sábado, 3 de maio de 2008

Medicina e religião

Medicina da semelhança e Religião do amor ao próximo


Notícia do Estadão, de 3 de maio, informa que a homeopatia tem mais procura na rede pública e explica a evolução do setor através de dados estatísticos:

“A demanda pela homeopatia cresce no País a índices 20% maiores do que o aumento da população desde o início da década, segundo o governo federal. Em 2007, a homeopatia foi responsável por mais de 300 mil consultas do Sistema Único de Saúde, ou 10% das consultas de atenção básica. Ainda assim, apenas 110 dos mais de 5 mil municípios do País adotam a especialidade na rede pública”.


Nas páginas internas a matéria do antigo e conservador jornal paulista, do qual sou teimoso assinante, detalha esses dados e finalmente chega ao ponto nevrálgico, que é o antigo atrito ideológico entre medicina homeopata e alopata. Atritos entre médicos, já que, para os homeopatas, a medicina sempre foi uma coisa só e que sua desastrosa fragmentação foi produto da cultura industrial de massas. No finalzinho da matéria o jornal registra mais um tradicional e previsível discurso corporativo e irônico, agora do professor Celio Levyman, da disciplina de neurologia da Unifesp, também integrante do Movimento Medicina Responsável: “Acredite se quiser, é coisa de religião. Ela só resolve coisas simples e pelo efeito placebo”. Tal efeito é atribuído exclusivamente ao aspecto “psicológico”. Segundo ele, a homeopatia só se mantém no SUS por causa da “pressão” dos 15 mil médicos homeopatas. 300 mil consultas não significam nada ou seria porque elas podem aumentar? O movimento que ele integra diz, como já afirmavam os antigos e radicais perseguidores, que a homeopatia é baseada em dogmas, fazendo o também tradicional jogo de cegueira paradigmática, “razão versus emoção”, para chegar o ponto-chave “ciência versus religião”, que é o que mais se aproxima das questões éticas da profissão médica e da conduta humana.

Quando o professor Célio Levyman, cujo sobrenome revela claramente suas origens religiosas e rabínicas (sem nenhum preconceito racial, e sim profundo respeito pelas nossas raízes judaico- cristãs), ele está se referindo ao fato da homeopatia ter vínculos históricos com o Espiritismo, doutrina filosófica cujos experimentos científicos conseqüentes muito contribuíram para definir as diferenças conceituais entre cérebro e mente, entre matéria e anti-matéria. Provavelmente, desses 15 mil homeopatas, uma grande parte possui ligações ou laços de afinidade com as práticas magnéticas e medianímicas, ou seja, admitem a possibilidade de integração entre o universo material e o metafísico. A maioria desses médicos sabe que são médiuns e que são cotidianamente inspirados e instruídos por Espíritos de médicos e cientistas que vivem em outras dimensões. Não são diferentes dos outros , apenas são conscientes disso. Sobre os resultados, não vamos entrar no mérito, já que a interpretação dos fatos continua sendo uma questão de “crença”, mesmo para os descrentes. Mas é bom lembrar que, quando o Dr. Benoit Mure trabalhou no Brasil, sua principal preocupação não era ganhar dinheiro ou apenas ficar rico, mesmo porque sua fortuna era enorme e foi totalmente aplicada num empreendimento histórico que ele acreditava ser avançado e correto. Mure pretendia, como fizeram seus mestres Hanehmann e Guidi, demonstrar um novo paradigma médico, sem preconceitos sociais, religiosos ou corporativos. Sua preocupação era muito racional, como por exemplo, diminuir os altos índices de mortalidade entre os escravos trabalhadores nas fazendas de cana-de-açúcar. Queria também que o povo pobre e sofrido tivesse acesso a recursos baratos e independentes. Era uma medicina social, socialista, humanista e que, na boca dos reacionários, que inclusive o ameaçavam de morte e escândalos criminosos, soava como subversão perigosa, inimiga da boa religião católica e do bom nome das profissões de fé.

Certos estamos nós e errados estão os chineses, que há milênios conhecem os resultados e a eficiência desses conhecimentos. Certos estamos nós e errados estavam esses pioneiros, que eram menos preconceituosos e mais abertos às novas idéias e às novas possibilidades de melhorar o mundo em que vivemos. Certos estamos nós que combatemos a cegueira da religião criando outras religiões de interesse mesquinho, mais cegas e dogmáticas. Tudo porque curar pelas semelhanças significa enxergar o paciente como nosso semelhante, alguém que está bem mais próximo do que a gente imagina.

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