quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Simplesmente Hercílio Maes

A biografia de Hercílio Maes e as antigas edições publicadas pela Livraria Freitas Bastos


Um curiosa e realmente simples biografia de Hercílio Maes está sendo lançada pela Editora do Conhecimento (184 páginas, R$30,00). O relato é feito por Mauro Maes, herdeiro não somente do nome do pai, mas sobretudo do estigma construído em torno de Hercílio, simplesmente pelo fato de ter sido o primeiro, o mais prolífico e também o mais conhecido médium do Espírito Ramatis.
Médium de alto potencial e independente, Hercílio nunca escondeu suas tendências e atração por aquilo que hoje se define como movimento holístico, isto é, o reconhecimento de todas as correntes filosóficas e religiosas como fator de evolução espiritual. Maçom, rosacruz e teosofista, Hercílio entrou em choque com o stablishment espírita-kardecista encabeçado por Herculano Pires não apenas por causa dos livros de Ramatis, mas principalmente pela sua postura aberta e autêntica em não admitir uma admiração exclusiva pelo Espiritismo. Era uma época de graves transformações na civilização e também muitas inovações e novidades no movimento espírita. Grupos organizados como o Clube dos Jornalistas Espíritas e líderes formadores de opinião, como Ary Lex, adotaram o estilo defensivo e ortodoxo, causando uma enorme polarização em torno do assunto “pureza doutrinária”. O alvo principal era Hercílio e os livros de Ramatis, que na época estouravam em vendas no meio espírita, superando inclusive os livros de Allan Kardec. O grupo conservador considerou esse aspecto uma verdadeira “infiltração” espiritual “a serviço da confusão” no movimento espírita, sobretudo porque os temas universalistas realçavam as tendências de duplicidade doutrinária já existentes em muitas casas espíritas. Os mesmos críticos que consideravam rículas e fantasiosas as mensagens psicografadas por Hercílio Maes também não se livraram da chacota da opinão pública ao apoiar e organizar "esquisitos" eventos de "música mediúnica". Coisas da mediunidade.
A apologia do vegetarianismo também rendeu a Hercílio Maes alguns inimigos, que simplesmente deixavam de convidá-lo para novas palestras cujo conteúdo principal era extraído do livro Fisiologia da Alma. Esse foi, segundo o biógrafo, o motivo do seu banimento da Federação Espírita do Paraná, na época tendo como dirigentes e conselheiros alguns "adeptos de churrascadas" e “carnívoros inveterados”. Muitos dirigentes espíritas de prestígio sabiam da importância Hercílio como médium, da sua missão e nunca esconderam essa admiração , como foi o caso de Edgard Armond, por quem Hercílio tinha reverência especial reconhecendo nele um espírito que salvou sua vida em épocas remotas. Quando lemos esse texto biográfico, meses antes da publicação, percebemos um certo ressentimento de Mauro ao conduzir o relato, talvez pelo fato de relembrar todos os problemas enfrentados pelo pai no meio espírita. Mas não foram somente os espíritas conservadores que combateram Hercílio. O médium era alvo permanente de ataques de forças trevosas que não gostavam das revelações sobre os processos de magia encontrados nas práticas afro-indigenas e que atingiam diretamente os interesses de manipulação dos médiuns que trabalham nessa linha.
Hercílio Maes era radiestesista e concentrou sua ação de caridade nesse trabalho de cura. Conhecia e também praticava a homeopatia. Como o próprio título afirma, a biografia é simples, mas o conteúdo é muito mais do que isso: é curioso e cheio de revelações, tanto que lemos de uma só vez numa tarde de sábado. É leitura obrigatória para quem apenas “ouviu falar” de Hercílio Maes. Mas, de tudo o que foi escrito, o que mais chama a atenção é o aspecto humano do relato. Hercílio tinha tudo para ser materialmente bem sucedido na vida. Intelectualmente bem preparado, formou-se em Direito e Contabilidade e chegou a cursar três anos de medicina. Mas nem sempre a inteligência entra em sincronia com a oportunidade e ele teve que se contentar apenas com o suficiente para manter a família. Conhecendo essas tramas do destino , aprendemos, mais uma vez, que o médium, seja qual for a sua linha de ação, é sempre alguém que está destinado a enfrentar situações sempre mais dolorosas do que os devedores comuns.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Aristóteles e o "animais espíritas"

O que acontece quando os espíritas divergem entre si? É incompatibilidade de idéias ou disputa de poder? É normal a divisão e separação de grupos, bem como a formação de agremiações espíritas dissidentes? A disputa política mancha a honra e a pureza doutrinária das instituições espíritas. A deposição de um grupo e deserção dos seus membros é de alta gravidade ética entre os espíritas?

A resposta para todas essas dúvidas é uma só: quando se trata de política, tudo é possível, mesmo entre os espíritas. Não que a política seja algo sujo e imoral. Pelo contrário. Os espíritas, como todos os seres humanos encarnados, são no dizer de Aristóteles “animais políticos”. Fazemos política como atividade humana fundamental para viver em sociedade. Todos os nossos gestos ativos são na sua maioria gestos políticos, com a finalidade de expressar nossas vontades e necessidades, desde a decisão de levantar do sofá para tomar um copo de água, reivindicar o acesso ao banheiro ocupado abusivamente por algum membro da nossa família, bem como as decisões mais complexas e graves do nosso destino.

A antiga pólis grega, símbolo clássico de todos os espaços de exercício político, continua nos lembrando que não mudamos a nossa natureza humana e zoológica (zoopolyticon). Trazemos o potencial político no instinto gregário desde quando éramos nômades e o aperfeiçoamos quando criamos nossos endereços sedentários, sobretudo no ambiente da cidade (cidadania) ou da civita (civilidade).

Quando Allan Kardec criou a idéia do “centro espírita” é provável que estivesse imaginando o ambiente cultural das antigas cidades greco-romanas, tão amplamente cultivado nos núcleos urbanos europeus do século XIX. Centros espíritas seriam então centros culturais, locais de encontro de pessoas simpatizantes do espiritismo e naturalmente preocupadas em ampliar sua dimensão cultural para os segmentos da sociedade.

O encontro regular dos espíritas gera naturalmente os hábitos políticos decorrentes dessa reunião de necessidades e expectativas, seja de comunhão, seja de desunião de propósitos; de divergência ou de convergência de idéias. Os liderados geralmente aceitam e seguem as sugestões apontadas pelos líderes, revelando uma tendência natural de acomodação. Já os líderes natos dificilmente seguem a mesma tendência quando têm que seguir as sugestões de outros líderes. Normalmente fazem resistência, questionam, criam obstáculos, lutam para não perder a posição (status quo) que alcançaram ou que pretendem alcançar.

Tudo isso não tem nada de mal ou negatividade pois trata-se de um comportamento espontâneo, a não ser que as condições sejam muitos tensas e sem possibilidade de negociação (ceder, compartilhar, respeitar e reconhecer as ações contrárias). Aí, sim, revelariam um desvio do comportamento político natural, ou seja, explorar as possibilidades. Impedir que o “diálogo do possível” se manifeste é uma reação de inconformismo passional, de orgulho, egocentrismo que conduz aos extremos da divergência. Do contrário, tudo pode caminhar para o centro convergente, mesmo que as diferenças e particularidades persistam. Esse é o espírito original da política.

Já tivemos a oportunidade de presenciar alguns lances de disputa de poder em instituições espíritas e que tomaram diferentes rumos*, legítimos e ilegítimos, legais e ilegais, positivos e negativos. Alguns cederam ao radicalismo e inviabilizaram a continuidade do projeto; outros reconheceram a inviabilidade das suas idéias e partiram para outras possibilidades de exercício de cidadania; outros ainda cederam nos pontos mais críticos e optaram pela preservação do projeto, adiando as mudanças pretendidas. Com exceção dos primeiros, todos eram líderes que possuíam mais pontos positivos do que negativos e não se deixaram levar pelas suas paixões egocêntricas. Já os líderes radicais e extremistas cometeram duas falhas inaceitáveis na sua condição de condutores: a deserção institucional, retirando-se de forma deseducada e, mais grave, o abandono do ideal, revelando uma identidade e opinião de aparência e a falta de compromisso.
Bom seria que os espíritas aprendessem a cultivar a liderança centrada no grupo e não somente nos líderes, combatendo o comodismo e a dependência. Enquanto isso não acontece, o melhor possível certamente recai sobre a tolerância e a paciência, virtudes que os gregos antigos admiravam e que os espíritas transformaram em obrigação moral.

NOTA*

Edgard Armond, líder espírita enérgico que muitos pensam equivocadamente ter sido autoritário, interpretava e conduzia a disputa de poder nas instituições espíritas como uma oportunidade para valorizar lideranças novas e estimular a criação de novas frentes de trabalho. Sua idéia sobre esse fenômeno social era o princípio da vida celular: “dividir para multiplicar”.

O psicólogo Carl Rogers "facilitando" um encontro: liderança centrado no grupo


segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O espiritismo e a física da alma

Visões de mundo, ampliação sucessiva de horizontes e mentalidades


Na semana passada , por coincidência ou não, na emblemática data brasileira de 12 de outubro, recebemos com a alegria e a preocupação dos leigos a primeira aula de Física da Alma, da pesquisadora e professora Claudia de Abreu. Elas estão disponíveis no blog Ciência e Espírito (http://www.cienciaeespirito.blogspot.com/) e convida os novos leitores a conhecer a história e os mais novos conceitos da física quântica para finalmente relacioná-los adequadamente aos fenômenos do espírito.

Não pude deixar de recordar Eurípedes Barsanulfo e das aulas de astronomia que ministrava no Colégio Allan Kardec. O que teria levado Eurípedes a tomar uma medida educativa tão avançada e radical para sua época? Por quê astronomia e por quê o nome Allan Kardec para uma escola localizada naquela longínqua região da Serra da Canastra?

Segundo Corina Novelino, o espírito Maria de Nazareth manifestou-se em Sacramento no início do século passado e sugeriu a Eurípedes que mudasse o nome do seu educandário para Colégio Allan Kardec e colocasse no currículo da nova escola essa disciplina tão fascinante. A astronomia muda a visão de mundo e desperta o espírito encarnado, ainda preso à concepções estreitas, para a pluralidade cósmica e a complexidade do espírito.

O leitor comum, que desconhece o potencial espiritual e mediúnico daquela região, especificamente naquele contexto histórico, pode estranhar a manifestação de espíritos tão elevados, sobretudo os da tradição judaico-cristã. O apóstolo João Evangelista fazia dissertações evangélicas em linguagem e profundidade conceitual através de médiuns de cultura rústica, semi-analfabetos, que atuavam nas reuniões espíritas da Fazenda Santa Maria. Aliás, como manda esse tipo de tradição, toda aquela região foi preparada com antecedência precursora para receber essas manifestações e preparar o cenário para a afirmação da cultura espírita –cristã naquela parte geográfica estratégica do nosso País. Foi dessa região que surgiria também Maria Modesto Cravo, Dona Modesta, médium de alto potencial e que recebia instruções diretas do espírito Ismael. Lendo os textos biográficos escritos por Corina Novelino, ex-aluna de Eurípedes, Chico Xavier declarou espontaneamente que tudo aquilo se tratava de um reflexo histórico do Evangelho de João. O espírito Emmanuel confirmou essa marca e revelou a identidade antiga de Eurípedes como personagem de um de seus romances históricos do cristianismo primitivo. Era o escravo cristão Rufo, radicado nas Gálias. Numa outra existência Eurípedes havia sido aluno de Inácio de Antioquia, discípulo de João Evangelista, de quem tornou-se seguidor muito próximo. Corina revela ainda que dois espíritos acompanhavam bem de perto a missão de Eurípedes: Bezerra de Menezes e Vicente de Paulo, de quem recebeu instruções incisivas para afastar-se da Igreja Católica e trilhar o apostolado espírita.

A idéia dos espíritos era quebrar paradigmas e dogmas, abrir campo para a revolução científica e filosófica contida na mensagem espírita. Pesquisar a astronomia - como fez Camille Flammarion- e cultivar o espírito lúcido de Allan Kardec, era garantia de que não haveria manipulação mística e sacerdotal dos fenômenos mediúnicos. Não haveria segredos nem códigos secretos.

Certamente essa é a intenção da professora Claudia ao oferecer preciosas aulas de física quântica aos espíritas: corrigir equívocos da linguagem científica e também afastá-los dos perigos da superstição e do engodo mediúnco.
Nas horas vagas a professora Claudia segue, entre outros, o blog da Casa Espírita João Evangelista (http://casaespiritadrp.blogspot.com/)


O Observatório de Juvisy, dirigido por Camille Flammarion: mediunidade e astronomia na afirmação da cultura espírita e da complexidade universal.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Nova História do Espiritismo em edição revista e ampliada

O livro Nova História do Espiritismo - dos precursores de Kardec a Chico Xavier está sendo relançado pela Editora do Conhecimento. A nova edição foi revisada e ampliada pelo autor a partir da última edição feita em 2007 ganhando novos textos e uma atualização cronológica entre 1733 e 2010.
Diferente da obra clássica de Arthur Conan Doyle, essa nova historiografia do espiritismo avança no tempo e atualiza os principais fatos desde a publicação feita pelo famoso escritor inglês. Passaram-se mais de 150 anos, o movimento espírita tomou novos rumos, surgiram tendências, as divergências e a constante busca da convergência unificadora.
Essa segunda parte da história não foi contada por Conan Doyle e nem poderia, já que a maioria dos acontecimentos marcantes ainda estava por vir e bem distante daquele contexto eurocêntrico da Belle Époque.
O Espiritismo desapareceu da França e explodiu no Brasil como opção religiosa de milhões de adeptos no século 20. Nesse novo capítulo da história espírita mundial o médium brasileiro Chico Xavier torna-se a figura mais expressiva do movimento espírita e sua obra literária brilha como a principal referência em relação a Allan Kardec, sendo transposta para a teledramaturgia e também para o cinema. Chico chega a ser apontado por adeptos mais afoitos como a reencarnação do próprio Kardec, em missão existencial complementar.
A Federação Espírita Brasileira e muitas outras entidades federativas vão assumindo as rédeas da propaganda e das diretrizes do movimento através da ação de inúmeros médiuns e influentes líderes espíritas, de múltiplas concepções e tendências sobre a filosofia espírita.
E finalmente, no início do século 21, o Brasil configura-se como a principal nação espírita do mundo e uma das principais culturas reencarnacionistas do planeta.
A Nova História do Espiritismo é composta de sete tomos (ver coluna ao lado) , contemplando não somente a linha cronológica factual, mas principalmente os personagens e questões mais influentes do movimento espírita.


Galeria D'Orleans, local da Livraria Dentu e do lançamento de O Livro dos Espíritos, no dia 18 de abril de 1857.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Paulo Coelho e Chico Xavier

Nunca tivemos dúvida de que Paulo Coelho “psicografa” seus livros e que seu “mestre” é um espírito desencarnado. Como católico praticante, ele nunca admitiu abertamente essa verdade, mas também nunca a negou . Isso fica bem claro nessa entrevista dada a Paula Bonelli, da coluna Direto da Fonte (Sônia Racy) , do Estadão, na última segunda-feira (dia 4).


Paulo Coelho parece uma máquina sobrenatural. Escreve em duas semanas livros que já venderam 145 milhões de exemplares em 150 países. No Brasil, é sucesso de público, mas não de crítica. O que ele caracteriza como inveja: "Volta e meia, leio um ou outro comentário menosprezando o meu trabalho. Mas sempre interpreto como "eu gostaria de ser Paulo Coelho", analisa o escritor sem temor da modéstia, acostumado a rebater a jato tudo que é dirigido contra ele. Coelho concordou em dar entrevista somente por e-mail. E respondeu 25 das 30 questões sem direito a réplica. Ele que, em 2006, gravou vídeo de apoio à campanha de reeleição de Lula, teria ficado ressentido por não ter recebido sequer mesmo um só telefonema de agradecimento. E ignorou perguntas sobre eleições e a respeito do amigo José Dirceu.

Sua última obra, lançada até agora apenas no Brasil, O Aleph, é repleta de viagens no tempo, encontros com vidas passadas e sinais a serem interpretados, efeitos típicos do cardápio que celebrizou o autor. O lançamento mundial de As Valkírias transformou-se num sucesso estrondoso, ocupando a primeira posição das listas de livros mais vendidos em pelo menos oito países.

Como um bom mago, Paulo Coelho oculta os truques. Não revela o que realmente ocorreu de fantástico em O Aleph. "Essa pergunta não vou responder porque entrega o que aconteceu no livro", justifica. A obra relata sua viagem pela ferrovia Transiberiana, realizada há quatro anos, em busca de crescimento espiritual em momento de profunda crise de fé.

Quando tira a espada, da exclusiva ordem religiosa R.A.M, em que foi ordenado mago, ou o fardão de imortal da Academia Brasileira de Letras, adota um visual básico e despretensioso: "Não preciso de tudo que está nas vitrines. Compro camisetas da GAP e calças Levi"s".

Como tudo que faz sucesso é copiado, Paulo Coelho inventou uma fórmula ousada para se promover por meio da autopirataria: criou o site Pirate Coelho, que oferece versões de seus livros para serem baixados de graça pela web.

Você acha que a internet poderia estar prejudicando as vendas de seus livros no Brasil?

Quem consegue chegar ao "Pirate Coelho" (não é tão fácil assim) poderá baixar grande parte dos meus livros. Mas o que concluí? Desde que os livros estão disponíveis, as vendagens aumentaram. Ninguém lê livro em tela de computador, mas podem ter uma ideia do conteúdo e decidirem se desejam comprar. Até o momento, a resposta é: "Sim, desejamos comprar".

Os suportes eletrônicos não competem com o livro impresso?

Na minha opinião, até o momento, não. Apenas permitem que um leitor na Tailândia ou na Costa do Marfim possa baixar meu livro em português. A tal competição acontecerá talvez daqui a cinco anos, mas qualquer previsão sobre tecnologia é semelhante a previsões econômicas: sempre acontece o que ninguém está esperando. Acho que os livros continuarão por longo tempo na forma impressa.

Você é extremamente reconhecido no exterior. Acha que o seu trabalho não é tão bem compreendido no Brasil?

Acho que se não fosse o Brasil e o entusiasmo dos leitores brasileiros, meus livros jamais teriam chegado ao exterior.

Quando foi eleito para a Academia Brasileira de Letras sentiu que houve escritores que torceram o nariz para você?

Não, ninguém torceu o nariz. Podem ter ficado surpresos, mas nada além disso. Volta e meia leio um ou outro comentário menosprezando o meu trabalho, mas sempre interpreto como: "Eu gostaria de ser Paulo Coelho".

Como assim?

Recentemente, no Twitter da Biblioteca Nacional, o seu ex-diretor Affonso Romano de Santana disse que leu O Alquimista em 1986 e ficou na dúvida se devia me dizer para não publicá-lo. Interpretei como leituras psicografadas, já que o livro só foi escrito dois anos depois.

O que é a crise de fé que o motivou a viajar pela Transiberiana e a escrever O Aleph?

Um homem em crise é um homem que está sempre crescendo. Já tive muitas e espero ter muitas ainda, porque assim sou obrigado a me questionar constantemente.

Falar em crise da fé não é uma redundância no mundo desencantado e tecnológico em que vivemos?

Acho que estamos em um mundo encantado e técnico, sendo que a tecnologia, através das comunidades sociais, tem colaborado para aproximar as pessoas. No meu caso, o contato com os leitores é muito mais direto. No lançamento de O Aleph não dei nenhuma entrevista, tudo foi feito através das comunidades sociais.

Que acontecimento fantástico relatado no livro realmente ocorreu nessa sua experiência cruzando a Rússia?

Essa pergunta não vou responder porque entrega o que aconteceu no livro. Posso dizer que nem tudo que aconteceu na viagem está no livro. Mas tudo que aconteceu no livro também ocorreu na viagem.

Há alguma relação com a obra homônima de Borges?

Borges, Paracelso, e muitos matemáticos tocaram no famoso ponto, o Aleph, onde tudo converge ao mesmo tempo. O meu livro também trata do tema.

Seus livros sensibilizam milhões de pessoas das mais variadas regiões do mundo, com valores completamente distintos entre si. Isso te surpreende?

Sim, é uma surpresa que se prolonga por mais de 20 anos. Neste momento estou lançando no mundo inteiro As Valkírias, quase 20 anos depois de publicado no Brasil. E o livro está em 1° em todas as listas. Se eu soubesse o segredo, talvez isso não estivesse acontecendo mais.

E como estão sendo recebidas as versões virtuais dos livros?

As versões digitais estão vendendo muito além do esperado; os originais em português e as versões em inglês, francês, espanhol e alemão (eu comprei os direitos das traduções) estão em praticamente todos os suportes eletrônicos, do iPhone ao Nook.

Usa iPad, Kindle?

Uso Kindle, não me adaptei com iPad, embora minha mulher tenha adorado.

Usa roupa de marca? Que tipo de prazeres você se dá ao luxo?

Não preciso de tudo que está nas vitrines. Compro camisetas da GAP, calças Levi"s. Sempre que viajo tomo o vinho local que pode ser bom ou pode ser ruim, mas é uma experiência nova. Não frequento restaurantes badalados, exceto quando sou obrigado por questões profissionais (eventos, etc.). Normalmente a melhor comida é aquela que você come quando sente fome. Já entrei em muitos restaurantes esperando encontrar a Capela Sistina da gastronomia, e saí decepcionado. Já entrei em muitos bares esperando apenas matar a fome e encontrei uma Capela Sistina da gastronomia.

Já foi convidado para eventos como a Flip e o Fórum de Ouro Preto? Frequenta rodas literárias?

Sim, fui convidado para a Flip, mas não pude ir. Frequento o campo, os aeroportos, as praias, e as livrarias - onde está o material para escritores.

O que você acha do Chico Xavier?

Uma pessoa extraordinária. Tive o prazer de conhecê-lo enquanto passeava neste mundo, e fiquei muito impressionado com ele.

Como ele, acredita em vida após a morte?

Acredito, sim, em vida após a morte, assim como há vida antes do nascimento.

O que é fé para você? Com quais religiões se identifica?

Fé é uma escolha pessoal. Sou católico, em profunda crise neste momento com as atitudes do atual Papa.

Tem algo de que você se arrependa?

Me arrependo de muitas coisas, mas isso significa que vivi intensamente, e pedi desculpas sempre que tive oportunidade. Quem não se arrepende de nada, das duas uma: ou não tem senso crítico, ou não viveu.

E do que se orgulha?

A coisa que mais me orgulho em mim é minha coragem: tenho meus medos, mas jamais me deixei paralisar por eles. A coragem é o medo que faz suas preces.

Em quais projetos está envolvido no momento? Algum novo livro?

Como falei acima, estou envolvido em caminhadas, livrarias, internet, bares, viagens, sempre aproveitando cada minuto da minha vida. Faço isso desde adolescente. Os projetos - que no momento não existem - surgem de uma hora para a outra, justamente quando estou relaxado.

Segundo a Publishers Weekly, você é um dos cinco escritores vivos mais lidos do mundo. Aonde mais quer chegar?

Onde minhas pernas me levarem, onde meu coração me exigir, onde minha alegria de viver me conduzir. Ninguém no mundo pode pretender mais que isso.


O escritor nos anos 80, relembrando a época em que fazia letras para as músicas de Raul Seixas.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Código secreto de Chico Xavier?

Chico Xavier nos anos 1970 em plena atividade na sua tarefa pública. Sem vaidades nem segredos.


Há quem interessa essa questão do Código Secreto de Chico Xavier?

Não existe nenhum motivo plausível, a não ser por questões familiares, para cremos num código secreto de Chico Xavier. Seria até um contra-senso da parte do médium, que sempre respeitou e colocou em prática os ensinamentos de Allan Kardec, alimentar esses exageros religiosos e concepções exóticas e estranhas à doutrina espírita.

Então, por que um código secreto? O que Chico teria a nos dizer se, durante toda a sua existência, ele nunca se preocupou em dizer coisas de si mesmo, das suas idéias próprias?

Chico sempre serviu de intermediário das idéias dos espíritos e sempre reconheceu o seu papel de simples colaborador ou canal mediúnico. Por que então, depois desencarnado, seria diferente?

Será que as pessoas estão se esquecendo que tudo que o médium produziu de importante não era de sua autoria e que o essencial de sua obra pessoal foi a caridade e que esta jamais esteve revestida da máscara do segredo?

Então que segredo é esse senão a nossa incapacidade de enxergar o que não queremos ver ?

Quem ou o que está por trás dessa idéia medíocre e que depõe contra a própria sobriedade e responsabilidade que o médium sempre demonstrou quando estava entre nós?

Se o caso permanecesse na esfera familiar poderíamos até compreender que houvesse algo que deveria ser esclarecido e que seria apenas do interesse de quem conviveu próximo do médium. De outra forma, nos parece ser esta uma questão de imaturidade e abuso, uma necessidade mesquinha de alimentar um falso prestígio em torno da figura carismática e admirável de Chico Xavier.

O Espiritismo não tem segredos, nunca foi de segredos e foi totalmente estruturado pelo Espíritos Superiores para abolir essas idéias e práticas da cultura dogmática e manipuladora da fé popular.

Os espíritas verdadeiros, portadores da consciência e da moral decorrentes da Doutrina dos Espíritos certamente não se interessam e até ficam indignados quando algo de bom sobre Chico Xavier deixa de ser divulgado ao público para ceder espaço ao fanatismo e à vaidade dos pretensos amigos e admiradores de Chico Xavier.

sábado, 11 de setembro de 2010

Triste nota de jornal:

Suicídios e depressão custam bilhões ao Japão

Suicídios e depressão custam US$ 32 bilhões por ano ao Japão, um dos países com altas taxas de suicídios. Na conta entram renda perdida, tratamentos e benefício sociais. Em 2009, 32 mil pessoas se mataram no Japão. É a primeira vez que o país divulga esse tipo de dado. –BBC Brasil


Ao contrário da cultura ocidental, que vê no suicídio um gesto de covardia ou ainda, na visão religiosa, uma rebeldia contra as leis divinas, no Japão tirar a própria vida significa coragem e heroísmo, ainda que sejam derradeiros gestos de protesto e desespero. O costume, herdado das tradições militares feudais e que coloca a honra acima da própria vida, ainda repercute na sociedade nipônica como a última arma de enfrentamento contra as tensões da modernidade. Para um povo educado milenarmente para encarar a vida como um jogo heróico de combates e vitórias, aceitar as derrotas que a existência impõe torna-se um tormento maior do que a própria morte. Digerir um fracasso é muito mais doloroso. Então, diante da possibilidade de encerrar o ciclo humilhante, até mesmo as crianças são impelidas a cometer suicídio para compensar o sentimento de impotência e derrota.

É possível que esses suicidas sejam na verdade espíritos reincidentes e que sucumbem facilmente diante da complicadíssima prova do orgulho e do egoísmo.

Ah!, como é difícil admitir o erro e conter esse fogo interior que consome os orgulhosos. É um fogo cruel cujas chamas corrosivas só se apagam quando lágrimas copiosas se voltam contra elas. E como é difícil chorar de olhos abertos e cabeça erguida!

Lemos certa vez que os mentores do Alto viam com outros olhos a auto-violência do harakiri praticado pelos samurais, bem como o gesto patriótico dos modernos kamikazes, embora isso não os livrasse das consequências negativas do suicídio. Como será que esses mentores olham as milhares de almas que hoje seguem os exemplos desses seus ancestrais?

O mesmo Japão que se humilhou formando filas imensas para pedir desculpas aos oficiais norte-americanos após a derrota na II Guerra poderia canalizar esse enorme gesto de humildade para desarmar esses espíritos rebeldes que insistem em desafiar as leis da Vida.

Ah!, como bom e reconfortante poder chorar, se humilhar, pedir desculpas...

Ah!, como é bom poder carregar esse fardo como se fosse o mais leve de todos que temos sobre os ombros!

sábado, 28 de agosto de 2010

Temple Grandin contra o autismo

A atriz Claire Danes no papel da engenheira autista. Clique e assista a palestra de Temple Grandin

A HBO lançou em 2010 uma das suas melhores produções dos últimos anos. Trata-se da história de Temple Grandin, uma engenheira norte-americana que venceu a barreira do autismo para emplacar sua missão humanista de diminuir o sofrimento dos animais em abatedouros. O filme foi baseado em dois livros auto-biográficos, incluindo “Um estranha menina”, publicado pela Companhia das Letras.

Temple iniciou sua carreira de projetista ainda na infância ao criar uma “máquina de abraçar” que a fazia sentir-se protegida nos momentos de pânico. Seu principal obstáculo era transpor as portas, objeto que simbolizava as ameaças que estavam por vir. Dessas experiências surgiu o projeto que mudaria sua vida e também dos milhares de bovinos abatidos diariamente nos grande frigoríficos dos EUA. Ao mostrar seu plano de manejo humanitário (que deixa o gado calmo durante o abate) e como desenvolveu seu estudo, ela se dirigiu assim aos empresários da carne: “Num minuto o gado vira um bife, mas colocando a mão num deles pude sentir quanto medo eles sentem antes morrer e ao tocá-lo deixei-o tão calmo que ele se foi tranquilamente”. E depois de detalhar tecnicamente o percurso harmonioso do rebanho, incluindo um banho de imersão, Temple argumenta com a redução dos custos e a maior de todas as justificativas para que finalmente comprassem sua idéia: “É um ser e precisamos tratá-lo com respeito”.

O autismo é um dos últimos grandes enigmas a serem desvendados pela ciência psíquica, possuindo uma infinidade de manifestações e graus de dolorosa complexidade. Os dois autores espíritas que abordam o assunto (Suely Caldas Schubert e Hermínio C. Miranda) concordam que a raiz do problema está no forte sentimento de culpa e auto-punição de Espíritos que reencarnam após causarem gravíssimos danos aos outros ou si mesmos. Ao falar do comportamento gravemente introspectivo e de permanentemente fuga dos autistas, Chico Xavier cita o médium de prova como exemplo típico dessa doença da alma. Dizia ele, talvez lembrando dos próprios sofrimentos, que já na erraticidade, o futuro médium demonstra um enorme pavor de reencarnar. E quando aqui está, na carne, busca desesperadamente a fuga para o mundo espiritual, como se fosse o refúgio do útero materno. Tal qual um médium em constante risco de desequilíbrio, o autista deve ser alvo de uma vigília incansável de amor e dedicação.

Um amigo nosso nos confessou que o filho autista (hoje com 16 ou 18 anos de idade) provavelmente teve sua situação de prova desencadeada durante a gravidez inesperada da esposa, na época namorada. Os dois eram muitos jovens e sem nenhuma orientação acabaram optando pelo aborto, em duas tentativas frustradas. A prova da família continua em pleno andamento e bem-aventurança. A mãe desencarnou repentinamente há dois anos e o pai, depois de perder gradualmente a visão, hoje luta para aprender as primeiras lições de braile e poder continuar sua tarefa diária de educador.

Claire Danes e a verdadeira Temple Grandin


O AUTISMO NA VISÃO ESPÍRITA

O autismo na visão espírita
O trabalho específico de Hermínio C. Miranda (Editora Lachâtre) e a abordagem de Suely Caldas Schubert (Minas Editora) contendo depoimentos de Chico Xavier.

sábado, 14 de agosto de 2010

Estética espírita no cinema de Silvio Back


Cena mediúnica em O Contestado - Restos Mortais


O cineasta Silvio Back está retomando uma antiga prática para fazer as pedras falarem, um recurso nada ortodoxo para revelar a identidade dos personagens mortos da Guerra do Contestado (1912-1916). Ele utilizou 30 médiuns nas filmagens explorando livremente os transes para criar, segundo o crítico Luis Carlos Merten, uma “estética espírita” e recontar a tragédia ocorrida no início da República Velha. Back já havia abordado essa temática histórica num longa metragem chamado A Guerra dos Pelados(1971), mas sem a encenação de recursos mediúnicos.

Para Merten, o crítico do Estadão, essa é uma estética já incorporada (sem trocadilhos) e utilizada anteriormente pelo cineasta. Segundo ele, para fugir das narrativas óbvias quando o assunto é morte, Back "radicaliza" ao apelar para o espiritismo como linguagem e expressão cultural popular:

“Ele encena, por meio de sessões espíritas, a possessão mediúnica que dá voz às vítimas dos massacres do Contestado. Seu filme não deixa de se inscrever nesta vertente do espiritismo que parece tão forte no cinema brasileiro atual. Além de Chico Xavier e do inédito Nosso Lar, o tema está em O Último Romance de Balzac, de Geraldo Sarno, que também concorre em Gramado. O que representa essa estetização do espiritismo? Para alguns críticos, é um retrocesso, mas o espiritismo já vem de longe na obra de Back. Aparece em O Auto-retrato de Bakun*, por exemplo”.

E sobre as reações obviamente já esperadas por parte do público e de alguns especialistas em cinema , o crítico do Estadão explica esse comportamento:

“Uma nova representação do transe? O autor é mais inteligente do que os críticos medíocres, que fazem chacota de O Contestado por sua trágica incapacidade de entender que o realismo não é a única ferramenta, ou linguagem, para investigação da dor do mundo no cinema.

*Essa abordagem cinebiográfica do pintor paranaense Miguel Bakun, que suicidou-se em 1963 aos 54 anos, também é realizada através de sessões espíritas e da história oral. Nota do blog.

Os caboclos combatentes no Contestado: uma forma radical e tipicamente popular de dar voz as mortos.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Ramatis segundo Emmanuel

Ilustrações de Emmanuel e Ramatis por Claudio Gianfardone


O caso de Ramatis tornou-se histórico e suas repercussões, pró e contra, criando uma significativa divisão de opiniões que perdura até hoje. É o caso mais conhecido de todos porque, sendo o mais acessível ao nível intelectual dos adeptos, foi o que mais influenciou o Movimento Espírita. Das 12 obras que esse Espírito publicou, através da mediunidade de Hercílio Maes, algumas causaram mais celeuma intelectual porque colocavam em evidência idéias polêmicas: o problema da fonte e da veracidade das informações, a controvérsia sobre acontecimentos biográficos de Jesus, a incompatibilidade doutrinária com as obras de Kardec e principalmente as previsões apocalípticas sobre o futuro da Humanidade terrena. J. Herculano Pires, em O Espírito e o Tempo , embora de maneira indireta, comparou os livros de Ramatis com a fase “nebulosa” das comunicações mediúnicas de Emmanuel Swedenborg:

“Poucos adeptos do Espiritismo, ainda hoje, apesar dos ensinos, das explicações e das advertências de Kardec a respeito, compreendem essa posição da doutrina. Por isso, muitos adeptos se deixam empolgar pelos restos da nebulosa que ainda procuram empanar o brilho da doutrina, através de comunicações mediúnicas de teor profético, muitas vezes tipicamente apocalíptico, que surgem a todo instante no movimento doutrinário. É natural o aparecimento constante e insistente dessas pretensas reformulações doutrinárias. Elas respondem à permanência, determinada pela lei de inércia, de mentes encarnadas e desencarnadas, no plano do pensamento mágico do passado. Essas mentes sintonizam no processo de comunicação mediúnica, repetindo inadequadamente, em nossa época, os processos ‘reveladores’ do horizonte profético”.

in Nova História do Espiritismo - Livro VII


A opinião de Emmanuel

"Logo que apareceram as primeiras publicações da "Conexão de Profecias" (Hoje com o título Mensagens do Astral), de Ramatis, fomos a Pedro Leopoldo, a fim de ouvir a palavra autorizada de Emmanuel, através daquele aparelho maravilhoso que é Francisco Cândido Xavier. Isto, porque o que era dito pelo espírito de Ramatis, parecia-nos perfeitamente lógico. Mas, como constituía novidade, não queríamos aceitar de pronto algo que não passasse pelo crivo de várias manifestações mediúnicas, através de diversos aparelhos. Desta forma, munidos do aparelho de gravação em fita, fomos atendidos gentilmente pelo médium, que respondeu às perguntas que fazíamos, repetindo as palavras da resposta, que eram ditadas por Emmanuel. A gravação foi feita no dia 5 de janeiro de 1954. Conservamos até hoje o rolo gravado em nosso poder.

Passamos a estampar as perguntas e respectivas respostas:


Pergunta: - Que pode o irmão dizer-nos a respeito do astro que se avizinha, segundo a predição de Ramatis?

Chico Xavier: - Esclarece nosso orientador espiritual que o assunto alusivo à aproximação de um Planeta ou de Planetas, da zona - ou melhor da aura da Terra - deve, naturalmente, basear-se em estudos científicos, que possam saciar a curiosidade construtiva das novas gerações renascentes no mundo. O problema, desse modo, envolve acurados exames, com a colaboração da ciência e da observação de nossos dias. Razão por que pede ele que não nos detenhamos na expressão física dos acontecimentos que se vizinham, para marcar maiores acontecimentos - acontecimentos esses de natureza espetacular - na transformação do plano em que estamos estagiando, no presente século. Afirma nosso amigo que o progresso da óptica e das ciências matemáticas, serão portadoras, naturalmente, de ilações, conclusões da mais alta importância para os nossos destinos, no futuro próximo.

Pergunta: - Pode Emmanuel dizer-nos algo a respeito da verticalização do eixo da Terra e das transformações que esta sofrerá, segundo Ramatis?

Chico Xavier: - Afirma nosso Orientador espiritual que não podemos esquecer que a Terra, em sua constituição física, propriamente considerada, possui os seus grandes períodos de atividade e de repouso. Cada período de atividade e cada período de repouso da matéria planetária, que hoje representa o alicerce de nossa morada temporária, pode ser calculado, cada um, em duzentos e sessenta mil (260.000) anos. Atravessando o período de repouso da matéria terrestre, a vida se reorganiza, enxameando de novo, nos vários departamentos do Planeta, representando, assim, novos caminhos para a evolução das almas. Assim sendo, os grandes instrutores da Humanidade, nos planos superiores, consideram que, desses 260.000 anos de atividade, 60 a 64 mil anos são empregados na reorganização dos pródomos da vida organizada. Logo em seguida, surge o desenvolvimento das grandes raças que, como grandes quadros, enfeixam assuntos e serviços, que dizem respeito à evolução do espírito domiciliado na Terra. Assim, depois desses 60 a 64 mil anos de reorganização de nossa Casa Planetária, temos sempre grandes transformações, de 28 em 28 mil anos. Depois do período dos 64 mil anos, tivemos duas raças na Terra, cujos traços se perderam, por causa de seu primitivismo. Logo em seguida, podemos considerar a grande raça Lemuriana, como portadora de urna inteligência algo mais avançada, detentora de valores mais altos, nos domínios do espírito. Após a raça Lemuriana - em seguida aos 28.000 anos de trabalho lemuriano propriamente considerado - chegamos ao grande período da raça Atlântida, era outros 28.000 anos de grandes trabalhos, no qual a inteligência do mundo se elevou de maneira considerável. Achamo-nos, agora, nos últimos períodos da grande raça Ariana. Podemos considerar essas raças, como grandes ciclos de serviços, em que somos chamados de mil modos diferentes, em cada ano de nossa permanência na crosta do planeta, ou fora dela, ao aperfeiçoamento espiritual, que é o objetivo de nossas lutas, de nossos problemas, de nossas grandes questões, na esfera de relações, uns para com os outros. Assim considerando, será mais significativo e mais acertado, para nós, venhamos a estudar a transformação atual da Terra sob um ponto de vida moral, para que o serviço espiritual, confiado às nossas mãos e aos nossos esforços, não se perca em considerações, que podem sofrer grandes alterações, grandes desvios; porque o serviço interpretativo da filosofia e da ciência está invariavelmente subordinado ao Pensamento Divino, cuja grandeza não podemos perscrutar. Cabe-nos, então, sentir, e, mais ainda, reconhecer, que os fenômenos da vida moderna e as modificações que nosso "habitat" terreal vem apresentando nos indicam a vizinhança de atividades renovadoras, de considerável extensão. Daí esse afluxo de revelações da vida extra-terrestre, incluindo sobre as cogitações dos homens; esses apelos reiterados, do mundo dos espíritos; essa manifestação ostensiva, daqueles que, supostamente mortos na Terra, são vivos na eternidade, companheiros dos homens em outras faixas vibratórias do campo em que a humanidade evolui. Toda essa eclosão de notícias, de mensagens, de avisos da vida espiritual, devem significar para o homem, domiciliado na Terra do presente século, a urgência do aproveitamento das lições de JESUS. Elas devera ser apreciadas em si mesmas, e examinadas igualmente no exemplo e no ensinamento de todos aqueles que, em variados setores culturais, políticos e filosóficos do globo - lhe traduzem a vontade divina, que na essência é sempre a nossa jornada para o Supremo Bem. Os termos da comunicação obtida em Curitiba (a "Conexão de Profecias", de Ramatis) são de admirável conteúdo para a nossa inteligência, de vez que, realmente, todos os fatos alusivos à evolução da Terra, e referentes a todos os eventos, que se relacionam com a nossa peregrinação para a vida mais alta, estão naturalmente planificados, por aqueles ministros de Nosso Senhor Jesus Cristo; os quais, de acordo com Ele, estabelecem programas de ação para a coletividade planetária, de modo a facilitar-lhe os vôos para a divina ascensão. Embora, porém, esta mensagem, por isso mesmo, seja digna de nosso melhor apreço, contudo, na experiência de companheiro mais velho, recomenda-nos nosso Orientador Espiritual (Emmanuel) um interesse mais efetivo, para a fixação de valores morais em nossa personalidade terrena, de conformidade com os padrões estabelecidos no Evangelho de nosso Divino Mestre. Porque, para nossa inteligência, os fenômenos renovadores da existência que nos cercam têm qualquer coisa de sensacional, de surpreendente, nosso coração de inclinar-se, humilde, diante da Majestade do Senhor, que nos concede tantas oportunidades de trabalho, em nós mesmos, a revelação dos grandes acontecimentos porvindouros; novo soerguimento íntimo, novo modo de ser, a fim de que estejamos realmente habilitados a enfrentar valorosamente as lutas que se avizinham de nós, e preparados para desfrutar a Nova Era que, qual bonança depois da tempestade, facilitará nossos círculos evolutivos. Será, todavia, muito importante encarecer, que não devemos reclamar, do terceiro milênio, uma transformação absolutamente radical, nos processos que caracterizam, por enquanto, a nossa vida terrestre. O prazo de 47 anos é diminuto, para sanar os desequilíbrios morais, de tantos séculos, em que o nosso campo coletivo e individual adquiriu tantos débitos, diante da sabedoria e diante do amor, que incessantemente apelam para nossa alma, no sentido de nos levantarmos, para uma clima mais aprimorado da existência. Não podemos esquecer, que grandes imensidades territoriais, na América, na África e na Ásia, nos desafiam a capacidade de trabalho. Não podemos olvidar, também, que a Europa, superalfabetizada, se encontra num Karma de débitos clamorosos, à frente da Lei, em doloroso expectação, para o reajuste moral, que Ihe é necessário. Aqui mesmo, no Brasil, numa nação com capacidade de asilar novecentos (900) milhões de habitantes, em quatrocentos e alguns anos de evolução, mal estamos -os espíritos, encarnados na Terra em que temos a bênção de aprender ou recapitular a lição do Evangelho - mal estamos passando das faixas litorâneas. Serviços imensos esperam por nossas almas no futuro próximo. E, se é verdade que devemos aguardar, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, condições mais favoráveis para a estabilização da saúde humana, para o acesso mais fácil às fontes da ciência; se nos compete a obrigação de esperar o melhor para o dia de amanhã cabe-nos, igualmente, o dever de não olvidar que, junto desses direitos, responsabilidades constringentes contam conosco, para que o Mundo possa, efetivamente, atender ao programa Divino, através, não somente da superestrutura do pensamento científico - que é hoje um teto brilhante para os serviços de inteligência do mundo - mas também, através de nossos corações, chamados a plasmar uma vida, que seja realmente digna de ser vivida por aqueles que nos sucederão nos tempos duros; entre os quais, naturalmente, milhões de nós os reencarnados de agora, formaremos, de novo, como trabalhadores que voltam para o prosseguimento da tarefa de auto acrisolamento, para a ascensão sublime, que o Senhor nos reserva. Considerando, assim, a questão sob este prisma, cabe-nos contar com o concurso da ciência, no setor das observações de ordem material; com a evolução dos instrumentos de óptica; com o avanço dos processos de exame, na esfera da química planetária, na qual os mundos podem ser analisados, como átomos da amplidão de universos, que se sucedem uns aos outros, no infinito da Vida. Será lícito, então, esperar que certas afirmativas, referentes a vida material, se positivem satisfatoriamente, para mais altas concepções da mente planetária; de vez que, muito breve, o homem estará ligado à glória da religião cósmica, da Religião do Amor e da Sabedoria, que o cristianismo renascente, no Espiritismo de hoje, edificará para a Humanidade, ajustando-a ao concerto de bênçãos, que o grande porvir nos reserva.

Pergunta: - Foi, de fato, há 37.000 anos que submergiu a Atlântida?

Chico Xavier: - Diz nosso Amigo (Emmanuel) que o cálculo é, aproximadamente, certo, considerando-se que as últimas ilhas, que guardavam os remanescentes da civilização atlântida, submergiram, mais ou menos, 9 a 10 mil anos, antes da Grécia de Sócrates.

Pergunta: - Poderíamos ter alguns informes a respeito de Antúlio?

Chico Xavier: - Vejo, aqui, nosso diretor espiritual, Emmanuel, que nos diz que um estudo acerca da personalidade de Antúlio exigiria minudências relacionadas com a história, no espaço e no tempo, que, de imediato, não podemos realizar. De modo que, tão somente, pode afiançar-nos que se trata de uma entidade de elevada hierarquia, no plano espiritual; vamos dizer; um assessor, ou um daqueles assessores, que servem nos trabalhos de execução do plano divino, confiado ao Nosso Senhor Jesus Cristo, para a realização do progresso da Terra, em geral. Esclarece nosso amigo que Jesus Cristo, como governador de nosso mundo, no sistema solar, conta, naturalmente, com grandes instrutores, para a evolução física e para a evolução espiritual, na organização planetária. E, subordinados a esses ministros, para o progresso da matéria e do espirito, no plano que nós habitamos presentemente, conta Ele com uma assembléia de múltiplos instrutores, de variadas condições, que lhe obedecem as ordens e instruções, numa esfera, cuja elevação, de momento, escapa à nossa possibilidade de apreciação. Antúlio forma no quadro destes elevados servidores.

Pergunta: - Acha nosso irmão que a Mensagem de Ramatis deva ser divulgada com amplitude?

Chico Xavier: - Diz nosso Orientador que a Mensagem é de elevado teor... E todo trabalho organizado com o respeito, com o carinho e com a dignidade, dentro dos quais essa Mensagem se apresenta, merece a nossa mais ampla consideração, de vez que todos nós, em todos os setores, somos estudiosos, que devemos permutar as nossas experiências e as nossas conclusões para a assimilação do progresso, com mais facilidade em favor de nós mesmos."

Fonte: Revista Aliança para o Terceiro Milênio, Janeiro de 1954- Ano I – Nº 4 , Editada pela Legião da Boa Vontade. O Assunto também foi abordado no livro “Sala de Visitas de Chico Xavier”, de Eduardo Carvalho Monteiro.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

A "Ghost Writer"

Segundo outra recente reportagem do Estadão, os livros de Zibia Gasparetto (12 milhões de exemplares vendidos) também estão servindo como fonte de inspiração para novos roteiros de cinema. Dois deles já estão sendo elaborados: "Ninguém É de Ninguém" e "Pelas Portas do Coração".


A escritora Zíbia Gasparetto foi entrevistada pela jornalista Flávia Tavares, do jornal O Estado de São Paulo. A entrevista, com o sugestivo título de “A Ghost Writer”, foi publicada na edição de domingo, dia 01 de agosto, mas não está disponível no portal do Estadão na internet.

Bem diferente das entrevistas publicadas por alguns órgãos de imprensa, com tratamento agressivo e irônico, nesta Zíbia teve finalmente a oportunidade de esclarecer o público sobre a sua postura e uso da mediunidade em suas atividades literárias. No longo texto introdutório a jornalista Flávia Tavares esclarece a posição dos espíritas sobre a finalidade e gratuidade das práticas mediúnicas e também expõe abertamente a posição da médium quanto às suas crenças e objetivos em relação à mediunidade.

A matéria também cita a FEESP – Federação Espírita do Estado de São Paulo como base da formação doutrinária de Zíbia e os motivos da sua ruptura com o movimento espírita. Sobre esse assunto, a médium declarou na entrevista: “Tenho muitos amigos na Federação e só não vou lá mais vezes porque não dá tempo. Mas já voltei a lançar livros lá.”

Zíbia Gasparetto e seu marido Aldo Luiz foram alunos da Escola de Aprendizes do Evangelho na década de 1950. Aldo cursou a 1ª Turma e Zíbia a 4ª Turma, ambas dirigidas por Edgard Armond. Segundo Edelso da Silva Júnior, no livro No Tempo do Comandante (Editora Radhu, página 242), Aldo e Zíbia Gasparetto, como alunos devidamente formados nessa escola iniciática, tornaram-se membros da FDJ-Fraternidade dos Discípulos de Jesus.