sábado, 10 de outubro de 2009

35 anos

Crepúculo em Cubatão, por Bob Wolfenson

Este ano, em março, fez 35 anos que saímos de Epitácio para morar na Baixada Santista. Achamos que iríamos morar em Santos, mas na verdade fomos para São Vicente, cidade vizinha, tão vizinha que o turista comum não percebe quando passa pelas duas divisas entre elas (na praia do José Menino e no monumento dos tambores , na zona noroeste. Fomos morar num sobradinho na rua Uberaba e depois mudamos para uma casa maior, na rua Rio de Janeiro, onde ficaríamos nos próximos dez anos, entre 1974 e 1984. Seria uma década revolucionária em nossa família, marcada por experiências incríveis e cheias de transformações. Nossa mãe teve essa intuição bem antes e não perdeu a chance quando surgiu a oportunidade. A vida em Epitácio havia atingido o limite para uma família grande e de poucos recursos: cinco filhos jovens com muitos sonhos, mas sem muitas perspectivas. A idéia inicial era irmos para São Paulo, como acontece com a maioria das famílias que passam pela mesma crise, mas optamos por uma cidade que não fosse tão grande como a Capital e não tão pequena como Epitácio. Santos, São Vicente, Guarujá, Cubatão e Praia Grande formam uma grande região composta por cidades medianas. Era a escolha certa e o lugar perfeito. Saímos na madrugada e chegamos no litoral perto do meio dia. Parte da nossa mudança foi levada numa camionete do Jorge Okada. No dia anterior, no feriado municipal de 27 de março de 1974, ficamos no jardim até quase meia noite nos despedindo dos amigos. Estávamos todos eufóricos e apreensivos. Esse sentimento permaneceu durante toda aquela semana de novidades. Bem diferente do que é hoje, São Vicente era muito pequena e funcionava como cidade dormitório. Trabalhar, estudar, fazer compras, tudo era feito em Santos – no Gonzaga ou no centro velho, próximo à zona portuária. Andar nos coletivos era um excelente programa porque todos circulavam a grande Ilha de São Vicente, que inclui Santos e São Vicente. O circular 7 ia pelas praias em direção ao ferry-boate e o circular 8 fazia o sentido inverso. Alguns deles percorriam os canais principais (1 e 2) em direção à Vila Belmiro e ao túnel. Tudo era muito fascinante. Sempre escolhíamos o percurso mais longo, para aproveitar a paisagem. O cheiro de mar e da vegetação litorânea eram muito fortes e completamente diferente de tudo que o nosso olfato conhecia. Além dos pontos turísticos, nossa diversão preferida era ver a entrada dos navios na barra da Ponta da Praia. Navios enormes, de todas as nacionalidades. Também gostávamos muito das visitas aos vasos de guerra e submarinos, nacionais e estrangeiros. Num deles fomos visitar o jovem marujo epitaciano Salvador Miazaki. Tudo isso ia se acumulando no baú das nossas emoções e não víamos a hora de retornar para Epitácio e contarmos tudo em detalhes para os colegas. Isso aconteceu pela primeira vez no mês de julho – que na época estava bem frio. Uns parentes baianos da minha avó tinham sofrido a perda do filho mais velho ( que morava no Morro do São Bento, juntamente com dois irmãos) e fizeram essa viagem de volta com a gente. Levei na bagagem um vidro com água do mar, para mostrar para o Gilmar Saraiva. Em pouco tempo já havíamos adotado um sotaque santista (o abusivo e incorreto uso do “Tu” antes das frases –Tu vai, Tu foi, etc) , logo motivo de muito sarro e indignação dos colegas. Quando chegamos fomos logo procurar a turma no campinho de futebol, num terreno na rua Cuiabá, em frete a Serraria do Lopes. A manhã estava deliciosa, fria e ensolarada, e a maioria da garotada usava aquelas japonas de nylon “dupla face”. A irmã da minha avó Maria, mãe do rapaz morto em Santos, veio para morar em Epitácio. Elas não se viam há mais de 40 anos. Foram morar na chácara do meu avô, na Estrada Boiadeira Norte, próximo da rodovia marginal. Terminadas as férias, voltamos para o litoral, agora com outros olhares e outros projetos. Tudo o que aconteceu certamente daria um livro de memórias com muitos capítulos. Novas experiências, novos vizinhos, novos amigos. Momentos difíceis e coisas maravilhosas, inesquecíveis. De todas elas, a que marcou mais foi a ajuda espiritual – numa reunião de Evangelho - que recebemos de uma entidade feminina desencarnada em Epitácio. Velha amiga da família, ela nos deus conselhos e consolos preciosos nas horas incertas. Estávamos nos preparando para uma segunda etapa de mudanças. Na década seguinte – entre 1984 e 1990, fomos todos para São Paulo para complementar essa primeira fase de transformações.

Vista da orla de São Vicente e Santos a partir da praia do Itararé


Quando fomos morar em São Vicente tinha eu 12 anos de idade. Éramos cinco irmãos e mais um jovenzinho de três meses chamado Natalino, cujo irmão gêmeo Natal havia desencarnado por causa de complicações do parto. Enquanto a mãe estava no hospital lutando pela vida, Natalino e os outros seis irmãos foram colocados sob os cuidados dos nossos familiares até que as coisas voltassem ao normal. Jamais voltariam. A mãe de Natalino também desencarnou. O pai, um oleiro ribeirinho do Porto XV, em completa situação de miséria, recolheu os filhos e voltou para a sua batalha diária. Amigos nossos tentaram adotar os irmãos mais novos, mas o pai não cedeu. A irmã mais velha cuidaria dos menores. Natalino foi o único que não voltou. Para a nossa surpresa, o pai disse que, se quiséssemos ficar com a criança, ele deixaria de bom grado. A nossa mudança para o litoral paulista já estava decidida e não havia nenhum plano de adoção para Natalino. Dias antes da mudança nosso pai chegou em casa com alguns documentos para nossa mãe assinar. Estava consumado. Natalino era o mais novo membro da família. Ele havia nascido em 23 de dezembro de 1973 e na tarde de 28 de março do ano seguinte já estávamos descendo pelas curvas da Via Anchieta em direção à Baixada Santista. Tudo foi muito rápido e assustador para os adultos, porém muito emocionante para as crianças. Nossos pais eram funcionários públicos e optaram pela mudança para aguardar uma nova orientação sobre o futuro profissional deles no Ministério dos Transportes, junto ao porto de Santos. As coisas seguiram o seu curso, mas nossa mãe, de vez enquando, nos dizia que um Espírito feminino muito luminoso visitava Natalino durante a noite. Nossa mãe, filha de retirantes nordestinos, tinha sido criada por Dona Manoela Borges, uma senhora que mais tarde tornou-se madrinha de todos nós e que também havia desencarnado dois anos antes do nascimento de Natalino. Ela era filha de um índia xavante com um desbravador vindo da região de Porto Feliz. Certa ocasião, visitando um tia-avó numa viagem ao interior, nossa mãe recebeu dela, sem que estivesse esperando, a informação que há alguns anos buscava: “Esse menino é parente da Dona Manoela, é o pai dela. Você tem uma dívida com ela e esse menino precisa muito da sua ajuda". Também ficamos sabendo depois que a nossa vinda para São Vicente não tinha sido uma simples escolha. Tínhamos coisas importantes para aprender e realizar na antiga Vila onde em outros tempos tínhamos adquirido as primeiras lições do Evangelho pelas mãos dos jesuítas.



Mapa paulista do final do século XIX: a região oeste permaneceu "milagrosamente" intacta por mais de 300 anos.


Séculos mais tarde, quando a região oeste de São Paulo estava sendo ocupada pelos mineiros (antigos paulistas ou vicentinos), o Capitão Francisco Whitaker, por ordem do governador de São Paulo, lançou-se numa expedição pelos rios Tietê e Paraná com a missão de fundar um porto na divisa com Mato Grosso, na região inóspita do Pontal do Paranapanema. A expedição foi organizada nos mesmos moldes das antigas monções, caravanas de batelões fluviais em busca do sertão distante. A missão foi realizada com êxito e em primeiro de janeiro de 1907 eles desembarcaram na barranca paulista do Paraná e ali fundaram o Porto Tibiriçá. O empreendimento era uma preparação para receber gado de corte da região mato-grossense de Vacaria , que seria conduzido por uma estrada boiadeira entre Tibiriçá e Indiana, a estação mais próxima da Ferrovia Sorocabana, distante 105 quilômetros. A Madrinha Manoela sempre nos contava que o pai dela, seu Daniel, estava na expedição histórica de Francisco Whitaker, o último bandeirante paulista e descendente de vicentinos. São Vicente tinha sido a primeira vila a ser fundada na Capitania , em 1532, e o Porto Tibiriçá a última. Eles haviam completado um ciclo de quase cinco séculos (475 anos). E nós, tibiriçaenses, há exatamente 35 anos, estávamos de volta, ao som das ondas e do cheiro da maresia, agora para aprender na Mocidade e na Escola de Aprendizes do C. E. Irmão Timóteo as lições renovadoras do Espiritismo. Dois anos antes da nossa chegada, em 1972, o grande médium e escritor italiano Pietro Ubaldi despedia-se de São Vicente, cidade que escolhera viver os últimos dias da sua existência e que dizia ser um recanto muito querido do seu velho espírito, desde os tempos do Padre Manoel da Nóbrega.



Maurão, Mia, eu e Bill, jovens músicos do Grupo Manvantara na travessia do Canal de Bertioga , 1981.

sábado, 3 de outubro de 2009

Ardi, a Eva sucessora de Lucy

Descoberta na Etiópia dá pistas sobre origens do homem

Agência Reuters - Washington

Um esqueleto humano de 4,4 milhões de anos mostra que os humanos não evoluíram de ancestrais semelhantes aos chimpanzés, relataram pesquisadores nesta quinta-feira (1º). Em vez disso, o elo perdido - o ancestral comum aos humanos e aos macacos de hoje - era diferente de ambos e os macacos evoluíram tanto quanto os humanos a partir desse ancestral comum, afirmaram eles.

Os pesquisadores salientaram que "Ardi" deve ser agora o hominídeo mais antigo que se conhece mas não é o elo perdido. "Em 4,4 milhões de anos, encontramos algo um tanto perto disso", disse Tim White, da Universidade da Califórnia em Berkeley, que ajudou a coordenar a equipe de pesquisa. Eles descreveram o esqueleto parcial de uma fêmea do Ardipithecus ramidus. A espécie hominídea viveu há 4,4 milhões de anos no que agora é a Etiópia. A criatura de 1,2 metro é um milhão de anos mais velha que "Lucy" o esqueleto de uma outra espécie, chamada Australopithecus afarensis, um dos pré-humanos mais conhecidos.

O estudo genético sugere que os humanos e nossos parentes mais próximos, os chimpanzés, diferenciaram-se há 6 milhões ou 7 milhões de anos, embora algumas pesquisas sugiram que isso pode ter ocorrido há 4 milhões de anos. "Ardi" é claramente um ancestral humano e seus descendentes não viraram chimpanzés ou macacos, relataram os pesquisadores na revista "Science". Ela tinha uma cabeça semelhante a de macaco e dedos dos pés oponíveis que permitiam que ela subisse em árvores com facilidade, mas suas mãos, pulsos e pélvis mostram que ela caminhava como um humano moderno e não como um chimpanzé ou um gorila.

"As pessoas meio que assumiram que os chimpanzés modernos não evoluíram muito, que o último ancestral comum era mais ou menos como um chimpanzé e de que a linhagem humana passou por toda a evolução", afirmou White. Mas "Ardi" é "ainda mais primitiva que um chimpanzé", disse White.

Folha de São Paulo - 01/10/2009 - 17h08


Adão não estava lá


“Adão ainda não tinha vindo. Porque eu via um homem, dois homens, muitos homens e no meio deles eu não via Adão e nenhum deles conhecia Adão. Eram homens primitivos, esses que meu espíritos absorto, contemplava. Era o primeiro dia da Humanidade; porém, que humanidade, meu Deus!... Era também o primeiro dia do sentimento, da vontade e da luz; mas de um sentimento que apenas se diferenciava da sensação, de uma vontade que apenas desvanecia as sombras do instinto.

Primeiro que tudo o Homem procurou o que comer; após, procurou uma companheira, juntou-se com ela e tiveram filhos. Meu espírito não via o Homem do Paraíso; via muito menos que o homem, coisa pouco mais que um animal superior. Seus olhos não refletiam a luz da inteligência; sua fronte desaparecia sob o cabelo áspero e rijo da cabeça; sua boca, desmesuradamente aberta, prolongava-se para adiante; suas mão pareciam com os pés e frequentemente tinham o emprego desses; uma pele pilosa rija cobria suas carnes duras e secas, que não dissimulavam a fealdade do esqueleto.
Oh! Se tivésseis visto, como eu vi, o Homem do primeiro dia, com seus braços magros e esquálidos caídos ao longo do corpo e com suas grandes mãos pendidas até os joelhos, vosso espírito teria fechado os olhos para não ver e procuraria o sono para esquecer.

Seu comer era como devorar; bebia abaixando a cabeça e submergindo os grossos lábios nas águas; seu andar era pesado e vacilante como se a vontade não interviesse; seus olhos vagavam sem expressão pelos, como se a visão não se refletisse em sua alma; e seu amor e seu ódio, que nasciam, de suas necessidades satisfeitas ou contrariadas eram passageiros como as impressões que se estampavam em seu espírito e grosseiros como as necessidades em que tinham sua origem.

O Homem primitivo falava, porém não como o Homem: alguns sons guturais, acompanhados de gestos, os precisos para responder às suas necessidades mais urgentes. Fugia da sociedade e buscava a solidão; ocultava-se da luz e procurava indolentemente nas trevas a satisfação das suas exigências naturais. Era escravo do mais grosseiro egoísmo; não procurava alimento senão para si; chamava a companheira em épocas determinadas, quando eram mais imperiosos os desejos da carne e, satisfeito o apetite, retraía-se de novo à solidão sem mais cuidar da prole.
O Homem primitivo nunca ria; nunca seus olhos derramavam lágrimas; o seu prazer era um grito e sua dor era um gemido. O pensar fatigava-o; fugia do pensamento como da luz. E nesses homens brutos do primeiro dia o predomínio orgânico gerou a força muscular; e a vontade subjugada pela carne gerou o abuso da força; dos estímulos da carne nasceu o amor; abuso da força nasceu o ódio, e a luz, agindo sobre o amor e sobre o tempo, gerou as sociedades primitivas.

A família existe pela carne; a sociedade existe pela força. Moravam as famílias à vista de todos, protegiam-se, criavam rebanhos, levantavam tendas sobre troncos e depois caminhavam sobre a terra. O Homem mais forte é o senhor da tribo; a tribo mais poderosa é o lobo das outras. As tribos errantes, como o furacão, marcham para adiante e, como gafanhotos, assaltam a terra onde pousam seus enxames.”
João Evangelista – Espanha, 1882 – Roma e o Evangelho, José Amigó y Pellicer – FEB Editora



Cenas de A Guerra do Fogo, de Jean-Jacques Annoud. França/Canadá, 1981

sábado, 26 de setembro de 2009

Os 85 anos de Wallace Leal Rodrigues

Wallace Leal Rodrigues, Dr. Pedro Francisco Barbosa e Deolindo Amorim, no VII Congreso Brasileiro de Jornalistas Espíritas em Juiz de Fora,1977. Fonte: PENSE –Pensamento Social Espírita.



Dia 13 de setembro último fez 21 anos que Wallace Leal Rodrigues retornou para o mundo espiritual. Se estivesse encarnado (11 de dezembro) estaria fazendo 85 anos. O célebre ativista capixaba foi um desses Espíritos europeus antigos que buscou o Brasil para reencarnar no século XX. No interior paulista realizou a sua marcante tarefa na seara espírita, seguindo a mesma trajetória combativa de muitos outros companheiros destinados a abrir caminhos para os militantes das horas mais avançadas das décadas seguintes.

Wallace foi um revolucionário tranqüilo e quem o conheceu não teria dificuldade para explicar esse perfil sereno, totalmente contrário do temperamento explosivo, típico das personalidades sensíveis e criativas. Foi criado com seis irmãos em Araquara, cidade pela qual tinha verdadeira paixão, expressa na constante ansiedade em transformá-la num influente centro cultural. Num celebrado texto futurista de 1964 ele imaginou como seria Araraquara em 2017. Não estava errado, a cidade seria um grande celeiro e também polo de atração de artistas e intelectuais. Foi lá que Jean Paul Sartre fez sua famosa conferência no Brasil em 1960, à convite do Professor Fausto Castilho, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Sartre estava acompanhado de Simone Beauvoir e do amigo Jorge Amado. A presença deles foi considerada “non grata” pela Igreja Católica local, que fez até campanha pelo rádio contra o evento. Não sabemos se Wallace esteve na seleta platéia da faculdade, ao lado de Fernando Henrique, Ruth Cardoso e Antônio Cândido, ou se preferiu juntar-se aos estudantes com quem Sartre conversou no Teatro Muncipal. Será que naquele mesmo dia ele também assitiu à inesquecível partida entre a Ferroviária e o Santos Football Club? O Alvinegro Praiano, que, inexplicavelmente, perdeu de quatro a zero, tinha como destaque ninguém menos que o jovem Pelé e muito outros craques, incluindo aquele que inspiraria a escolha do nosso nome, feita pelo nosso pai no ano seguinte.

Nas décadas de 1970 e 1980 Wallace atuou como editor e redator de O Clarim e também da Revista Internacional de Espiritismo, onde procurou manter aceso o idealismo de Cairbar Schutel , traduzindo obras importantes publicando artigos e entrevistas memoráveis. Quem fica conhecendo as suas atividades culturais fora do movimento espírita não consegue esconder a profunda impressão e admiração pelo seu talento e capacidade inovadora. Sem nenhum exagero, ele tinha tudo e mais um pouco para ser um dos grandes nomes de destaque da comunicação e da arte brasileira contemporâneas. Mas, ao invés de brilhar nos grandes centros, preferiu a discreta militância espírita e uma também modesta atuação cultural, típica das cidades interioranas. Sem dúvida, uma opção que causa estranheza no observador comum, mas nunca naqueles que sabem a causa das escolhas secretas e inconscientes que faz um Espírito na condição e portador de mediunidade-tarefa. Wallace precisava vencer essa prova do anonimato, da vida simples e discreta, embora sua potencialidade dissesse sempre o contrário. O médium R.A. Ranieri não escondia sua nítida impressão de que conhecia Wallace de outra existência e que tinha certeza que se tratava da escritora George Sand, ex-companheira de Chopin. Quando do desencarne de Wallace, em 1988, Ranieri lembrou num artigo publicado no seu Jornal Espírita que havia entre os dois Espíritos não somente uma grande afinidade de características intelectuais e artísticas, mas principalmente uma curiosa semelhança fisionômica. Segundo Chico Xavier, ao encontrar Allan Kardec em Paris, na manhã do dia 18 de Abril de 1857, Sand recusou como presente das mãos do Codificador o primeiro exemplar de O Livro dos Espíritos.

Ps. Na semana passada, não por acaso, conversamos por e-mail com a companheira de doutrina Maria Lúcia, quando falamos sobre a História do Espiritismo e de Espíritos revolucionários como Madame Pompadour e George Sand (Amandine Aurore Dupin). Claro que o assunto Wallace Leal Rodrigues teria que vir à tona.


George Sand (1804-1876) e Wallace Leal Rodrigues (1924-1988) Para saber mais sobre Wallace acesse:

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

A lembrança de Olavo (Conto)

Os fuzilamentos de três de Maio, por Francisco de Goya



Ele não lembrava direito quem tivera a idéia de fazer uma parada naquela estrada para fazer um lanche. Todos concordaram porque o lugar parecia agradável, um pouco afastado da margem. O quiosque que servia de abrigo era bem grande e dava para acomodar a todos. Era uma antiga barraca de água de coco com mesas grandes e rústicas. Ele era Olavo, o mais velho da turma de quatro amigos. Não faria a mínima diferença saber de quem tinha sido a idéia da parada. Só iria piorar as coisas se houvesse uma discussão com acusações entre eles. Olavo só não se perdoava por ter deixado as coisas terem chegado naquele ponto. Poderia ter tomado uma atitude logo no início, mas preferiu aguardar o momento mais seguro. Está arrependido porque , para ele, a melhor oportunidade já havia passado. Agora, somente uma ação muito arriscada poderia reverter a situação em que todos estavam em perigo, principalmente as crianças.

Olavo estava como muito medo e desde os primeiros preparativos para essa viagem pressentiu algo de ruim. Um frio na barriga o incomodava desde o início da semana. Tentou desistir, mas as mulheres e os filhos já estavam praticamente certos da viagem e muito entusiasmados. Era a primeira vez que os quatro amigos levariam as esposas e filhos. Isso só acontecia quando iam para a praia. Dessa vez decidiram levá-los para o Pantanal, onde alugariam um barco de pesca pelo período de uma semana. Nunca fizeram paradas imprevistas como essa e sempre buscavam os conhecidos postos de serviços. Dessa vez, logo dessa vez, tudo deu errado. Tinha que manter a calma. Tinha, sobretudo, que ficar de olho no Ivinho, o mais impulsivo e que poderia estragar tudo e colocar todos em risco. Paulo Henrique também era explosivo, valente, mas era mais inteligente do que Ivinho. Rachel, a mulher de Ricardo estava surpreendentemente calma, demonstrando tranquilidade e confiança de que as coisas iriam dar tudo certo. Olhava para as crianças e tentava fazer com que as amigas também agissem da mesma forma, sem demonstrar desespero. Olavo estava com um temor que jamais sentira exatamente porque tivera maus pressentimentos. Estava armado, coisa que nunca o havia acontecido ou lhe interessado. Havia tomado a arma emprestada de um colega da empresa, o mesmo que criticara por ter feito um curso de tiro e defesa pessoal. Ficou envergonhado por ter tido vontade pedir a arma , mas justificou da melhor forma possível. O colega o treinou rapidamente ensinando a lidar com o carregamento das munições e até ensaios alguns disparos , aprendendo como agir rapidamente em caso de assalto. “Que loucura...” , pensava ao recordar que jamais concordaria em usar uma arma para atirar em alguém.

Ricardo estava assustado e seus olhos percorriam a tudo e a todos que ali estavam . Isso deixava Olavo mais preocupado com o desfecho daquela situação.

Paulo Henrique parecia abalado com tudo que havia acontecido sem, no entanto, revelar medo. Se um deles tivesse que tomar uma atitude mais atrevida este seria Paulo Henrique. Era o mais inteligente do grupo, sabia negociar, tinha grande poder de convencimento e já poderia ter feito alguma proposta atraente para resolver aquela situação. “Se ele ainda não fez nada é sinal que as coisas realmente não estão indo muito bem”, pensou Olavo. Conversar o quê? Fazer que tipo de proposta? Como convencer alguém que se mostra tão insensível e ao mesmo ameaçado, continuava pensando Olavo enquanto os outros dois amigos pareciam também aguardar a decisão.

Das mulheres somente Rachel estavam procurando se inteirar do que estava acontecendo e do que poderia acontecer caso houvesse uma reação dos homens. As demais estavam somente assustadas e aguardando o momento pior no qual poderiam chorar e implorar pelas suas vidas e dos seus filhos. Ela estava um pouco distante deles e, de repente decidiu agir e comunicar-se através dos olhos. Queria saber o que poderia ser feito. As crianças já estavam a ponto de explodir e não suportariam mais. Tinha medo de que as coisas descambassem já nos próximos minutos e rompeu aquele silêncio de indecisão entre o marido os três amigos. Olhou para Ricardo, cobrando uma posição. Ricardo olhou para Paulo Henrique e também para Ivinho e todos se voltaram para Olavo, com o se o mesmo tivesse naquele instante sido escolhido para iniciar a reação. Todos estavam se sentindo acuados e conscientes de que aquela decisão iria mudar completamente o rumo de suas vidas. Nem todos iriam sobreviver e as crianças certamente seriam sacrificadas. Por outro lado não havia garantia nenhuma de que elas estariam em segurança caso permanecessem passivos. Era tudo ou nada. Ou pelo menos a esperança de que alguém poderia sair dali vivo.

Por alguns instantes Olavo recuperou a frieza e iniciou uma leitura ainda mais rápida da situação, tentando entender como tudo havia começado. Primeiramente contou quantos eram aqueles que ameaçavam suas vidas. Era oito, seis rapazes e duas adolescentes, todos de mal aspecto, vestindo roupas muito sujas, com manchas pretas parecendo serem cortadores de cana que voltavam das lavouras que ocupavam toda aquela vasta região. Tinham surgido na margem da estrada e de longe escutava-se uma intensa conversação entre eles. Embora tenham ficado atentos, não se preocuparam, pois viram que eram lavradores, pessoas simples que jamais poderiam causar algum tipo de problema. Na medida que se aproximavam, a conversação mais parecia uma algazarra e até mesmo brigas entre eles. Foi então que perceberam que não eram pessoas adultas e sim jovens completamente sem modos, sem a simplicidade e a timidez dos lavradores que conheciam e que até haviam conversado em algumas ocasiões. Esses tinham um jeito diferente, um olhar vago, perdido, que lembrava uma certa perturbação. Estavam visivelmente alcoolizados ou drogados e isso os tornava mais assustadores. Dois deles revelavam intenções de maldade e pareciam ter poder sobre os demais. Trocaram olhares entre si e partiram em direção aos carros que estavam estacionados sob algumas árvores. Foi então que Olavo percebeu o perigo e avisou os colegas. Mas já era tarde. Todos foram dominados pelos jovens, que empunhavam longos facões. Cercados e tomados de surpresa as mulheres e crianças começaram a gritar e isso fez com os jovens andarilhos demonstrassem mais agressividade e exigissem silêncio de todos.

Enquanto pensava e contava quantos eram os marginais que os haviam feito reféns , Olavo também tentava equacionar quem eles eram. Que tipo pessoas eram aquelas que de longe pareciam ser simples lavradores e que de perto revelaram-se seres perigosos e cheios de ódio no coração. O que estava acontecendo? Aquele passeio, que seria um dos mais divertidos em todos aqueles anos de amizade, desfizera-se num pesadelo e numa possível cena de horror. Com exceção de duas esposas, todos se conheciam desde a infância, cresceram no mesmo bairro, estudaram na mesma escola e sempre procuravam estar juntos. O feriado prolongado da Semana da Pátria prometia um fim-de-semana alegre agora jamais seria esquecido pela aquela turma de amigos. A viagem tinha sido planejada no inicio do ano, quando o mesmo grupo aproveitava as últimas horas da temporada de verão na praia.

Olavo foi tomado então por uma sensação muito estranha. Queria falar, mas sua voz não saia, enquanto era gravemente observado por alguns daqueles marginais. Tinha a nítida sensação de que as coisas não iriam ser boas e já se preparava para o pior. Olhou para os colegas e gesticulou intuitivamente para que todos tivessem calma. Na verdade queria dizer-lhe que tivessem confiança. Queria dizer-lhes que não perdessem a fé em Deus , mas a voz parecia estar mais presa no peito aumentando sua angústia. Seus olhos encheram de lágrimas ao ver as crianças naquela expectativa angustiante. Olhava para cada uma delas e pensava “Deus”, “Confiança”, “Fé”, como se quisesse enviar-lhes esses pensamentos de força. Lembrou que essas palavras foram repetidas várias vezes pelo preletor do centro espírita no qual tinha ido tomar passes há mais de um ano, a convite da copeira da sua empresa e que sempre deixada sobre a sua mesa um folhetinho com mensagens que nunca tinha tempo de ler. Não recordava o rosto do preletor, mas não esqueceu que ele sempre sorria e repetia aquelas palavras, para ele soltas em frases incompreensíveis: “”Deus”, “Confiança” e “Fé”.

Antes de ter a sensação de que iria desmaiar, Olavo desfechou aquele que acreditava ser o último olhar para o seu amigo Paulo Henrique e abriu os braços pedindo a ele que corresse em sua direção. Paulo obedeceu e partiu para socorrer o amigo que lhe parecia estar tendo um colapso. Abraçou-o e sentiu que Olavo tinha algo escondido sob a camiseta. Apalpou e pegou a arma que lhe pareceu muito pesada e estranha. Voltou-se rapidamente e deu um tiro para o alto, enquanto gritava raivosamente para que os jovens se afastassem. Não podia vacilar e foi incisivo na segunda ordem, aproximando-se dos dois marginais que pareceriam ser os mais atrevidos. Olavo já estava no chão sendo socorrido pela esposa e Raquel se encarregou de motivar os outros a assumir a atitude de enfrentar os inimigos. Mas Paulo Henrique parecia estar tomado por uma grande força vingativa e fez com os jovens fossem rapidamente dominados, levando-os sob ameaça em direção ao canavial. Eles entenderam que agora estavam em desvantagem seguiram caminhando rapidamente com as mãos sobre as cabeças. A certa altura Paulo fez com que todos se deitassem de bruços. Estava ali com todos eles, dominados. Ricardo e Ivinho já estavam ao seu lado e o três passaram a compartilhar os mesmos sentimentos de ódio e vingança. “É preciso fazer justiça”, falava Ivinho. Tomando pela mesma sensação, Ricardo segurava nas mãos um dos facões tomados dos jovens e intimidava Paulo Henrique: "Vai, cára, eles iam matar todos nós. Se você não fizer isso agora eles vão fazer isso com outras pessoas e , quem sabe, com a gente mesmo. Se você não fizer , faço eu mesmo!"

Paulo já estava convencido e já havia tomado a decisão de atirar nos jovens. Não havia outro jeito de terminar aquela história de covardia e terror a que foram submetidos. Um dos jovens já tinha sido ferido por um golpe de Ricardo quando tentou correr para dentro do canavial. Paulo apontou a arma e disparou o primeiro tiro. Foi um barulho ensurdecedor, que ecoou fortemente pelo ar. Os jovens então ficaram inquietos e alguns deles entraram em desespero clamando pelo amor de Deus. Paulo já ia disparar o segundo quando ouviu a voz de Olavo dizendo: “Paulo, Paulo! Eu acabo de ver tudo. Eles já nos mataram uma vez, lembra? Atiram em nós dizendo que daquela vez finalmente iriam nos mandar para o inferno! Estávamos todos, Ricardo e Ivinho também, encostados num muro muito alto, cantando o nosso hino. Era o muro de um grande cemitério. Antes de atirarem em nós um velho padre tentava nos consolar dizendo “Crêem em Deus!” “Tenham confiança em Nosso Senhor e não percam nunca a esperança, pois uma dia todos iremos morrer e ressurgir para a eternidade!”. O padre também voltou!

A mão de Paulo ainda estava tremendo quando já podia-se ouvir o alarde de várias sirenes de carros da polícia se aproximando.

A pescaria tinha sido finalmente adiada. Paulo, ainda perturbado, pouco antes de dormir confessou para a esposa que naquela semana tivera um sonho. Durante uma pesca ele jogava uma grande rede no rio e ao puxar ficava desesperado ao ver que nela não tinha peixes e sim vários jovens agonizando. Gritava para os colegas Ivinho, Ricardo e Paulo Henrique , mas somente Paulo o atendia e ajudava-o a tirar os jovens da rede.

A vida segue normal. Os quatro continuam muito amigos. De vez em quando Olavo visita a região, talvez para superar um trauma que se instalou na sua alma. Mais tarde descobriu que era apenas uma cobrança da consciência. Quis saber quem eram os jovens daquele dia. Visitou anonimamente alguns onde estavam detidos e depois até teve coragem de conversar com aquele que era o mais agressivo. Todos o olhavam com desconfiança. Olavo sentia necessidade de dizer-lhes que não tinha raiva de nenhuma deles e que, na verdade queria se desculpar se alguma vez lhes fizera algum mal. Eles não entendiam muito bem o que Olavo dizia e só mudavam o semblante quando ele dizia que sempre orava por todos e que um dia todos iriam ser amigos. Voltou lá várias vezes e sempre levava roupas, tênis, livros. Conheceu também as duas jovens. Uma delas já era mãe e recebeu Olavo com sincera alegria. A outra era mais rebelde, mas foi mudando aos poucos quando percebeu que Olavo só queria ajudar. Depois que os jovens saíram da detenção Olavo nunca mais os viu. Mais ainda faz oração por eles todos os dias antes de deitar-se.

Olavo sempre vai centro espírita assistir a preleção das segundas-feiras. Ao seu lado está Paulo Henrique. Quando o preletor começa a falar, Olavo vira-se para Paulo e diz: “Olha lá o nosso padre! Lembra?


sábado, 12 de setembro de 2009

Consolador em todos os aspectos

Camille Flammarion: astronomia como portal do Espiritismo e uma nova visão de mundo.


Herdeiro histórico legítimo das filosofias humanistas antigas e também das tradições religiosas monoteístas, o Espiritismo tem a consolação como marca principal da sua essência doutrinária. Consola através de respostas todas as carências humanas contidas nos pensamentos, nas ações e nos sentimentos.

A grande maioria das pessoas que buscam o Espiritismo está em situação de crise moral, experimentando angústias e anseios que só podem ser amainados através do esclarecimento sobre os limites da natureza humana mortal e as possibilidades do espírito imortal. Quem está satisfeito com o mundo e consigo mesmo, geralmente não se interessa , nem precisa de consolo. Quem não tem dúvidas nem preocupações, também não carece e nem se interessa por filosofia. Com exceção daqueles que estão em crise ou se preocupam com as dúvidas e sofrimentos dos outros, todos os demais seguem a rotina de suas vidas, sem dar atenção para esses problemas do ser, da dor e do destino.

Para uns poucos, as informações científicas do Espiritismo são satisfatórias. Para outros tantos, só tem sentido as especulações intelectuais e respostas filosóficas. Mas, para a grande maioria, que tende a crescer cada vez mais, só tem cabimento em suas experiências pessoais as verdades que lhes amenizem o sofrimento, que acalmem seus impulsos, que diminuam suas revoltas, que ampliem um pouco seus horizontes e, finalmente, que lhes dêem a esperança de sonhar com um mundo melhor e mais justo.

Que importa se essa busca tenha ênfase sentimental ou emotiva? Que importa se o consolo tem sentido religioso, místico e até desperte expectativas supersticiosas? Que diferença faz se a procura ocorre no terreno da experimentação científica ou na especulação filosófica ?

O importante é que a Doutrina Espírita contempla todas essas dimensões da natureza humana, cuja existência física tem sido marcada pela dureza inexorável das provas e das expiações. Consola e esclarece porque sempre ressalta a imortalidade como fato, o livre arbítrio como ferramenta evolutiva, a lei de ação e reação como justiça Divina , a reencarnação como lei natural; e principalmente o constante sentido da transformação e do progresso do Espírito.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Narrativas mediúnicas da sexualidade


Alguns leitores questionam não somente as origens das informações mediúnicas, mas também a qualidade e a utilidade e social dos textos trazidos à público pelos médiuns e editoras.

Qual a finalidade dessas publicações? São realmente educativas ou apenas expressam a necessidade de comunicação de diferentes pontos de vista de alguns Espíritos e seus respectivos médiuns?

O último questionamento que recebemos a respeito disso foi sobre o tema da sexualidade, assunto sempre curioso e atraente na sociedade atual, dividida entre o esclarecimento e a culpa.

Os três livros escolhidos aqui são bons exemplos de como esse tema vem sendo abordado, sob todos os aspectos levantados pelas dúvidas dos leitores. Foram publicados respectivamente em 1963 (Sexo e Destino), 1972 (Sexo Além da Morte) e 2002 (Sexo e Obsessão), cada qual seguindo o estilo pessoal, a proposta doutrinária e o objetivo pessoal dos seus autores. São ao mesmo tempo semelhantes e muito diferentes entre si, refletindo inclusive as limitações morais e a contextualização da sexualidade de suas respectivas épocas. Lendo e comparando as três obras é possível logo da cara estabelecer uma comparação de linguagem entre elas. A diferença na qualidade textual literária salta aos olhos.

André Luiz não é um mestre da narrativa, mas deixa os textos de Manoel Philomeno de Miranda e de R.A. Ranieri em situação devantajosa. Nessa situação Ranieri é médium e também narrador. Segundo esse autor, a obra foi produto de suas incursões nas regiões espirituais descritas sob a orientação do Espírito André Luiz.

Chico e Xavier e Waldo Vieira produziram Sexo e Destino em condições diversas, pois cada um escreveu um capítulo (pares e ímpares) em cidades diferentes. Divaldo, apesar do esforço, não tem a mesma facilidade descritiva e a riqueza de detalhes dos médiuns de André Luiz. O texto de Ranieri é simplista e apela o tempo todo para a curiosidade do leitor. Sexo além da Morte foi alvo de muitas críticas e restrições (assim como as outras obras do autor, sobretudo O Abismo). Um editor muito experiente nos disse que Herculano Pires recomendou ao médium que o livro não fosse publicado, pois este causaria má impressão no público. Mas o próprio autor insiste nesse detalhe afirmando ser o livro o "único no mundo" a fazer esse tipo de abordagem e que , dependendo dos objetivos, não há entre os Espíritos um padrão de critérios na revelação de informações. Já o texto de Divaldo em Sexo e Obsessão é apenas simples e repete algumas abordagens já feitas por Chico Xavier, citando inclusive como fonte uma informação de Chico sobre detalhes que anteriormente não foram permitidos colocar na obra do médium mineiro. O mesmo aconteceu com relação aos livros Libertação (André Luiz) e Nas Trihas da Libertação (Manoel Philomeno de Miranda). Os textos de André Luiz e Chico são alvos constantes da imitação ou necessidade de "complementação" das revelações mais curiosas. No final de Sexo Além da Morte Ranieri e seu mentor visitam um médium famoso (tudo indica que é Chico) e ficam sabendo que haverá uma reunião no Reino das Trevas no qual o gênio do mal Tamerlão vai substituir Gregório (personagem revelado por André Luiz em Libertação). Anos mais tarde Divaldo/Manoel Philomeno resolveram esclarecer melhor essa história e produziram Nas Trilhas da Libertação, enfocando principalmente o assédio aos médiuns de cura que serviram aos espíritos-médicos do tipo Dr Fritz.

Surge então uma dúvida importante na difícil capacidade avaliar quem define a qualidade do texto mediúnico: o Espírito, o médium ou ambos? Surge também uma certeza: dificilmente teremos narrativas da alta qualidade como as de Chico Xavier e Ivone Pereira, cujos textos são primordiais em estilo e conteúdo.

Em nossa opinião Sexo e Destino é o melhor e mais esclarecedor dessas três publicações, em todos os aspectos, embora Divaldo e Ranieri tenham trazido à tona assuntos próprios do seu tempo, incluindo alguns lances históricos muito curiosos e atraentes.

Não vamos entrar no mérito da autenticidade mediúnica, pois tal capacidade de julgamento deve ser desenvolvida pelo próprio leitor e nós mesmos ainda não temos condições justas e precisas de avaliar a veracidade dessas revelações. Há os que aceitam, os que rejeitam e os que são absolutamente indiferentes. Ainda assim, achamos válido o esforço dos médiuns e intenção dos Espíritos, pois ao término da cada uma dessas leituras ficamos impressionados e reflexivos sobre as nossas idéias, sentimentos e atitudes sobre assunto ainda tão influente e conflitante em nossa Humanidade.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Dona Martinha


Conhecemos Dona Martinha quando, na adolescência, acompanhávamos nossa mãe nas reuniões gerais da Aliança Espírita Evangélica, nos finais de ano em São Paulo. Eram reuniões cerimoniais cujo ponto máximo acontecia com a manifestação dos Espíritos mentores. Não havia nenhuma badalação em torno das pessoas que faziam esses intercâmbios mediúnicos, pois todos eram muitos discretos nessas horas. Dona Martinha estava entre esses. Em reuniões menores e mais privativas conhecemos outros médiuns que transmitiam orientações mais técnicas e especificas daquele movimento, sem nunca interferir em questões administrativas dos grupos. Todos eles, como Dona Martha, tinham sido educados na escola mediúnica armondiana, criada originalmente nos anos 1940 na Federação Espírita do Estado de São Paulo.

Anos mais tarde revimos dona Martinha, reencontro unilateral porque ela não nos conhecia. Fomos apresentados pelo amigo Arnaldo Coutinho, da Fraternidade Esperança, um ativista que havia trabalhado mais de vinte anos com o Comandante Armond. Aliás, a única vez e o mais próximo que chegamos de Edgard Armond foi quando, certa vez , ele conversava pelo telefone com o Coutinho na Secretaria da Aliança, na rua Genebra. Aparentemente parecia um cabo falando com o General. Na verdade era uma relação de amor e respeito, fruto dessa longa convivência.

Dona Martha segurou então a nossa mão por alguns instantes e olhou fundo em nossos olhos. Foram alguns segundos que nos pareceram uma eternidade. Ela olhava para nós e depois olhava para o Countinho e não dizia nada. Sorria educadamente, entre o espanto e a preocupação. Nosso rápido encontro ficou nisso e nunca perguntamos ao Coutinho se ela viu ou pensou algo que fosse do nosso interesse ou que deveríamos saber. No mínimo deve ter percebido que o nosso compromisso com a doutrina espírita estava defasado e que ainda deveríamos passar por umas “poucas e boas” para chegar ao ponto ideal de trabalho.

Mais alguns anos se passaram. Estávamos agora concluindo as nossas pesquisas para a publicação de um livro e resolvemos pedir ajuda para Dona Martha. Tínhamos muitas dúvidas e precisávamos falar com alguém "confiável" que nos desse "acesso" aos Espíritos. Não ligamos inclusive para a experiência mediúnica de nossa mãe, que humildemente nos forneceu algumas informações que buscávamos e, como todo filho teimoso e ingrato, não poderia valorizar a lição de casa. Novamente o Coutinho nos ajudou. Telefonamos para Dona Martha e ela nos atendeu prontamente. Pediu que enviasse as nossas dúvidas e nos alertou que o pedido seria submetido a um grupo mediúnico e que, se houvesse divergência, outros médiuns seriam consultados separadamente. Com grande expectativa, certamente estávamos dando muita importância ao assunto pessoal e, mesmo assim, recebemos um tratamento muito atencioso.

É claro que não houve nenhuma revelação bombástica, muito menos algum tipo de alarde que pudesse realçar a nossa personalidade. Havíamos mandado algumas questões sobre o nosso trabalho e, ao nosso ver, todas elas foram respondidas. Nãoo ficamos totalmente satisfeitos porque na época não conseguíamos enxergar as coisas com "os olhos de ver". Somente depois de algum tempo fomos comprendendo o que havia de mais importante naquelas respostas.

Dessas instruções, especificamente dirigidas a nós , separamos quatro que consideramos essenciais para a nossa experiência, espiritualmente falando:

“Tarefa de divulgação Evangélico-Doutrinária, através da vivência cristã”.

“Tudo que um médium faz tem influência espiritual. É preciso orar e vigiar para conhecê-la”.

“Conhecimento é positivo, polêmica traz perturbação”.

"Demolir dogmas exige conhecimento, compreensão, amor e humildade"

Martha Gallego Thomaz


O então jovem oficial militar Edgard Armond e duas obras mediúnicas de Dona Martinha




Por Eduardo Araia / Wellington Cerqueira

Mediunidade é um tema caro a Martha Gallego Thomaz. Essa fluminense teve sua primeira experiência do gênero aos 3 anos, em 1918, e desenvolveu uma extensa carreira na área. Autora de dois livros ditados e três psicografados, ela ainda dirige trabalhos na Federação Espírita do Estado de São Paulo, na qual está desde 1956 (é sua médium mais antiga), e no Grupo Noel, casa que ajudou a fundar em 1977 e que oferece atendimento social e doutrinário a mais de 3 mil pessoas por mês. Ela fala a seguir sobre sua singular trajetória mediúnica.

A senhora via espíritos desde cedo. Como aprendeu a lidar com essa característica? Ela é mais comum do que se imagina?

Ela é muito comum hoje. Tratamos no Grupo, atualmente, três crianças nessa situação. Isso está no Evangelho de Mateus: os velhos sonharão sonhos, os jovens terão vidência...

Em maio de 1918, os espíritos atacaram meu pai. Eu tinha 3 anos e brincava na sala de casa com minhas irmãs quando entrou um espírito muito feio, que se aproximou da minha mãe. Meu pai, que convalescia da gripe espanhola, levantou-se de onde estava feito uma fera – seu fraco era o ciúme que tinha da minha mãe. O espírito fez menção de abraçá-la e meu pai tirou os suspensórios para “bater” nele. De repente, o espírito percebeu que eu também via tudo. Aproximou-se, pôs a mão na minha garganta e disse: “Se contar que estou aqui, te esgano e você morre.” Meu pai fez vários tratamentos no hospital psiquiátrico até receber alta. Não contei a ninguém sobre esse espírito, que me perseguia até na igreja. Minha mãe só soube dele quando eu tinha 12 anos. Fomos de Petrópolis para o Rio de Janeiro e uma tia, que frequentava uma casa espírita, chamou minha mãe para fazer um tratamento a distância para o meu pai, que estava internado no Hospital da Praia Vermelha. Minha mãe me levou, e fui morrendo de medo. Lá, uma senhora, vidente extraordinária, me disse: “Você está com medo desse bobalhão aí? Ele vem porque você tem medo. Se você pensar firmemente em Jesus, ele não vem mais.” Havia um Sagrado Coração de Jesus na parede e ela me instruiu: “Olhe nele até você o ver na sua cabeça.” Aprendi a me concentrar assim. Libertei-me ali. Mas tinha muita vidência, e via coisas boas e más. Aos 30 anos, os espíritos começaram a tomar conta de mim quando eu não queria. Certa noite, um deles ficou olhando para mim, rindo, e caí doente. O médico que meu marido chamou lhe disse: “Vou dar a ela um remédio para dormir um pouco, mas os sintomas são de tétano. Passo aqui às 6 da manhã.” Eram 4 da madrugada. Quando o médico saiu, o espírito deu uma gargalhada e se foi – e eu me levantei, sem problema algum. Meu marido, Íris, era paulista e já tinha um bom preparo espiritual. Um amigo de trabalho lhe disse que, no Rio de Janeiro, só encontraríamos espíritos daquele jeito na umbanda. Fomos, e ali a mediunidade explodiu. Três anos depois, o chefe do terreiro me disse: “Seu lugar não é aqui. Você está muito folgada...” Eu, que fui uma menina muito pobre, estava com carro e motorista. O chefe do terreiro afirmou: “Você vai sair desta cidade, seu marido vai vender tudo. Quando você vender a cama para ajudar seu marido a sustentar seus filhos, aí é que vai entender o que é espiritismo.” Certa vez, uma médium do terreiro recebeu o espírito de José de Arimateia, que acompanhava espíritos israelitas e alemães em visita a trabalhos espirituais no Rio de Janeiro. Ela falou aramaico, alemão, tudo. O chefe do terreiro me disse: “Você tem de conhecer o Espiritismo. Aqui é como o primário que você fez na escola. Depois, vá conhecer o Espiritismo.” Viemos para São Paulo e, depois, fomos para Atibaia (a 65 km da capital). No centro kardecista de lá, de início eu era vista de forma diferente, por ter vindo da umbanda; depois, fiquei amiga de todos. Fundamos lá a Mocidade Espírita, que hoje está maravilhosa. Após cinco anos em Atibaia, fui parar na Federação Espírita do Estado de São Paulo. Um amigo do comandante Edgard Armond (um dos mais importantes dirigentes da história da Federação) conheceu nosso trabalho – em Atibaia, o Noel e nós fizemos várias sessões de efeitos físicos. Muita gente ia lá para vê-las – e acabei vindo para São Paulo a fim de me educar...

Quando Noel Rosa surgiu?

Enquanto eu estava no terreiro. Meu organismo não suporta álcool, mas o Noel me fez tomar cerveja das 8 horas da noite à 1 da manhã. Antes de ir embora, me disse: “Você não vai sentir nada.” De fato, não senti. Mas lhe disse: “Nunca mais me faça isso. Não se aproxime mais de mim.” Quando ele se aproximou, em Atibaia, avisou: “Não é para beber nem fumar. Vim para aprender.” Ali, começamos a trabalhar juntos. Voltando à Federação, fiz um teste com o comandante. Ele me disse: “Médiuns iguais à senhora, eu tenho 12. A senhora é ótima médium, mas para fazer sessões em sua casa.” Respondi: “Esses 12 são melhores que eu porque têm escola, e eu não.” Ele retrucou: “Então, vai para a de Aprendizes e a de Médiuns de uma vez.” Eu me inscrevi, e algum tempo depois ele me chamou para me educar a fim de fazer parte do Colégio de Médiuns, um grupo de 12 a 14 médiuns que dão orientações especiais – quando os médiuns comuns e os psicólogos que fazem o primeiro atendimento não acertam o diagnóstico, o caso vai para esse grupo. Foram três anos de preparação. Envergonhei o comandante com minha ignorância. Certa vez, ele me chamou ao seu gabinete, indicou um dos dois homens ali presentes e me disse: “A filha desse senhor está com um problema. Ele vai lhe mostrar o retrato dela. Use sua vidência e veja o que ela tem.” Vi a foto e disse ao homem: “Sua filha fez uma operação na barriga. Dos rins saem uns caninhos que vão dar na bexiga. O caninho da direita está furado.” O comandante me deu aulas de anatomia por dois anos, porque achava uma vergonha um médium da Federação dizer que a filha de um médico tinha “caninhos”... Trabalhei com o comandante de 1956 a 1967. Quando ele saiu, doente, me fez herdeira do Colégio. Mas, dos 12 médiuns de então, o único que ficou fui eu. O comandante me chamou à casa dele e disse: “Você vai ter de formar o Colégio outra vez.” Coordenei o Colégio até uns quatro anos atrás, e deixei-o com 29 grupos e 120 médiuns. Atualmente, trabalho só um dia lá, dirigindo um dos grupos, e na área de Vibração.

Como foi seu contato com Chico Xavier?

Quando eu conseguia me desdobrar (fazer o corpo espiritual sair do físico), tinha curiosidade em conhecer o Chico – e ele, muito caridoso, me atendia. Um dia, um diretor da Federação foi ao Chico porque um de seus netos estava com problema. O Chico lhe disse: “Procure a Martha, aquela que recebe o Noel, porque só ela pode dar um jeito no seu neto.” As indicações se repetiram e a diretoria da Federação me perguntou por que o Chico mandava me procurarem. “A senhora o conhece?” Respondi que só por foto. Fomos a Uberaba em 1960 e o dr. Luiz Monteiro de Barros, presidente da Federação na época, disse: “Não vamos entrar no centro agora. Vamos na hora do Evangelho, para ver se o Chico reconhece a Martha.” Pedi: “Vamos chegar à janela só para eu ver se ele é igual ao retrato?” Quando cheguei, o Chico me chamou: “Marthinha, há quanto tempo estou esperando por você! Vem cá!”

Fui a Uberaba umas seis vezes. Em cada uma delas, recebi o privilégio de uma onda de luz. Tenho em casa uma caixa com telegramas e recados do Chico me estimulando ao trabalho. Eles influenciaram minha vida.

Quando surgiu o Grupo Noel?

Em 1957, muita gente vinha à nossa casa, na Vila Mariana, em São Paulo, pedir ajuda e orientação. Pessoas que nos conheciam de Atibaia queriam que fundássemos um grupo. As famílias Prestes Rosa, Ferrari e Paroni eram as mais entusiasmadas com a ideia. Os benfeitores disseram: “Se vocês estudarem juntos durante 20 anos, funda-se o grupo.” Todos foram para a Federação fazer Escola de Aprendizes, de Médiuns. Em agosto de 1977, fundamos o Grupo Noel, na Vila Mariana.

O espiritismo brasileiro consolidou-se com ícones como Bezerra de Menezes e Chico Xavier. Ele ainda depende do carisma de figuras como essas?

Os espíritas precisam abolir o fanatismo por esses ícones. Temos ótimos médiuns.

A senhora disse que um bom convívio familiar significa a resolução de mais de 90% dos problemas que trouxemos...

A família é uma reunião de espíritos que fazem parte de um mesmo grupo evolutivo. Por exemplo, tenho reencarnado com aqueles que foram meus ir mãos, cunhados, filhos, etc. até nos harmonizarmos totalmente. Quando isso ocorrer, poderemos harmonizar outros grupos. Quando dei conta da minha família (já tenho tataranetos), pude me dedicar ao Grupo. Rodeada de amigos, porque sem amigos não fazemos nada. Nosso Grupo não tem o nome de “Centro Espírita” – é um grupo de pessoas com o mesmo ideal.

A condição mundial depende das famílias. Podemos fazer a sociedade melhorar dando exemplo dentro da nossa família. A atual situação planetária, aliás, está muito ligada ao lado espiritual. O Evangelho profético de Mateus mostra que estamos em pleno Apocalipse. Perguntado pelos discípulos sobre quando a Terra iria melhorar, Jesus disse que chegará um tempo em que nada ficará oculto – e hoje, com a internet e os “grampos”, praticamente se sabe de tudo... Jesus também disse que o começo do fim é quando os filhos começarem a matar os pais e os pais a matar os filhos. Desde os anos 1990 ouvimos falar de casos assim. É um momento muito difícil.

Certa vez, alguém pediu ao Chico para perguntar ao seu mentor, Emmanuel, quando a Terra melhoraria. Emmanuel respondeu que, se os espíritas fossem unidos, em 2015 teríamos um mundo melhor. Mas, como eles ainda têm muitas divergências, só teremos paz lá por 2040... Depende de nós.

Como seguir na ativa aos 94 anos?

Os médiuns derramam sobre os pacientes tratados jarros de fluidos. Os pacientes não absorvem tudo; o que sobra fica na sala. Quando os passes terminam, todos os que estão lá se beneficiam. É por isso que continuo trabalhando: aprendi a respirar esses fluidos. Na matéria, minha respiração está péssima, mas com esse reforço dá para manter a saúde.

Qual é a importância do pensamento?

Nosso pensamento é matéria fluídica. Ao concentrá-lo em um desejo por uma pessoa, por exemplo, essa matéria vai ao encontro dela. Com o pensamento, pode-se mudar a vida de alguém. Por isso, o desenvolvimento do pensamento não pode ser ensinado a qualquer um. Os que têm amor no coração, os honestos não usam a força do pensamento a favor deles mesmos.

Como a senhora avalia sua carreira mediúnica?

Conquistei com ela um enorme conhecimento. Só cursei o primário. Hoje, estou a par, por exemplo, de física quântica, trago informações sobre doenças que não se conheciam. Certa vez, atendemos um senhor cujos astrócitos estavam fracos – algo que não sai em tomografia. Procurei meus amigos médicos e eles me elucidaram. Os astrócitos alimentam os neurônios; com eles enfraquecidos, enfraqueceu-se a cabeça. Foi o trabalho mediúnico que me deu esse conhecimento.


Grupo Noel – Rua Domingos de Moraes, 1.895/1.905, São Paulo, SP. Fone: (11) 5571-1014.
E-mail: fale@gruponoel.org.br
Fonte: Revista Planeta, edição 438