sábado, 5 de abril de 2014

Quem se importa com o Espiritismo?

 
Para os espíritas (e isso não é consenso), o Espiritismo teve pontos importantes com fenômeno histórico: a reafirmação da imortalidade em bases científicas; a difusão do conceito de reencarnação; intercomunicação entre planos ou dimensões por meio de inteligências encarnadas e desencarnadas; e sobretudo o resgate do cristianismo em bases morais humanistas, desvinculado das igrejas.

Socialmente falando, a Doutrina Espírita é importante somente para os espíritas e seus simpatizantes, que não são muitos quando comparados aos segmentos culturais existentes no mundo. Não podemos confundir informação com propaganda. Informação deve ser pautada pela verdade e a propaganda nem sempre é fiel à verdade. Quando se fala da importância do Espiritismo nós devemos sempre considerar dois aspectos: os espíritas falando, incluindo o Espíritos; e a opinião pública não espírita. Nós espíritas sabemos dessa importância porque somos comprometidos com esses valores; já a opinião pública, que não é espírita, não tem o mesmo ponto de vista. Isso significa que, verdadeiramente, fora do nosso círculo doutrinário e do seu movimento social, o Espiritismo pouco significa e influi como visão de mundo, cultura moral e pratica social: como ciência o Espiritismo não existe formalmente; geograficamente falando, o Espiritismo ainda é numericamente insignificante e também pouco influente entre os grupos das grandes religiões e filosofias morais atuantes no mundo. Essa é a realidade.

Qual é a causa dessa insignificância de uma doutrina que já ultrapassou um século e meio de existência?

Uma delas é a indiferença, autêntica ou fingida. A doutrina espírita foi e continua sendo sistematicamente ignorada pela intelectualidade reinante no cenário acadêmico. Com exceção de alguns pequenos núcleos de pesquisa e tímidas dissertações, feitas geralmente por adeptos e simpatizantes, não se fala em Espiritismo como conhecimento científico, pensamento filosófico ou epistemológico. O Espiritismo só é permitido nesses ambientes de formalidade como tema religioso do imaginário social.

Outra constatação importante: o Espiritismo foi banido da história, sendo ignorado pela produção historiográfica. Primeiro porque ele não teve nenhuma participação conhecida nos grandes eventos históricos europeus e mundiais. Segundo porque é visto como uma ameaça aos dogmas religiosos tradicionais e aos paradigmas científicos dominantes; o fenômeno e a moral espíritas são temas incômodos nos círculos tradicionais do saber porque essa doutrina desafia o materialismo aristotélico das correntes científicas e também o dogmatismo das correntes religiosas. Não podemos esquecer que cientistas e sacerdotes são produtos de uma mesma linha histórica e ideológica, de uma mesma elite intelectual, os inventores da academia. São inimigos aparentes e possuem mais afinidades do que antipatias. 

Portanto, falar em Espiritismo, de forma direta, continua sendo proibido nas universidades (novo reduto dos templos antigos) e nos veículos de comunicação, que ainda são as principais fontes de produção do conhecimento. Nos meios de comunicação até que se fala com mais liberdade e abertura sobre a doutrina, porém sempre sob a tutela das autoridades acadêmicas. Falar publicamente sobre Espiritismo continua sendo um tabu. Para que isso aconteça é preciso criar mecanismos de disfarce e optar por abordagens que possam adaptar as temáticas espíritas às áreas científicas já conhecidas e seus modelos epistemológicos. Não podemos falar diretamente de mediunidade ou de comunicação com “mortos”, pois essas informações não são compatíveis com a linguagem científica convencional, muito menos de reencarnação. Para a ciência esses temas são da cultura religiosa e também não foram contemplados pelos filósofos clássicos traduzidos na Idade Média e utilizados pela tradição sacerdotal. O mesmo aconteceu com as mulheres pensadoras e cientistas. Não se conhece mulheres filósofas e cientistas, a não ser pelo nomes e histórias obscuras (Aspásia e Hipácia de Alexandria; ou raridades como Marie Curie por exemplo), porque as traduções sobre seus trabalhos foram e continuam sendo rejeitadas pelas corporações religiosas, predominantemente masculinas.

Então, a solução é sempre a mesma: adaptar o temas espíritas para a sociologia, especificamente para antropologia; ou então para a medicina como pratica alternativa.

Infelizmente, Allan Kardec continua sendo um ilustre desconhecido do grande público contemporâneo. No Brasil ainda existe um certo conhecimento por causa da história social do movimento espírita e das novelas exibidas na TV abordando temas espíritas, bem como as cinebiografias de Bezerra de Menezes e Chico Xavier. O jogador de futebol Allan Kardec, que não é espirita, parece ser mais famoso do que o codificador do Espiritismo. No exterior, incluindo a França, não existe esse conhecimento nem reconhecimento do Espiritismo, não como fenômeno social significativo. Durante muitos anos acreditávamos que os livros e os oradores espíritas que iam para o exterior estavam fazendo grande sucesso e divulgando a doutrina em terras estrangeiras. Na verdade tudo ficava restrito a pouquíssimas pessoas interessadas no assunto, geralmente brasileiros que viviam fora do país. Nesse aspecto, ainda predomina a opinião de J. Herculano Pires: Allan Kardec realmente ainda é desconhecido em sua obra e não "desatualizado" como se pensa. 

O século XXI talvez seja o período em que o Espiritismo atinja a sua maturidade, liberto das fases anteriores (fenomênico, filosófico e religioso) para atingir uma plenitude ética integral. Isso significa que muitos pontos ainda incompreendidos da doutrina serão desvendados nessa nova sociedade das aristocracias intelectuais, a chamada "superclasse" de David Hotkopf, que influi mais pelas ideias do que pelo dinheiro e armas. Desatualização de conceitos não acontecem por causas cronológicas, só porque o tempo passou. Ela acontece por causas epistemológicas e novas abordagens científicas. Nem a filosofia nem a ciência explorou suficientemente os princípios espiritas para apontar uma desatualização. A imortalidade, reencarnação e a moral espíritas continua sendo vistas como crenças pela maioria dos adeptos do Espiritismo e também pelos não espíritas. Poucos se dão conta desses aspectos epistemológicos. Apenas aceitam, acreditam e pronto. Muitos outros aspectos que podem ser relacionados à doutrina espírita aguardam uma solução de continuidade: a arte, a política, a tecnologia, a sustentabilidade, a educação, enfim, coisas que Allan Kardec pensou, porém não teve tempo para realizar. Portanto, a obra de Kardec não encontrará problemas de desatualização ou de contextualização, mesmo por que ele deixou claro que o Espiritismo sempre teria como bússola as tendências do conhecimento.

O conhecimento espírita avançou muito pouco como filosofia e ciência. Só crescemos, numericamente como busca e expressão religiosa, em função dos mesmos e persistentes conflitos humanos: as questões da dor, da morte e do destino. Não avançamos porque nossa epistemologia ainda não foi desvendada em sua amplitude, nem mesmo pelos espíritas. Muitos de nós continuamos comprometidos com as cosmogonias teocráticas, absolutas, impedindo uma transformação de mentalidade. Somente agora - 150 anos depois do lançamento do Livros do Espíritos - é que estamos dando os primeiros passos nesse sentido multidimensional da doutrina. 

Ainda estamos muitos tímidos, pisando em ovos nas universidades e laboratórios, presos aos paradigmas positivos de ciências e ao modelo filosófico greco-romano, o mesmo que foi ideologicamente selecionado, preservado e imposto pela Igreja. Não sabemos ainda sobre dimensões da física quântica, da visão complexa de mundo, da incerteza e instabilidade aparente que governa o Universo. Parece que a cultura religiosa e mística que herdamos do catolicismo ainda causa temor e desconfiança nas pesquisa espíritas. Nossa psicologia ainda fica restrita aos processos da consciência moral e não explora as potencialidades mentais, como tecnologia cognitiva e educacional.

Nossos livros ilustrativos da obras de Kardec, de produção psicográfica, estão ficando velhos, quase centenários e brevemente terão problemas para explicar epistemologicamente suas abordagens literárias. Ainda ficamos assustados e irritados com os questionamentos e desconfianças do mundo cético, tão natural entre os primeiros adeptos espíritas como León Denis, Camille Flamarion, Gabriel Dellane e o próprio Kardec. Ainda somos fascinados por narrativas fantásticas ou de auto-ajuda sobre os fenômenos espíritas, quando ainda não conhecemos nem as bases históricas e filosóficas dessas considerações.

domingo, 9 de março de 2014

Visão estratégica de Edgard Armond se concretiza


Ele dizia nos anos 40 que no futuro haveria a necessidade de um centro espírita em cada esquina. Tanto a FEESP quanto a Aliança Espírita Evangélica, dirigida e orientada respectivamente por ele nos anos 50 e 70 tinham essa meta a médio e longo prazo. A principal ferramenta de expansão era a Escola de Aprendizes do Evangelho, programa com formação e capacitação sistemática de voluntários para fundar e gerir novos núcleos a cada dois ou três anos, na conclusão do ciclos das turmas.

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CENTROS ESPÍRITAS PAULISTANOS SUPERAM HOSPITAIS EM ATENDIMENTOS

Agência USP/UOL

Um levantamento realizado em 55 centros espíritas da cidade de São Paulo aponta que, juntos, os atendimentos espirituais chegam a cerca de 15 mil por semana (60 mil ao mês). “Este número é muito superior ao atendimento mensal de hospitais como a Santa Casa, que atende cerca de 30 mil pessoas, ou do Hospital das Clínicas, com cerca de 20 mil atendimentos”, destaca o médico psiquiatra Homero Pinto Vallada Filho, professor do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). A média relatada de atendimentos semanais em cada instituição foi de 261 pessoas.
“Sabemos, por meio de vários estudos, que a abordagem do tema religiosidade ou espiritualidade exerce um efeito bastante positivo na saúde de muitos pacientes. Por isso, podemos considerar a terapia complementar religiosa ou espiritual como uma aliada dos serviços de saúde”, revela, lembrando que, geralmente, o paciente não tem o hábito de falar sobre suas crenças religiosas e muito menos de contar que realiza tratamentos espirituais em centros espíritas.

Vallada Filho foi o orientador da dissertação de mestrado Descrição da terapia complementar religiosa em centros espíritas da cidade de São Paulo com ênfase na abordagem sobre problemas de saúde mental, de autoria da médica Alessandra Lamas Granero Lucchetti, apresentada ao Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas (HC) da FMUSP em dezembro.

A ideia foi mostrar a dimensão do trabalho realizado pelos centros, o grande número de atendimentos prestados e os diferentes serviços oferecidos. Observou-se também que apenas uma pequena minoria realiza cirurgias espirituais, sendo todas sem cortes. Na segunda parte da dissertação, a pesquisadora descreve passo a passo uma terapia complementar espiritual para pacientes com depressão realizada na Federação Espírita do Estado de São Paulo (FEESP).
 
Centros espíritas

Alessandra realizou um levantamento inicial de todos os centros espíritas da capital paulista que possuíam site na internet contendo endereço de contato. A médica chegou ao número de 504 instituições. Neste levantamento, foram considerados apenas centros espíritas “kardecistas”, ou seja, aqueles que seguem a doutrina codificada pelo pedagogo francês Hippolyte Leon Denizad Rivail, sob o pseudônimo de Allan Kardec, e que tem como base as obras O Livro dos Espíritos (publicado na França em 1857), O Livro dos Médiuns (1861), O Evangelho Segundo o Espiritismo (1864), O Céu e o Inferno (1865) e A Gênese (1868).

A médica enviou, via Correios, uma carta registrada a cada um dos 504 centros. Destas cartas, 139 voltaram devido a problemas como mudança ou erro no endereço. Das 370 que restaram, apenas 55 foram respondidas. “Se considerarmos que essa média de 60 mil atendimentos mensais representa menos de 15% da totalidade dos centros existentes na cidade, chegaremos a um número total de atendimentos muito superior aos dos 55 que participaram do estudo”, destaca Vallada.

Um questionário foi respondido apenas pelo dirigente ou pessoa responsável do centro. O material era bastante extenso e continha perguntas ligadas à identificação e funcionamento do centro, o número de voluntários e de atendimentos, as atividades realizadas e os tipos de tratamentos, quais os motivos levavam as pessoas a buscar ajuda, e como é feita a diferenciação entre mediunidade, obsessão e transtorno psicótico e quais orientações para estes casos, entre outras questões.

Resultados

Entre os resultados, foi observado que a maioria são centros já estabelecidos e que têm mais de 25 anos de existência, sendo o mais velho funcionando há 94 anos e o mais jovem com 2 anos. Em praticamente quase todos, os usuários são orientados a continuar com o tratamento médico convencional, caso estejam fazendo algum, ou mesmo com as medicações indicadas pelos médicos.
Os principais motivos para a procura pelo centro foram os problemas de saúde: depressão (45,1%), câncer (43,1%) e doenças em geral (33,3%). Também foram relatados dependência química, abuso de substâncias, problemas de relacionamento. Entre os tratamentos realizados, a prática mais presente foi a desobsessão (92,7%) e a menos frequente foi a cirurgia espiritual, (5,5%), sendo todas sem uso de cortes.

Quanto à diferenciação entre experiência espiritual e doença mental, realizada com base em nove critérios propostos pelos pesquisadores Alexander Moreira Almeida e Adair de Menezes Júnior, da Universidade Federal de Juiz de Fora, a média de acertos foi de 12,4 entre 18 acertos possíveis. Apenas quatro entrevistados (8,3%) tiveram 100% de acertos. Entre esses critérios, estão a integridade do psiquismo; o fato de a mediunidade não trazer prejuízos em nenhuma área da vida; a existência da autocrítica; e a mediunidade sendo vivenciada dentro de uma religião e cultura específicos, entre outros.

“Esse levantamento procurou descrever as atividades realizadas nos centros espíritas e salientar não só a grande importância social desempenhada por eles, mas também a grande contribuição ao sistema de saúde como coadjuvante na promoção de saúde, algo que a grande maioria das pessoas desconhece”, finaliza.
A pesquisa completa pode ser consultada neste link.
 
Mais informações: email hvallada@usp.br, com o professor Homero Vallada

sábado, 8 de março de 2014

Quem tem medo do Diabo?



Foi nessa época do ano, na Europa medieval, que construiu-se o mito do Diabo, metáfora do inconsciente individual e coletivo. Esse personagem, muito cultivado nas crendices greco-romanas (faunos e sátiros) não consta nos textos originais dos Evangelhos compilados por São Jerônimo. Tudo indica que foi sendo introduzido nas traduções feitas pelos monges copistas, a mando dos seus superiores, ligados ao sistema de dominação social do feudalismo. O Livro o Nome da Rosa ilustra um aspecto dessa história.
Esse mito ainda tem força simbólica e muito influi sobre aqueles que foram educados em religiões dogmáticas, porém, para os espíritas, ele é apenas uma representação de Espíritos voltados ao mal e que, em muitos casos, assumem a  forma de seres satânicos com a intenção de causar medo e dar vazão aos seus planos de vingança e opressão de encarnados e desencarnados.   Os que se cansam dessa experiência muitas vezes se regeneram em processos educativos que antecedem a reencarnação e complementados por provas na carne, dedicando-se, por exemplo, ao amparo e regeneração de  pessoas em núcleos religiosos e assistenciais.  Alguns vão servir em estabelecimentos prisionais, onde, não raro, reencontram seus antigos comparsas a espera de sua colaboração  no esforço de um possível recomeço na vida fora do crime.  Outros adquirem créditos mais avançados e operam diretamente nas esferas da justiça, em provas mais graves e delicadas, com alto risco de  recaídas.
Numa conhecida crônica de Hilário Silva psicografada por Chico Xavier, um dirigente de centro espírita é solicitado por vários frequentadores  a invocar e doutrinar uma entidade que, encarnada, havia causado muito terror naquela comunidade em tempos remotos e ainda  provocava  temor e perturbação sobre muitos moradores. Insistindo muito na invocação, era sempre advertido pelo seu  mentor espiritual de que não deveria levar em frente tal cruzada, sendo a mesma muito arriscada e imprudente. Só mudou de opinião quando o mesmo mentor revelou realmente não ser possível a invocação dizendo:  "A tal entidade demoníaca é você mesmo, reencarnado".  

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

ANDRÉ LUIZ: É TUDO VERDADE?


 De volta a onda de questionadores da obra de André Luiz. Para não atacar a figura do médium Chico Xavier, os ataques se concentram no espírito, que teria “enganado” o médium com seus “delírios”. 

A ferramenta utilizada nas críticas são fragmentos comparativos da obra de Kardec para fazer afirmações puramente teóricas, sem nenhuma base experimental.

Usar os conceitos de Kardec como categoria de análise é importante, mas não de forma rígida e limitadora. Essa não era, por exemplo, a visão de Herculano Pires, que identificava a obra de André Luiz como uma respeitável ilustração dos conceitos contidos nas obras de Kardec. Herculano também tinha suas limitações e não aceitava informações que não conseguia digerir emocionalmente e apelava para a razão como fuga. Uma das suas limitações era a exigência do uso radical da terminologia espírita do século XIX para descrever os fenômenos. E quando essa terminologia não serve para descrever determinados fenômenos e impressões? O médium deve calar-se ou suportar o rigor doutrinário? Herculano ficava chocado com qualquer informação que lhe causava desconforto pessoal e colocava a culpa no rigor doutrinário. Os romances históricos parecem não ter incomodado tanto.

André Luiz não foi o único autor a descrever essas informações e Chico Xavier também não tinha o monopólio e exclusividade dessa revelações. Andrew Jackson Davis já fazia essas descrições. Talvez o equívoco está na generalização e na padronização das informações por parte dos leitores, sobretudo os que foram mentalmente educados em religiões dogmáticas. Esse filme (Nosso Lar), por exemplo, é de uma pobreza imagética lamentável, limitadora. Fazer o quê? Transpor para linguagem de cinema algo que já foi de certa forma distorcido pelo Espírito e pelo médium, não poderia ser diferente. Isso não deve causar estranheza.

 Não existe ilustração pura e conceitual do mundo espiritual. A licença poética ou artística usada nessas descrições (essencialmente ilógica) nunca será compatível com o conceito positivo e lógico. Fazer isso é pior que fundamentalismo. É demonstração ingenuidade ou arrogância. A obra de Kardec é muito mais do que uma régua do paradigma positivo. Os grandes livros de ficção quando sofrem essas adaptações são exemplos disso. Muitos roteiros de cinema nessa linha espiritualista são primorosos na essência das informações embora nem sempre sejam compatíveis com as teorias de Kardec. Isso não invalida o conteúdo. Muito de antes de existir Kardec e Espiritismo, já existiam descrições mediúnicas de mundos e planos.

A maioria desses autores de ficção são médiuns e nem sabem disso. Pensam que são criadores exclusivos dessas narrativas. A diversidade de planos, organizações, culturas, etc. é um conceito universal sobre isso. O que foi descrito por André Luiz mostra apenas uma tipologia de comunidade e não o todo; mostra uma cultura cristã e de influência ibérica, o que pode ser totalmente diferente dos padrões culturais de outros lugares do planeta. Yvone Pereira fez a mesma linha de descrições, demonstrando essa diversidade. Diversos outros médiuns foram por esse caminho. Eu mesmo já tive experiências fora do corpo que tive dificuldades par compreender e descrever, mas que revelava uma enorme diversidade de elementos e nunca um padrão de unidade.

É preciso ter cuidado ao usar os conceitos sem usar o bom senso, pois a lógica nem sempre explica aquilo que a razão desconhece. Como virou moda e exibicionismo intelectual contestar o que faz sucesso, cria referência que se choca com o paradigma vigente, também ficamos com um pé atrás nessas críticas, que, apesar da argumentação teórica aparentemente correta, não deixa de evidenciar algumas limitações.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Os efeitos do tabu e do dogma sobre uma temática espírita

  
Vejam essa informação sobre o SUICÍDIO, divulgada com a imagem acima; e a seguir conheça a nossa visão sobre os riscos desse tipo de abordagem.

SUICÍDIO
 
O maior sofrimento do suicida, é a decepção, ao descobrir do outro lado da vida, que continua vivo, com todos os problemas que tinha antes, agravado pelo ato insensato do suicídio. O sofrimento dos familiares também atinge em cheio o autor, do ato impensado, gerando grande constrangimento íntimo. A parte do corpo orgânico lesado pelo ato suicida reflete no corpo espiritual (perispírito), provocando sequelas no novo corpo físico da próxima reencarnação. O suicida é tratado no mundo espiritual, pelos espíritos, com desdém, deboche, zombaria e crueldade, pois até mesmo os chamados malfeitores do espaço abominam o suicídio. Os suicidas necessitam de muita prece, irradiações e correntes magnéticas de fluidificação. O corpo físico é um altar, e no santuário desse altar está a consciência imortal, a maior vítima do suicídio direto ou indireto. O trabalho, a prece, o culto no lar, a leitura educativa e a construção de laços de amizade e de fraternidade, são os melhores antídotos contra o suicídio. A vida é um bem inalienável. É o maior tesouro que DEUS nos ofertou. 
 

Muita paz by Hailton Souza. — com Casa Espírita Novo Tempo


OS RISCOS DA ABORDAGEM DOGMÁTICA


Assunto muito delicado e preocupante. Essa informação, abordada de forma tenebrosa e assustadora, que reforça pela imagem uma visão religiosa punitiva dos suicidas, não é boa para os candidatos ao suicídio. Pode até ser útil, dependendo da intenção, para os que pretendem prevenir a sua prática, pela compreensão da pessoa e nunca pela condenação ou sensacionalismo. Ela só reforça o tabu do suicídio. E tabu é sempre ruim e confuso como informação. O verdadeiro e maior sofrimento dos suicidas ocorre quando ele perde as forças para lutar contra si mesmo. O sofrimento é tanto que, para se livrar dessa angústia ele se mata, não se importando se vai para o inferno ou para os chamado vale dos suicidas ( que não um inferno ou lugar e sim um estado mental construído pela vítima, de acordo com os seus sentimentos de culpa). Não são as preces que o tiram desse estado e sim o tempo de purificação mental necessário, que pode variar de pessoa para pessoa. Se assim fosse nem entrariam nesse estado, pois sofreriam uma intercessão, o que não existe, porque não se trata de um castigo que possa ser interrompido como pensam os religiosos dogmáticos.

Ao lermos essas revelações espíritas temos que ter muito cuidado ao utiliza-las como propaganda ou alerta. Todas as religiões condenam o suicídio e fazem dele um tabu, incluindo os espíritas religiosos, o que é um grave equívoco. Quem se mata está num estado psicológico ou mental de perturbação ou então, estando ciente, não conhece as consequências espirituais do ato. No segundo caso essas informações até podem funcionar, se ele aceitar como verdade. No primeiro caso de nada vale, ou melhor pode até piorar e influenciar a decisão de fuga, seja para onde for, para se autopunir. Muitos se matam como gesto de agressão ou vingança, para gerar culpa nos outros. Caso real: uma menina de 14 anos se matou por medo dos pais, porque pensou que o sinal da sua primeira menstruação era uma doença venérea.

Como fica? De quem foi a culpa?

 Ela vai para o vale dos suicidas e para o inferno? 

É preciso estudar melhor o assunto antes da divulgação.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Nossos piores inimigos


 Estávamos pensando, jamais os espíritas teriam uma bancada própria e sectária no Congresso. Somos uma diversidade de cores políticas, múltiplas dimensões. Muitos de nós - cremos a maioria - é desconfiada e não vota em candidatos com o rótulo de "espírita", talvez lembrando que o Dr. Bezerra de Menezes (que foi deputado), abandonou gradualmente essa carreira na medida que passou a militar com mais empenho em nosso movimento. Passou a fazer política de conciliação num ambiente que ele considerava mais propício e fértil para o bem estar da população. Será que é por isso que muitos intelectuais interessados em política partidária ainda atacam a sua memória?

Os principais alvos dos "politiqueiros" no Movimento Espírita são os cargos institucionais nos órgão federativos, associações, clubes, ligas e finalmente nas casas espíritas. A ideia é usar a nossa coletividade como massa de manobra para fins pessoais, transformando o poder institucional em moeda de troca na carreira político-partidária. A marca desses tiranos ideológicos é sempre a mesma, desde o final do século XIX: explorar fartamente a polêmica da pureza doutrinária e atacar os expoentes históricos que representam uma ameaça para suas intenções rasteiras.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Notícias para o aquário terrestre


Até a década de 1940 a obra de Allan Kardec era praticamente desconhecida no Brasil e no mundo. Eram textos de circulação restrita, quase proibida, semelhantes aos dos antigos autores dos círculos esotéricos. Essa situação mudaria radicalmente quando vieram à público os livros de Emmanuel, André Luiz e alguns outros Espíritos, por meio da mediunidade de Chico Xavier. Essas obras despertaram nas massas a curiosidade sobre os princípios que norteavam aquelas “revelações”, que na verdade eram ilustrações das teorias do Codificador do Espiritismo. Nenhuma corrente religiosa e de pensamento, sobretudo as de origens judaico-cristã, puderam ignorar os conteúdos ali tratados com tanta clareza desde a publicação de O Livro dos Espíritos, em 1857. Até mesmo a ortodoxia espírita, acostumada à abstração dos textos de Kardec ficou chocada com o que leu e viu nessas narrativas da História, do cotidiano das relações entre mortos e vivos e também daquilo que para nós seria o futuro da Terra descrito nas comunidades espirituais. O impacto foi tão grande que até hoje, inúmeros leitores, incluindo alguns espíritas ainda influenciados pelo ceticismo, se mostram desnorteados com a articulações de informações ali projetadas pelas linhas da psicografia. De todas as reações que surgiram diante dessa obra magnífica, as que mais se mostram intolerantes foram aquelas comunicadas até hoje por alguns confrades de doutrina, inconformados com a enorme repercussão dessa nova literatura. Diante desse descaso incompreensível dos pares, os autores simplesmente deram as costas; e para os demais, que não eram espíritas, Emmanuel apenas resumiu, dizendo que realmente é muito difícil trazer notícias sobre o Oceano para quem ainda vive nos limites de um aquário.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Intransigência e intolerância na educação espírita



Educação é algo muito vago, ideológico e pode ter inúmeras conotações.
Educar tanto pode ser para bem como para o mal; para esquerda como para direita; para alto como para baixo, como o aliciamento. Daí as diversidade das inúmeras correntes ideológicas da educação.
Portanto, não existe educação neutra e toda proposta terá um direcionamento ideológico.
A educação espírita, pela própria riqueza e pluralidade filosófica, tem diversas facetas e não apenas um único enfoque e uma única direção. Temos uma diversidade de repercussões na experiência humana. Por exemplo: o judaísmo e cristianismo pela ótica espírita surtem outras conotações da ortodoxia judaica e católica.
Pretensos educadores espíritas acham que basta incutir na cabeça das pessoas alguma ideias espíritas para que se realize uma educação. Confundem, por falta de conhecimento e experiência no assunto, educação com instrução e ensino.
Educação é transformação e tem três aspectos: mudar o pensamento, mudar o sentimento e  finalmente mudar o comportamento.
Até agora, historicamente falando,  somente uma proposta de educação espírita contemplou esse três aspectos: o método iniciático de Edgard Armond. As demais estacionaram na mudança de pensamento. Mas essas escolas de pensamento existem e continuam sendo praticadas pelos seus proponentes e defensores, pois é mais fácil, acessível e superficial. É a tendência dominante no mundo do racionalismo (política, ciência, negócios, etc). Ao contrário da educação iniciática, que é complexa, desgarrada dos objetivos materiais e, por isso mesmo, espiritualmente seletiva. Só conseguem vencer as etapas seletivas os  espiritualmente mais aptos. Não é uma pedagogia e sim uma andragogia, pois caminha num sentido inverso da razão e do intelecto, embora não descarte a razão com ferramenta ou meio de compreensão de certas coisas. Mas entende primordialmente que a razão não é capaz de explicar solucionar certas equações que não são lógicas e sim psicológicas; metafísicas e  não físicas. Por isso tais escolas muitas vezes são frequentadas por pessoas simples, sem bases intelectuais, que vencem suas etapas ou provas, enquanto pessoa intelectualizadas naufragam nos mesmos processos. Muito curioso e difícil de aceitar isso, do ponto de vista somente da razão.

Alguns confrades mais insatisfeitos com essa questão do entendimento e da compreensão, entendem que o Espiritismo não tem nenhuma relação com a religião e com o cristianismo, reivindicando uma educação "pura" ou simplesmente "kardecista". Com isso, ao invés de apenas agir dentro das suas concepções, atacam violentamente, com posturas sectárias, os que não pensam como eles. 

Pensar assim é, até certo ponto, normal e representa  a opinião, pois isso reflete uma tendência ou visão pessoal desses companheiros ou grupos sobre a doutrina. O problema surge quando alguns deles, mais inconformados e intolerantes,  querem impor esse ponto de vista, principalmente quando percebem que são minoria e que tal pensamento não encontra muito eco tanto entre os espíritas tradicionais quanto naqueles mais novos que buscam as casas espíritas para aprender seus princípios.

De certa forma são até úteis aos conservadores, pois, com tanta insistência e radicalismo, se mostram inconvenientes, perturbados e não dignos de confiança.

Uma pena!
 

Discurso I


Quem se importa com as nossas diferenças ou semelhanças?
Espiritismo de cabeça e de boca não muda a realidade pessoal nem a social. Os únicos espíritas que são reconhecidos pela sociedade são os servidores, aqueles que empreendem ações transformadoras, em todos os aspectos possíveis e deixam marcadas as suas obras influentes e inesquecíveis. De resto somos apenas os servidos, consumidores, faladores, quase sempre de cabeça confusa, corações enganados, de mãos vazias e muito tempo perdido.
Kardecismo, a nosso ver, é espírito de seita, exclusivismo, sectarismo, personalismo e, acima de tudo, deserção.
Todos os espíritas que não conseguem mudar a si mesmos querem mudar o Espiritismo, dizia Herculano Pires, sobre o pensamento "atualizador" .
Até Kardec deixou sua marca pessoal sobre a Doutrina, mas deixou claro que era sua visão e não a do Espiritismo.
Também não gostamos do movimento espírita e das suas futricas políticas - como sempre vazias e sem obras - mas não o confundimos jamais com o Espiritismo, mesmo porque esse movimento é humano, transitório e apenas reflete os nossos conflitos e incertezas pessoais.
 

Discurso II

Os espíritas não precisam reinventar a roda para atuar na sociedade.
 
Nesses anos todos aprendemos a andar com nossas próprias pernas e também utilizamos um infinidade de rodas como extensão dos nossos membros de locomoção, isto é, técnicas, métodos, procedimentos, regras, cada qual dentro do seu espaço e das suas formas próprias de ensinar e aprender.
Só dois tipos de pessoas não se conformam com essa realidade e querem, a todo custo, muda-la: os que desejam o poder e somente o poder nas instituições; e os entusiasmados, como fogo de palha, que não querendo mudar a si mesmos, querem mudar o Espiritismo.
Esses dois tipos formam ainda um terceiro grupos de pessoas: os desertores.
 

sábado, 4 de janeiro de 2014

Espiritismo e cultos afro-indígenas: continuamos iguais nas diferenças


 A doutrina espírita continua sendo um influente neutralizador de dogmas e superstições

 
As diferenças de ideias e práticas entre Espiritismo e religiões afro-indígenas são históricas e não apenas conceituais. Mesmo que haja um diálogo de conhecimentos e convívio social, as diferenças persistem nas atividades particulares de cada uma das agremiações, não como intransigência conflituosa e sim como reflexo da diversidade cultural e de objetivos dos seus adeptos.

Há uma disputa ou competição entre essas duas correntes?

Existe, sim, não por parte dos espíritas, mas geralmente de alguns segmentos que não são espíritas, porém se utilizam de práticas espíritas como conhecimento e também como legitimação e aceitação social.  Há atualmente grupos não espíritas que se valem dos conhecimentos espíritas para melhorar suas práticas mediúnicas e doutrinárias, porém não se sentem ameaçados ou diminuídos, nem demonstram qualquer sentimento de antipatia e hostilidade competitiva para com o movimento e a identidade espíritas. O que percebemos também é que existe uma tentativa forçada de equalização de conceitos e práticas, bem como ressentimentos da parte dos praticantes de cultos afro-indígenas, atribuídos à não aceitação por parte dos espíritas de suas práticas e manifestações no ambiente espírita.

Ainda persiste, em diversos segmentos afro-indígenas, um certo sentimento de animosidade e rancor para com a Doutrina Espírita. Isso não vem somente das concepções doutrinárias em si, mas das pessoas, encarnadas e desencarnadas, que compõem tais agremiações.  A fundação da umbanda, bem como uso do candomblé como oposição ideológica ao Espiritismo não foi uma simples contraposição teórica ou doutrinária. Surgiu de conflitos sobre as diferenças de práticas, segundo relatam os próprios  historiadores desses segmentos, mas também estimulada como confronto por algumas inteligências do Além ainda marcadas pelas recentes mágoas da escravidão imposta pelos europeus sobre os africanos e indígenas;  funda-se talvez  também  na antiquíssima ideologia das raças, uma rivalidade entre a raça negra, dominante nas primeiras eras da Humanidade, pela força da paixão e pela imposição do medo, contra a raça branca, que se impôs pelo espírito de autonomia e racionalidade diante dos seus adversários naturais. Essas linhas e tendências também seguem o perfil e as características das faixas vibratórias ou círculos espirituais onde habitam e atuam essas entidades. Aí, sim, identificamos diferenças de superioridade ou inferioridade segundo os princípios da hierarquia ou categoria dos espíritos definida por Allan Kardec. Sem esse conhecimento é praticamente impossível tocar no assunto das nossas diferenças e semelhanças.

Quanto aos conflitos e rivalidade, devemos lembrar que nem a mistura de raças e costumes, nem as iniciativas pacificadoras de confraternização conseguiram diluir os efeitos desse choque primitivo, muito por causa da sucessão de atos vingativos e reações violentas entre esses espíritos mais antigos e seus descendentes, pelas tramas espirituais que se construíram entre eles.

Historicamente a grande e longa Era que hoje governa o mundo, depois da revolução agrícola, ainda é o da indústria, da ciência experimental e aplicativa, do território mercadológico, que pertence à etnia branca e as demais etnias que se adaptaram ao seu modo de vida capitalista.  Etnias que se degeneraram ou marginalizaram-se nesse contexto, incluindo alguns povos semitas da região da Mesopotâmia e da Índia, não conseguiram se firmar diante da civilização tecnológica. O compromisso dos ingleses em extinguir a escravidão pelo liberalismo não foi suficiente para evitar novos confrontos e abusos de poder. 

Em muitos núcleos, brancos e negros confraternizaram e trocaram experiências, sobretudo de conhecimentos espirituais; noutros predominou a troca de farpas e arrogâncias. Poucos sabem que até mesmo a figura simbólica e diabólica de Satanás, ora como entidade negra brotada das florestas e desertos, ora como entidade branca caída dos céus, foi um milenar jogo de provocações entre essas duas tendências etnológicas. Ambas tentando, pelo maniqueísmo, mostrar quem era do Bem ou do Mal, etnicamente puras ou impuras.  Tanto a etnia negra como a etnia branca eram puras nas suas origens, assim como amarelos e vermelhos. O que desfez essa pureza cultural foram os embates bélicos e os sucessivos erros de escolha de caminhos e destinos feitos pelos líderes dessas coletividades, dominados pelo personalismo ou pela vingança.

Quando o Espiritismo surgiu na Europa no século XIX, como força intelectual científica, a expor, revelar e explicar os fenômenos tidos como sobrenaturais, em busca de uma síntese comum, imediatamente surgiu a reação das forças opositoras, juntamente com as igrejas, tanto dos ocultistas brancos das tradições místicas exclusivistas da Europa, como também dos negros, por meio dos seus descentes nas colônias da América. Para eles o Espiritismo surge como neutralizador de dogmas e meias verdades, diminuindo significativamente o poder social dos magos e sacerdotes.

No Brasil o confronto não foi diferente e partiu do ressentimento dos núcleos espirituais primitivos com esse espírito passional e vingativo, alegando discriminação e preconceitos contra seus filhos. Assim nasceu a umbanda, miscigenada e mesclada; e assim ainda se afirma o candomblé em sua originalidade africana; ambas ainda muito envolvidas pelo sincretismo com as práticas ritualísticas católicas. Isso em nada as desabona, pois muitos candidatos a espíritas ainda se sentem fascinados pelas seduções místicas dos cultos dogmáticos tentando dar ao espiritismo algumas marcas das suas antigas crenças, inclusive pela via mediúnica.

E ainda é assim, para nós espíritas, espiritismo, umbanda e candomblé são coisas bem distintas entre si, embora isso ainda cause intranquilidade e confusão entre seus usuários e praticantes que não conhecem nem reconhecem autenticamente suas respectivas doutrinas e culturas. O embate entre a passionalidade e racionalidade não significa superioridade ou inferioridade entre elas, mas somente a imposição das marcas mais profundas de personalidade de cada uma. Nossas escolhas devem respeitar a existência, a diferença e a convivência desses princípios.

O povo brasileiro, ainda desinformado e pouco afeito ao estudo e à disciplina, sofre com essa diversidade quando quer escolher um caminho espiritual e servir seus semelhantes. Mas também, na sua ingenuidade e malícia, se aproveita disso para exercer sua mais espontânea falta de responsabilidade e compromisso, querendo apenas ser servido, em qualquer espaço sagrado onde lhe é permitido entrar e obter sua satisfação mística, bem como o conforto da esperança.

 Fazer o quê, senão acolher e tentar educar.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Edelso Junior veio reconhecer o Observador Espírita


No domingo passado (8) recebemos a visita do documentarista e escritor Edelso Junior, para um bate-papo sobre diversos temas do Espiritismo e do nosso movimento, tudo gravado em vídeo para ser exibido no Youtube e blog Cultura Espírita, em breve. Num próximo encontro, segundo ele, só vamos falar de História e produção historiográfica.

Trechos da entrevista: http://www.youtube.com/watch?v=3Y8woEGrzsw

http://culturaespirita.wordpress.com/

Ps. Edelso veio acompanhado da patroa e também do futuro diretor de arte da Edel Filmes, que está quase para renascer.


Sim, somos todos médiuns

 
A mediunidade como habilidade é comum nos seres humanos e espontânea nos animais.

A mediação é natural por causa da diversidade de planos e dimensões no Universo, todo interconectado pelas formas, leis e pela inteligência dos seres.

Na experiência humana essa potencialidade se desenvolve de acordo com a capacidade e necessidade de cada portador como um potencial específico de cada um.

Dessas habilidades surgem as competências mediúnicas, fruto das experiências e marcas individuais, naturalmente ou em função das provas e missões dos que vão atuar nos diversos cenários. Isso não ocorre somente em núcleos filosófico-religiosos, mas em todos os ambientes onde a inteligência vai desafiar o fenômeno e o novo: nas artes, na ciência, na política, na educação, etc.

No mundo espiritual ou astral a mediunidade também se manifesta ou é exercida para a intercomunicação com os planos e dimensões superiores e inferiores.

Sim, somos todos médiuns, em potencial.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Os mortos e os vivos


Os seres humanos, sobretudo os brasileiros, têm um temperamento místico, herdado dos nossos antepassados, e que nos faz ver as manifestações espíritas ainda pelo olho do sobrenatural, o eterno jogo entre mortos e vivos explorados pelas religiões primitivas. Mesmo os espíritas ainda são muito supersticiosos e pensam que todos os espíritos são superiores e sábios, capazes de resolver todos os problemas e dificuldades. Esquecem que a maioria dessas entidades que muito insistem em se comunicar conosco também são seres falidos e carentes, que trabalham intensamente para recuperar o tempo perdido nas encarnações nas quais falharam. Muitos deles desconhecem os mecanismos mais simples da evolução e, apesar da boa vontade, não possuem condições de orientar e instruir os encarnados. Outros tantos, ainda perdidos no personalismo e na confusão psíquica, querem se fazer passar por orientadores e mestres, solucionadores de obstáculos que nem eles seriam capazes de remover se estivessem encarnados. Nesse aspecto, muitos de nós estão em posição superior a eles, pois estamos no campo real de testes da carne somos portadores de ferramentas educativas muito mais eficientes na oficina da prova diária. É preciso saber quem realmente são os mortos e os vivos nessa história. Tudo indica que os Espíritos Superiores verdadeiros já fizeram a sua parte e agora cabe à nós, em posse do conhecimento já publicado e transmitido, colocar em prática por meios próprios o que há muito já foi ensinado. Todo o resto nos parece perfeitamente dispensável, pois é redundância e repetição.

sábado, 23 de novembro de 2013

Manifestações étnicas nas casas espíritas: conceitos e preconceitos


Esse problema nunca teve como causa os espíritos e sim os médiuns. Isso é sintomático. Quase sempre.

Espíritos que não respeitam a cultura dos locais onde se manifestam geralmente viram alvos de desconfiança.

As entidades étnicas realmente sábias e humildes não fazem questão de se manifestarem verbalmente ou impor suas crenças em ambientes onde não há rituais e práticas dogmáticas. As entidades africanas, indígenas, hindus, chinesas, etc, que são autênticas e superiores, sempre atuam de forma discreta e competente em todos os ambientes. São falanges muito disciplinadas, verdadeiras fraternidades, de comportamento humanitário exemplar, como confirmam videntes confiáveis em narrativas muito curiosas sobre essas atividades. Jamais quebram os protocolos morais e habituais do cenário onde atuam. Isso é questão de honra para eles.

Quando acontece alguma manifestação fora desses padrões conhecidos, realmente é necessário questionar e até impedir, caso haja insistência. Isso não é preconceito nem discriminação. Discriminação é tratar os iguais de forma diferente.

Espiritismo, Umbamba , Catolicismo e Candomblé são coisas diferentes. É conceito, procedimento e prática doutrinária construída historicamente nas lides espíritas e que não podem ser desprezadas à titulo de discursos pseudo-progressistas. Padres, monges, gurus e outros tipos sacerdotais receberiam o mesmo tratamento de impedimento , caso insistissem em aplicar suas práticas e ideias em ambientes espíritas.

Mesmo que aja acusação de preconceito e reação de rebeldia, como forma de assustar os presentes e confundir os trabalhos, deve-se proceder de forma doutrinária: lembrar que as casas espíritas não possuem rituais, dogmas, fórmulas, etc, e que o respeito é primordial para a convivência e o equilíbrio nas relações entre encarnados e desencarnados.

A recíproca é verdadeira. As entidades não étnicas que queiram atuar em ambientes ritualísticos devem ser discretas, autênticas e respeitosas, pois seria muito estranho se resolvessem mostrar aquilo que não são.

Lembrando: espíritos rebeldes são mais fáceis de lidar e conviver do que com médiuns sem conhecimento e indisciplinados.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Vinícius, o poeta que cantou as dores da solidão e do suicídio




Falando em amizade e compaixão, ninguém melhor do que Vinícius de Moraes, intérprete da alma humana e praticante da boa camaradagem, para definir como isso funciona na prática e como dimensionar o valor de uma amizade para quem está diante dessa possibilidade de tirar a própria vida.  Sozinho ele sempre demonstrou uma intensa necessidade em definir a tristeza e a solidão, males que certamente levam os mais fracos ao suicídio: 
 
Bom dia, amigo/Que a paz seja contigo/ Eu vim somente dizer/ Que eu te amo tanto/Que vou morrer/ Amigo... adeus... 
 
 Com o seu parceiro Toquinho, com quem formou uma das duplas mais conhecidas da música popular brasileira dos anos 70 e 80, cantou as mais interessantes emoções dessas duas experiências, com muitos sucessos e poucas músicas desconhecidas do grande público. Entre essas últimas constava do repertório deles o samba Um Homem chamado Alfredo, talvez o único do gênero que fala de maneira sincera e comovente sobre suicídio. Ele sabia falar dessas coisas dolorosas da vida de uma maneira muito especial, como fez em Gente Humilde.  Mas numa letra em que fala do vizinho Alfredo (vizinho de todos nós), ele se superou e foi a fundo, tão fundo que ao ouvirmos o relato também dá na gente uma enorme “vontade de chorar”. O samba começa indo direto ao ponto, sem rodeios e pudores:

“O meu vizinho do lado se matou de solidão /Ligou o gás, o coitado, último gás do bujão/Porque ninguém o queria, ninguém lhe dava atenção/ Porque ninguém mais lhe abria as portas do coração/Levou com ele seu louro e um gato de estimação” 


E no verso seguinte - Ah! Quanta gente sozinha...  - o poeta lamenta que não era apenas o Alfredo o qual sofria desse mal, mas também as multidões de gente triste, solitária e desesperada, gente simples e anônima, gente importante e famosa. É verdade, gente famosa, gente que a “gente que gente nem imagina”, a maioria artistas desiludidos e cansados da objetividade e mesmice da vida exterior, também se mata como o desconhecido Alfredo. 

Como Vai Você? – CVV, 50 anos ouvindo pessoas. Dalmo Duque dos Santos.  Editora Aliança


terça-feira, 2 de julho de 2013

Servidos e servidores


O companheiro Wanderley Oliveira fez o seguinte questionamento no Facebook sobre esse antigo problema do Movimento Espírita. O QUE ESTÁ ACONTECENDO COM AS ORGANIZAÇÕES ESPÍRITAS? É impressionante a quantidade de relatos que recebo por email ou mesmo em conversas sobre pessoas que estão se desligando do espiritismo ou do centro espírita, e buscando novas experiências espiritualistas. Independente das razões que podem ser exclusivamente de ordem pessoal, ninguém pode negar que o modelo institucional de expressiva parcela das organizações espíritas é no mínimo desanimador. As pessoas estão buscando esclarecimento e muitas vezes encontram soberba intelectual. Querem respostas e muitas vezes são convidadas a se calar. Querem esperança e afeto e muitas vezes se deparam com descortesia e até abuso. Isso cansa a quem está começando, mas desgasta também quem persevera no tempo em busca de melhorar as situações. E de forma muito sutil vai se instalando um desencanto, uma desilusão. Tem muita gente cansando dessa mesmice.

 O que você acha que nossas organizações necessitam para mudar esse quadro? Como podemos cooperar para mudar isso?

 E comentamos:

Wanderley, esses insatisfeitos geralmente são líderes com energia empreendedora reprimida.  Aproximam-se dos centros espíritas como quaisquer outros consumidores de ajuda espiritual e, quando constatam que devem reassumir as rédeas dos seus destinos, passam a exteriorizar esses conflitos em forma de provocações e críticas.

Alguns dirigentes mais habilidosos percebem esse fato, outros não. Os que percebem tratam logo de redirecionar o problema fundando e encaminhando-os para outros núcleos, gerando novas oportunidades. Os que não percebem, simplesmente alimentam o conflito e repelem os mesmos.

No mais, os outros insatisfeitos são todos aqueles que realmente não possuem afinidade mais profunda com a Doutrina, não querem compromisso com as raízes e disciplinas da Codificação e, como não podem mudar a si mesmos, querem mudar o Espiritismo.
Isso é histórico e cíclico. Veja o que aconteceu, por exemplo, com os místicos e científicos, no final do século XIX;  com os umbandistas na década de 1930; com os psicologistas transpessoais nos anos 70; com os artistas pintores e alguns escritores nos anos 80; com os projeciologistas nos anos 90; e agora com os terapeutas alternativos, esoteristas e neo-africanistas.

Ora, cada um nos respectivos seus quadrados, triângulos, retângulos e círculos. Todos muitos felizes e produtivos. Espero.
"Nesse mundo existem dois tipos de pessoas: o que vivem para servir e os que ainda precisam ser servidos" -Huberto Rohden


quinta-feira, 16 de maio de 2013

Família espiritual


Eis algumas questões que respondemos para uma publicação espírita sobre esse tema:
 
- Pelo seu entendimento, existe a família espiritual?
 Não no sentido humano, de sangue ou parentesco genético. Família espiritual é apenas uma analogia criada para explicar como funcionam as leis de afinidades que aproximam os espíritos e fazem com que eles desenvolvam relações pessoais,  de compromisso e reciprocidade. Essas afinidades, as quais estão incluídas todas as atividades e ações humanas geram relações espontâneas ou de causa e efeito entre os seres encarnados e desencarnados. Sexo, conflitos e circunstâncias são as principais causas da formação das chamadas famílias espirituais, ou seja, espíritos que se atraem por afinidade ou compromissos  e que passam a compartilhar sucessivas experiências de evolução. Não existe, portanto, propriamente uma família espiritual, mas uma coletividade de espíritos afins.
 
- Parte da minha família espiritual pode estar hoje encarnada, como eu? Mesmo que morem geograficamente muito longe, poderiam ter sensações parecidas com a minha em determinados momentos (sintonia)?
 As afinidades e ligações mentais (afetivas ou repulsivas) desenvolvidas no decorrer das encarnações ou então na erraticidade podem gerar esse fenômeno de pecepção. Não se trata de família, mas de afinidade ou sintonia mental.
- A minha família espiritual é sempre a mesma? Ela vai "agregando" gente com o tempo?
 A lei de afinidade é a mesma para todos os seres. Aproximação ou distanciamento depende das experiências realizadas, bem como  as  necessidades atuais e futuras.
- Ocorre de eu reencarnar junto com pessoas da minha família espiritual? Ou isso é mais incomum? E se ocorre, com qual objetivo, normalmente?!?
 A reencarnação sempre obedece às leis de afinidade e seus derivados, já descritos.  O espírito reencarna onde  quer , desde que haja essa possibilidade ou facilidade  de sintonia com o ser que vai desenvolver seu corpo. É claro que é mais fácil  uma aproximação com espíritos amigos e afins. Mesmo nos casos de expiações, o processo é regulado pela afinidade ou necessidade do reencarnante e também de quem está recebendo esse espírito  na condição de genitores ou educadores.
- Pode ocorrer de na minha família material ter espíritos que são da minha família espiritual? Ou isso é menos comum??? É possível eu ter um filho, por exemplo, que seja da minha família espiritual?? Ou uma mãe, um pai, um irmão??
É obvio que as pessoas que encarnam entre nós tenham afinidade ou compromisso de reciprocidade, para se efetivar a evolução. Espíritos estranhos não se aproximam espontaneamente.
- Na prática... o que significa a "família espiritual"? é igual à família da Terra?
 Simbologia ou metáfora das leis de afinidades, naturais ou morais: causa e efeito, justiça, amor, evolução, etc. Família da Terra nada mais é do que um reflexo das leis naturais.
- É de lá que viemos? é para lá que voltaremos?
  Lá e cá são apenas diferente mundos ou moradas.  Os mundos ou  esferas, independente da natureza da qual eles são formados ( matéria densa ou energia menos condensada), são todos campos de Vida e manifestação. Lá e cá são referência relativas para espíritos que transitam entre a erraticidade  e as encarnações em mundo físicos.  Um mundo materializado acolhe espíritos nessa condição e a mesma regra funciona para os espíritos mais purificados ou menos materializados.
- Como a família espiritual se forma? ela se modifica com o tempo?
 Afinidade e reciprocidade. Se modifica constantemente pois a vida espiritual e psíquica é dinâmica e exige mudanças evolutivas.
- As pessoas com quem vivemos na Terra passam a fazer parte da família espiritual?
Sim, temos com elas afinidades e compromissos recíprocos.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O sucessor de Pedro e as meias verdades

 

O cargo de Pontifex Máximus está vago. Bento XVI anunciou sua renúncia como suposto sucessor de São Pedro.

O pontifex era uma magistratura sacerdotal romana criada séculos antes do cristianismo e que se dedicava aos rituais de Estado. Júlio César foi um deles (a César o que é de César).

Para a Igreja institucional a adaptação foi perfeita, pois ela seria tudo aquilo que Jesus sempre repudiou: política e meias verdades.

Para Pedro, símbolo moral da igreja espiritual, esse cargo que ele nunca exerceu e certamente também repudiaria, é uma ofensa à Jesus, à sua proposta de humildade e opção pelos pobres e oprimidos. Pedro nunca foi papa e não há provas históricas disso. Seria incompatível com essa doutrina de dogmas e rituais do paganismo.

Tudo que vai contra à sua política e as meias verdades, a Igreja logo trata de punir e extirpar dos seus quadros. Francisco de Assis foi um exemplo disso. Foi enviado pelo Plano Espiritual Superior para neutralizar os abusos e desvios do clero e foi seriamente perseguido. As tentativas de renovação foram inúmeras, mas o poder clerical é sempre mais forte do que a fé e a humildade.

Sempre pegaram no pé o Espiritismo, desde o início, porque sentiram que a coisa era séria e poderia abalar definitivamente os alicerces frágeis do catolicismo. Kardec logo foi vítima da Inquisição e seus livros foram queimados na Espanha, principal reduto obscuro da Igreja corrompida.

Mas não adianta, a fé a Verdade se farão nos quatro cantos do mundo, queiram ou não queiram os homens.


Eis a mensagem que Kardec recebeu dos seus orientadores sobre esse assunto:


A Igreja

PARIS, 30 DE SETEMBRO DE 1863.

(Méd. sr. d’A...)

Eis-te de retorno, meu amigo, e não perdeste o teu tempo; à obra ainda, porque não é preciso queimar a bigorna. Forja, forja armas bem temperadas; repousa de teus trabalhos por trabalhos mais difíceis; todos os elementos ser-te-ão colocados nas mãos, na medida da necessidade.
É chegada a hora em que a Igreja deverá prestar conta do depósito que lhe foi confiado, da maneira pela qual praticou os ensinamentos do Cristo, do uso que fez de sua autoridade, enfim, do estado de incredulidade ao qual conduziu os espíritos; é chegada a hora em que ela deverá dar a César o que é de César e incorrer na responsabilidade de todos os seus atos. Deus a julgou, e a reconheceu imprópria, doravante, para a missão de progresso que incumbe a toda autoridade espiritual. Não seria senão por uma transformação absoluta que poderia viver; ela, porém se resignará a essa transformação? Não, porque então não seria mais a Igreja; para se assimilar as verdades e as descobertas da ciência, seria necessário renunciar aos dogmas que lhe servem de fundamento; para retornar à prática rigorosa dos preceitos do Evangelho, ser-lhe-ia necessário renunciar ao poder, à dominação, trocar o fausto e a púrpura pela simplicidade e a humildade apostólicas. Está entre duas alternativas; se ela se transforma, se suicida; se permanece estacionária, sucumbe sob a opressão do progresso.
De resto, já Roma está na ansiedade, e sabe-se, na Vida Eterna, pelas revelações irrecusáveis, que a Doutrina Espírita está chamada a causar uma viva dor ao papado, porque o Cisma se prepara rigorosamente na Itália. Não é preciso, pois, admirar-se da obstinação que o clero põe para combater o Espiritismo, sendo a isso levado pelo instinto de conservação; mas já viu as suas armas se enfraquecerem contra esse poder nascente; os seus argumentos não puderam ter a inflexível lógica; não lhe resta senão o demônio; é um pobre auxiliar no século XIX.
De resto, a luta está aberta entre a Igreja e o progresso, mais do que entre ela e o Espiritismo; é o progresso geral das idéias que lhe rebate os argumentos de todos os lados, e sob o qual sucumbirá, como tudo o que não se coloca em seu nível. A marcha rápida das coisas deve vos fazer pressentir que o desfecho não se fará esperar por muito tempo; a própria Igreja parece impelida fatalmente para o precipício. (Espírito d’E.)
 

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Assim é que se faz

Espíritas não terão aula de ensino religioso

Conselho alega que divulgação de conhecimentos sobre o credo deve ser gratuita, sem pagamento de professores.

O GLOBO:27/06/12



RIO - Os estudantes espíritas das 80 escolas municipais que começarão a ter aulas de ensino religioso a partir do segundo semestre não terão a disciplina de seu credo. O Conselho Espírita do Estado do Rio deliberou por não aderir ao projeto da prefeitura de implementação da modalidade confessional nas salas de aula. A Secretaria municipal de Educação confirmou que as dez vagas reservadas no concurso para professores foram abolidas.

— Há um movimento espírita organizado, que foi procurado pela prefeitura. No conselho, reforçamos a posição de que todo o nosso trabalho é gratuito. Dentro dessa visão, não há sentido pagar para que professores deem aula da religião nas escolas municipais. Temos mais de 700 casas espíritas no Rio. Qualquer pessoa que se interessar, pode visitar uma delas, e aprender os conhecimentos gratuitamente — destacou Cristina Brito, diretora de relações externas do Conselho Espírita do Rio.

A posição da entidade segue a mesma linha tomada após a publicação, em 2000, de uma lei do deputado Carlos Dias, sancionada pelo então governador Anthony Garotinho, que criou a disciplina de ensino religioso também da modalidade confessional, voltada para cada credo, na rede estadual. Um documento divulgado em 2002, disponível na internet, afirma que “cabe indiscutivelmente à família a formação religiosa dos filhos, por não ser função da escola”.

Outro trecho do documento diz que “o confessionalismo religioso nas escolas não é recomendável pois, embora seja tal ensino facultativo ao aluno, sua inclusão legal em carga horária curricular poderá acender atavismos (reaparecimento de um caráter presente em ascendentes remotos) segregadores do ódio entre religiões que tanto já fizeram sofrer a humanidade”.

Disciplina será oferecida a alunos do 4º ano

Com a exclusão dos dez docentes espíritas, passam a ser 90 professores a darem aulas a partir do segundo semestre nas 80 escolas: 45 católicos, 35 evangélicos e dez de religiões afro-brasileiras. Ao contrário do que havia divulgado na semana passada, a Secretaria de Educação afirmou que serão estudantes do 4º ano do ensino fundamental os primeiros a serem contemplados com uma aula por semana da disciplina. A informação anterior era de que seriam crianças do 1º ao 3º ano do fundamental.

Apenas os alunos cujos pais deram autorização, durante a pré-matrícula, terão o ensino religioso confessional. O restante terá lições de “educação para valores” (apresentação de temas ligados à ética e à cidadania) durante o tempo vago.

A iniciativa da Secretaria de Educação é consequência de uma lei, proposta pelo próprio Executivo, aprovada em outubro do ano passado pela Câmara, e sancionada logo em seguida pelo prefeito Eduardo Paes. O texto criou a categoria de professor de ensino religioso nos quadros da rede, abrindo a possibilidade de concurso para até 600 docentes. A regra estabelece que os profissionais contratados devem ser credenciados pela autoridade religiosa competente.