Past Life, série televisiva da Foxdomingo, 27 de fevereiro de 2011
Vidas passadas ou reencarnação?
Past Life, série televisiva da Foxdomingo, 20 de fevereiro de 2011
Chico Xavier na Sapucaí: olhai por nós
O desfile da Beija-Flor em 1989 encenando o tema da miséria e dos contrastes sociais do BrasilUm carro alegórico para homenagear Chico Xavier no carnaval da Sapucaí. A notícia corre na velocidade digital e mexe com os brios dos espíritas que acham que o Espiritismo é coisa sagrada, acima das torpezas humanas e intocável pelas paixões dos homens. Pedimos calma e bom senso. É só uma homenagem, mesmo que oportunista, como foram todos os títulos de cidadania que Chico Xavier recebeu nos estabelecimento políticos.
A sacralização de Chico Xavier e do Espiritismo não faz parte da doutrina espírita, mas do olhar dos espíritas religiosos que ainda vêem o mundo pela ótica maniqueísta. Chico Xavier foi um médium das massas. Se tivesse vivo reagiria com muita cautela e muita gratidão a esse reconhecimento numa festa mundana que é a cara e a alma do Brasil. Não me sinto ofendido ou desrespeitado por ver Chico Xavier e o Espiritismo encenados na passarela do samba. Pelo contrário, lutamos tanto para que a doutrina ficasse conhecida e hoje temos que lutar para que não seja deturpada. Não vamos perder a calma nem a compostura.
Em 1989 o carnavalesco Joãzinho Trinta foi proibido de usar a figura do Cristo num carro alegórico que falava de pobreza e miséria. A Igreja bateu o pé, acionou suas influências e o carro teve que ser refeito. E esta reinvenção despertou no artista censurado algo ainda mais profundo do que a mensagem original. O Cristo foi coberto com uma imensa lona plástica escura e percorreu o sambódromo exibindo uma frase ainda mais desconcertante para atingir os hipócritas e puristas: “Mesmo proibido, olhai por nós”.
Essa é a lição que devemos aprender quando alguém resolve falar de Espiritismo nos ambientes considerados profanos. Fiquemos serenos e confiantes. É só mais um carnaval.
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Wilberforce e o cheiro da morte

Somente agora, quatro anos depois do seu lançamento, conseguimos ver “Jornada pela Liberdade” (2006), uma das mais comoventes histórias sobre as lutas pela abolição da escravatura. Ela também nos faz lembrar que no mundo atual ainda existem milhões de pessoas submetidas ao cativeiro do trabalho compulsório dando-nos a impressão que recuamos no tempo e na história
Apesar de ser uma atividade degradante e moralmente inaceitável , a escravidão foi aos poucos sendo encarada com naturalidade nas civilizações modernas, por incrível que pareça inclusive nas sociedades cristãs. Essa naturalidade se propagou como senso comum principalmente por causa da intensa e lucrativa atividade comercial. Se não houvesse o comércio como estabelecimento legal, o tráfico de pessoas teria se desgastado rapidamente. Por causa do comércio e dos lucros, as vítimas simplesmente tiveram negadas a sua condição humana e o seu valor cultural. Eram vistos como animais cujos costumes primitivos e não “civilizados” justificava a atividade nefasta e criminosa dos seus exploradores. Esse era o pensamento de Willian Wilberforce (1759-1833), membro do parlamento inglês que liderou a cruzada contra escravatura no Império Britânico. Esse raciocínio também se aplica perfeitamente ao Brasil, que só conseguiu iniciar a extinção dessa doença social quando, por pressões inglesas, a Lei Eusébio de Queirós proibiu o tráfico em 1850. Uma nação que construiu a sua história com essa mancha não poderia passar impune aos olhos da justiça Divina e o nosso país ainda tem muito que resgatar dessa pesada dívida espiritual. Nas poucas vezes em que citou o Brasil nas suas reflexões Allan Kardec não deixou de lembrar os leitores que o progresso da doutrina e da nação passava necessariamente pelo fim da escravidão. A mensagem foi compreendida pelo editor Telles de Menezes e o Echo Além Túmulo passou a fazer sua conhecida campanha abolicionista na Bahia. A religião oficial e dominante, como não poderia deixar de ser, foi durante muito tempo conivente com essa situação constrangedora, contrariando os princípioshumanitários seguidos por muitos dos seus membros e ativistas. Em Brasil Coração do Mundo, obra que ainda provoca a desconfiança de intelectuais avessos à verdades espirituais, Humberto de Campos nos conta que muitos escravos trazidos ou nascidos no Brasil eram antigas almas romanas já iniciadas nos valores da humildade e que aqui reencarnaram para auxiliar seus irmãos e cúmplices em graves provas o destino.
A prática odiosa da escravidão, muito comum na Antiguidade, havia sido restaurada nos moldes capitalistas mantendo os mesmos abusos e requintes de crueldade. Portugueses e espanhóis, herdeiros da cultura escravista fenícia e moura, rapidamente foram imitados pela Holanda , França e Inglaterra. Segundo o Espírito Emmanuel, enquanto a França tinha como compromisso a difusão da liberdade, o Império Britânico tinha como missão civilizatória extinguir a escravidão e resgatar grande parte dos débitos trazido pelo antigos cidadãos romanos agora reencarnados nos territórios da comunidade britânica. A luta seria longa e exaustiva, pois ali também estariam, ocupando postos importantes, as mesmas almas que comandaram a poderosa máquina da escravidão romana.Wilberforce e seus colaboradores usaram dos mais variados expedientes para implantar essa idéia no cérebro político da Inglaterra conservadora. Um deles foi um passeio pelo rio Tâmisa, conduzindo uma elite formadora de opinião. Numa certa altura do percurso e em meio a um sofisticado coquetel, o barco encosta ao lado de um fétido e repugnante navio negreiro atracado no porto de Londres causando horror e vômitos nos convidados. E Wilberforce se dirige assim aos ilustres turistas, para depois convencê-los pacientemente das suas incríveis intenções: “ Senhores, respirem fundo, pois este é o cheiro morte”.
Entre os colaboradores de Wilberforce estava John Newton, ex-capitão de navio, traficante de escravos convertido ao evangelismo e também autor do famoso hino que deu otítulo original ao filme (Amazing Grace ) estrelado pelo ator Ioan Gruffudd. O pastor John Newton, morreu em 1807, cego e ainda corroído pelo remorso, no mesmo ano em que o Parlamento se rendeu e aprovou o ato contra o comércio de escravos.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Kardec insuperável?

A adoração e mitificação de Allan Kardec no meio espírita realmente é um fato contra o qual não temos argumentos. Os adjetivos para exaltar a figura venerável de Allan Kardec entre alguns espíritas às chega muitas vezes aos limites do exagero. O último desses repentes românticos é dizer que as obras de Kardec são “insuperáveis”, como se as mesmas fossem peças sagradas de uma revelação religiosa fundamentalista ou tese científica fora dos padrões acadêmicos e queultrapassam milagrosamente os limites e reflexos da época e do contexto em que foram produzidas. Quem faz esse tipo de afirmação ignora a história e a filosofia ou então não leu Kardec com o olhar sereno e auto-crítico que o próprio mestre francês faria sobre si e a sua obra. Herculano Pires conhecia como ninguém e era apaixonado pela obra de Kardec mas, mas nunca ultrapassou as marcas sensatas do elogio ao enaltecer a “atualidade” das obras básicas. Ver Kardec dessa forma, “insuperável”, significa que os espíritas não conhecem os limites do conhecimento humano, mesmo em outras dimensões, já que o fato de mudarmos de plano existencial através do desencarne não nos transforma também milagrosamente em pessoas diferentes daquilo que éramos quando encarnados. Kardec e os Espíritos Superiores admitem que a Verdade existe, mas nunca nos iludiram de que pudéssemos conhecê-la integramente só pelo fato de nos tornarmos simpatizante do Espiritismo. Mesmo a metodologia e a organização didática aplicada na codificação (no sentido de comunicação, e não nesse sentido vulgar de legislador que tentam dar a Kardec) jamais foram apresentadas como tratados dogmáticos permanentes e insubstituíveis. Não, Kardec jamais desejaria para nós aquilo que tanto combateu a vida inteira para si mesmo: a escravidão mental, o medo, a superstição e a prostração ingênua diante dos desafios e questões intrigantes que a vida nos impõe. Isso não diminui em nada a admiração que temos por ele e pela sua luta em contribuir para fosse implantado um novo paradigma de conhecimento. Pelo contrário, quando nos lembramos da época em que ele viveu e das dificuldades que enfrentou para expor suas idéias, imediatamente o trazemos par o século XXI, não como referência absoluta em termos filosóficos e científicos, mas certamente como modelo humano relativo de postura intelectual e conduta de comunicador.
Façamos um teste para verificar que tipo de impressão Kardec nos causa como referência, a mesma que temos ao ler suas obras : se de natureza mítica e superficial ou então reflexiva e racional. Leiamos com admiração, porém com muita atenção e crítica, a descrição dele feita por Anne Blackwell ( registrada por Artur Conan Doyle), para saber se estamos olhando Kardec de maneira real ou idealizada. O resultado, como não poderia deixar de ser, continuará sendo subjetivo e dentro dos limites pessoais da cada leitor .
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Um cartão de crédito com nome de Bezerra de Menezes
O apóstolo Paulo na prisão: reflexões e recomendações sobre as implicações da ética cristãO Lar Fabiano de Cristo, entidade assistencial carioca de origem espírita, lançou o projeto de um cartão de crédito denominado OBEM - Organização Bezerra de Menezes, em parceria com uma empresa especializada. O negócio dará ao Lar 13% dos lucros da comercialização do cartão, ficando 87% com a empresa proprietária do cartão.
Trata-se de um negócio totalmente lícito, do ponto de vista financeiro e tributário, porém duvidoso, inconveniente e até perigoso do ponto de vista ético, já que o nome Bezerra de Menezes,muito caro e emblemático ao universo espírita, está sendo usado como símbolo principal de propaganda financeira. O nome Bezerra de Menezes não pertence ao Lar Fabiano de Cristo, muito menos a entidade financeira em questão, mesmo que a intenção e os fins sejam inquestionavelmente honestos. O que se questiona é o aspecto ético dos meios (e não dos fins) da utilização de um nome cuja reputação em certos meios espíritas é considerado “sagrado” e incompatível com as conseqüências que esse negócio pode ter. O jornalista Luciano dos Anjos foi a primeira voz a dar o alerta sobre esse risco e enviou-nos um manifesto explicando sua reação. Ele conhece a seriedade do Lar Fabiano de Cristo e é amigo pessoal de alguns de seus dirigentes e, mesmo assim , não deixou de fazer esse alerta, ou seja, cumprir aquilo que ele chama de “dever espírita”. Dias depois enviou-nos outro texto, dirigido à uma amiga voluntária do Lar justificando e reafirmando essa sua decisão.
Eis o trecho do primeiro manifesto:
"(...) O pior é que neste nosso caso ainda usam o nome respeitável de Adolfo Bezerra de Menezes para servir de argumento de venda do produto. O projeto (ou projétil?) já surge ornado de pompom acetinado (ou pom-pom militar?), para melhor encantar e atrair os distraídos. Nada mais vendável do que o nome consagrado de Bezerra de Menezes, que acaba de descer das alturas da sua condição de espírito altamente evoluído para, em comovente mensagem, estimular e apoiar a jogada financeira. O cartão de crédito se chama OBEM, sigla de Organização Bezerra de Menezes, o benfeitor que carimbou o negociarrão. Como acreditar? Por qual médium? Onde? Em que reunião?
Mas Bezerra não é aquele inesquecível médico dos pobres, que deu o anel de grau para ajudar uma infeliz mulher à sua porta com dificuldades graves? Ele, que sempre deu, que nunca pediu nada para si, que largou o mundo da política para se preservar das implicações conjunturais dos acordos e negócios, logo ele resolveu agora apoiar o “cartão de crédito dos espíritas”? Naturalmente sua próxima manifestação será de garoto propaganda, induzindo os espíritas a aderir em massa. Afinal, Bezerra sempre foi muito bom de marketing. É usado em eleições; por que não ser aproveitado no lucrativo ramo dos negócios?
E depois, quando o pai ou a mãe de família por qualquer razão não puder quitar a fatura? Bezerra vai instruir para que alguém ceda mais um anel, ou, como fez o pai do André Luiz com o amigo Silveira, vai mandar para o cartório executar a dívida, tomar até a geladeira, a televisão, a bicicleta do filho do devedor? E daí? Devedor que é devedor não tem de escapar da cobrança. Quem mandou se endividar? Tomasse vergonha e não gastasse sem poder. Agora que se arranje com a lei. Que seja até despejado, com família e tudo. É o carma. A Organização e seus ilustres dirigentes é que não podem arcar com o prejuízo. “Business is business”.
Sobre as razões do Lar, Luciano dos Anjos fez o seguinte lembrete, que serve de exemplo para todas as instituições espíritas que se enveredam por caminhos semelhantes:
“Contudo, em minha apreciação o Lar Fabiano de Cristo cometeu ou quer cometer o mesmo erro fatal que cometem muitas instituições, centros, grupos, hospitais, a despeito do ideal espírita que os fundou e mantém. Acabou dando passo maior do que podia. Cresceu demais, assumiu responsabilidades demais e, agora, fica imaginando meios de suprir suas necessidades e de manter sua gigantesca estrutura assistencial. Nessa hora, como ocorre a qualquer pessoa de bem, acentua-se a ansiedade, aumenta a adrenalina e, então, começam a explodir ideias e projetos estapafúrdios. Considero válidos todos esses esforços, mas não todos os meios. E se acontece o envolvimento indevido do espiritismo, asseguro que nenhum espírito iluminado dará cobertura, sequer endosso indireto. Se faltam recursos, os rumos e gastos devem ser revistos”.
Mais detalhes sobre o projeto OBEM: http://www.clubedearte.org.br/obem.html
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Há quanto tempo você não desabafa?
domingo, 30 de janeiro de 2011
Usuários e apologistas das drogas fazem protesto contra homeopatia

Não se sabe, mas pelo estilo e estratégias adotadas no evento, pode ser que o gesto político seja a reedição histórica de uma antigo debate corporativo entre homeopatia e alopatia, no Brasil ambas reconhecidas pelo Conselho Federal de Medicina, com os tradicionais mecanismos de acusações e perseguições contra as terapias alternativas. Pode ser também que o evento tenha vínculos com a poderosa e lucrativa indústria farmacêutica alopata, que está de olho nas verbas públicas, em vários países, destinadas a oferta de consultas e medicamentos homeopáticos. Assustados com os efeitos bruscos e a dependência causada pelos remédios alopatas, principalmente os anti-depressivos, muitos usuários buscam a ajuda de médicos homeopatas, bem como de terapeutas alternativos, para tratamento de desintoxicação e dependência.
A auto-denominação dos organizadores como “céticos” também é , ao nosso ver uma tentativa de polarização do assunto no antigo conflito ciência versus religião, na verdade um conflito de dogmas de ambas as partes, já que as duas em muitos casos defendem agressivamente verdades absolutas que nada mais são do que paradigmas provisórios. A homeopatia foi associada ao movimento espírita não pelos vínculos da religião, mas por ser uma forma nova e alternativa de cura e assistência social. O magnetismo, que se tornou uma prática espírita, o socialismo, assim como a ciência espírita representava num mesmo contexto a possibilidade de um novo paradigma de conhecimento e uma nova sociedade. Muitos médicos adeptos da filosofia espírita tinham simpatia por essas novidades também porque o próprio Espírito Hahnemman foi um dos articuladores dos textos doutrinários do Espiritismo. Segundo o Doutor Silvino Canuto Abreu, médico homeopata e historiador espírita, no Brasil esse vínculo tornou-se histórico e já conflituoso com as elites locais quando, em 1840, o francês Benoit Mure fundou um instituto homeopático no Rio de Janeiro e mais tarde tentou implantar uma colônia socialista em Santa Catarina. Nas biografias de Mure, consta que o médico francês e seus discípulos também fizerem pesquisas para a melhoria de vida dos animais e de escravos que atuavam nas lavouras de açúcar na região de Campos de Goytacazes. Depois da tentativa fracassada de colonização, entre os franceses que ficaram no Brasil e os que voltaram para a Europa encontramos muitos que se tornaram ativistas espíritas, conhecidos na França como “Les Brésiliens”, incluindo o Sr. Leclerc e sua esposa, célebres médiuns da Sociedade Espírita de Paris.
sábado, 29 de janeiro de 2011
"Quem foi Verdadeiro André Luiz" é recorde no Observador
Luciano dos Anjos com o porteiro da creche que funciona na antiga casa de Faustino Esposel. É o terceiro com o nome André Luiz .
A postagem Quem foi o Verdadeiro André Luiz superou longe as mais visualizadas no blog Observado Espírita atingindo a marca de 3.098 acessos entre maio de 2010 e janeiro de 2011. A segunda postagem mais visualizada teve apenas 488 acessos, uma diferença de 2.610 visualizações.
Originalmente a matéria recordista foi postada no dia 3 de janeiro de 2008 ( o que praticamente duplica esses números) e comentava com fotos e dados a pesquisa feita pelo jornalista e escritor Luciano do Anjos sobre a verdadeira identidade de André Luiz. O jornalista investigou o assunto por mais de meio século e agora promete trazer a público as suas conclusões.
André Luiz é o Espírito autor da revolucionária série Nosso lar, psicografada por Chico Xavier , considerada a obra literária que mais influenciou o movimento espírita através de informações sobre a vida no mundo espiritual. A obra Nosso Lar, a primeira da série e levada recente ao cinema, é a que mais afetou a construção do imaginário espírita sobre a organização das sociedades além-túmulo nas chamadas “colônias”.
Pseudônimo de um médico que viveu no Rio de janeiro no início do século XX, André Luiz relata seu desencarne e suas experiências posteriores na colônia Nosso Lar. Para Luciano dos Anjos, André Luiz foi na verdade o médico carioca Faustino Esposel que, entre muitas outras atividades sociais, presidiu o Clube de Regatas Flamengo. Essas afirmações derrubam antigos mitos construídos em torno de iconografias mediúnicas que associam André Luiz a espíritos como Carlos Chagas, Miguel Couto e até Oswaldo Cruz. Há também opiniões céticas sobre essas revelação, como a do pesquisador mineiro Jáder Sampaio, que prefere lembrar a advertência do Espírito Emmanuel de que “Embalde os companheiros encarnados procurariam o médico André Luiz nos catálogos da convenção”. O artigo de Jáder denominado “André Luiz: Cruz ou Chagas?” foi publicado originalmente no Boletim GEAE, número 452 de 25 de março de 2003.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Parentes de sangue e afinidade espiritual

O ator Nelson Xavier e o médium Chico Xavier são parentes. Não me perguntem como, mas são. É um parentesco ao mesmo tempo distante , pelas laços de sangue, e também próximos, pelos , laços de afinidade espiritual. É um vínculo metafísico que a maioria de nós encarnados desconhece, mas que existe no mundo espiritual, organiza e direciona, lá e cá, as nossas relações sociais evolutivas.
A origem geográfica do sobrenome Xavier é reconhecidamente espanhol e católico, segundoconsta no blog Genealogias: “de origem navarra, que corresponde ao topónimo Javier, de onde era originário São Francisco Xavier”. No Brasil ganhou um significado especial , por ter sido o sobrenome do médium espírita mais famoso e querido do país.
Mas Chico Xavier tem um traço fisionômico muito comum entre os Xavier brasileiros: uma cor parda que revela a longa mistura de raças na qual persistiu e predominou um gene comum (não sei qual de qual delas) e que dá aos descendentes essa aparência de homens magros e de fala mansa que os caracteriza. Eles devem ser parentes de uma família antiga da região de Minas próxima da Bahia. Conheci muitos desses tipos no interior de São Paulo, de família muito próxima (os Xavier Duque) todos caboclos migrados dessa vasta região do Rio São Francisco e que se instalaram nas margens o rio Paraná para exercer suas antigas vocações ribeirinhas. A semelhança física e o sobrenome entre todos eles não poder ser apenas uma obra do acaso.
É possível que o Tiradentes, cuja aparência mitológica construída ao sabor das ideologias políticas, tenha sido um mulato desse tipo Xavier do qual estamos falando e não esse herói visual,militar ou santo, cuja imagem não bate com a sua origem humilde e socialmente bem distante dos seus parceiros que se livraram da pena de morte. Arrisco dizer que esse filho adotivo de Chico Xavier , chamado Eurípedes, também tem esses traços fisionômicos e que a sua aproximação afetiva e circunstancial com o médium também não foi obra do acaso. Quando li essa reportageme entrevista de Nelson Xavier falando da sua semelhança mais profunda com Chico Xavier,apenas confirmei uma antiga desconfiança de que essa aproximação artística não foi mera coincidência.
“No papel de si”, para nós, significa exatamente isso: uma afinidade de família espiritual, a mesma que regula as reencarnações pelo princípio da atração espiritual e ao mesmo tempo genética.
No papel de si

Prestes a encarnar novamente Chico Xavier, este ex-comunista e ex-ateu psicografa a própria vida
Mônica Manir - O Estado de S.Paulo - 23/01/2011
Por telefone, a filha Ana diz que vai se mudar pra Estocolmo.
- Mas lá é tão frio, e você odeia o frio...
A proposta de trabalho parece imperdível. E Ana está ansiosa por viver num país tão civilizado. Nelson, enfim, aquiesce, com brandura.
- Vou rezar por você.
- Ué? E desde quando você reza?
Desde Chico. Ana morou um bom tempo na Inglaterra, hoje vive em São Paulo e ainda não captara as transformações sofridas pelo pai depois de ele estrelar o filme sobre o médium mais famoso do Brasil.
Nelson reconhece que desprezava esse seu lado. Desprezava, não. Desprezava é muito forte. Só achava que as coisas do espírito não pertenciam a esta vida. Quando chegasse o momento, se chegasse, ele prestaria atenção.
Ocorre que Nelson Xavier é filho de mãe espírita, que o levava ao centro de mesa branca desde que ele usava calça com bainha no joelho. "Vi materializações muito cedo." Mas aquilo lhe parecia desimportante, mesmo porque renegar a fé materna era parte sine qua non de sua autoafirmação. Ocorre também de Nelson ser casado há 22 anos com a atriz e cantora Via Negromonte, mestre de ioga, que há séculos lhe propunha meditar, meditar, meditar. "Não é uma coisa estritamente espiritual, mas é uma disciplina que ajuda, sabe?"
Ocorre ainda - e aqui Nelson pigarreia um pouco - que esse ator, autor e diretor paulistano tem câncer. Não sabe dizer há quanto tempo foi informado disso, mas o médico dera à sua mulher, em segredo, um prognóstico rápido de viuvez. O câncer, no entanto, atingiu a próstata e por ali ficou, bem administrado. "Agora, quando você tem um tipo de doença assim, procura os meios racionais, convencionais ou quaisquer outros que pintem", confessa. Quando o caminho espiritual apareceu, ele (crau!) o agarrou, isso antes do Chico. Então não é que o vidente de Pedro Leopoldo lhe caiu do céu. Quer dizer, caiu, mas ele já estava de braços abertos esperando embaixo.
Tanto que Chico Xavier foi o único papel que Nelson pediu para fazer em sua carreira de 48 filmes e pelo menos um personagem memorável, Lampião. Assim que soube do projeto do longa, em 2006, ele ligou para Daniel Filho:
- Se você achar que estou muito velho, faço uma plástica.
Daniel só retomaria a conversa em 2008, como relata o livro de Marcel Souto Maior sobre os bastidores do filme.
- Lembra aquele pedido que você me fez?
- Qual pedido?
- Bem, se ainda estiver de pé, você é o meu Chico Xavier.
Nelson disse que sim, claro. E caiu em choro compulsivo do outro lado da linha.
Na sala de seu sobrado no bairro de Santa Teresa, uma casa que está para vender e na qual o mato em volta cresce enlouquecido, Nelson se contém. Fala pausadamente, medindo as perguntas que ouve e regrando as respostas que dá. Toda essa calma também vem do Chico? "Veja pela minha risada que é ilusório", afirma, às gargalhadas. "É recolhimento, é reserva, é prudência, é medo."
Um medo de raízes ancestrais, de não conseguir sobreviver da arte, por exemplo. Já na faculdade de Direito da USP, ele achou que somente uma viagem à Europa poderia tirar essa dúvida. Não foi apenas com a cara e o pânico. Sabia falar italiano, porque assim se comunicava no Bexiga com os avós maternos. E conseguiu um estágio na Universidade de Siena, que lhe permitiu vagar por museus e afins durante dois meses, a fim de escapar do "círculo pequeno burguês" que o tolhia. Voltou decidido a fazer a Escola de Arte Dramática, onde foi aluno de Sábato Magaldi, de Luís de Lima, de Gianni Ratto, e contemporâneo de Francisco Cuoco e Miriam Mehler.
Para a primeira peça que dirigiu ainda na faculdade, convidou a mãe:
- Ô, meu filho, foi pra isso?...
Bateu-lhe o ódio, mas não o desânimo. Nelson não só terminou a faculdade como se juntou ao Teatro de Arena de São Paulo, que mambembou pelo Nordeste apresentando Eles não Usam Black -Tie (de Guarnieri), Revolução na América do Sul (de Augusto Boal) e Chapetuba Futebol Clube (de Oduvaldo Vianna Filho). A empolgação aumentou quando o grupo conheceu no Recife o Movimento de Cultura Popular, fundado por Paulo Freire e Germano Coelho, entre outros. "Eles criaram um despertador cultural, o mais bem concebido projeto pedagógico de cultura do País." Lembra que, naqueles dias, os jovens sonhavam com o voluntariado, seu horizonte era a utopia. "Hoje eles sonham com um emprego, seu horizonte é o patrão."
Nelson começou a trabalhar no seu paraíso. Escreveu o texto de Mutirão em Novo Sol, que relata os conflitos entre camponeses e criadores de gado no interior de São Paulo. O espetáculo foi um sucesso de crítica, pela direita e pela esquerda, mas o que o comove é se lembrar da apresentação da peça na ampla arena do Sítio Trindade, que ficou lotada de lavradores de Pernambuco e Paraíba. Falava-se em mais de 3 mil camponeses. "Com o tempo, que tudo amadurece, fui reduzindo esse número, temeroso de acreditar em cifras delirantes, porque os lavradores foram de fato ao delírio."
Não faz muito, o MST o procurou. Queria uma cópia do texto - "o único que fala de resistência camponesa na nossa dramaturgia" - para transformá-lo em transmissão radiofônica, a ser passada aos jovens do movimento. Nelson está sem notícia do resultado, mas recebeu o roteiro na forma de livro, um dos que moram na sua cabeceira no momento. Outros, que ele traz empilhados do quarto escada abaixo, são a biografia em quadrinhos de Tina Modotti, fotógrafa italiana que conheceu a nata da esquerda em 1920, um monólogo de Os Sertões, adaptado pelo amigo Ivan Jaf ("maravilhoso, me deu quase inveja dele"), e Príncipe e Corsário, Quase Tudo que Gaspar Dias Ferreira Escreveu sobre João Maurício de Nassau.
Do Evangelho Segundo o Espiritismo ele leu alguma coisa, mas não sistematicamente. Acha que o sucesso dos livros e películas espíritas no Brasil se explica pela importância que o País ganhou para a doutrina, especialmente depois do advento Chico Xavier. Mas destaca que, sob uma embalagem mais sutil, outros filmes nessa linha bombaram nos EUA e fora dele, como Ghost e Sexto Sentido, e agora Além da Vida. "O personagem principal tem o dom da vidência, mas considera isso uma maldição", adianta, sem que essa informação comprometa as impressões de quem ainda não viu o último em cartaz de Clint Eastwood. "Destaca-se que é o que o Chico fazia, ou seja, a comunicação."
Nelson em breve volta à telona com As Mães de Chico Xavier, em que ele faz o próprio novamente, porém mais envelhecido. Não o queria parecido com o Chico de Daniel para evitar o estigma. Comparando malemá, evita virar um Christopher Lee, que encarnou inúmeras vezes o Conde Drácula. De qualquer forma, na semana que vem, o ator aparece na tela da Globo logo depois do cármico BBB11, na microssérie Chico Xavier, extensão do filme lançado em abril de 2010, com cenas inéditas que lhe espicham uma hora de conteúdo.
Nelson sorri para a proposta. "Quando assisti pela primeira vez à versão para o cinema, fiquei meio frustradinho", diz. No longa, ele aparece quase exclusivamente no programa de entrevistas Pinga-Fogo, da TV Tupi, de 1971, em que a autenticidade de seu dom foi sabatinada por um intelectual católico, um estudioso do espiritismo e três jornalistas. Para responder a temas como sexo, drogas, pena de morte, bebês de proveta e homossexualidade, o médium sempre citava os "amigos espirituais", condizendo com o mantra de que não passava de um graveto que se confunde com o pó, uma tomada entre dois mundos, um animal em serviço, um nada.
"Chico é uma força de amor", diz Nelson, cortando esta nossa entrevista para enxugar os olhos por baixo de uma fina moldura, um contraponto aos óculos garrafais que marcaram seu personagem. Do vestuário do médium, aliás, ele ficou com um terno estilo inglês e algumas boinas, ganhos de Eurípedes Higino, filho adotivo do médium. Nelson anseia... não, anseia é muito forte. Nelson está torcendo para que a minissérie inclua uma cena em que ele, Chico, toma chá com uma amiga assistente. "É uma tomada longa, de um plano só, fiquei feliz com ela na ocasião." Mas Nelson diz que não é de sua alçada julgar isso. Cruza as pernas lentamente mais uma vez, deixando um Croc cochilar sobre o outro, apesar do ronco dos aviões a caminho do aeroporto, que faz tremer o casarão. "Eu fiz a cena, agora a avaliação não é minha."
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
A Tragédia da Piedade

A crônica escrita por Edgard Armond (do livro Relembrando o Passado), tinha como intenção primordial chamar a atenção do leitor sobre a gravidade dos sentimentos de ódio e vingança, bem como a grandeza do gesto doperdão.Ao relembrar o fato que o motivou escrever sobre assunto, ele cita o conhecido trecho evangélicosobre reconciliação com os inimigos e que surgira “espontaneamente” como leitura da reunião mediúnica daquela noite. Armond não revela a identidade dos personagens do caso (por ser amigo pessoal de um dos envolvidos), mas deixa pistas que levam qualquer leitor mais curioso a fazer especulações, como essas que aqui fazemos agora.
Na referida reunião mediúnica “...deu-se a incorporação de um Espírito de nome muito conhecido das letras nacionais e que teve morte trágica”, que veio solicitar ajuda para uma tentativa de reconciliação com aquele que o havia alvejado a tiros e provocado a sua desencarnação. Queria alertá-lo para essa grande oportunidade espiritual, já que sua morte também estava próxima. Armond seria o intermediário da proposta para que os dois conversassem fraternalmente, pela via mediúnica. O encontro não aconteceu, pois a parte encarnada, embora reconhecendo o esforço do amigo, evitou de todas as formas que o contato fosse realizado. Fez uma viagem repentina ao Rio de Janeiro e ali desencarnou, como havia alertado o Espírito.
Em nossas especulações para identificar essas pessoas, consideramos que poderíamos explorar uma hipótese improvável e consequentemente cometer erros conclusivos, porém não resistimos fazer essas possíveis ligações entre fatos e pessoas:
- Alguém “de nome muito conhecido nas letras nacionais e que teve morte trágica”.
Quem poderia ser?
- Num trecho da crônica Armond enfatiza: “Conheço bem o assunto..., que teve, aliás, na época, profunda repercussão nacional”.
A que época e qual repercussão ele se refere?
- Em outro trecho Armond revela como se deu a morte do Espírito que se manifestou: "o homem que ele matara num duelo histórico propunha uma fraternização, leal e cristã, e avisava que se apressasse, porque pouco tempo lhe restava de vida, aqui”.
Que duelo foi esse? Que contexto histórico se relaciona ao fato?
Ao buscar na memória algumas possibilidades factuais, fomos também eliminando aquelas que não eram compatíveis com os dados informados pelo cronista. Restou apenas essa, que pode não ser a única, porém muito próxima dos acontecimentos: o duelo entre o escritor Euclides da Cunha (com 43 anos) e o jovem cadete Dilermando de Assis, na época com apenas 21 anos de idade. O fato ficou conhecido como Tragédia da Piedade, bairro da zona norte carioca onde morava Dilermando e o irmão mais velho. O motivo do confronto foi o profundo envolvimento sentimental de Dilermando com Ana Solon (de 38 anos), esposa de Euclides. Testemunha do confronto, o irmão de Dilermando, chamado Dinorah, também foi atingindo na nuca pelos tiros de Euclides, ficando invalído. Dinorah era atleta do Botafogo e cometeu suicídio em 1921 atirando-se nas águas do rio Guaíba, em Porto Alegre.
Em 1916 , numa repetição trágica, um dos filhos de Euclides e Ana tentara vingar a morte do pai e também foi morto por Dilermando, que era hábil atirador e campeão de tiro ao alvo. Dilermando foi absolvido pela justiça por legítima defesa nos dois episódios.
Na crônica o Espírito manifestante diz a Armond: “Preciso do teu auxílio e cometo-te a delicada incumbência de procurá-lo (pois é teu amigo) e dizer-lhe que em meu coração não remanesce ressentimento algum”.
Edgard Armond e Dilermando de Assis eram amigos? De onde se conheciam? Que afinidade tinham entre si?
Arrisquemos algumas semelhanças, pois as diferenças podem ser muitas.
Ambos eram militares e contemporâneos. Dilermando era apenas seis anos mais velho que Armond. Fizeram carreiras paralelas num período de 26 anos no qual participaram dos principais acontecimentos militares e políticos entre 1914 e 1940. Não seria coincidência nem difícil terem travado algum tipo de aproximação e amizade.
Dilermando viveu estigmatizado como o “assassino de Euclides da Cunha, o autor de Os Sertões”. Muitos militares humanistas lamentavam esse estigma e procuravam minimizar essa marca negativa realçando as qualidades do colega, que na época dos fatos era muito jovem e inexperiente.
Embora servindo em corporações diferentes (Armond era da Força Pública Paulista e Dilermando do Exército), os dois poderiam ter se conhecido em diversas oportunidades .
O primeiro casou com a filha de um marechal do Exército (Manoel Félix de Menezes) e o segundo casou-se com Ana Solon, filha do Major Frederico Solon, que teve atuação marcante na Proclamação da República.
Ambos eram maçons. Armond ingressou na ordem na cidade de Amparo, onde serviu na Força Pública, chegando ao grau de mestre. Dilermando era defensor da maçonaria tradicional e crítico da cisão ocorrida na orientação doutrinária das lojas no Brasil.
Quando desencarnou, em 1951, Dilermando já era general de exército e residia em São Paulo. Nessa época Edgard Armond já estava aposentado e exercia o cargo Secretário Geral da FEESP.
Se houve algum laço de amizade entre os dois, seria interessante saber em que circunstâncias isso ocorreu. Como relata Jacques Conchon (citado na biografia de Armond escrita por Edelso da Silva Júnior), certa vez o Comandante recebeu o telefonema de um coronel do Exército que queria conhecê-lo. Os dois haviam estado em lados opostos durante a Revolução de 32; a conduta e ação em combate do então capitão Armond o impressionou muito por este ter evitado umatragédia desnecessária entre os dois pelotões em confronto. Quem sabe se esse coronel não era Dilermando? Sim, certamente mais uma especulação.
Mesmo se tudo isso não passar de um grande equívoco da nossa parte, ainda restará uma dúvida: quem são esses dois espíritos inimigos famosos que Edgard Armond não conseguiu reconciliar numa sessão espírita?
Sianinha, você me perdoa?!

Nossa Escola Normal fazia parte do roteiro de solenidades devidas a tão ilustres militares, que visitavam cidades onde tinham unidades do Exército, para um bom relacionamento com a sociedade, ainda agastada com a derrota da Revolução de 32, quando os paulistas queriam a Constituição, a Lei Magna da Pátria.
Finda a visita, nosso professor de música, maestro Modesto Tavares de Lima, contou-nos que aquele capitão, ao lado do general, era Dilermando de Assis, homem que matara o famoso escritor Euclides da Cunha e seu filho.
A segunda vez, eu já 1º Tenente, foi em 1948, no Palácio dos Campos Elíseos onde ele fora levar um convite de casamento de uma de suas filhas ao Dr. Adhemar de Barros. Na sua saída, o saudoso Cel. Oswaldo Feliciano, na época capitão Ajudante de Ordens do governador paulista falou-me que aquele cidadão era o 'homem que matara Euclides da Cunha', em 1909, na tragédia de Piedade, agora General Reformado Dilermando de Assis.
Perdera sua identidade desde aquele fatídico ano; em sua carreira militar galgou todos os postos de hierarquia mas, ninguém falava referindo-se a ele: o Capitão..., o Major..., o Coronel..., o General.... mas, falavam enfaticamente: 'Esse é o homem que matou Euclides da Cunha', brilhante escritor de Os Sertões, livro traduzido em inúmeros países.
Dos dois processos criminais: 1909 e de 1916, foi absolvido, pois, ficou provado que matou pai e filho em legítima defesa, entretanto, carregou por toda sua vida aquele estígma de ser o assassino do grande escritor.
Doente, alquebrado, a pedido de sua filha, visitou Ana Paes, pivô do triângulo amoroso, que originou a tragédia. Estava agonizando. Dilermando achegou-se ao seu lado e, com os olhos marejados de lágrimas falou: "Sianinha, você me perdoa?". Meses depois fechou os olhos para o mundo, readquirindo sua identidade. Morreu como General do Exército Brasileiro.

Cel. Edilberto de Oliveira Melo - São Paulo, SP, Brazil
Inativo da Polícia Militar do Estado de São Paulo e escritor de vários livros sobre a PM, sendo eles: Asas e Glórias de São Paulo (parceria Cel. Canavó); O Salto da Amazônia; Raízes do Militarismo Paulista; Marcos Históricos da PM e o mais recente Clarinadas da Tabatinguera.
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Acordo amistoso

Diz ele:
“Apresentava-se ameaçadora e negra a atmosfera espiritual nos arredores do grande orfanato, situado em vasta gleba a sudeste da capital, que pertencera, há mais de um século, a um sacerdote que teve notável atuação nos fatos históricos referentes ao Brasil monárquico; ela era agora disputada por pessoas criminosas, cujo intuito era se apoderarem da terra e aniquilarem a obra grandiosa realizada por uma irmã nossa, já desencarnada, de nome muito conhecido no setor das obras de benemerência espírita. Fechada há algum tempo e rodeada de fluidos e vibrações mortíferas, o grande edifício se apresentava sombrio e quase inacessível. Somente com a interferência de uma jovem índia, muito bela e cheia de luz espiritual, foi possível constatar, rapidamente, que o prédio estava ocupado por inúmeras entidades desencarnadas. Após colocarem à entrada um guarda índio e reunidos para examinarem a situação, compareceu ao nosso local de trabalho uma entidade sacerdotal, trajando uma túnica bege e uma cruz vermelha ao peito o qual, com desembaraço e sem o menor constrangimento, declarou que viera espontaneamente nos procurar, após entendimento prévio com o chefe índio encarregado da vigilância espiritual da propriedade, na parte exterior. Explicou que instalara no casarão um posto de socorro, para recolher companheiros desencarnados que permanecessem estagiando, até que tomem rumo. São independentes no seu trabalho e, se ali se estabeleceram, foi porque encontraram o prédio praticamente abandonado; e consolidaram a ocupação porque o abandono, ultimamente, se completou ( o que era realmente exato). Demos-lhe o motivo do abandono, efetivado pela direção anterior do orfanato e lhe afirmamos que se tratava de uma situação transitória”.
Na sequência da narrativa Armond explica que foi solicitada a intervenção do plano espiritual superior, surgindo no local um emissário de Ismael, que instruiu e conduziu o sacerdote e seus tutelados para uma região do litoral norte de São Paulo, instalando ali um novo núcleo de socorro espiritual. Os videntes descreveram em detalhes as novas instalações idealizadas e plasmadas pelo emissário e também uma projeção antecipada de um grupo de crianças em franca correria pelos pátios do antigo casarão. A obra do orfanato seria restaurada.
Outros relatos sobre o mesmo assunto esclarecem melhor essa ação socorrista conjunta entre encarnados e desencarnados, permitida pelo conhecimento e experiência em trabalhos mediúnicos em bases espíritas. Falando de Carlos Jordão da Silva, pioneiro espírita e também militante da FEESP (60 anos de Espiritismo), Ary Lex escreveu :
“Foi diretor financeiro do Lar Anália Franco, entidade criada pela grande educadora Anália Franco, no Alto da Mooca, na avenida Regente Feijó, em vasta área territorial comprada em 18 de fevereiro de 1914. Jordão e o Sr. Braga, também dirigente do Lar, lutaram durante anos para evitar que mais da metade da área (cerca de 40 mil metros quadrados) fosse grilada, mas não conseguiram impedir, graças à corrupção existente em cartórios e outros setores. Hoje centenas de casas e várias ruas estão em área que pertenceria ao Lar”.
Para saber mais sobre Anália Franco:
http://www.geae.inf.br/pt/boletins/geae459.html#Entrevista
sábado, 8 de janeiro de 2011
Por onde andará Ary Casadio ?
Ary Casadio (de bigode) é o quarto da direita para a esquerda (clique na foto para ampliar)segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Canuto, Delanne e Roustaing

Eugênio Lara, nos comunicou o resgate e publicação no PENSE - Pensamento Social Espírita - de um belo artigo de Canuto Abreu falando de Gabriel Delanne.
Publicado originalmente na revista “Metapsíquica”, nele o célebre historiador paulista revela a face científica de um dos mais importantes discípulos de Allan Kardec.
Mas o que mais chama a atenção no artigo é o trecho no qual Canuto ensaia, num rápido e delicado diálogo com Delanne, o problema “Roustaing”, um dos mais controvertidos temas do movimento espírita. Delanne é cauteloso, porém de uma sinceridade impressionante.
Também a definição que faz de Jesus como "um chefe espiritual" traduz bem bem o que os Espíritos pensam à respeito, isto é, alguém que manda mais em nossos corações do que em nossas mentes.
Talvez tenha sido esse tom cuidadoso e realista que influiu na decisão de Canuto ao acultar opinião de Kardec, transformando-a no famoso "segredo documental".
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
Luciano e o verdadeiro André Luiz

Luciano dos Anjos nos enviou, como colher de chá adoçada em mel, parte do capítulo 6 ( As Comprovações) do seu livro “O Verdadeiro André Luiz”.
Trata-se do ítem 18 – O Papel da Mulher - que fala de Odete Portugal , esposa do Dr. Faustino Esposel, comparando-a com a esposa de André Luiz.
Na época a FEB fez algumas recomendações de cortes em vários assuntos que, segundo seus dirigentes, eram considerados polêmicos (feminismo, sexualidade e política) e que poderiam atrair propaganda negativa para a obra e também para o Espiritismo.
O assunto pesquisado por Luciano vem à tona num momento muito propício, não somente pelo estrondoso sucesso de Nosso Lar no cinema, mas principalmente por ser um divisor de águas nas discussões doutrinárias do movimento espírita. Como se sabe, até hoje a obra de André Luiz causa incômodo em alguns críticos que não aceitam essa abordagem como literatura fiel aos princípios kardecistas. Apesar de Herculano Pires – um dos principais defensores da ortodoxia espírita- ter afiançado que André Luiz seria totalmente compatível com as obras da Codificação, a narrativa ousada do médico carioca ainda atrai muitos contestadores das teses científicas expostas na série psicografada por Chico Xavier.
Capítulo 6 – As comprovações

18. O Papel da Mulher
Georgeana van Erven, era uma dos oito filhos do fazendeiro Antônio de Sampaio van Erven, casado com Maria Clara de Faria Salgado. Eram proprietários de catorze grandes fazendas, no estado do Rio de Janeiro. Segundo registros da família, anotados pelo descendente Domingos de Gusmão van Erven, com quem até hoje me correspondo, Antônio de Sampaio era homem de grande visão. Prevendo o fracasso da cafeicultura, voltou as vistas para a pecuária, que iniciava seus avanços. Nesta empreitada, contou com a colaboração do dr. José Teixeira Portugal, clínico de renome, que casara com a Georgeana. Tiveram duas filhas, Odete e Olga. Em 1922, Odete se casa com Faustino Monteiro Esposel, colega médico de seu pai. Ele deixa o endereço da rua São Clemente nº 393 e vai morar ali perto, no casarão da rua Martins Ferreira nº 23. Quando José Teixeira Portugal desencarna, em 1927, Antônio de Sampaio van Erven prosseguiu praticamente sozinho à frente das fazendas e das indústrias de leite e café, valendo-se, às vezes, da colaboração daquela filha.
Faustino Esposel (quem me narra é a Odete) não via com muito agrado a sogra nessa atividade, preferindo que algum irmão dela, como homem, assumisse os encargos. Ficava incomodado quando a Georgeana buscava, em casa, alguma ajuda das filhas Odete e Olga, embora de forma muito esporádica.
Em 1930, é o pai da Georgeana quem desencarna, O patrimônio passa aos sucessores e ela assume o papel de principal gestora dos negócios. Faustino Esposel já está bastante adoentado, tendo inclusive renunciado à presidência do Flamengo. Daí que a Odete, assistindo o marido, não tem mesmo muitas condições de ajudar a mãe. Mas também não o faz porque o Faustino, alinhado ao raciocínio da época, sempre fora avesso a que as mulheres trabalhassem fora de casa, e que deveriam dedicar-se tão somente às tarefas do lar. Até porque ele tem ótima situação financeira e não necessitava de maiores recursos.
Nesse particular, a Odete me confirmava sorridente que o Faustino não transigia; não queria que ela trabalhasse fora, mesmo em seu próprio negócio, preferindo que o acompanhasse nas programações sociais.
Ocorre que logo no final do ano seguinte o Faustino desencarna, em 1931. Georgeana, a mãe da Odete, prossegue à frente dos negócios, que irá ampliar-se, a partir de 1938, quando é iniciada a fabricação da afamada manteiga Van Erven, cuja razão social era Van Erven Portugal e Filhos. Ao mesmo tempo, Georgeana assume a presidência da Cooperativa de Cordeiro, para onde mandava doze mil litros de leite por mês. Em 1943, a Fazenda Santa Clara era a maior produtora de leite e de manteiga da região.
Bem, é com esse entendimento do papel da mulher – forte e generalizado naquela época – que Faustino Monteiro Esposel desencarna. É verdade que já não eram as décadas radicais de 20 e 30, mas, na década de 40 ainda existia muito preconceito, que só vai amainar com a explosão da II Grande Guerra, dada a imperiosa necessidade de mão de obra em substituição aos convocados para o front e de novas fontes de recursos para subsistência das famílias.
E, então, podemos também entender, agora, por que, ao ditar, em 1943, Nosso Lar, André Luiz/Faustino Esposel escreve, no capítulo 20:
A mulher não pode ir ao duelo com os homens, através de escritórios e gabinetes, onde se reserva atividade justa ao espírito masculino. Nossa colônia, porém, ensina que existem nobres serviços de extensão do lar, para as mulheres. A enfermagem, o ensino, a indústria do fio, a informação, os serviços de paciência, representam atividades assaz expressivas. O homem deve aprender a carrear para o ambiente doméstico a riqueza de suas experiências, e a mulher precisa conduzir a doçura do lar para os labores ásperos do homem. Dentro de casa, a inspiração; fora dela, a atividade. Uma não viverá sem a outra. Como sustentar-se o rio sem a fonte, e como espalhar-se a água da fonte sem o leito do rio?
Prossigo transcrevendo parte do capítulo em que abordo o assunto, em meu livro O Verdadeiro André Luiz, quando falo dos cortes ou alterações que eram sugeridos pela FEB para serem submetidos ao espírito, através do próprio Chico Xavier.
Em 1943 e 1944, quando Nosso Lar é psicografado e lançado, persistia – friso outra vez – a mentalidade de que mulher não deveria trabalhar fora do lar. O quadro que já podia ser observado, com as fábricas cheias de operárias, não significou de pronto qualquer mudança de conceito, sendo encarado apenas como emergencial. Era esse, pois, o entendimento de André Luiz. As lições do capítulo 20 são lindas e perfeitas na visão esférica dos papeis do homem e da mulher quanto à divisão de tarefas e à mais forte característica de cada sexo. Não podemos dizer que a colocação de André Luiz esteja errada, ao refletir o conceito firmado na sociedade. Faustino Esposel pensava no mesmo diapasão. No entanto, não seria uma colocação que valesse para sempre. Assim, a omissão dessa colocação (que, no fundo é mais um alerta do que uma recomendação determinativa) teria evitado a justa crítica dos leitores dos anos do pós-guerra, quando o papel da mulher efetivamente se ampliou de direito e de verdade, valorizando-se. Andaria bem a FEB se tivesse, mais uma vez, consultado André Luiz sobre a conveniência de ser cortado o pequeno trecho. Ou que a redação fosse aprimorada. Como nos demais casos, não tenho dúvida de que o espírito concordaria, a despeito do ranço de sua ideia pessoal. Salvo se desconheço que tenha havido mais essa consulta e que, de repente, André Luiz recomendou que o texto fosse mantido. Mas o Wantuil nunca me falou dessa recomendação.






