sábado, 1 de agosto de 2009

Jaci Régis e o Espiritismo Laico


Para os novos simpatizantes e pesquisadores do Espiritismo, o psicólogo e escritor Jaci Régis realmente não dispensa apresentações. Ativista histórico, começou no movimento espírita liderando a mocidade Estudantes da Verdade, cuja primeira empreitada foi mudar o nome da casa que frequentavam: saiu o Centro Beneficente Evangélico e nasceu o Centro Espírita Allan Kardec, até hoje em funcionamento. Jornalista sindicalizado, editou durante muitos anos o periódico Espiritismo e Unificação, mudado nos anos 1980 para o provocativo nome “Abertura”. Criado na onda da redemocratização do País, o jornal continua ativo e sempre aberto aos novos articulistas. Nele publicamos alguns artigos marcantes (pelo menos para nós). Foi o primeiro veículo a publicar o texto "A degeneração do Espiritismo", cujo título foi corrigido pelo próprio Jaci. É também dele a autoria da antiga e famosa proposta de “espiritizar” o movimento espírita brasileiro, segundo ele excessivamente influenciado pelo evangelismo. Sua trajetória jamais deixará de ser associada ao chamado Grupo de Santos, formado por pensadores de vários lugares do Brasil e da América Latina que enxergam o Espiritismo de uma forma bem diferente daquilo que é praticado na maioria dos espíritas. É o espiritismo laico, não religioso, voltado para as questões sociais e cotidianas e não somente para os problemas espirituais. Só esses dois adjetivos são suficientes para avaliar as repercussões e o incômodo que ele causa entre os espíritas tradicionais.

Mas Jaci não é nada daquilo que pintam sobre ele, sobretudo o líder radical e intolerante desenhado pelos que se sentem inseguros e impotentes diante de suas idéias e da coragem de divergir da maioria. É uma pessoa fraterna, muito franca, bem-humorada, sensível, enfim, um típico espírita que convence mais pela forma como age do que propriamente pelo que pensa. Ele sua esposa Palmira , com a ajuda dos filhos e de alguns amigos, dirigem há muitos anos o Lar Veneranda e mais recentemente o Instituto Cultural Kardecista , dois espaços muito conhecidos em Santos. O Lar é uma típica obra social espírita, da qual Jaci sempre diz que é simples obrigação de cidadão: “Não me sinto nada caridoso fazendo isso”. Já o ICKS é trabalho de prazer e combate ideológico, espaço de cultura, de agitação e realização de eventos, principalmente o Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita. Com 77 anos de idade, hoje funcionário aposentado da Petrobrás, Jaci Régis continua inquieto. E apesar da repetição desses números cabalísticos na sua idade, permanece bem longe do misticismo. Nunca achamos que ele fosse polêmico, porque os polemistas são muitas vezes vazios e repetitivos. Na verdade ele é um inovador, um agitador cultural. Daí a força das suas idéias e exemplos. Sempre criando e reinventando, que é a essência do seu pensamento atualizador do Espiritismo, ele agora se dedica a mais nova proposta do ICKS: o Gabinete Psico-Mediúnico. Muito ocupado e objetivo, conversamos rapidamente por telefone e ele reforçou o convite para participarmos do Simpósio em outubro próximo. Também nos concedeu uma interessante entrevista sobre todas essas coisas a seu respeito e também sobre a sua última novidade.


OE - A religião continua sendo um equívoco dentro do movimento espírita?


Sem dúvida. Na medida e que o Espiritismo se torna uma religião, perde a flexibilidade evolutiva que lhe caracteriza a estrutura criada por Allan Kardec. A religião, por definição, apóia-se em verdades absolutas e por afirmações dogmáticas.

OE- Por que os espíritas têm tanta dificuldade para romper com os laços religiosos e cultivar uma religiosidade mais natural?

Devemos ter em mente que as estruturas religiosas se sedimentaram em nossa mente através das reencarnações. Romper com elas é tarefa de reflexão, meditação, raciocínio e decisão. Isso acontece quando a pessoa consegue superar o medo de ficar desamparada pelo divino e compreende que o divino se manifesta diariamente na vida de todos.

OE- Você acredita que Kardec estranharia o atual movimento espírita no Brasil?

Creio que sim, porque a forma como foi desenvolvido o Espiritismo no Brasil contraria a linha que ele adotou na criação da doutrina.

OE- Queiram ou não queiram os antipáticos, o chamado Grupo de Santos formou escola e já entrou para a história do movimento espírita. Como você vê tudo isso?

O “grupo de Santos” do qual eu fui o principal articulador, teve a coragem, no seu tempo, de apresentar uma visão dinâmica da doutrina em contraposição ao esquema montado por pessoas e Espíritos ligados umbilicalmente ao sentido cristão da vida.

OE- Você sempre foi muito crítico ao perfil doutrinário da FEB e de outras entidades federativas. Houve alguma mudança na sua opinião?

A FEB é uma instituição respeitável e lidera a maior parte do movimento espírita. A ela estão ligados os representantes dos centros e federações. Entretanto, desde sua fundação ela seguiu um caminho próprio, diferente do preconizado por Kardec. Esse caminho compreendeu um extremo sentido religioso, místico e até aceitando as teses de Roustaing. Ultimamente se tornou menos inflexível, mas prossegue na sua intenção de liderar o movimento espírita mundial, na feição de corrente evangélico-mediúnica.

OE- A CEPA é realmente uma alternativa crescente no movimento espírita?

A CEPA pode se tornar uma alternativa positiva ao Espiritismo mundial, na media que se espalha não apenas na América, mas também na Europa. É numericamente pequena, mas reúne um grupo de espíritas que possui gabarito intelectual para disseminar uma forma de entender o Espiritismo adequado ao progresso e à realidade social. Para isso, contudo, é necessário definir claramente seus objetivos e trabalhar por eles.

OE- E sobre as práticas espíritas, você considera o passe uma autêntica atividade espírita?

Hoje em dia se diz aplicação ou transmissão energética, por ser mais adequada ao processo de transmissão de energia humana e magnética. Não se trata de uma prática genuinamente espírita, mas oriunda do magnetismo. Penso que é útil e efetiva quando aplicada de forma consciente e fraterna, sem considerá-la uma panacéia.

OE- O que é o Gabinete Psico-Mediúnico?

Com o Gabinete Psico-Mediúnico pretendemos oferecer uma opção para as pessoas com problemas emocionais, nos quais incluímos naturalmente a obsessão. Queremos criar um ambiente seguro de bases psicológicas, através de técnicas de relaxamento e respiração, por exemplo, indução à renovação do pensamento e complementarmente por orientação mediúnica e aplicação energética.

OE- Por que você passou a utilizara expressão “kardecista”, não bastava apenas “espírita”?

Entre as muitas deturpações a que o Espiritismo tem sofrido, incluímos a apropriação de desvio do significado dos termos “espiritismo” e “espírita”. Correntes esotéricas e de base dos cultos africanos se auto denominaram espíritas e as ousadias de dirigentes de centros que se intitulam espíritas criando “doutrinas próprias”, tornou o ambiente confuso, de modo que a palavra “espírita” não significa necessariamente o que Allan Kardec criou. Por isso, acreditamos que a palavra “kardecista” oferece uma apropriada denominação ao esforço que temos feito de reescrever o pensamento de Allan Kardec, adequando-o ao processo evolutivo das idéias e da humanidade. Daí crermos que “kardecista” refere-se mais especificamente ao trabalho original de Allan Kardec, delimitando nosso espaço e definindo nossos propósitos. Certamente jamais a palavra “espírita” será substituída por ter sido criada por Kardec, mas “kardecista” está diretamente ligada ao criador da doutrina.

OE- Ser kardecista hoje significa ser fiel, sectário e até fanático em algumas situações e agremiações espíritas. O que está acontecendo?

Ser kardecista é ter conseguido livrar-se dos condicionamentos sectários e ter um novo pensar, dinâmico e reflexivo sobre os problemas humanos, a partir dos enunciados iniciais de Allan Kardec.

OE- Finalmente, o que está desatualizado: Kardec ou o Espiritismo? Kardec é necessariamente sempre sinônimo de Espiritismo?

Kardec é o criador do Espiritismo. Daí ser a raiz do pensamento espírita agora e sempre. Mas ele deixou claro um caminho de evolução e aperfeiçoamento do corpo doutrinário. Sendo como foi um homem atual, moderno e um pensador sábio, ao constatar que o Espiritismo seria ultrapassado se fosse uma religião ou tentasse ter as respostas absolutas para os problemas da pessoa humana com os conhecimentos de sua época. Por isso, deixou claro que o Espiritismo evoluiria ou morreria. A “morte” do Espiritismo não se dará por desaparecer, mas por perder seu significado progressivo e progressista e quando não puder oferecer ao ser humano uma reflexão cabível e atual sobre si mesmo e seu futuro.


Folheto de divulgação da mais nova atividade social do ICKS


3 comentários:

Anônimo disse...

Jaci Regis foi um espírita de verdade, com excepcional senso de justiça e muito corajoso.
Lamentavelmente, o movimento espírita em sua maioria procurou esconder seu trabalho, valorizando apenas a série "André Luiz" e, em menor proporção, Emanuel- ambos cheios de machismo e imprgnados de dogmas católicos.
Jaci Regis vai fazer falta para os verdadeiros espíritas.

Anônimo disse...

"O Cristo foi o iniciador da mais pura, da mais sublime moral, da moral evangélico-cristã, que há de renovar o mundo, aproximar os homens e torná-los irmãos; que há de fazer brotar de todos os corações a caridade e o amor do próximo e estabelecer entre os humanos uma solidariedade comum; de uma moral, enfim, que há de transformar a Terra, tornando-a morada de Espíritos superiores aos que hoje a habitam. E a lei do progresso, a que a Natureza está submetida, que se cumpre, e o Espiritismo é a alavanca de que Deus se utiliza para fazer que a Humanidade avance (O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo I, Item 9) Bom, dito isso, não conheço Jaci Regis. Sei que desencarnou há pouco.O que conheci foi leituras sobre no blog pensamento Social espírita. Apenas devo dizer que parece-me, me dá a impressão que os partidarios das ideias dele querem extirpar o aspecto religioso e/ou cristão da doutrina como se tais aspectos fossem estranhos originalmente a ela, coisa desmentida por uma leitura mais apurada das obras básicas, como o trecho acima citado demonstra. Não compreendo o que ele e o entrevistador querem dizer com "religiosidade natural". Orar é artificial? Buscar a comunhão com Deus num centro espírita é? Obedecer a uma disciplina como o plano espiritual nas mais variadas obras espíritas desde as obras básicas nos mostram e artificial? Se o espiritismo não é o "Cristianismo redivivo", mostre-se então uma só sentença que recuse tal idéia! A citação acima acho suficiente para desaprovar qualquer idéia sobre uma superação das idéias cristãs". Se manter a religiosidade no espiritismo é ser, sei lá, atrasado, ficamos assim. Não sei se André Luiz e Emmanuel foram machistas nas suas obras ou passram alguma idéia concordante com dogmas católicos, mas sei que eles sempre foram coerentes com a citação acima. São espíritos em evolução, não são Santos, mas menosprezar a sua obra relegando-a a mera difusora de machismos e dogmas católicos (sem fundamento essa!!!!) não encontra eco na realidade. O magnetismo é uma ciência, orar não me põe numa faixa vibratória superior e evoluir não passa por isso? Respeito as idéias de régis e seus partidários, mas não vejo porque essa cruzada contra a religiosidade, como se fosse um aborto a ampla maioria dos espíritas aceitar seu aspecto religioso confirmado em várias partes das obras básicas. Acho que a confusão está em associar a religiosidade ao misticsimo e as crendices como se fossem sinônimos, quando não o são! No mais, o pensar é livre e nada menos Cristão e/ou fraterno não aceitar o pensamento diferente. Tenho certeza que os irmãos que pensam diferente buscam não obstante a mesma direção: Evoluir!

Jáder Sampaio disse...

Dalmo, tive um único contato com o Jaci, em um evento no interior de Minas. Ele foi desrespeitoso, usou de ironia, com uma posição de superioridade, e citou Kardec de forma parcial, como se todos desconhecêssemos a Revista Espírita. Desejo imensamente que ele tenha melhorado com o passar dos anos.