domingo, 23 de agosto de 2009

Madame Bovary somos nós



Madame Bovary foi talvez o maior sucesso literário popular do século XIX. Retratou o mundo burguês da Europa romântica, mas fez de forma tão desconcertante que os críticos até hoje não conseguem classificá-lo nas suas confusas tabelas de estilos. Fomos buscar numa antiga tradução publicada pela Editora Abril os trechos mais curiosos, incluindo os discursos cínicos e anticlericais do farmacêutico Homais. Mas foi assistindo a versão de Claude Chabrol para o cinema que pudemos sentir de forma mais intensa as fantasias, constrangimentos e as angústias que depois finalmente levaram Emma ao seu desespero. O pequeno romance, que mais parece um conto, também, como muitos outros, ensinou francês e hábitos europeus para sucessivas gerações de leitores no mundo inteiro. Foi lançado no mesmo ano em que foi publicada a primeira edição de O Livro dos Espíritos, em 1857. A história de uma senhora provinciana que comete suicídio após uma intensa trajetória de aventura sentimentais rendeu ao autor Gustave Flaubert um curioso processo judicial, sob a acusação de ofender a família, a religião e os valores morais vigentes. O escândalo literário foi certamente inspirado numa história real, mas que revelava nas entrelinhas os inúmeros casos verídicos que jamais seriam revelados ao público. A famosa resposta de Flaubert ao juiz que lhe perguntou “Quem era Madame Bovary” não poderia ter sido mais irônica e genial, mostrando que a fragilidade humana era uma prova indiscutível da falácia dos privilégios e preconceitos de classe: "Emma Bovary c'est moi". Ao ouví-la nesses anos todos ficamos nos perguntando por que Allan Kardec também não foi levado aos tribunais, já que sua obra continha muito mais “ofensas” aos valores sociais da época. Sua amizade informal com o Imperador Napoleão III não alterou esse perigo e Kardec também nunca abusou dessa prerrogativa, muito menos deu motivos para escândalos, preferindo uma abordagem mais reflexiva, sem os riscos passionais da expressão artística. Anos mais tarde Pierre-Gaetan Laymarie não teria a mesma sorte. Nem a sensatez de Amélie Boudet ao depor a seu favor no tribunal livrou-o da ferocidade dos acusadores. A sentença dele (do Espiritismo) já havia sido dada antes do julgamento. Mas se algum juiz perguntasse a Kardec “Quem eram os Espíritos”, a resposta provavelmente seria a mesma dada por Flaubert, talvez mais impessoal, e por isso mesmo não tão chocante e irônica: “ Os Espíritos somos nós”.


James Mason no papel de Flaubert num típico tribunal francês do império de Napoleão III

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