou protestantes (23%) e kardecistas (6%).


Mas não podemos deixar de lado uma dúvida: por que esse grupo sócio-cultural GLBT mantém alta sua preferência pelo catolicismo e salta numericamente em relação ao kardecismo?


Em relação ao seu passado histórico, o catolicismo tem sido progressivamente mais tolerante com as preferências sexuais. Tanto entre os adeptos como no quadro de sacerdotal, a presença declarada GLBTs é uma realidade incontestável. Historicamente, grande parte do clero e de suas congregações sempre funcionaram como oásis de proteção social ( tolerância e aceitação, ainda que camufladas) das pessoas que não se enquadravam nas convenções sexuais individuais e familiares. O sacerdócio sempre serviu de escudo para ocultar esse preconceito e rejeição da sociedade pelos homossexuais. Historicamente também, a atração de alguns tipos homossexuais pelas corporações disciplinares rígidas e dogmáticas, incluindo as militares, sempre foi um fato notório, igualmente como forma de camuflagem social. Nas décadas de 60 e 70, quando da explosão da liberdade sexual, essas corporações, sobretudo do clero, passaram por uma grave crise vocacional. Só voltaram a se recuperar quando uma outra crise atingiu a sociedade: a instabilidade econômica. Essas corporações sempre foram também um porto seguro diante da incerteza e instabilidade.


A rejeição pelas Igrejas Pentecostais mostra uma lamentável relação reciprocidade: “Eu só vou gostar de quem gosta de mim”. Na concepção protestante, com raríssimas exceções, os homossexuais continuam sendo vistos como desvios ou aberrações da natureza, quando não instrumentos de Satanás para perversão social da família. Essa concepção ilógica mítica da teologia medieval – que se rivalizava radicalmente com o paganismo – coloca Deus e o Homem bem abaixo da idéia de perfeição e evolução. Nesses grupos protestantes o homossexualismo é tratado como uma questão de “regeneração pela salvação”, ou seja, o abandono da “degeneração”, a negação da condição homossexual como característica autêntica, pois esta é um desvio, um vício sexual; e finalmente o resgate da heterossexualidade. Regenerado ou convertido, o indivíduo que estava “invertido” encontrará o equilíbrio e a conseqüente harmonia social que lhe impede de ser visto como pessoa “normal”. Poderá, inclusive constituir família e freqüentar as igrejas.


Já os 19% de preferência pelo kardecismo revela algumas particularidades também curiosas. A doutrina espírita é essencialmente progressista, embora grande parte dos seus adeptos não consiga acompanhar essa constante progressão diante das transformações do mundo e da Ciência. Segundo o Livro dos Espíritos e as demais obras da Codificação, os seres humanos são Espíritos encarnados. Na essência, os Espíritos são bissexuais e se manifestam na carne pela lei biológica do gênero: ora pode ser masculino, ora pode ser feminino. Os ciclos evolutivos de reencarnações é que determinam a manifestação do sexo, pela prova (escolha) ou pela expiação (relação traumática de causa e efeito). O caso do homossexualismo é bastante semelhante com as transições ou mutações orgânicas, com o importante diferencial psíquico: o Espírito que realizou muitas encarnações num determinado sexo geralmente traz na existência atual os traços mentais das encarnações anteriores e isso muitas vezes marca o próprio corpo físico. A herança e as tendências de quem encarna não diz respeito apenas ao aspecto biológico, mas principalmente aos hábitos mentais e suas conseqüências carnais. Portanto, em tese e essência, o homossexualismo não é um desvio ou aberração natural, a não ser nos excessos passionais, possíveis pela liberdade de ação humana em qualquer opção e característica sexual. Pode ser, do ponto de vista moral ou das conseqüências de atitudes morais – nas relações afetivas -, um desvio relativo das referências éticas e dos valores cultivados socialmente pelo indivíduo ou pelo grupo do qual faz parte. Homossexuais também têm suas crenças e valores, liberais ou conservadores, formados em suas origens familiares.


O livro Sexo e Destino, da série André Luiz (FEB Editora), psicografado pelo médium Chico Xavier, revela informações bastante compatíveis com a doutrina contida nas obras de Allan Kardec. Ali encontramos, por exemplo, relatos ilustrativos sobre a dinâmica social e espiritual das leis naturais e morais que afetam os Espíritos e os seres humanos encarnados nessa rotina das múltiplas existências. São experiências dramáticas de pessoas envolvidas em tramas afetivas, quase sempre solucionadas pela mudança de mentalidade em exercício pessoal e social, no próprio ambiente onde ocorreram os erros e danos morais. A reencarnação funciona, nesses casos, como veículo reparador de experiências fracassadas.


Ora, esse tipo de conhecimento, para quem o aceita e digere mental e filosoficamente, provoca mudanças significativas na mentalidade e no comportamento. Muda pontos de vistas e conseqüentemente atitudes preconceituosas. É claro que nem todos os espíritas conseguem digerir plenamente tais informações, mas é o início de um processo de educação ou reeducação de conceitos e atitudes. Para os homossexuais esta pode ser, em tem sido, uma explicação bastante razoável para sua condição sexual conflitante, individual e coletivamente. A partir delas é possível refletir com mais clareza e maturidade sobre um assunto ainda tão polêmico e constrangedor para milhões de seres humanos.


Como herdeiro do pensamento socrático, bem como da tradição herética e libertária do cristianismo, a doutrina espírita é revolucionária de paradigmas e conceitos, adversária natural do preconceito e do pensamento retrógrado. Nascemos dos preconceitos materialistas do século XIX que ainda hoje insiste em ver os fenômenos espíritas e o universo metafísico com coisas absurdas e sobrenaturais. Sabemos também que o conhecimento desperta para Verdade e que esta gera uma responsabilidade que muitos ainda não se sentem preparados para abraçar.


Esperamos que esses números estatísticos cresçam cada vez mais entre os GLBTs. Muito mais importante ainda não é apenas a aceitação da Doutrina Espírita pelos homossexuais, mas aceitação incondicional dessa condição e opção sexual pelos espíritas e nas instituições sociais espíritas.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Um foto e uma bela história de 96 anos


Esta foto esteve disponível na internet por algum tempo e depois deu uma "sumida" de cinco ou seis anos. Revendo os nossos já antigos arquivos digitais, encontramos uma cópia da mesma num slide de uma das nossas aulas sobre a História do Espiritismo. Não sabemos qual é a fonte original, mas jamais esquecemos o quanto ela representa para todos os espíritas que lutam para manter em dia as suas difíceis tarefas de assistência e difusão doutrinária. Para ilustrá-la buscamos dois trechos muito significativos da biografia de Eurípedes, escrita pela sua ex-aluna Corina Novelino. São dois relatos que revelam um momento muito difícil e outro de reconhecimento público do trabalho pioneiro do Apóstolo de Sacramento. No primeiro plano da foto, sentado, Eurípedes é o segundo da esquerda para a direita.


O INSPETOR


“Visitei hoje o Colégio Allan Kardec, dirigido pelo competente e dedicado Professor, Sr. Eurípedes Barsanulfo, encontrando presentes às lições do dia 94 alunos dos 113 atualmente matriculados. Acompanhei os trabalhos e pude verificar que o método de ensino adotado é racional e que os alunos vão assimilando bem todas as matérias lecionadas neste colégio, que se impõe no conceito público desta cidade, não só pela boa disciplina, mas também pela dedicação desinteressada do seu diretor e de seus dignos auxiliares, aos quais deixo consignados os meus aplausos pelos bons resultados que vão colhendo, e meus agradecimentos pelo modo gentil com que me receberam no seu estabelecimento de ensino”.

Termo de Visita de Ernesto de Mello Brandão, Inspetor Regional de Ensino. Sacramento, 29 de abril de 1913.



O MENTOR


“Abandone, sem pesar e sem mágoa, o seu cargo na Congregação. Convido-o a criar outra instituição, cuja base será o Cristo e cujo diretor espiritual serei eu e você o comandante material. Afaste-se de vez da Igreja. Quando você ouvir o espoucar dos fogos, o repicar dos sinos ou o som das músicas sacras não se sinta magoado, nem saudoso, porque o Senhor nos oferece um campo mais amplo de serviço e nos conclama à ação dinamizadora do Amor. Meu filho, as portas de Sacramento vão fechar-se para você. Os amigos afastar-se-ão. A própria família revoltar-se-á. Mas, não se importe. Proclame sempre a Verdade. Porque, a partir desta hora, as responsabilidades de seu Espírito se ampliaram ilimitadamente. Você atravessará a rua da amargura, com os amigos a ridicularizarem uma atitude que não podem compreender.”

Mensagem do Espírito São Vicente de Paulo para Eurípedes

In “Eurípedes, o homem e a missão”. Corina Novelino. IDE

sexta-feira, 1 de maio de 2009

O medo, a necessidade e a dúvida

A pequena atriz Ivana Baquero interpretando a imaginária princesa Ofélia. O filme de Guillermo del Toro é uma ótimo pretexto para discutir e compreender as verdades universais do Espiritismo.


Entender e compreender sempre foram coisas diferentes no esforço humano para ler o grande texto do mundo. Os fenômenos que brilham diante dos olhos nem sempre repercutem da mesma forma nas mentes e nos corações. São ritmos de amadurecimento que os gregos antigos diferenciavam utilizando a metáfora do tempo: kronos, para as coisas exteriores e kairós, para as coisas interiores. É assim que o Criador permite que as criaturas conheçam a natureza que está fora e dentro delas mesmas, o Uno e o Verso. Tudo isso pode parecer complicado, mas é só aparência ou ilusão. Tudo se descomplica quando a vida flui com simplicidade, mesmo quando tudo se mostre de forma complexa e inatingível. Não são as coisas, somos apenas nós, nos debatendo para aceitar a verdade.


“Há muito, muito tempo no Reino Subterrâneo, onde não existem mentiras ou dor, viveu uma princesa que sonhava com o mundo dos humanos. Sonhava com o céu azul, a brisa suave e o brilho do sol. Um dia, burlando toda a vigilância, a princesa escapou. Uma vez do lado de fora, a luz do sol a cegou… e apagou da sua memória qualquer indício do seu passado. A princesa esqueceu quem era e de onde veio. O seu corpo sofria de frio, doença e dor. E no decorrer dos anos, ela morreu. Entretanto, seu pai, o Rei, sabia que a alma da princesa retornaria, talvez em outro corpo, em outro lugar, em outra época. E ele esperaria por ela, até seu último suspiro, até que o mundo parasse de girar…”

Assim , com esse relato cheio de simbologias e mistérios, começa a fantástica narrativa fílmica do diretor Guillermo Del Toro. A película foi concebida originalmente como metáfora política das lutas entre o totalitarismo e a liberdade na Espanha dos anos 1940, quando o país sofre a sua mais terrível prova desde a decadência mercantilista. Após o conflito civil que matou mais um milhão de pessoas e também serviu de ensaio para a II Guerra Mundial, o país mergulha nas trevas do fascismo franquista. Mas ainda há a resistência dos guerrilheiros esquerdistas escondidos nas montanhas. É nesse ambiente repleto de perigos, mistérios e ciladas que acontece essa enigmática fábula que fala da educação do corpo e da alma. Ensina pela linguagem artística o que é e com funciona a educação iniciática, essa andragogia secreta do mundo íntimo, que acontece paralelamente na experiência social humana. Muito útil para a compreensão da moral e das verdades universais do Espiritismo. Atentem para o nome e as características do livro que a menina Ofélia recebe do Fauno e como acontecem as revelações contidas nele.

Diferente dos graus horizontais e previsíveis da pedagogia intelectual, a graduação andragógica ou espiritual ocorre no terreno vertical do imprevisível, como na Parábola do Semeador. A sala de aula é a Natureza e as lições são as circunstâncias da vida. Não há como fugir sem pagar o terrível preço da alienação. É o ser e o destino. O primeiro grau é a água (neutra, indefinida e sem gosto), o segundo é a lama (tem gosto, mas ainda está indefinido entre o sujo e o limpo) e finalmente o terceiro grau: a luz, que se define e distingue completamente dos demais, por que não mais se suja ou é impedido por nada que seja material.

Entre esses três graus de transformação pessoal, ocorrem as provas mais terríveis da experiência humana: a necessidade, o medo e a dúvida. São as três fases do relógio da existência (infância, vida adulta e velhice) numa só circunstância consciencial (a bússola). Passando pelas provas vivenciais da iniciação andragógica, atinge-se respectivamente a pureza das crianças, a coragem dos adultos e a serenidade do mais velhos. Não importa se somos crianças ou adultos, pois a iniciação não depende somente do intelecto ou da experiência do mundo social, mas principalmente do sentimento da coragem e os valores positivos da emoção, ou seja, da capacidade de fazer escolhas e usar o livre arbítrio. Não importam as situações, não importam as aparências, as tradições e os preconceitos. O que vai predominar é sempre a verdade, custe o que custar.

Como bem disse alguém na internet:“O Labirinto do Fauno" deve ser apreciado com muita atenção, os detalhes importantes estão meio que escondidos. E cabe cada um decidir o que é real e o que não é”.


domingo, 26 de abril de 2009

Plinio Marcos e os turrões espíritas

Plínio Marcos no auge da fama: boca suja e coração sempre muito limpo.


Há quem admire a teimosia porque a confunde com a persistência, que é realmente uma virtude. Teimosia é e sempre foi exagero humano, persistência no erro ou, no dizer contemporâneo de Edgard Morin, “cegueira paradigmática”.

Pois bem, tempos atrás havíamos lido uma entrevista de um antigo militante espírita, já desencarnado, e esta semana lemos uma outra, de outro antigo militante, muito parecida. E ficamos nos perguntando: Como vamos estar quando chegarmos nessa curiosa e fascinante fase da vida? Lapidados naturalmente pela existência, conformados com as provas, mas ainda rebeldes e resistentes à Verdade. Divididos entre a arrogância e a simplicidade, continuaremos pretensiosos. Envergonhados com os excessos cometidos, faremos elogios aos antigos desafetos, uma forma disfarçada de pedir perdão pelas bobagens que falarmos ou fizermos nesses anos todos à frente. Importante: já estaremos admitindo em público que o Espiritismo ainda está muito distante da nossa capacidade de assimilação. Nada a estranhar, pois cada tem o seu ritmo e seu tempo. O tempo do corpo (existência) não acompanha o tempo do espírito (consciência). Estaremos revelando, de um lado, um importante vigor intelectual e , por outro, uma enorme dificuldade para digerir a essência espiritual das coisas. Teremos o perfil clássico do sectário e do turrão: confuso entre a razão e a emoção, como se essas duas coisas fossem absurdamente incompatíveis. Nunca foi, nunca será. O problema sempre estará em nós. Manteremos aquela antiga bravata ideológica e vamos nos declarar sempre fiéis à Kardec - como se Kardec fosse um culto institucional ou time de futebol e tivesse passado sua existência como um simples intelectual, orgulhoso e limitado, que não tenha compreendido espiritualmente a própria doutrina que fundou e exemplificou com a sua experiência pessoal durante 14 anos. A velha história vai continuar: não podendo nos modificar, vamos querer modificar o Espiritismo ao nosso gosto. Não aceitando Kardec como realmente como ele se nos apresenta, vamos projetar nele a imagem daquilo que gostaríamos que ele fosse. Só de pensar que nos próximos anos teremos assimilado muito pouco do Espiritismo, ficamos seriamente preocupados.

Nos lembramos agora de Plínio Marcos, o eterno jovem e rebelde dramaturgo santista que passou grande parte da vida lutando contra o mundo e não conseguia enxergar que o mundo era ele mesmo. Plínio não cresceu no ambiente de miséria e violência que expressou raivosamente em toda a sua obra. Teve suas oportunidades de luz , que não sabemos quanto soube aproveitar. Era de família mediana e o pai era espírita. Certa vez nós o vimos dizendo que conhecia o Espiritismo, pois , quando adolescente, trabalhara numa banca livros espíritas cujo pai era responsável. Alguém na platéia perguntou o que ele pensava sobre o Espiritismo. Naquela noite, no Teatro do Sindicato dos Metalúrgicos, em Santos, estava acontecendo a reencenação da peça Barrela, proibida durante a ditadura militar. Era 1979 ou 80, os primeiros tempos da anistia. Entre nós, prestigiando o evento, estava uma verdadeira plêiade do teatro nacional (Flávio Rangel e Ruth Escobar estavam na primeira fila) - pois era um momento histórico e emblemático – e também alguns representantes anônimos da censura e da polícia federal. Respondendo ao jovem espírita, Plinío disse com ares de provocação: “Lia tudo aquilo, mas achava tudo muito perfeito e conformista”. Essa distorção pessoal da doutrina revelava certamente a sua principal carência e o seu real interesse pelas coisas do mundo. O reencontramos na sua velhice precoce, nos final dos anos 90, e ele já estava mais surrado pela vida, falando de Jesus, de aceitação , de respeito pelo próximo. Plínio sempre quis falar dessas coisas, pois, apesar da boca suja, sempre teve o coração muito limpo, mas não conseguia conter seu impulso de artista intolerante, repleto de feridas e mágoas indecifráveis. Não havia mais aquela revolta pela revolta, os xingamentos exagerados, a vontade inconsequente de chocar e ferir, tão comuns nos adolescentes. Plínio agora estava voltado para si mesmo, para o esoterismo, para o Tarô. Mas ainda sentia prazer na rebeldia e atração para a marginalidade. Nunca deixamos de admirar o seu talento e sua coragem política. Nos divertíamos com a sua irreverência diante da autoridade abusiva e dos moralistas. Naquela noite ele pegou no pé dos censores com provocações impublicáveis. Suas exposições eram repletas de tiradas inteligentes, que arrancavam muitas gargalhadas e reflexões. Porém, nunca deixamos também de lamentar sua teimosia e fascínio pelas coisas negativas, baixo astral, nem saber se tinha realmente pavor das coisas do mundo íntimo, como aparentava. E sempre perguntamos: o que Plínio Marcos levou desse mundo violento e podre que ele sempre denunciou? Em que a sua obra contribuiu para melhorar o mundo e as pessoas? O Jesus Homem que ele admirava o ajudou em algum aspecto ou era pura ironia? O mundo marginal que ele tanto adorava se tornou mais humano ou piorou em termos de crueldade e opressão? O que ele esperava realmente desse mundo? Não nos referimos à sua importância inovadora na dramaturgia, no aspecto artístico, mas à sua experiência como espírito encarnado. Não temos respostas. Por outro lado ficamos pasmos com o mesmismo e a ingenuidade (tão bem explorada atualmente) da chamada arte e dramaturgia espírita. Nunca nos iludimos que pessoas como Plínio Marcos – que viveram do mundo e intensamente para o mundo - pudessem compreender e abraçar o Espiritismo. Como poderia nos iludir se muitos espíritas que, como ele, também não compreendem. Pior ainda: querem se equiparar a Kardec pretendendo rebaixá-lo a intransigente e teimoso.

Plínio Marcos na maturidade: turrão e bom coração

terça-feira, 21 de abril de 2009

Médiuns... quem atira a primeira pedra?


Nota do Caderno 2, do jornal Estado de São Paulo, em 21/04/2009:

“O médium James Van Praagh, colaborador da série Ghost Whisperer, com Jennifer Love Hewitt, esteve no Brasil para lançar um livro e dar depoimento para o filme sobre Chico Xavier, que deve render também minissérie na Globo”.

Médiuns que têm acesso mais direto aos espíritos são geralmente muito assediados pelo público e meios de comunicação. Divaldo Franco, apesar da idade avançada e da larga experiência, confessa que este é uma aspecto que mais lhe causa apreensão em suas atividades. Mesmo assim, enfrenta a prova pedindo orações para os amigos e admiradores. Na sua última visita ao programa de Ana Maria Braga ficou bastante preocupado, pois sabia da repercussão que o mesmo teria. A fama geralmente vem acompanhada do assédio, da inveja, do fanatismo, das bajulações, das críticas, tentativas de difamação, da intolerância e muitas vezes da violência (de todos os tipos), incluindo agressões físicas. É um terreno árido no qual a base espiritual (leia-se evangelização) é muito importante para não sucumbir. Kardec tinha um cuidado especial para proteger as médiuns que colaboraram com a Codificação. As meninas Baudim e Japhet, bem como a maioria dos colaboradores da Sociedade Espírita de Paris, permaneceram anônimos durante longos anos por causa desses efeitos da mediunidade-tarefa. Diversas vezes Kardec denunciou e lamentou os rumos e riscos que tomaram as carreiras de médiuns famosos no seu tempo, como as irmãs Fox e Daniel D. Home, cheia de imprevistos e humilhações que lhes convidavam constantemente à deserção.


Os médiuns são naturalmente perturbados e propensos ao desequilíbrio, seja por causa das suas faculdades (pois são janelas abertas entre os dois planos em permanente conflito energético), seja por suas antigas inclinações (falhas graves em outras existências, que os tornam mais vulneráveis), daí a necessidade de uma boa formação moral e técnica, para evitar as armadilhas e suportar ossos do ofício. Não foi à toa que Chico Xavier se tornou um ícone mediúnico. É só verificar que a sua fama e potencialidades foram proporcionais a imensa lista de problemas que teve de enfrentar durante toda a sua vida. Problemas gravíssimos, incluindo os de natureza pessoal e familiar (os mais terríveis). Teve muita sorte e proteção, pois rompeu com tudo que reafirmava a arrogância do materialismo, do dogma, da superstição e do egoísmo. Chico foi educado pelos exemplos de dois antecessores do seu trabalho: o professor Eurípedes Barsanulfo ( a quem Chico atribuia ser exemplo vivo do Evangelho de João) e dona Maria Modesto Cravo, especialmente dedicada aos problemas da obssessão. Ambos passaram por provas terríveis e eram orientados por entidades de alta hierarquia espiritual. Chico dizia que seu compromisso era tão grave e sério que se entregou completamente, afirmando que seu corpo (leia-se mediunidade e a responsabilidade) não mais lhe pertencia pessoalmente. Não é à toa que ainda é cultuado pelas massas como um santo contemporâneo, como foi Gandhi, Martin Luther King e Madre Teresa de Calcutá. Eles, que tinham tanta vivência e força para suportar suas provas e desafios, passaram pelo passaram sem dar um pio de reclamação. E nós? Teríamos tal disposição e coragem?

Ps. Poucos se recordam que Jesus também foi um grande médium.

Work-shop de James numa livraria nos EUA

sexta-feira, 17 de abril de 2009

18 de abril de 1857

Retrato de Aurore Dupin (George Sand) , a quem Allan Kardec teria oferecido o primeiro exemplar de O Livro dos Espíritos

A tradição lendária – utilizando a expressão de Canuto Abreu para conceituar esses registros da tradição oral a respeito dos trabalhos da Codificação – conta que Rivail, antes de dirigir-se à Livraria Dentu, havia lido em casa uma sugestiva nota de jornal falando da presença da famosa George Sand (Aurore Dupin) em Paris. “La Sand”, com o era conhecida a grande escritora feminista, viera especialmente de Nohant , em longa excursão feita de carruagem, para assistir a peça “Demi Monde”, da qual faria sua prestigiada crítica teatral. Rivail e Sand eram velhos conhecidos, desde os tempos de estudos de magnetismo e das primeiras reuniões de mesas-girantes, bem como de animadas conversas sobre as novidades do espiritualismo. Foi então que ocorreu ao professor que a amiga poderia tomar conhecimento da síntese das suas últimas pesquisas. Sobre esses acontecimentos, hoje de valor inestimável para a memória do Espiritismo, há uma curiosa revelação feita pelo médium Francisco Cândido Xavier, transmitida em conversa informal e assim anotada por Suely Caldas Schubert:

“(...) E assim foi que, andando pelas ruas de Paris, com o primeiro exemplar do livro nas mãos, e por isso, pleno de alegria, o professor avistou a carruagem de Sand, reconhecendo-a em seu interior. Imediatamente acenou e, cumprimentando-a, disse:

- Madame Sand, venho oferecer-lhe o primeiro livro da Doutrina dos Espíritos! Ao que ela retrucou:

- Ah, professor Denizard, - ela assim o chamava – eu sei que o senhor está fazendo experiências verdadeiras. Eu mesmo sou delas testemunha , porque desde quando muito jovem, abservava alguém , um vulto, a me acompanhar o tempo todo, a me espreitar! De pequena, lutei muito para que os demais compreendessem o que se passava comigo, mas em vão!... Bem, não nos importemos com as incompreensões e sigamos avante!... O senhor está de parabéns, professor!

O professor Rivail agradeceu-lhe a acolhida fraterna, dizendo-lhe que estimaria muitíssimo ver sua apreciação da obra. “La bonne dame de Nohan” respondeu-lhe afável:

- Professor Denizard, guarde para si este exemplar, do qual não sou digna. Alegrar-me-ei bastante em opinar sobre ele mais tarde, quando o tempo me permitir. Atualmente, tenho a vida atribulada de compromissos. Prometa enviar-me outro volume posteriormente.

A 20 de maio do mesmo ano, Allan Kardec endereçava-lhe expressiva carta, com um exemplar de “ O Livro dos Espíritos”, em anexo. Madame Sand leu a obra com atenção e, três meses depois, procurando o amigo falou-lhe:

- Professor Denizard, gostaria muito de acompanhá-lo em suas demandas por estas idéias renovadoras de nosso mundo, mas sinto que somente iria atrapalhar seu livre desenvolvimento. Minha condição de mulher, com conceitos e comportamentos revolucionários, não ajudaria em nada a verdade que esta filosofia representa. Recuso-me, pois, a escrever qualquer artigo sobre este livro de luz. Eu, certamente, apenas contribuiria para nobel. Conto com a sua compreensão e prometo, outrossim, colaborar com o senhor no que estiver ao meu alcance.

Dez anos mais tarde, na edição de janeiro de 1867 da Revista Espírita, sob o título “Os Romances Espíritas”, Allan Kardec comentaria, da seguinte forma, algumas obras literárias de George Sand: “Em Consuelo e na Comfesse de Rudolf-State, da Srª George Sand, o princípio da reencarnação representa papel capital. O Drag, da mesma autora, é uma comédia representada, há alguns anos, no Vaudeville, cujo enredo é inteiramente espírita”. Kardec igualmente comentaria ser a obra Mademoiselle de La Quintine, de Sand, uma obra que encerrava pensamentos eminentemente espíritas.

Allan Kardec e George Sand novamente se encontraram, em 18 de abril de 1957, cem anos decorridos sobre aquele encontro nas ruas de Paris e, desta vez, despojados da veste corporal.

George Sand foi um dos espíritos de elite que compareceu à grande solenidade espiritual, em homenagem a Allan Kardec, levada a efeito na Vida Maior por ocasião do primeiro centenário do livro”.

In Nova História do Espiritismo – Corifeu Editora

Gravura da Galeria D'Orleans, Palais Royal em 1850


sexta-feira, 3 de abril de 2009

O Castelo do Espírito. Quo vadis?

Turistas em busca do Castelo Hasdeu: quem são eles, de onde vieram, para onde querem ir?
Este é o Castelo Hasdeu, também conhecido como Castelo do Espírito, famoso ponto turístico da cidade de Campina, a 96 quilômetros de Bucareste, na Romênia. O edifício foi construído pelo filósofo e historiador Bogdan Petriceicu Hasdeu em homenagem póstuma à filha Julia Hasdeu, morta em 1888. Detalhe: toda a construção foi realizada a partir de desenhos descritivos transmitidos por via mediúnica pela própria Julia.
Para o turista comum, de olhar e curiosidade mediana, trata-se apenas de um capricho sentimental de um pai atormentado pela perda do ente querido. Para o observador mais atento surgem inúmeras dúvidas sobre o verdadeiro significado dessa obra. Que intenção teria o Espírito ao inspirar essa construção? Seria uma réplica de onde estaria residindo Julia no mundo espiritual? Que função teria o edifício: um simples mausoléu, uma moradia particular ou centro cultural para difusão de verdades espirituais? Quem frequentava as reuniões que ali se realizavam? Que médiuns trabalharam nessas sessões? Que expectativas tinham essas pessoas? Que espíritos se comunicaram e que tipo de mensagens foram recebidas? Elas previam o que aconteceria com a Romênia e a Eupora nos dias futuros? Onde foram parar os registros dessas comunicações? Afinal, Julia e o pai teriam conhecido o Espiritismo durante sua estadia em em Paris? Os turistas que atualmente visitam o museu o fazem por simples curiosidade ou buscam algo mais que a nossa vã filosfia terrena não pode oferecer?
Como informam diversos textos na internet, o castelo Hasdeu, concluído em 1896, sofreu sérios danos na passagem das duas guerras mundiais e também no grande terremoto de 1977. Nessa época já havia sido listado como patrimônio histórico nacional e funcionava como Museu Memorial, por iniciativa do historiador e professor Nicolae Simache. É o 25º ponto turístico mais visitado da Romênia, embora sua restauração não esteja concluída. As preocupações e práticas espíritas de B.P. Hasdeu ocupam um lugar importante no conjunto da exposição permanente do museu.
A Romênia, uma das herdeiras do Império Bizantino (Império Romano do Oriente), é uma das mais antigas nações da Europa oriental e ficou famosa no Ocidente por ser a região de origem do Conde Drácula, cujo mito do vampirismo até hoje fascina os fãs de histórias de terror. É também o país de Mircea Eliade, um dos maiores estudiosos de mito e religião, radicado nos EUA. Mircea chamava B.P. Hasdeu de "gênio" , mas nunca aceitou as incursões do seu mestre no esoterismo e nas práticas espíritas. Sua famosa frase sobre a "crença" no espiritismo provavelmente seja um reflexo dessa rejeição. Parte integrante do bloco socialista durante a Guerra Fria, a Romênia também amargou - como todas as outras nações do Pacto de Varsóvia - uma longa e intensa repressão política e espiritual. Agora, no renascimento e na volta às suas raízes e tradições, provavelmente estejam presentes o resgate das práticas espíritas e a busca de um novo sentido filosófico para tantas almas que lá continuam indo e vindo na rodas das existências.

Reunião espírita no Castelo de Campina, Romênia.

Arquitetura gótica com traços orientais é marcante no castelo

Detalhe do "Olho de Deus" no portal do edifício: influência iluminista da franco-maçonaria

Jovens em busca de novas emoções: medo, curiosidade ou interesse pelo desconhecido?

Crianças em visita ao Castelo do Espírito: o que se passa no coração e na mente delas ?


O filósofo e historiador romeno B.P. Hasdeu


Julia Hasdeu ( 1869 - 1888) foi uma criança superdotada. Na idade 2 anos e meio já sabia um pouco de francês e alemão e concluiu em poucos anos a graduação primária, quando ingressou Conservatório de Música de Bucareste. Desde muito jovem escreveu poemas e prosa, ensinou as línguas estrangeiras e estudou piano e canto. Ela foi a primeira mulher romena a frequentar Universidade da Sorbonne em Paris, onde obteve o bacharelado em letras, seguido pelos cursos da École des Hautes Études em Paris.

No início 1888, a saúde da poetisa é marcada pelos primeiros sinais da tuberculose. Desesperado em busca da cura, o pai fará uma louca corrida no sul da França, Itália e Suíça. Todas as suas tentativas são inúteis. No verão do 1888, Hasdeu traz sua filha de volta á Romênia. Após um breve período de tratamento Julia Hasdeu é transportada ao Mosteiro de Agapia. Julia morreu com a idade de 18 anos. O poeta Sully Prudhomme escreveu sobre ela: "Miss Hasdeu fez no nosso país - a França - a maior honra do seu país – a Romênia!"

Por iniciativa da embaixada romena, em frente a casa localizada 27, rue Saint-Sulpice, Paris IV, foi fixada placa na qual se assinala que ali vivia Julia Hasdeu, poeta romena de expressão francesa. A placa foi revelada em 20 de Dezembro de 1993.

Tradução livre a partir de textos encontrados na internet.

sábado, 28 de março de 2009

A morte e os filósofos

David Hume: despedida eufórica dos vivos, apesar das fisgadas no abdome.


Sérgio Augusto


Os filósofos costumam durar mais que a gente ou é apenas impressão?

Mais que a maioria dos tiranos eles duram, e isso é um consolo. Sêneca, por exemplo, morreu com 71 anos, idade avançadíssima para a época (século 1 d.C.), ao passo que seu algoz, Nero, não foi além dos 32. Tales de Mileto, o primeiro filósofo ocidental, e Sócrates também chegaram aos 70. Demócrito atingiu o recorde de 109 anos, nove a mais que o pitagórico e místico ambulante Apolônio de Tiana. Pitágoras, Sólon e Platão viveram até os 80, feito mais notável antes da Era Cristã do que os 92 alcançados pelo hermeneuta francês Paul Ricoeur em 2005. Claude Lévi-Strauss, não custa lembrar, continua vivo - e, desde novembro, centenário.

Se não foi apenas uma figura lendária, como muitos acreditam, o cretense Epimenides logrou atravessar quase dois séculos de vida, um quarto dos quais teria passado dormindo numa caverna, como um Rip van Winkle do século 6 a.C. Desconsiderem-no, portanto. Mas mantenham Calígula (que não passou dos 28) e os demais césares. Napoleão? Morreu cinquentão.

Vez por outra, alguém se interroga sobre a proverbial longevidade dos filósofos; geralmente na Inglaterra, onde também é grande o interesse em torno da maneira trágica como a maioria dos filósofos costuma partir desta para melhor. "Todos os filósofos eminentes dos últimos dois séculos ou foram assassinados ou disso escaparam por pouco", notou Thomas de Quincey, em meados do século 19.

Inspirado por essa observação, o emérito professor de filosofia D.H. Mellor, da Universidade de Cambridge, produziu uma lista de não sei quantos filósofos com sua respectiva "causa mortis"; não a verdadeira, visando dar sustentação à tese de De Quincey, mas a que o seu senso de humor, inspirado nas idéias de cada um deles, logo, só para os iniciados, ditou. Segundo Mellor, Leibniz teria (ou deveria ter) morrido de "monadanucleose"; Marx, de "causas materiais"; Henri Bergson, de "élan mortal"; Maquiavel, vitimado por uma "intriga"; e Lutero, por uma "dieta de vermes" (no original, Diet of Worms, referência à Dieta de Worms, a cimeira de 1521 na cidade alemã de Worms, em que Lutero se recusou a baixar a crista para o Vaticano).

Recentemente, outro professor de filosofia britânico, Simon Critchley, há tempos dando aula na New School for Social Research, em Nova York, investigou a suspeita firmada por De Quincey e descobriu que os grandes filósofos, vida longa à parte, não só costumam sofrer muito antes de morrer como, desde a Antiguidade, preocupam-se à beça com a questão da "boa morte".

A maioria dos 190 exemplos por ele arrolados, sob a forma de verbetes, em The Book of Dead Philosophers (O Livro dos Filósofos Mortos), editado pela Grantas na Inglaterra e pela Vintage nos Estados Unidos, comprova essa tendência. A lista começa com os pré-socráticos e vem até o século 20. Ou seja, de Tales de Mileto (que morreu de desidratação enquanto assistia a uma prova de atletismo) a Michel Foucault (que morreu de aids) e Guy Debord (que se matou).

Sócrates foi condenado a beber cicuta. Aristóteles ingeriu uma ranunculácea venenosa. Heráclito sufocou-se em estrume de vaca. Empédocles jogou-se no vulcão Vesúvio. Diógenes ou prendeu o fôlego além da conta ou intoxicou-se com um polvo cru. Diderot engasgou-se com um damasco. Uma indigestão de patê trufado levou ao túmulo o reputado médico-filósofo do século 18 Julien Offray de la Mettrie. O poeta latino Lucrécio só morreu relativamente jovem (43 anos) porque se suicidou, no século 1 a.C. Maquiavel terminou seus dias na miséria. Karl Max tinha o corpo coberto de carbúnculos quando a morte o pegou dormindo numa poltrona. Nietzsche demorou uns 10 anos sendo consumido pela sífilis e a loucura. Roland Barthes foi atropelado por uma ambulância. Pouco antes de enfartar, Hannah Arendt caiu num bueiro ao sair de um táxi em frente ao prédio onde morava, em Manhattan. Francis Bacon meteu-se a refrigerar um frango com um punhado de neve de uma rua londrina, pegou friagem e...

De todos esses terríveis epílogos, o do filósofo e dramaturgo Sêneca foi o que mais me impressionou. Conselheiro de Nero e por este condenado ao suicídio, em 65 d.C., lembramo-nos dele na célebre pintura de Rubens (circa 1601), que nem de longe retrata as agruras por que passou antes de tomar aquele fatal banho de tacho. O estoico romano primeiro cortou os pulsos. Perdeu rios de sangue, mas continuou vivo. Aí pediu veneno (acônito, o mesmo que teria matado Aristóteles), e nada. Metido por seus serviçais num tacho de água quente, ali, finalmente, desencarnou, provavelmente sufocado pelo intenso vapor do banho.

Albert Camus só ganhou espaço no livro de Critchley por ter qualificado a morte em acidente de carro como a "mais absurda" de todas. Se Camus teve uma morte absurda, as de Periander, Pitágoras e Tycho Brahe foram patéticas, beirando o ridículo.

Periander de Corinto, um dos sete sábios da Grécia, ao lado de Tales, Sólon e Chilon, tanto tramou para que seu túmulo jamais fosse encontrado, que acabou assassinado por um dos participantes da trama. Pitágoras não teria sido degolado onde hoje fica a Calábria, na Itália, se tivesse escapulido por uma plantação de feijão. (O autor do mais famoso dos teoremas detestava tanto a leguminosa que se recusava até a olhar um feijoeiro, quanto mais esgueirar-se no meio de um feijoal.) Tycho Brahe, o desnarigado astrônomo dinamarquês do século 16, grande revisor do universo ptolomaico, poderia ter chegado aos 60 anos, ou ido além disso, se não tivesse deixado para fazer xixi depois de um banquete que durou horas - e culminou com o estouro da bexiga do astrônomo.

"Morte? Não penso nisso", vangloriava-se Jean-Paul Sartre. Foi uma exceção à regra. Cícero, citado na introdução de O Livro dos Filósofos Mortos, achava que "filosofar é aprender a morrer", acrescentando: "O medo da morte é o que define a vida humana neste canto do planeta, no momento presente." Montaigne recomendava que aqueles que ensinam as pessoas a viver, isto é, os filósofos, deveriam ensiná-las também a morrer.

Num dos quatro diálogos que Platão lhe dedicou, Sócrates comenta (para Símias) que "os verdadeiros filósofos exercitam-se para morrer", daí seu pouco ou nenhum temor da morte. "Eu destoaria, se, na minha idade, me agastasse por ter de morrer em breve", diz ao igualmente velho Critão, numa cela de Atenas, às vésperas de sua "execução".

Para Epicuro, o medo da morte e o anseio da imortalidade são os sentimentos que mais arruínam nossa passagem por este mundo. Viver bem e morrer bem tinham, para ele, o mesmo peso. Se a vida deve ser entendida como uma prática ou uma preparação para a morte ("Do ponto de vista da morte, a vida nada mais é que a produção de um cadáver", escreveu Walter Benjamin, que, aliás, se suicidou em 1942), o contentamento da alma é muito mais que um vão desejo, é uma obrigação.

Contrastando com pitagoreanos, platônicos e estoicos, Epicuro via a morte como uma extinção completa e a alma, como apenas um amálgama temporário de partículas atômicas. O pai do epicurismo morreu sete anos depois de Platão. Sempre adoentado, não resistiu às dores de uma cólica renal, mas despediu-se sorrindo, afiançando a amigos e discípulos que seu sofrimento fora sempre contrabalançado pela alegria proporcionada pelos exercícios do raciocínio.

Quase dois mil anos mais tarde, o empirista escocês David Hume se despediria dos vivos na maior euforia, apesar das fisgadas que lhe pungiam o abdome. Talvez porque, segundo inconfidência de James Boswell, o maior ateu de Edimburgo passara a acreditar na possibilidade de vida depois da morte. Até Sócrates, com o pé na cova, reconsiderou seu ceticismo. "Tenho uma boa esperança de que alguma coisa espere os mortos e, segundo velha tradição, seja muito melhor para os bons do que para os maus", revelou numa conversa com Fédon e Equécrates. E sorveu em paz sua cicuta.

Estadão – 07/03/2009- As lições de vida e morte dos grandes filósofos.
Professor dos EUA produz lista divertida sobre a causa mortis dos pensadores

Sócrates: "os verdadeiros filósofos exercitam-se para morrer"

sábado, 21 de março de 2009

Da soberba e a mania de comer o mundo com os olhos

O blog IDÉIA ESPÍRITA lançou um desafio aos blogueiros: refletir sobre os Sete Pecados Capitais na ótica espírita. Já havíamos feito isso antes ao escrever os ensaios “A Inteligência Espiritual” e “ Você em busca de você mesmo” ( resumidos no blog “O Relógio e a Bússola” ). Mas agora a cobrança foi mais direta e vivencial. Espero que seja útil para alguém, pois em nós causou um tremendo mal estar.

“Cara amiga Joana, fiz de tudo para sumir do mapa e não é que você me achou? E para saber exatamente como anda a minha caverna escura, que teimo não visitar. Mas vamos lá.
Vou ser breve porque não gosto muito de falar sobre isso. Tenho consciência de que os sete pecados estão presentes de forma significativa em minha experiência cotidiana e que as virtudes ainda estão bem afastadas, cultivadas apenas como objeto de admiração e desejo.

Por sempre estar acima do peso ideal, penso que o meu ponto fraco principal é a gula, pecado que me fez o favor de quebrar a timidez e me afastar da solidão. Sou extremamente desinibido quando se trata de comer ou procurar comida e sempre faço amizade quando as pessoas são aquelas do tipo generosas, que estão sempre oferecendo algo para a gente mastigar. Minha melhor amiga sempre foi a geladeira e nem vou falar das outras amizades-objeto.

Mas esse pecado é visível e não me assusta, a não ser pelo medo de um dia desencarnar e perder o controle sobre essa idéia e me tornar um vampiro glutão. Tenho horror a isso e sempre me questiono se não estou sendo usado por alguém invisível que tem esse problema. O que me preocupa mais são os pecados que fazem mal aos outros. Geralmente quando alguns deles estão para se manifestar, sinto um frio na barriga e depois sempre aparece uma situação de prova para enfrentá-los. De todos, o que eu mais temo é a soberba. Essa fraqueza da auto-suficiência e da falta de humildade me apavora porque é o tipo de defeito que fere e magoa os outros, sem contar que desperta nos invejosos um sentimento ruim e desconfortável sobre a gente. Me esforço para ser humilde e discreto, mas sempre aparece alguém para comentar sobre isso e acaba com meus esforços de sumir de cena. Apagar a luz-própria é fácil. O duro é apagar uma luz que não existe e que os outros fingem enxergar. Isso é angustiante e perigoso. Viver assim, para quem tem conhecimento sobre causa e efeito, é um risco existencial grave e exige vigilância redobrada sobre a vaidade. Muitas vezes tenho sensação de medo e pânico sobre algo desconhecido e logo associo esse temor à minha soberba. Quem pensa que é famoso sem ser famoso, importante sem ser importante e insubstituível sem realmente ser certamente terá medo de enfrentar situações que exigem modéstia e discrição. Tenho estado assim e à vezes me lembro de pedir a Deus que me proteja desse defeito, tão ignorado por mim e tão bem conhecido pelos meus inimigos.
Um forte abraço e grato por Deus ter feito você se lembrar de mim

Ps. Ver questão 919 de O Livro dos Espíritos, respondida por Santo Agostinho
Para escrever esse artigo consultamos também o excelente Manual Prático do Espírita, de Ney Prieto Peres - Editora Pensamento.
E finalmente devemos lembrar que, em O Céu e o Inferno, Allan Kardec expôs esses temas de forma realista, mostrando - nas experiências depois da morte - os efeitos conscienciais das atitudes humanas. Para tanto, foram invocados para falar Espíritos agrupados em três categorias: os felizes, os de condição mediana e os sofredores. A tradução de J. Herculano Pires e João Teixeira de Paula (LAKE) possui um prefácio feito por Herculano denominado "Notícias do livro" que é simplesmente maravilhoso.

sábado, 14 de março de 2009

O acordeon e o Espiritismo


Por que a França desprezou o Espiritismo?
É difícil entender por que o país que foi berço da doutrina e do movimento espírita não conhece seu Codificador e olha com indiferença os seus postulados filosóficos. Isso também aconteceu com o catolicismo, que hoje é apenas um patrimônio histórico. Como explicar o fenômeno? Apelamos para tudo, até a idéia da reencarnação fora da França de milhões de almas que ali haviam cultivado a doutrina espírita. Outros atribuem a derrocada aos efeitos morais devastadores das guerras mundiais, que transformaram não só os franceses mas a maioria dos europeus em pessoas frias e descrentes. Os que permaneceram “na fé” o fazem por tradição e conveniência social e não mais por convicção religiosa. Os franceses e descendentes que conhecemos, são – por incrível que pareça – mais admiradores da umbanda e do candomblé, como manifestação folclórica. Observam o Espiritismo com certa desconfiança. São dois extremos: ou são céticos ou então supersticiosos. Digo a eles que as almas francesas aqui reencarnadas se concentraram mais no nordeste, onde introduziram entre os caboclos o gosto pela criatividade culinária, pelas artes plásticas, o teatro, a dança, a musicalidade do canto e do acordeon. Ninguém me tira da cabeça que Luiz Gonzaga, Patativa do Assaré, Gilberto Gil, Mestre Vitalino e os inúmeros pintores naifs foram franceses. Outra contribuição deles foi na política e na intelectualidade, marcantes entre os líderes e escritores, tanto no segmento conservador como no progressista. Joaquim Nabuco, João Cabral de Melo Neto, Jorge Amado, Gilberto Freyre, Miguel Arraes e seu filho cineasta, bem como Ariano Suassuna certamente me deixam a mesma impressão. A trajetória do nosso atual presidente da república e de muitos outros ativistas é prova de que o Espírito vence as supostas limitações genéticas e sociais e permite a manifestação das suas inclinações anteriores. É claro que isso acontece nas demais regiões brasileiras, mas entre os nordestinos é mais vibrante. Nos livros de André Luiz e muitos outros psicografados por médiuns brasileiros, as tramas quase sempre envolvem essas antigas almas francesas enfrentando duras provas e expiações, sobretudo entre os retirantes da seca. Em Pernambuco nos parece que essa influência é ainda mais notória , tanto no sertão quanto litoral. Digo isso não só pela riqueza das manifestações culturais, cujas expressões são realmente impressionantes em todas as áreas, mas no renascimento do Espiritismo naquelas terras. Com exceção Ceará, que possui um histórico já secular, é um movimento autônomo e de gosto forte pela liberdade. Isso não significa que estão na vanguarda, que são auto-suficientes ou que não precisam de orientação e influência dos grupos mais experientes. Pelo contrário, se não houver uma aproximação e direcionamento comum, ali a chama pode apagar, como aconteceu em outros lugares.

sexta-feira, 6 de março de 2009

A razão e a fé



358- O abortamento voluntário é um crime, qualquer que seja a época da concepção?

- Existe sempre crime quando transgredis a lei de Deus. A mãe, ou qualquer pessoa, cometerá sempre crime tirando a vida à criança antes de nascer, porque está impedindo, a alma, de suportar as provas das quais o corpo deveria ser o instrumento.


359- No caso em que a vida da mãe estivesse em perigo com o nascimento da criança, há crime em sacrificar a criança para salvar a mãe?

- É preferível sacrificar o ser que não existe ao ser que existe.

O Livro dos Espíritos – Paris , 1857



Igreja excomunga envolvidos em aborto de menina estuprada

Agência Brasil


BRASÍLIA - Os envolvidos no processo de aborto de uma menina de 9 anos que foi estuprada foram excomungados pelo arcebispo de Olinda e de Recife, d. José Cardoso Sobrinho. De acordo com a polícia, o padrasto da criança já confessou que abusava da garota. A decisão da Igreja foi criticada pelo ministro da Saúde, José Gomes Temporão.

O arcebispo condenou os responsáveis pelo aborto e disse ao Jornal Hoje que "o fim não justifica os meios. Esse é o princípio , a doutrina moral da Igreja. Os adultos, quem aprovou e quem realizou esse aborto, incorreu na excomunhão."

Para o ministro, a decisão foi "radical" e "inadequada". "A lei brasileira é muito clara: a interrupção da gravidez é autorizada em caso de estupro ou em caso de risco de vida da gestante. O resto, é opinião da Igreja. Trata-se de uma criança e, do ponto de vista biológico, não acredito que ela tivesse condições de levar a termo essa gestação de gêmeos", disse, ao participar de entrevista a emissoras de rádio durante o programa Bom Dia, Ministro. "Estou impactado", afirmou.

A menina estava grávida de gêmeos e, de acordo com médicos, se a gravidez fosse levada a diante, ela correria risco de vida. Na terça à noite, a menina foi internada e recebeu medicamentos para interromper a gravidez. Ao justificar sua decisão, dom José Cardoso Sobrinho disse que, aos olhos da Igreja, o aborto é crime e que a lei dos homens não está acima das leis de Deus.

Para Temporão, o ato de excomungar os envolvidos no aborto é um contra-senso diante do que aconteceu à criança, vítima de estupro pelo padrasto. "Fiquei chocado com os dois fatos: com o que aconteceu com a menina e com a posição desse religioso que, equivocadamente, ao dizer que defende uma vida, coloca em risco uma outra tão importante."

O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, que estava ao lado de Temporão quando ele se pronunciou também fez seu comentário: "Quero falar como cidadão: estou muito revoltado. Essa menina foi violentada, já teve um trauma grande. A Igreja, em vez de ajudar, criou uma questão a mais." E em seguida, completou: "É a criminalização da vítima."

(com Lígia Formenti, de O Estado de S. Paulo)



Equipe médica excomungada diz que não está arrependida

Garota foi estuprada pelo padrasto; por interferência de arcebispo, ela teve de ser transferida de hospital

AE - Agência Estado


SÃO PAULO - Depois do aborto a que foi submetida uma menina de 9 anos estuprada pelo padrasto e grávida de gêmeos, toda a equipe médica que participou do procedimento e a mãe da criança, que o autorizou, foram excomungadas da Igreja Católica. O anúncio da excomunhão, feito pelo arcebispo de Olinda e Recife, d. José Cardoso Sobrinho, provocou polêmica. Dois ministros de Estado fizeram críticas à atitude do religioso. José Gomes Temporão, titular da Saúde, considerou a excomunhão "lamentável". Carlos Minc, do Meio Ambiente, declarou que estava "revoltado".

Profissionais de saúde que viraram alvo da sanção eclesiástica disseram ontem que não estão arrependidos. "Graças a Deus estou no rol dos excomungados", disse a diretora do Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (Cisam), Fátima Maia. Católica, ela disse ter agido como diretora de um instituto de referência no Estado para atendimento à mulher vítima de violência sexual, mas pessoalmente também não tem nenhum arrependimento. "Abomino a violência e teria feito tudo novamente. O Cisam fez e vai continuar fazendo, estamos qualificados para esse tipo de atendimento há 16 anos."

Católico de batismo, não praticante, o gerente médico do Cisam, Sérgio Cabral, um dos que participaram da interrupção da gravidez de 15 semanas da criança, frisou não ter nenhum problema de consciência. "Estou cumprindo um trabalho perante a população pobre de Pernambuco que só tem o Sistema Único de Saúde para resolver seus problemas." O médico preferiu não comentar a excomunhão da Igreja.

Coordenadora do Grupo Curumim, uma ONG que trabalha com reprodução feminina e integra o Fórum de Mulheres de Pernambuco, Paula Viana criticou abertamente o arcebispo. "Assusta achar que a vida de uma menina vale menos que o pensamento de um religioso fundamentalista", disse. "Todos os procedimentos foram feitos com base na lei", lembrou, referindo-se ao estupro e ao risco de vida que a menina corria pela imaturidade de seu aparelho reprodutivo. De acordo com a diretora do Cisam, a criança poderia ter ruptura de útero, hemorragia e bebês prematuros, além de risco de diabete, hipertensão, eclâmpsia e de se tornar estéril.

A gravidez da menina, que mora em Alagoinha (227 km do Recife), foi descoberta no último dia 25. Ela sentia dores na barriga, tonturas e enjoos e foi levada pela mãe, de 39 anos, a uma clínica na cidade vizinha de Pesqueira. No dia seguinte, o padrasto, de 23 anos, foi preso após confessar que abusava da menina havia três anos e também tinha estuprado a irmã mais velha, de 14 anos, que tem deficiência física. A menina foi levada para o Instituto Materno Infantil de Pernambuco (Imip), na capital, onde seria submetida ao aborto. D. José interveio, falou com a direção e conseguiu que o instituto suspendesse o procedimento. A paciente foi então transferida para o Cisam.

Há dois anos, d. José gerou polêmica ao tratar da distribuição da pílula do dia seguinte no carnaval, alegando que o método é abortivo, e não contraceptivo. A arquidiocese pediu a suspensão da distribuição, mas não teve sucesso.

domingo, 1 de março de 2009

Deus e o ônibus na Europa

Propaganda ateísta: "Provavelmente Deus não existe. Pare de se preocupar e aproveite a vida."


Deus continua em moda, seja entre os crentes, seja entre os ateus.

O problema é que os crentes costumam dar umas escorregadas em sua fé e os ateus, por sua vez, não conseguem esconder seu vivo interesse pelo Criador. Deus deve olhar pra eles e resmungar: Criaturas...

Para os espíritas, Deus não é alguém, pessoa específica, mas não aceitamos que seja alguma coisa que ainda está fora do nosso alcance, exceto pelas orações. Allan Kardec abre o livro dos Espíritos colocando os mesmos na parede ( ou no muro do Universo) e pergunta: “ O que é Deus? ” Se o Espírito que respondeu essa questão fosse o Moisés que conhecemos da Bíblia, ele diria: “ Mas que atrevimento, não sabem quem são eles mesmos e querem saber quem é Deus”.

Mas a pergunta não foi “Quem é”, e sim “O que é”. Então Moisés cederia a vez para o Espíritos Sócrates, Platão, Fénelon ou Franklin, que responderiam mais ou menos assim: “Deus é a inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas”.
Como todos sabem, depois desse rápido diálogo inicial a conversa entre Kardec e os Espíritos foi longe, terminando essa primeira etapa com a pergunta 1018, sobre a metáfora do Reino de Deus. Começa com Deus e termina com Deus. A pergunta final foi respondida por São Luis que, ao lado de Santo Agostinho, vinham tratando das questões morais geradas pelas incômodas dúvidas de Kardec. Essa primeira etapa, como também todos sabem, resultou nas dissertações e pesquisas compiladas nos livros complementares, publicados por Kardec nas duas primeiras décadas da segunda metade do século XIX. Disso tudo surgiu o Espiritismo, os centros espíritas e os principalmente os espíritas...
Essa visão impessoal de Kardec - e também dos Espíritos sobre Deus - até que nos deixa tranqüilos quanto aos ataques materialistas, porém não diminui a nossa dúvida. Pelo contrário, queremos saber mais sobre Deus e sobre as coisas. Foi exatamente por isso que buscamos os Espíritos. Se os homens e as religiões não nos davam respostas, apelamos para a própria Natureza.

Sócrates tinha razão sobre a natureza do saber.

A Era da Incerteza

Contra-propaganda religiosa nos ônibus de Barcelona. " Sim, Deus existe. Aproveite a vida com Cristo"
Gilles Lapouge* - Estadão

A cidade de Barcelona, na Espanha, nos envia notícias de Deus. E não são notícias boas: um enorme cartaz vem sendo exposto, há alguns dias, na lateral dos ônibus, com a seguinte informação: "Provavelmente Deus não existe." Em seguida, um conselho: "Pare de se preocupar e aproveite a vida."

A primeira idéia é que essa campanha em favor do ateísmo surgiu apenas em Barcelona, a grande cidade catalã que é um dos centros do anarquismo espanhol e a capital dos livres pensadores. Mas soubemos que os ônibus de Madri, Sevilha, Bilbao, cidades ardorosamente católicas, também estão prontos a nos comunicar suas provas da "não-existência de Deus".
Aliás, não é só a Espanha que começa a fazer essa enorme publicidade em torno da ausência de Deus. Ela foi lançada alguns dias antes em Londres, onde um coletivo de ateus entendeu que o bicentenário, neste ano, do nascimento de Charles Darwin era uma boa ocasião para lembrar que as provas da existência de Deus são frágeis.


A França, que adora esse tipo de debate, por enquanto está muda. No entanto, o país tem uma longa tradição de ateísmo. Ainda na década de 50, os militantes ateus franceses, empoeirados e barbudos, escolhiam a Semana Santa para ir ao açougue e encomendar, com voz ensurdecedora, duas bistecas bem sangrentas.

Mas esses ônibus me deixaram em dúvida. Num certo sentido, estou contente. Há décadas leio compêndios de Filosofia e Teologia. Comparo as demonstrações de Santo Ambrósio com as de Nietzsche, na esperança de decidir se Deus existe ou não. Tudo isso em vão, porque sou muito influenciável e o "último que fala me parece sempre estar com a razão".

No caso dos ônibus de Barcelona, a vantagem é que a demonstração é tão rápida, tão fulminante, que nem temos tempo de contestá-la. Enfim temos uma certeza: Deus não existe.

O que é de lamentar é que os ateus de Barcelona não vão até o fim na sua afirmação. São ateus escrupulosos. O "provavelmente" da frase é uma calamidade. Ele reintroduz a dúvida num assunto sobre o qual precisamos de certezas. Quando eu me dispunha a mergulhar no ateísmo, começo a hesitar. Estou indeciso em "duvidar" da existência de Deus. Esses ônibus espanhóis, longe de simplificar as coisas, as tornaram mais obscuras.

E eu volto a folhear as páginas de meu Santo Ambrósio e de meu Nietzsche e retorno à busca de "provas". Mais uma vez, comparo os méritos contrapostos do ateísmo e da fé. Talvez ter fé seja exatamente isso: nos perguntarmos incessantemente se temos fé, esperando que, no dia da nossa morte, possamos fazer essa pergunta diretamente para Deus, mais confiável apesar de todos os ônibus anarquistas de Barcelona, e exigir dele uma resposta clara.

* Gilles Lapouge é correspondente em Paris - Sábado, 17 de Janeiro de 2009 Versão Impressa

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Sobre o futuro do Espiritismo

"Natureza morta ressucitando", por Remedios Varo, 1953


Há certas coisas que, apesar de estarem tão próximas e íntimas, com o tempo se distanciam e também acabam fugindo completamente do nosso controle. Isso vem acontecendo, por exemplo, com esse conhecido texto sobre o futuro do Espiritismo. Quando o redigimos, há alguns anos, sinceramente tivemos a impressão de que não era de nossa autoria, tal o estilo discursivo e enfático das palavras. Como não percebemos nenhuma identificação direta, aceitamos o conteúdo como uma simples insatifação da nossa parte com os rumos do movimento espírita. Mas não foi isso que mostraria a repercussão do mesmo. O texto propagou-se numa velocidade espantosa e passou a dar tom e personalidade a muitas vozes afins. Vieram também as naturais distorções. Da última vez que o vimos circulando pela internet - sem contar os inúmeros fóruns de debate - já o encontramos com título desfigurado, algumas inserções e inferências de idéias que jamais passaram pela nossa intenção. Não constava o nosso nome como autor. Aí então concluímos: realmente não é mais da nossa autoria.


A seguir, duas versões autênticas do texto: uma versão em espanhol e outra em português.

La degeneracion del Espiritismo

Comparando la historia del Espiritismo com la del Cristianismo Primitivo, podemos sacar algunas conclusiones importantes para el futuro de nuestra doctrina y el de su movimento social.

El Cristianismo, cuya pureza doctrinaria del Evangelio y simplicidad de organizacion funcional de los primeros núcleos cristianos fue conquistando lenta y seguramente la sociedad de su epoca, sufrio con el tiempo un desgaste ideologico. Se corrompio por fuerza de los intereses políticos, financieros e institucionales. Los nuevos adeptos y sus líderes, no consiguiendo penetrar en la esencia del Evangelio, que es regeneracion, o sea, la mortificacion dolorosa del mundo interior y la reversion de las actitudes exteriores, adaptaron el mismo a sus conveniencias psico-sociales, atacando sus ideas mas contundentes con la moral animalizada, alimentando los mecanismos de defensa de la mente, haciendo concesiones a las debilidades de los adeptos y desviandolos para el comodismo de disfrazados rituales exteriores. Represion de fuerzas espirituales espontaneas e ideas consideradas amenazadoras al clero, como la mediunidad y la reencarnacion; la falsificacion de tradiciones y la adoccion del sincretismo de costumbres barbaras, fueron las principales estrategias de esa clericalizacion del cristianismo.

El resultado de todo eso es bien conocido: dos millenios de intolerancias, violencias, atraso espiritual, perpetuacion de las injusticias sociales, agravamiento de compromisos com la ley de accion y reaccion, y fuerte comprometimento de la regeneracion de nuestro planeta.

Con el Espiritismo no está siendo muy diferente.

Apesar de las advertencias de los Espíritos y del propio Allan Kardec cuanto a los períodos históricos y tendencias del movimento, los espíritas insisten en cometer los mismos errores del pasado. Los mismos errores porque probablmente somos las mismas almas que rechazaron y desviaron el Cristianismo de su vocacion y ahora posamos de puristas ortodoxos, enemigos ocultos del Espírito de Verdad.
Negligentes con la oracion y la vigilancia, cedemos constantemente a los tentáculos del poder y de la vanidad. Despreciamos a toda hora la ideia de “amaos e instruíos”, entendiendolo egoisticamente, como fortalecimento intelectual competitivo, como el relajamiento de los valores doctrinarios. No conseguiendonos adaptar al Espiritismo, comprendiendo y vivenciando sus verdades, vamos poco a poco adaptando la doctrina a nuestros limites, corrompiendo los textos de la codificacion, ignorando la experiencia histórica de Allan Kardec y de sus colaboradores, trayendo para los centros espíritas practicas dogmaticas de nuestras preferencias religiosas, hábitos políticos de las agremiaciones que frecüentamos y mas comunmente las interferencias negativas de nuestros caprichos y vanidades personales.
Como los primeros cristianos, tambien luchamos por el crecimiento de nuestras instituciones, dejandonos seducir por el mundo exterior e imitando a los grupos ya pervertidos, construyendo palacios arquitectonicos, cuya finalidad siempre fue causar impresion a los ojos y la falsa idea de prestígio político; y dentro de ellos praticamos as mesmas hazañas de deslealtad, de las rivalidades, de las persecusiones a los desafectos, de la auto-afirmacion y lideranza autoritaria, de crítica y boycot a las ideas que no compartimos.

Y, finalmente, cultivamos un equívocado concepto de unificacion, esperando ingenuamente que nuestras ideas y grupos sean mayoria en un Gran Órgano Dirigente del Espiritismo Mundial, de nuestra imaginacion, y muchas otras fantasias que ni vale la pena enumerar aqui.

Y asi caminamos, unidos en nuestras displicencias y divididos en las responsabilidades. Preferimos olvidar figuras ejemplares que actuaron en la Sociedade Espírita de Paris cuando ignoramos nuestra história sabiamente registrada en la Revista Espírita. Dejamos de lado líderes agregadores – aunque divergencias normales y tolerables existiesen entre ellos – para oir y dejarnos dominar por un disfrazado clero institucional, comandado por voces medíocres y celosas, higueras esteriles, sofistas encantadores e improductivos, en fin, viejas almas y viejas tendencias, vino añejo y frutas podridas en nuestros mas queridos graneros doctrinarios.

Mas, como evitar ese proceso de corrupcion y, en algunos casos notórios, de contaminacion y mala conducta? Como revertir la situacion para reconducir esas experiencias para los rumbos verdaderamente espíritas? Que hacer con la mayoria de las instituciones, con los malos dirigentes, los malos médiums, malos comunicadores, en fin los malos espíritas? Debemos identificarlos y expulsarlos de nuestros cuadros? Debemos denunciarlos y discriminarlos como hacia la Inquisicion con los acusados de herejia?


Que hacer con los libros que consideramos impuros o inconvenientes al movimento?: debemos quemarlos en plaza pública, censurarlos en nuestras bibliotecas o entonces dejar que la propria comunidad espírita practique el libre albedrio y aprenda a escojer las correctas y adecuadas a sus necesidades?


El Espiritismo fuei ciertamente una doctrina elaborada por Espíritus Superiores y esto nos deja tranquilos en cuanto a su futuro doctrinario. Mas su movimento viene siendo hecho por seres humanos, espíritus todavia inmaduros e inexpertos. Eso realmente nos deja muy preocupados, pues sabemos que, hoy, los enemigos del Espiritismo esta entre los propios espíritas.

Dalmo Duque dos Santos


Versão em espanhol feita por Casa Espírita Kardeciana Bezerra de Menezes – Florida
http://www.spiritist.com/

A degeneração do Espiritismo

Comparando a história do Espiritismo com a do Cristianismo Primitivo, podemos tirar algumas conclusões importantes para a o futuro da nossa doutrina e o do seu movimento social.

O Cristianismo, cuja pureza doutrinária do Evangelho e simplicidade de organização funcional dos primeiros núcleos cristãos foi conquistando lenta e seguramente a sociedade de sua época, sofreu com o tempo um desgaste ideológico. Corrompeu-se por força dos interesses políticos, financeiros e institucionais. Os novos adeptos e seus líderes, não conseguindo penetrar na essência do Evangelho, que é regeneração, ou seja, o mergulho doloroso no mundo interior e a reversão das atitudes exteriores, adaptaram o mesmo às suas conveniências psico-sociais, atacando suas idéias mais contundentes à moral animalizada, alimentando os mecanismos de defesa da mente, fazendo concessões às fraquezas dos adeptos e desviando-os para o comodismo dos disfarces rituais exteriores. Repressão de forças espirituais espontâneas e idéias consideradas ameaçadoras ao clero, como a mediunidade e a reencarnação; a falsificação de tradições e a adoção do sincretismo do costumes bárbaros, foram as principais estratégias dessa clericalização do cristianismo.

O resultado de tudo isso é bem conhecido: dois milênios de intolerâncias, violências, atraso espiritual, perpetuação das injustiças sociais, agravamento de compromissos com a lei de ação e reação e forte comprometimento da regeneração do nosso planeta.
Com o Espiritismo não está sendo muito diferente.

Apesar das advertências dos Espíritos e do próprio Allan Kardec quanto aos períodos históricos e tendências do movimento, os espíritas insistem em cometer os mesmos erros do passado. Os mesmos erros porque provavelmente somos as mesmas almas que rejeitaram e desviaram o Cristianismo da sua vocação e agora posamos de puristas ortodoxos, inimigos ocultos do Espírito da Verdade.

Negligentes com a oração e a vigilância, cedemos constantemente aos tentáculos do poder e da vaidade. Desprezamos a toda hora a idéia do “amai-vos e instruí-vos”, entendendo-a egoisticamente, ora como fortalecimento intelectual competitivo, ora como o afrouxamento dos valores doutrinários. Não conseguindo nos adaptar ao Espiritismo, compreendendo e vivenciando suas verdades, vamos aos poucos adaptando a doutrina aos nosso limites, corrompendo os textos da codificação, ignorando a experiência histórica de Allan Kardec e dos seus colaboradores, trazendo para os centros espíritas práticas dogmáticas das nossas preferências religiosas, hábitos políticos das agremiações que freqüentamos e mais comumente a interferência negativas dos nossos caprichos e vaidades pessoais.

Como os primeiros cristãos, também lutamos pelo crescimento de nossas instituições, deixando-nos seduzir pelo mundo exterior e imitando os grupos já pervertidos, construindo palácios arquitetônicos, cuja finalidade sempre foi causar impressão aos olhos e a falsa idéia de prestígio político; e dentro deles praticamos as mesmas façanhas da deslealdade, das rivalidades, das perseguições aos desafetos, da auto-afirmação e liderança autoritária, de crítica e boicote às idéias que não concordamos.

E, finalmente, cultivamos uma equívoca concepção de unificação, esperando ingenuamente que a nossas idéias e grupos sejam majoritários num Grande Órgão Dirigente do Espiritismo Mundial, do nosso imaginário, e muitas outras tolices e fantasias que nem vale a pena enumerar aqui.

E assim caminhamos, unidos em nossas displicências e divididos nas responsabilidades. Preferimos esquecer figuras exemplares que atuaram na Sociedade Espírita de Paris quando ignoramos nossa história sabiamente registrada na Revista Espírita. Deixamos de lado líderes agregadores – ainda que divergências normais e toleráveis existissem entre eles – para ouvir e nos deixar dominar por um disfarçado clero institucional, comando por vozes medíocres e ciumentas, figueiras estéreis, sofistas encantadores e improdutivos, enfim, velhas almas e velhas tendências, vinho azedo e frutas podres em nossos mais caros celeiros doutrinários.

Mas como evitar esse processo de corrupção e, em alguns casos notórios, de contaminação e má conduta? Como reverter a situação para reconduzir essas experiências para os rumos verdadeiramente espíritas? O que fazer com as más instituições, com os maus dirigentes, os maus médiuns, maus comunicadores, enfim os maus espíritas? Devemos identificá-los e expulsá-los dos nossos quadros? Devemos denunciá-los e discriminá-los como fazia a Inquisição com os acusados de heresia?
O que fazer com os livros que consideramos impuros ou inconvenientes ao movimento?: devemos queimá-los em praça pública, censurá-los em nossas bibliotecas ou então deixar que a própria comunidade espírita pratique o livre arbítrio e aprenda a fazer escolhas corretas e adequadas às suas necessidades?
O Espiritismo foi certamente uma doutrina elaborada por Espíritos Superiores e isto nos deixa tranqüilos quanto ao seu futuro doutrinário. Mas o seu movimento vem sendo feito por seres humanos, espíritos ainda imaturos e inexperientes. Isso realmente tem nos deixado muito preocupados, pois sabemos que, hoje, os inimigos do Espiritismo estão entre os próprios espíritas.

Publicado originalmente como artigo no Portal do Espírito e como conclusão do livro Nova História do Espiritismo- Dos precursores de Allan Kardec a Chico Xavier – Editora Corifeu

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Lily Dale


O portal e o templo espiritualista de Lily Dale,


Bem diferente do movimento espírita brasileiro (por enquanto e se Deus quiser!), que avança simples e silenciosamente no coração e no cotidiano dos brasileiros, o espiritualismo norte-americano entrou em franca decadência. Semelhante ao espiritismo francês, não tem expressão social e vive hoje de lembranças e da exploração do turismo. Onde foram parar os milhões de adeptos e os milhares de médiuns que se esforçavam para quebrar o paradigma materialista da cultura anglo-saxônica? Será que também reencarnaram no Brasil, como aconteceu, segundo Emmanuel, com as almas francesas? A idéia espírita, tal como foi concebida teoricamente por Kardec, ainda está muito distante da cultura espiritualista que ainda resiste na América. Kardec achava que tudo era uma questão de tempo, mas parece que o Codificador estava apenas sendo generoso e paciente com os nossos irmãos americanos. As coisas significativas que hoje acontecem nesse setor na América – incluindo no cinema – ocorrem pelas mãos de estrangeiros que lá foram viver. Reencarnação nos EUA – para o delírio reacionário dos protestantes fundamentalistas - ainda é sinônimo de Nova Era e Shirley MacLaine. Um bom exemplo de tudo isso que estamos falando é a comunidade de Lily Dale, local para onde foi transferida e depois incendiada a famosa casinha da família Fox. É espiritualismo ou tudo não passa de show-business? Como turismo e memória, estão de parabéns, mas como espiritualidade e filosofia de vida já não podemos dizer o mesmo. Quem já matou a curiosidade da visita ao túmulo de Kardec no Pére-Lachaise (nós mesmos nunca matamos tal curiosidade e pelo jeito tal carência vai ficar acesa por muito tempo) pode ir a Lily Dale e sentir o clima do “moderno espiritualismo”. Ou então se espantar com as velhas brincadeiras do Dia das Bruxas.


Bem-vindo a Lyle Dale: espiritualismo a preços módicos.


Os Gaston , uma típica família espiritualista em Lily Dale