Evelyn Mercer (Fionnula Flanagan) sorrindo para os filhos adotivos nos momentos mais difíceis: lembranças afetivas ou presença do Espírito?
Quatro Irmãos é um filme bastante conhecido do público, especialmente dos jovens, que enxergam nos personagens um espelho daquilo que gostariam de ser: problemáticos, cheios de conflitos, porém despojados e corajosos em suas fortes personalidades. A história de violência e riscos de se viver num subúrbio de Detroid é tão desagradável e inseguro quanto a realidade daquele ambiente urbano decadente (o frio e a neve aumenta essa impressão). Mesmo assim, ao ver uma ou duas cenas sempre dizemos pra nós mesmos: preciso ver isso até o fim. E quando vemos novamente, justificamos: quero conhecer melhor as razões de cada um dos irmãos Mercer.Por incrível que pareça o filme está repleto de espiritualidade e perspectiva humana renovadora. Nele confirmamos que, quanto pior a situação e o meio, maior é o valor e a necessidade da educação. Quatro crianças “ruins”, que não conseguiram ser encaminhadas pelo programa de inclusão, são adotadas pela própria administradora Evelyn Mercer (Fionnula Flanagan). Esta é assassinada num mercadinho de bairro e os quatros filhos voltam para o funeral e resolvem desvendar a trama que tirou a vida da única pessoa que ligou para eles desde que foram abandonados. É certo que a "moral da história" é uma apologia da vingança, mas é impossível não perceber efeito do amor em corações tão endurecidos. A trama cármica (no sentido de ação/reação e compromisso espiritual) é visível para quem tem olhos de ver. Um policial que é amigo de infância dos rapazes comenta com um colega: "Eles são péssimos, mas seriam muito piores se não tivessem convivido com ela". Toda a crueldade e frieza das cenas são esquecidas quando, nos momentos de crise pessoal, aparece a imagem de Evelyn “morta” sempre sorrindo e atenciosa, respondendo as dúvidas e incertezas dos filhos que agora são adultos. Isso ocorre graças ao trabalho inspirado dos roteiristas David Elliot e Paul Lovett e do diretor John Singleton. É comovente. Tão real e comovente que, para os espíritas, dá a impressão nítida que se trata do próprio espírito da mãe que está presente. Por que não?
O elenco: Mark Wahlberg, Tyrese Gibson, Andre Benjamin e Garrett Hedlund
O advento do Espiritismo foi anunciado com todas as características dos grandes eventos proféticos, não somente no aspecto religioso, mas sobretudo no sentido mais amplo, ou histórico. É talvez muito mais nesse sentido que Allan Kardec e os Espíritos Superiores tenham utilizado com tanta ênfase a expressão “ Os tempos são chegados”.
Observando pela ótica da grande duração temporal, a humanidade já passou por três grandes ordens ou tendências: à primeira ordem poderíamos chamar de Construção e Ilusão da Antiguidade, marcada pela transição entre a pré-história e a civilização, na qual a mente humana adquire o sentido vertical, um olhar para o tempo futuro e passa a idealizar pelos mecanismos utópicos as suas perspectivas e expectativas.
A segunda ordem poderíamos denominar como a desconstrução e desilusão da Modernidade, período do surgimento, desenvolvimento e crises sucessivas do capitalismo (mercantil, industrial e financeiro).
E finalmente a terceira ordem, que é a reconstrução e reflexão da pós-modernidade, período que agora começa a ser delineado pelos fenômenos da globalização do capital, da explosão das tecnologias digitais de informação e da revolução biogenética.
São realmente tempos cada vez mais incertos, com total ausência da estabilidade, solidez e durabilidade das coisas.
Globo.com - Atualizado em 14/06/2010 14h02 - Foto : Dário do Nordeste. Clique na imagem, a acesse o vídeo do Jornal Hoje
Um fenômeno espiritual ou um surto psicótico?
Os estudantes de uma escola do Ceará dizem que viram o espírito de um ex-aluno e que até conversaram com ele.
Os jovens, que são de turmas diferentes, entraram numa espécie de transe coletivo e foram socorridos na emergência de um hospital.
O comportamento assusta. As cenas foram registradas numa escola rural em Itatira, interior do Ceará. Desde o começo do mês, estudantes de 12 a 19 anos dizem que entram em transe durante as aulas. Elas se debatem, desmaiam e dizem que acabaram de ver o espírito de um ex-aluno que morreu há sete anos.
“É moreno, alto, a calça dele é azul. Ele fala com a gente. Dá uma dor de cabeça bem forte, daí a gente vê um bocado de colegas caindo, a gente se sente pesada e desmaia”, conta Beatriz da Silva Nascimento, estudante.
Após os episódios, as estudantes foram levadas para a emergência de um hospital. Em um dia 25 alunas foram atendidas. “Chegaram com um quadro de histeria, basicamente, gritando, se debatendo, exibindo um grau de agressividade”, revela o médico Pedro Thiago da Frota. Alunos e professores se recusam a voltar para a escola e as aulas foram suspensas. O padre, que também é parapsicólogo, fez uma palestra para explicar aos alunos o que vem acontecendo. Para ele o fenômeno nada mais é do que uma histeria coletiva. “De repente uma surtou. Quando uma surta, isso contagia as outras garotas. O que se passou com estas sete jovens que eu tive acompanhando pessoalmente foi nada mais do que um fenômeno emocional”, garante Hélio Correia de Freitas. A histeria coletiva tem uma explicação científica. “Estes fenômenos acontecem em contextos onde tem muita tensão, muita preocupação, muito sentimento não-verbalizado. Aquilo que é crença, já em um estado de tensão muito forte, ela incorpora aquilo e ela faz parte da história, ela se inclui na história”, explica Adalberto Barreto, psiquiatra. Nosso comentário:
A história se repete ou aquilo que não foi resolvido retorna em circunstâncias muitos semelhantes?
Outro detalhe curioso da história: o clero local (religioso e profissional) parece já ter se apropriado do fato e das interpretações dessa estranha realidade, não para os espíritas é claro. Estas assumem um discurso pseud0-científico autorizado, bem ao caráter de "autoridade oficial estabelecida".
Quando interessa ao dogmatismo das igrejas, trata-se de milagre; quando não interessa, é histeria coletiva, já que o velho argumento demoníaco está cada vez mais desgastado. Curioso observar que as meninas são mais vulneráveis ao fenômeno. Seria apenas vulnerabilidade emocional ?
PS.
É interessante recordar que, sempre que esse tipo de fenômeno ocorre, atingindo grande número de pessoas com mediunidade tarefa, é possível que seja um sinal precursor de que o Plano Espiritual está preparando algo mais abrangente para o futuro. Como sempre, a tradição religiosa e o conservadorismo dos "sábios" , agem como inimigos e tentam de todas as formas esconder e abortar a Verdade. Mas história ensina também que todo esse esforço é inútil, pois trata-se de uma Vontade Maior, maior que a vaidade e os interesses do homens.
"Vocês estão de volta, todos vocês, pois a África é o berço da Humanidade. Sejam bem-vindos, vocês, francesses, alemães... todos estão em casa". – Desmond Tutu, Prêmio Nobel da Paz, na abertura da Copa do Mundo 2010.
Preguiça de levantar cedo, preguiça de escovar os dentes, preguiça de trabalhar, preguiça de trocar de roupa, preguiça de tomar banho, preguiça de se enxugar, preguiça de se arrumar, preguiça de se vestir bem, preguiça de ir à escola, preguiça de assistir aula, preguiça de ler, preguiça de escrever, preguiça de estudar , preguiça de limpar a casa, preguiça de fazer comida, preguiça de arrumar a cozinha, preguiça de lavar roupa, de lavar o banheiro, então, nem pensar... Preguiça de pagar as contas, preguiça de ir, preguiça de voltar. E na hora de dormir, preguiça até de rezar...
Ai, que preguiça!
Se toda ruindade do mundo fosse a preguiça o mundo não estaria tão ruim como está.
É que a preguiça a gente enfrenta com um arrepio e espanta com uma espreguiçada, que é a melhor maneira de começar a fazer o que deve ser feito. Por isso, preguiça não é defeito. É, na linguagem religiosa, um pecado que pode ser purgado. É, no máximo, um vício. E o vício é mais fácil ser abandonado, assim como foi fácil ser adquirido. Já o defeito, que é uma marca moral herdada do passado e encravada no caráter, é mais difícil de ser mudado. Os defeitos são carregados de sentimentos muito profundos, recalcados.
Vovó sempre dizia: “Todo preguiçoso é nervoso”. Por isso, pior do que ser preguiçoso é ser ruim e maldoso. Quem assim fica perde o alegre sorriso da malícia (maldade espontânea, sem graves consequências) e torna-se irônico (maldade planejada, criada para magoar e ferir). Aí, então, a preguiça também vira mau hábito e porta escancarada para os defeitos: a inveja, a despeita, a negatividade, a agressividade e a defensiva, a arrogância, enfim a má educação e o mau exemplo.
Já reparou que gente com preguiça não é tão desagradável como gente antipática e mal educada.
Ai, que coisa ruim !
Dizem que a maioria dos brasileiros carrega a preguiça no sangue e no hábito, mas esses mesmos brasileiros são pessoas de uma gentileza surpreendente e de uma cordialidade que impressiona e abala os corações mais frios e os temperamentos mais sisudos.
É certo que a preguiça não é uma virtude, nem deve ser motivo de apologia. Para quem tem preguiça de consultar o dicionário, quer dizer que não se deve fazer propaganda desse mau hábito.
Mas sobre a maldade, é bem melhor a gente mudar de assunto.
Essa fotografia de Jim Richardson, famoso editor da National Geographic Magazine, nos remeteu imediatamente a pensar em O Livro dos Espíritos e também no antigo Livro dos Mortos, dos egípcios, o qual provavelmente inspirou Allan Kardec na escolha do título da sua principal obra.
Daí, pensar neste ensaio publicitário foi naturalmente o nosso próximo passo.
Talvez, mais adiante, publicaremos algumas variações sobre o mesmo tema.
Reparando bem as imagens sobre as Escolas de Aprendizes do Evangelho, publicadas na postagem sobre os 60 anos da instituição educativa, elas revelam um detalhe que sempre nos chama atenção: a presença numerosa e em maioria das mulheres como membros das turmas e, consequentemente, de formandos e ingressantes na FDJ.
Não é uma simples coincidência.
Pode haver também uma causa social para explicar essa maioria feminina, mas cremos que ela é também decorrente da causa principal que torna o sexo feminino mais interessado, presente e envolvido nesse tipo de atividade, sobretudo nas ações práticas.
Curioso lembrar que nas experiências do cristianismo primitivo as mulheres também eram maioria porque tal proposta atraia sempre mais as pessoas despojadas de preconceitos típicos das sociedades ainda muito influenciadas pelo força e pela brutalidade.
A inteligência moral feminina é claramente um fator de vantagem sobre o sexo masculino nessas questões do comportamento emocional exatamente porque esse sempre aprendeu socialmente a fazer coisas que o sexo masculino possui grande dificuldade de resolução. Por exemplo: dar um ou dois passos atrás em momentos tensos e perigosos, recuar, desarmar, se humilhar, inclusive visando avançar o dobro de passos nas situações mais propícias. Isso geralmente não é do feitio masculino.
As concessões da razão são gestos admiráveis e convenientes. Porém, as concessões do coração, como nos ensina Lázaro, no Evangelho dos Espíritos, é sempre um gesto grandioso e de ampla repercussão moral.
É claro que nas experiências das escolas iniciáticas, como é o caso da Escola de Aprendizes do Evangelho, muitos homens vencem essas barreiras morais e também muitas mulheres abandonam a lida, aguardando o momento oportuno de amadurecimento.
Mas, ainda assim, elas são maioria. Talvez porque as mulheres sempre estão mais próximas das crianças e com elas aprendem a manter a mente aberta para aprender coisas novas, a disposição para servir desinteressadamente e o coração limpo para suportar as provas mais difíceis e dolorosas.
O Jornal O Trevo , órgão mensal da Aliança Espírita Evangélica publica na sua edição do mês de maio um curioso quadro histórico comemorativo dos 60 anos da Escola de Aprendizes do Evangelho. A capa da edição trás essa foto da 1ª Turma da EAE, em 1950, tendo à frente o Comandante Edgard Armond (ao centro e de paletó claro), que se matriculou como aluno nº 1, sendo o dirigente e também expositor, ao lado de grandes ativistas da época como Canuto Abreu e Ary Lex.
A Escola de Aprendizes foi uma verdadeira revolução implantada dentro da Federação Espírita do Estado de São Paulo –FEESP e responsável pela formação de importantes lideranças do movimento espírita paulista e nacional. Na verdade, foi uma revolução no movimento espírita, pois nunca havia ocorrido uma sistematização educativa da doutrina em formato de classe e currículo. A EAE tinha como proposta essencial a formação moral dos adeptos e preparação de voluntários com verdadeiro espírito de ativismo e caridade. Como emblema idealístico, alunos e dirigentes reuniam-se sob a bandeira simbólica da Fraternidade dos Discípulos de Jesus-FDJ.
Outra proposta fundamental da EAE era a fundação de núcleos de serviços, organizados pelos próprios alunos, o que representava na prática a expansão do Espiritismo em novas frentes de trabalho voluntário (centros, creches, albergues, etc). Como extensão curricular, no 2º ano , a EAE oferecia, entre outros, um Curso para Médiuns, antigo sonho de Bezerra de Menezes, também sistematizado em processo disciplinar teórico e prático. Era o fim do autodidatismo e do individualismo doutrinário e, por outro lado, o advento do Espiritismo social.
Apesar do aspecto iniciático e seletivo do currículo, cujo sitema disciplinar causou e ainda causa uma rejeição por parte de intelectuais mais ortodoxos, a Escola de Aprendizes tem sido ao longo de seis décadas uma experiência que realmente poderíamos chamar - pelos seus frutos - de educação ou pedagogia espírita.
2009 : Cerimônia de Ingresso na FDJ – Fraternidade dos Discípulos de Jesus, na Alemanha.
2009: Turma da Escola de Aprendizes em Cuba
“A primeira aula da Escola de Aprendizes aconteceu em 6 de maio de 1950 e teve como expositor Pedro de Camargo “Vinícius”, um verdadeiro mito das palestras evangélicas. Além de Vinícius, foi escolhido a dedo um seleto grupo de expositores e futuros autores da “Iniciação Espírita”, recebendo cada um deles a incumbência de preparar um determinado assunto e também sistematizá-lo em texto de apostila. Foi assim que, no primeiro ano de funcionamento, 272 aprendizes assistiram às aulas de grandes vultos da cultura espírita da época : Silvino Canuto Abreu, Emílio Manso Vieira, Iracema Martins de Almeida, Carlos Jordão da Silva, Sérgio Valle, Júlio de Abreu Filho, Benedito Godoy Paiva, o próprio Comandante Armond e até mesmo Ary Lex, mais tarde um severo crítico desse sistema. O próprio Ary conta em suas memórias que não admitia a idéia de ficar em pé para cantar a prece dos aprendizes, permanecendo em atitude rebelde, sentado aguardando o começo da aula. Apesar das reações contrárias, a Escola tornou-se um sucesso que arrebanharia milhares de alunos nos anos seguintes, saindo dos seus bancos importantes expressões do movimento espírita atual e todo um conjunto de efeitos sociais já previstos pelo seu idealizador. Ary Lex reconheceu dessa forma o potencial social e a capacidade aglutinadora da Escola: “ Está aí o grande celeiro que abasteceu de trabalhadores, nestes 40 anos, a Casa Transitória. Foi também daí que partiu a grande maioria dos cooperadores da Área de Assistência Espiritual, onde muitas centenas militam até hoje”.
Nova História do Espiritismo –Livro VIII - Foto: Vinicius, Canuto Abreu e Ary Lex
Conheço um cara que é o melhor amigo de Jesus. Isso mesmo, de Jesus. É , Jesus mesmo, esse que todo mundo conhece e sabe que é a pessoa mais importante depois de Deus. Se bem que Deus não é propriamente um pessoa. Mesmo assim, depois de Deus vem sempre Jesus na escala de importância das pessoas mais importantes dessa região do Universo.
Então, esse meu conhecido é amigo de Jesus, amigo íntimo, de sair para fazer caminhadas, conversar, dar risadas, falar dos outros e de muitas outras coisas. Enfim, amizade mesmo.
Quando falo ninguém acredita que é verdade e sempre questionam por quê uma pessoa como Jesus poderia ter amizade ou perder tempo com alguém tão comum e que certamente não poderia acrescentar nada na experiência do Mestre. Duvidam e dão essas explicações: Jesus talvez ajude ele quando está muito necessitado, mas é só isso. Esse negócio de amizade é lenda.
Digo que não é lenda , nem fantasia . É real. Jesus vem direto procurar ele e ficam horas conversando. Teve um dia que viram os dois jogando vôlei na praia. Outro dia se divertiram à beça com um cachorrinho bassê (Daschund). O cachorrinho preto corria, corria pela praia e eles dois dando gargalhadas ao ver o animalzinho fazendo curvas a toda velocidade na areia.
Uns perguntam: mas eles conversam sobre o quê?
“Também não sei”, respondo, dizendo que talvez seja sobre coisas pessoais, confidências, sentimentos incômodos , sonhos secretos, idéias, projetos, preocupações.
Teve um dia que Jesus estava meio triste e até chorou, pois de longe deu pra ver que Ele estava enxugando as lágrimas passando os punhos nos olhos. Naquele instante vi esse colega colocando a mão no ombro D’Ele e comentando alguma coisa que não deu para saber o que era, mas que deveria ser algo como “Deixa pra lá, não fica assim não...”
Em outros momentos esse meu amigo também já foi visto lendo algumas coisas para Jesus ouvir. Eram umas coisas escritas em folhas de caderno e que Jesus ouvia atentamente e dava opiniões sobre o conteúdo, sugerindo mudanças ou elogiando os trechos que mais gostou. Ele (Jesus) também toca violão e canta muito bem. Umas canções incríveis. A preferida dele é aquela do Bob Marley, No woman, no cry. Também gosta de uma bem antiga do Herivelto Martins, Ave Maria no Morro.
O mais curioso é que depois dessas conversas Jesus anda alguns passos e sempre some. Isso intriga muito as pessoas que tem a sorte de vê-los. Uma vez o amigo me contou que os dois estavam numa lotação e, de repente, Jesus levantou para dar lugar para uma jovem grávida. A jovem se acomodou e Jesus sumiu. A maioria das pessoas que estava ali nem percebeu o ocorrido. Uma velhinha ficou olhando meio assustada, mas logo voltou ao seu mundo, com medo que pensassem que estava ficando louca.
Também já perguntei a ele o por quê dessa amizade tão próxima com Jesus. Ele me disse que a amizade surgiu espontaneamente, do nada. Estava andando pela rua e Jesus surgiu ao seu lado dizendo umas coisas meio sem sentido, como por exemplo:
“Todo mundo é tão importante quanto você”. “Olha esse monte de pessoas caminhando em busca de alguma coisa. Você não acha que elas também têm o direito de serem felizes?”. “O rapaz que esbarrou em você há cinco minutos vai morrer nos próximos dias. Está correndo atrás de uma papelada que vai deixar a esposa e o filho seguros, até que o garoto cresça e possa trabalhar”. "A menina que você viu enfiar mão na bolsa da senhora em frente ao banco não pode voltar para casa porque a mãe dela quer que ela se prostitua. Ela prefere roubar do que vender o próprio corpo. Todo dia ela fala comigo e pede para Eu dê um novo rumo para a vida dela, mas tá difícil encontrar ajuda”.
Daquele dia em diante, disse o amigo, sempre que acordo com um aperto no coração e um medo inexplicável, sei que Ele vai aparecer para falar algo que o deixa inquieto ou conversar sobre as coisas da vida. Tem dia que ele está alegre, tem dia que está triste. Nunca o vi zangado ou nervoso. Quando percebo que Ele está quase para explodir ou perder a paciência, então Ele olha diretamente para os meus olhos, como se fosse uma criança, e me faz um monte de perguntas sobre o que penso, o que sinto e o que eu faria nessa ou naquela situação.
Ele te pede conselhos? - perguntei espantado.
O amigo respondeu positivamente e disse que sempre ajuda o Mestre quando Ele está com os sentimentos confusos, mostrando quais são esses sentimentos e como reage quando isso acontece com ele.
Então é uma amizade profunda e sincera mesmo...
Mas qual a origem da amizade? Porque você?
O amigo me disse: “Já perguntei isso a Ele e me respondeu que eu era o único que estava disponível para ouví-lo num dia de muita angústia no coração. Sentiu-se tão bem com a minha atenção e o silêncio que vinha dos meus olhos que decidiu que eu seria o seu melhor amigo. Perguntou-me se eu permitiria essa escolha e eu apenas sorri. Ele entendeu e desde então somos bons amigos.
Mas é Jesus mesmo?
“Deve ser porque, sempre que tenho essa dúvida, olho para mim mesmo e vejo que sou eu quem está perguntando”.
Este ano Brasília comemora 50 anos da sua inauguração em 1960. Foi o acontecimento do século paraa arquitetura brasileira e do milênio para os habitantes do mundo astral, sobretudo os Espíritos que vivem na Metrópole do Grande Coração e na Cidade Espiritual Brasil. Foi desses dois núcleos, segundo relatos mediúnicos, que partiram a idéia e as inteligências que idealizaram, planejaram e materializaram a Nova Capital. São entidades de grande experiência social (Espíritos muito antigos), de perfil humanista, místico e universalista. Quando encarnam, manifestam em suas tarefas as vocações e habilidades de alto impacto coletivo, devido ao seu enorme potencial realizador. Não são seres iluminados, de sublimação angélica, mas espíritos humanos, práticos e generosos, depurados no curso dos séculos e sempre envolvidos em projetos sociais renovadores. Quando encarnados logo se revelam como gênios predestinados a realizar grandes mudanças. Apresentam-se comumente como "ateus" e provocadores de dogmas, mas no fundo no fundo, cultivamuma espiritualidade acima da média humana, que muitos de nós não conseguem compreender ou experimentar. Mesmo na militância política ou nas profissões públicas, não se corrompemporque sabem fazer as escolhas que os mantém nas linhas transformadoras da responsabilidade. Quando erram, assumem prontamente suas faltas como parte do risco idealístico e logo se comprometem a corrigí-las em novas empreitadas sociais. A mini-série JK, dirigida por Dênis Carvalho, captou e expressou bem essa dimensão e a trama espiritual que se ocultava por trás dos personagens e acontecimentos históricos liderados por JK e seus velhos conspiradores, agora reencarnados no papel de assessores técnicos, artistas e políticos. Ele, com suas fortes idéias utópicas, foi o principal ponto de atração, uma espécie de sol que atraia mentes e irradiava realizações. Oscar Niemeyer, juntamente com Lúcio Costa, foi uma dessas inteligências empreendedoras e relata como foi seduzido por Jk. Depois fez o mesmo em relação aos seus companheiros:
“E pra lá segui com meus colaboradores. Não pensava levar apenas arquitetos e convidei outros amigos – um médico, dois jornalistas e quatro camaradas que não cuidavam de arquitetura. Estavam sem trabalho, eram inteligentes e divertidos, e compreendi ser o momento de ajudá-los. Eu não gostaria de passar as noites de Brasília a falar de arquitetura – para mim um complemento da vida, muito mais importante que ela”.
Juscelino Kubtschek sabia que o Rio de Janeiro tinha a imagem secular de “capitalidade”, mas era apenas uma questão política. Reuniu os conspiradores em todas as áreas estratégicas e partiu para o aliciamento, sobretudo nos setores que poderiam ser mais resistentes.Queriater em pouco tempo, antes que os ventos das mudanças passassem, a capital instalada no cerrado, o novo ponto de partida da interiorização: “Quero uma capital moderna, a mais bela do mundo”, disse para Niemayer em 1957. E teve, apesar da intensa campanha contrária dos reacionários da Guanabara, comandados por Carlos Lacerda. O mais famoso arquiteto do mundo não se cansa de contar inúmeras vezes a mesma história, que não parece a mesma porque sempre dá um tom poético e místico nas suas narrativas memoriais. Lembrando o rápido e assombroso parto da cidade dos seus eterno sonhos, ele diz:
“ Tarde, uma ou duas horas da madrugada, JK nos acompanhava na saída. E aí nos retinha, empolgado com a noite de Brasília. O céu imenso, cheio de estrelas, o palácio já erguidos a se destacarem com suas formas brancas na enorme escuridão do cerrado. Mansamente, como ame dizer um segredo, JK tomava-me pelo braço: ‘Niemayer. Que beleza!’ “
O fenômeno humano e a educação, principais focos das reflexões de Huberto Rohden
O professor Huberto Rohden é conhecido de longa data dos espíritas e espiritualistas por seus textos lúcidos e admiráveis sobre a filosofia cristã. Reflexo das suas experiências no clero – Rohden era padre jesuíta – e também das inúmeras incursões nas escolas iniciáticas orientais, seu pensamento naturalmente se desdobra para a educação, campo que foi para ele o mais significativo, já que seu objetivo maior era a transposição dessas idéias para a práxis. “Ninguém educa ninguém, pois a educação é intransitiva e o ser humano é imprevisível”, repete Rohden em diversos ensaios.
Comentando a Parábola do Semeador - espelho espiritual dos educadores e pedra angular do Livre Arbítrio - Rohden diz que Jesus conseguiu educar todos os seguidores que se abriram para as novas experiências, transformando discípulos em apóstolos. Sobre essse fenômeno pedagógico, ou melhor, andragógico, ele explica que Judas, o mais intelectual dos discípulos mais próximos, foi o único que não conseguiu ser educado. Mais interessado na política judaica nacionalista, não permitiu que isso ocorresse. Jesus logo percebeu essa sua “esterilidade espiritual” ou egocêntrica, deixando que o tempo mudasse sua natureza. Paulo de Tarso teve o mesmo problema. Ambos seriam "salvos" por suas mediunidades. Cada um no seu ritmo, cada um no seu tempo.
Numa determinada época da sua militância, Rohden teve que desligar-se da Igreja e, ainda sob a proteção de amigos jesuitas, estudou em diversos países europeus e ensinou em universidades americanas. Também viajou muito pelos cenários místicos da Ásia, que sabia ser a principal raíz histórica das concepções religiosas que hoje predominam no Ocidente. Se orgulhava muito de ter convivido com Albert Einstein durante sua estadia na Universidade de Princenton, não como motivo de vaidade, mas de espanto ao constatar no dia-a-dia a genialidade e o modo de vida simples e tranquilo do grande revolucionário da Física. Todas essas experiências seriam registradas em ensaios publicados inicialmente pela Editora Vozes, de orientação católica, e depois pela sua própria organização educacional, fundada em São Paulo na década de 1950. Além dessas publicações, a Fundação Alvorada oferecia regularmente cursos aos leitores interessados no aprofundamento das idéias e práticas “univérsicas”, um interessante conjunto de conhecimentos unindo a tradição espiritual e a modernidade científica contemporânea.
Sabe-se que o célebre filósofo catarinense teve grande influência do também padre jesuíta Pierre Teilhard Chardin que – como ele – extrapolou os limites da clericalidade conservadora para mergulhar nas novidades antropológicas da paleontologia. Chardin buscava Adão e Eva fora da teoria mitológica da Bíblia e também da simplificação zoológica evolucionista. Ambos naturalmente caíram na heresia e isso de certa forma os assemelhou aos pensadores espíritas. O mesmo ocorreu com Pietro Ubaldi, médium de sintonia fina raríssima e crítico da teologia das igrejas cristãs . Como todo bom jesuíta, Rohden queria entender o fenômeno humano e compreender, ou pelo menos se aproximar, da natureza que ele denominou “misteriosa”, tal qual a natureza do Criador. “O mistério, do grego mystés, é tudo que transcende a zona empírica dos sentidos e o mundo do intelecto”, afirma ele, ao comentar um dos versículo do apócrifo “Evangelho de Tomé”, encontrado no Egito em 1941.
Nos textos de Rohden não encontramos nada que se refere aberta e objetivamente à existência do espírito, como fenômeno científico observável, ser individual pensante e sobrevivente da morte, com propôs Kardec. Rohden também não fala em reencarnação, assunto que ele admitia não aceitar, por limitação ideológica. Sobre a pluralidade de mundos, afirmava que este era um assunto óbvio, pela própria natureza do universo. No entanto, quando discorre sobre os temas clássicos da mística filosófica judaico-cristã (que ele distingue do misticismo pagão) explica com habilidade impressionante os fenômenos psicológicos resultantes da revolução existencial humana durante as peripécias do Espírito na carne.
Ná década de 1950, o professor foi um dos convidados históricos de Edgard Armond como conferencista de outras agremiações religiosas e filosóficas que se apresentaram na FEESP. Não via o Espiritismo como escola filosófica bem delineada e por isso não vislumbrava sua expressão como práxis social. Quando refletiu sobre isso, demonstrou uma grave preocupação com o futuro da doutrina, se referindo ao risco de sectarismo que já contaminava a juventude do nosso movimento. Para ele o Espiritismo cairia num gravíssimo erro se fosse transformado numa teologia, pois iria certamente se distanciar da verdadeira mensagem do Cristo. Seria o mesmo erro histórico dos católicos e protestantes ao elegerem a crença nos dogmas como ponto máximo da realização espiritual, abandonando o esforço individual. Trocaram os fins pelos meios. Numa conferência gravada em 1978, Rodhen diz em tom irônico: "Crer na caridade e na reencarnação não é condição essencial ou finalidade da nossa existência. Crer nos Santos , na Missa e no poder do Sangue de Jesus também não são finalidades e sim meios de realização espiritual".
Em “Novos Rumos para a Educação”, ele aponta o trabalho de Kardec como o mais aceitável elo histórico entre a modernidade e a antiguidade cristã, desde que não se enveredasse pelo fanatismo teológico-religioso e também pelo sectarismo partidário filosófico. Certa vez citamos uma interpretação sua de algumas parábolas de Jesus durante uma palestra num centro espírita. Alguém da platéia (e também do stablishment ) se sentiu ofendido e nos “lembrou” que as interpretações “espíritas” de Cairbar Schutel eram “muito melhores”, pois ele era um “verdadeiro espírita”. Naquela momento ficamos divididos entre a decepção e a tristeza e pudemos compreender exatamente o que Rohden quis dizer sobre os perigos do sectarismo. Sentimos vergonha do rótulo “espírita”. Se tivéssemos falado de Spinoza, Hegel, Heideger ou Kant, provavelmente ninguém teria coragem de reagir. Mas como falamos de algo simples e que repercutiu imediatamente na ferida emocional da platéia, logo veio o troco.
Aliás, é incrível como fazemos um tremendo esforço para inserir filósofos e educadores clássicos no universo espírita, como se isso fosse melhorar a aceitação do Espiritismo entre os intelectuais e principalmente entre os orgulhosos. Perda de tempo. O Espiritismo veio para confundir esse tipo de gente, segundo o Espírito Verdade. As religiões e partidos dogmáticos são fundados e perpetuados dessa forma. Seria mais útil se mostrássemos como essas filosofias são limitadas e pobres, pois não conseguem ultrapassar as barreiras enganosas do pensamento e da vaidade. É por isso que os teimosos nunca mudam de opinião. Somos escravos do pensamento e nos apegamos demasiadamente às idéias, bloqueando as possibilidades ilimitadas das emoções e dos sentimentos. Nessa questão os adultos deveriam agir como crianças e os homens se comportarem como as mulheres. É por isso também que parecemos tolos diante dos verdadeiros sábios, que olham para nós penalizados com tanta ingenuidade. Essa é a sensação que sempre temos ao ler os textos de Huberto Rohden.
Ps. Ainda hoje nos perguntamos: será que Rohden, após sua desencarnação, mudou de ponto de vista sobre a pluralidade das existências?
“Os fariseus e escribas tiraram a chave do conhecimento e a ocultaram. Nem eles entraram nem permitiram entrar os que querem entrar. Vós, porém, sede inteligentes como as serpentes e simples como as pombas”. Tomé –39*
O Evangelho até pode ser lido, mas não pode ser compreendido pelo critério lógico-racional. A lógica é uma conexão de sentidos exatos e invariáveis, que se aplica somente aos fenômenos objetivos. Já a temática evangélica é essencialmente ilógica e poética, porque está estruturada numa conexão inversa, de sentidos inexatos, variáveis, de pessoa para pessoa, de ponto de vistas diversos, onde cada caso é um caso, de diferentes percepções.
Quando aplicamos o modelo lógico-racional na leitura evangélica ela geralmente se torna rude, ridícula, vulgar e se afasta da essência espiritual que lhe caracteriza. O significado oculto, no sentido pedagógico, torna-se obscuro e permanece contraditório aos olhos comuns da inconsciência. Daí a reação irritante e a sensação de impotência racional que nos ocorre quando experimentamos esse choque entre o objetivo e o subjetivo. Tentamos respirar num ambiente onde as guelras do pensamento deveriam ser substituídas pelos pulmões do sentimento. Peixes fora d’água! É assim que nos comportamos quando intelectualizamos o Evangelho. Restringir o Evangelho dentro dos modelos filosóficos sistemáticos, sobretudo na lógica materialista aristotélica, é violentá-lo até mais completa asfixia moral.
Essa é a causa principal da enorme diferença do Evangelho das demais obras de filosofia existencial. Aos nossos olhos racionais ela destoa de forma gritante exatamente porque, nas outras, os problemas são medidos pela régua positiva, enquanto nas máximas do Cristo tal tipo de mensuração não funciona, porque é inadequada. É o que se pode chamar de conflito entre a leitura horizontal versus a leitura vertical. Na primeira, até vemos uma “lógica”, mas logo ocorre a incompatibilidade de conceitos e impressões; na segunda, lendo “em pé” e não “de quatro”, conseguimos sintonizar pela superconsciência a dimensão psicológica das coisas. Então, Jesus se nos apresenta como um holograma existencial, no qual temos que verticalizar o nosso olhar para enxergar um pouco mais além dos limites da razão. Talvez tenha sido isso que ocorreu com o apóstolo Tomé nesta cena enigmática e impressionante, na qual compreendeu e ingressou definitivamente no verdadeiro sentido do “Reino de Deus”.
“Disse Jesus aos discípulos: Comparai-me e dizei-me com que vos pareço eu.
Respondeu Simão Pedro: Tu és semelhante a um anjo justo.
Disse Mateus: Tu és semelhante a um homem sábio e compreensivo.
Respondeu Tomé: Mestre, minha boca é incapaz de dizer a quem tu és semelhante.
Replicou-lhe Jesus: Eu não sou teu Mestre, porque tu bebeste da Fonte borbulhante que te ofereci e nela te inebriaste.
Então Jesus levou Tomé à parte e afastou-se com ele; e falou com ele três palavras. E quando Tomé voltou a ter com seus companheiros, estes lhe perguntaram: Que foi que Jesus te disse?
Tomé lhes respondeu: Se eu vos dissesse uma só das palavras que ele me disse, vós havíeis de apedrejar-me – e das pedras romperia fogo para vos incendiar.”
Mas a leitura vertical, além dos limites da razão, se não significa a estagnação intelectiva dos conceitos evangélicos, também nada tem a ver com a sua regressão aos graus de compreensão e expressão abaixo do nível de consciência racionalizada, quase sempre manifestada no imaginário místico exótico e confuso, exteriorizado nas práticas ritualísticas. Também existem níveis de compreensão e expressão místicas cujas curvas de sensibilidade se equilibram com a razão e assumem o sentido poético e filosófico diferenciados dessas manifestações populares e pitorescas do cristianismo católico-romano e protestante.
Os espíritas tradicionais, embora ainda ligados às suas raízes religiosas mais remotas, cuja tônica principal é o medo e o sentimento de culpa, já possuem condições, senão espirituais, mas intelectuais de romper com esses conceitos ( na verdade preconceitos) ainda materializados das idéias cristãs. Não precisam mais dos sacramentos, mas também não precisam cair no ridículo de praticarem o culto à deusa Razão ou casarem-se numa Igreja Positivista. Deveríamos, pelo menos, nos dedicar ao exercício da reformulação íntima dessas formulações dogmáticas da relação Homem-Deus para assumirmos uma religiosidade mais livre, um misticismo mais introspectivo e harmônico com o mundo exterior. Dissemos exercício de reformulação porque em termos de Evangelho não existe erro ou pessoas erradas; existem, sim, diferentes graus de compreensão e expressão, cujas estruturas são sempre dinâmicas e que mudam em sentido crescente, segundo as necessidades pessoais de cada ser.
Talvez tenha sido esse o motivo pelo qual esse texto apócrifo* de Tomé, ou atribuído a ele, não tenha entrado para o rol dos textos “sagrados”. Isto porque , em nenhum momento, encontramos nele motivos e pretextos para o ritual exterior, para o misticismo tolo, para o abuso de poder, a hierarquia sacerdotal e muito menos para os privilégios institucionais que marcariam a fundação das chamadas igrejas cristãs.
Dalmo Duque dos Santos, in Portal do Espírito, 2005
Referência : O Quinto Evangelho, de São Tomé - 13 e 13-A, encontrado no Egito em 1945, traduzido em 1976 por Humberto Rodhen a partir da versão francesa de Philip de Soares). Editora Matin Claret.
Ressurreição na prática:
restrição a armas poupou 13 mil vidas
Estadão 30/03 - Wilson Tosta / RIO
Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e da PUC-Rio relaciona a queda no número de homicídios no Estado de São Paulo, entre 2001 e 2007, ao crescimento na apreensão de armas - sobretudo após o Estatuto do Desarmamento entrar em vigor, em dezembro de 2003. O trabalho aponta que, a cada 18 armas apreendidas, foi poupada uma vida.
Segundo a pesquisa, realizada por Daniel Cerqueira, do Ipea, e João Manoel Pinho de Mello, da PUC-Rio, 13 mil pessoas deixaram de ser assassinadas no Estado no período em consequência da apreensão de armas. Ao mesmo tempo, os crimes contra o patrimônio subiram cerca de 20%. Entre eles, os furtos de veículos ficaram estáveis e outros furtos subiram 30%, mostrando que não houve queda generalizada na criminalidade. Também não aumentou o número de prisões.
"A única explicação consistente com a evolução do padrão de criminalidade contra a pessoa e contra o patrimônio entre os municípios paulistas, ao longo do período analisado, tem a ver com o desarmamento", diz Cerqueira. Ele fez o estudo Menos armas, menos crimes: o emblemático caso de São Paulo, ainda inédito, como parte da tese de doutorado em economia na PUC-Rio, sob orientação de Mello, um PhD em economia pela Universidade de Stanford. Para a pesquisa, foram usadas informações da Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo e do Sistema de Informações de Mortalidade do Ministério da Saúde. O trabalho utiliza cálculos matemáticos complexos, além de variáveis que permitem correlacionar armamento e mortes no Estado.
Estatuto
O texto destaca que, de 2001 a 2007, foram apreendidas 228.813 armas no Estado. Segundo a pesquisa, o estatuto, sancionado em 22 de dezembro de 2003, potencializou os esforços de desarmamento, porque restringiu a possibilidade de o cidadão ter acesso a arma de fogo, aumentou o custo de aquisição e registro de armamento e fez subir o risco para o indivíduo de circular armado nas vias públicas (o porte ilegal passou a ser crime inafiançável). No mesmo período, cresceram as lesões corporais dolosas, indicando que muitas disputas violentas antes resolvidas à bala viraram brigas com menor potencial ofensivo.
Na análise da trajetória dos homicídios no período, tomando janeiro de 2001 como base 100 dos números, chega-se a dezembro de 2003 com 80 e, a partir daí, o desempenho para baixo se acentua, chegando a 40 em janeiro de 2007. Nos latrocínios, também partindo de 100 no mesmo mês e ano, sobe-se a pouco menos de 160 em janeiro de 2002, recuando para pouco mais de 100 em dezembro de 2003. Em janeiro de 2007, chegara a menos de 40. Os roubos no Estado foram de 100 a pouco mais de 110, os furtos de veículos começaram em 100 e terminaram em pouco menos de 100, e os outros furtos foram de 100 a mais de 120.
"Os resultados se mantiveram estatisticamente significativos, não apenas ratificando a ideia de "menos armas, menos homicídios", mas ainda indicando que a queda (...) não se deveu apenas a uma diminuição da circulação das armas nas vias públicas, mas também pela diminuição do estoque (...)", diz o texto.
PARA ENTENDER
Alta nos roubos e homicídios em 2009
O Estado de São Paulo registrou aumento nos índices de criminalidade no ano passado. Balanço da Secretaria da Segurança Pública indicou que os roubos em geral, por exemplo, cresceram 18% em 2009 em relação ao ano anterior. O número de roubos de veículos também teve alta no Estado. Foram 177.183 casos, em 2009, ante 159.199, em 2008. A pasta atribuiu a diferença à subnotificação, afirmando que a greve da Polícia Civil em 2008, entre 13 de agosto e 13 de novembro daquele ano, causou uma redução de 21% nos registros das ocorrências de roubos e furtos. Por isso, afirma, é impossível fazer a comparação.
As estatísticas do ano passado mostraram também que o índice de assassinatos voltou a crescer em todo o Estado após uma década. Foram 4.557 mortes registradas em 2009, contra 4.426 em 2008.