terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A Tragédia da Piedade


A crônica escrita por Edgard Armond (do livro Relembrando o Passado), tinha como intenção primordial chamar a atenção do leitor sobre a gravidade dos sentimentos de ódio e vingança, bem como a grandeza do gesto doperdão.Ao relembrar o fato que o motivou escrever sobre assunto, ele cita o conhecido trecho evangélicosobre reconciliação com os inimigos e que surgira “espontaneamente” como leitura da reunião mediúnica daquela noite. Armond não revela a identidade dos personagens do caso (por ser amigo pessoal de um dos envolvidos), mas deixa pistas que levam qualquer leitor mais curioso a fazer especulações, como essas que aqui fazemos agora.

Na referida reunião mediúnica “...deu-se a incorporação de um Espírito de nome muito conhecido das letras nacionais e que teve morte trágica”, que veio solicitar ajuda para uma tentativa de reconciliação com aquele que o havia alvejado a tiros e provocado a sua desencarnação. Queria alertá-lo para essa grande oportunidade espiritual, já que sua morte também estava próxima. Armond seria o intermediário da proposta para que os dois conversassem fraternalmente, pela via mediúnica. O encontro não aconteceu, pois a parte encarnada, embora reconhecendo o esforço do amigo, evitou de todas as formas que o contato fosse realizado. Fez uma viagem repentina ao Rio de Janeiro e ali desencarnou, como havia alertado o Espírito.

Em nossas especulações para identificar essas pessoas, consideramos que poderíamos explorar uma hipótese improvável e consequentemente cometer erros conclusivos, porém não resistimos fazer essas possíveis ligações entre fatos e pessoas:

- Alguém “de nome muito conhecido nas letras nacionais e que teve morte trágica”.

Quem poderia ser?

- Num trecho da crônica Armond enfatiza: “Conheço bem o assunto..., que teve, aliás, na época, profunda repercussão nacional”.

A que época e qual repercussão ele se refere?

- Em outro trecho Armond revela como se deu a morte do Espírito que se manifestou: "o homem que ele matara num duelo histórico propunha uma fraternização, leal e cristã, e avisava que se apressasse, porque pouco tempo lhe restava de vida, aqui”.

Que duelo foi esse? Que contexto histórico se relaciona ao fato?

Ao buscar na memória algumas possibilidades factuais, fomos também eliminando aquelas que não eram compatíveis com os dados informados pelo cronista. Restou apenas essa, que pode não ser a única, porém muito próxima dos acontecimentos: o duelo entre o escritor Euclides da Cunha (com 43 anos) e o jovem cadete Dilermando de Assis, na época com apenas 21 anos de idade. O fato ficou conhecido como Tragédia da Piedade, bairro da zona norte carioca onde morava Dilermando e o irmão mais velho. O motivo do confronto foi o profundo envolvimento sentimental de Dilermando com Ana Solon (de 38 anos), esposa de Euclides. Testemunha do confronto, o irmão de Dilermando, chamado Dinorah, também foi atingindo na nuca pelos tiros de Euclides, ficando invalído. Dinorah era atleta do Botafogo e cometeu suicídio em 1921 atirando-se nas águas do rio Guaíba, em Porto Alegre.

Em 1916 , numa repetição trágica, um dos filhos de Euclides e Ana tentara vingar a morte do pai e também foi morto por Dilermando, que era hábil atirador e campeão de tiro ao alvo. Dilermando foi absolvido pela justiça por legítima defesa nos dois episódios.

Na crônica o Espírito manifestante diz a Armond: “Preciso do teu auxílio e cometo-te a delicada incumbência de procurá-lo (pois é teu amigo) e dizer-lhe que em meu coração não remanesce ressentimento algum”.

Edgard Armond e Dilermando de Assis eram amigos? De onde se conheciam? Que afinidade tinham entre si?

Arrisquemos algumas semelhanças, pois as diferenças podem ser muitas.

Ambos eram militares e contemporâneos. Dilermando era apenas seis anos mais velho que Armond. Fizeram carreiras paralelas num período de 26 anos no qual participaram dos principais acontecimentos militares e políticos entre 1914 e 1940. Não seria coincidência nem difícil terem travado algum tipo de aproximação e amizade.

Dilermando viveu estigmatizado como o “assassino de Euclides da Cunha, o autor de Os Sertões”. Muitos militares humanistas lamentavam esse estigma e procuravam minimizar essa marca negativa realçando as qualidades do colega, que na época dos fatos era muito jovem e inexperiente.

Embora servindo em corporações diferentes (Armond era da Força Pública Paulista e Dilermando do Exército), os dois poderiam ter se conhecido em diversas oportunidades .

O primeiro casou com a filha de um marechal do Exército (Manoel Félix de Menezes) e o segundo casou-se com Ana Solon, filha do Major Frederico Solon, que teve atuação marcante na Proclamação da República.

Ambos eram maçons. Armond ingressou na ordem na cidade de Amparo, onde serviu na Força Pública, chegando ao grau de mestre. Dilermando era defensor da maçonaria tradicional e crítico da cisão ocorrida na orientação doutrinária das lojas no Brasil.

Quando desencarnou, em 1951, Dilermando já era general de exército e residia em São Paulo. Nessa época Edgard Armond já estava aposentado e exercia o cargo Secretário Geral da FEESP.

Se houve algum laço de amizade entre os dois, seria interessante saber em que circunstâncias isso ocorreu. Como relata Jacques Conchon (citado na biografia de Armond escrita por Edelso da Silva Júnior), certa vez o Comandante recebeu o telefonema de um coronel do Exército que queria conhecê-lo. Os dois haviam estado em lados opostos durante a Revolução de 32; a conduta e ação em combate do então capitão Armond o impressionou muito por este ter evitado umatragédia desnecessária entre os dois pelotões em confronto. Quem sabe se esse coronel não era Dilermando? Sim, certamente mais uma especulação.

Mesmo se tudo isso não passar de um grande equívoco da nossa parte, ainda restará uma dúvida: quem são esses dois espíritos inimigos famosos que Edgard Armond não conseguiu reconciliar numa sessão espírita?




Dinorá, em pé, o terceiro à direita: invalidez e suicídio


Sianinha, você me perdoa?!


Cursava eu o terceiro ano do ginásio, na Escola Normal Peixoto Gomide, em Itapetininga, no distante ano de 1936, quando, pela primeira vez vi Dilermando de Assis, na época capitão do exército, pertencente ao Estado Maior do Gal. Cmte. da Segunda Região Militar (hoje, Exército do Sudeste).

Nossa Escola Normal fazia parte do roteiro de solenidades devidas a tão ilustres militares, que visitavam cidades onde tinham unidades do Exército, para um bom relacionamento com a sociedade, ainda agastada com a derrota da Revolução de 32, quando os paulistas queriam a Constituição, a Lei Magna da Pátria.

Finda a visita, nosso professor de música, maestro Modesto Tavares de Lima, contou-nos que aquele capitão, ao lado do general, era Dilermando de Assis, homem que matara o famoso escritor Euclides da Cunha e seu filho.

A segunda vez, eu já 1º Tenente, foi em 1948, no Palácio dos Campos Elíseos onde ele fora levar um convite de casamento de uma de suas filhas ao Dr. Adhemar de Barros. Na sua saída, o saudoso Cel. Oswaldo Feliciano, na época capitão Ajudante de Ordens do governador paulista falou-me que aquele cidadão era o 'homem que matara Euclides da Cunha', em 1909, na tragédia de Piedade, agora General Reformado Dilermando de Assis.

Perdera sua identidade desde aquele fatídico ano; em sua carreira militar galgou todos os postos de hierarquia mas, ninguém falava referindo-se a ele: o Capitão..., o Major..., o Coronel..., o General.... mas, falavam enfaticamente: 'Esse é o homem que matou Euclides da Cunha', brilhante escritor de Os Sertões, livro traduzido em inúmeros países.

Dos dois processos criminais: 1909 e de 1916, foi absolvido, pois, ficou provado que matou pai e filho em legítima defesa, entretanto, carregou por toda sua vida aquele estígma de ser o assassino do grande escritor.

Doente, alquebrado, a pedido de sua filha, visitou Ana Paes, pivô do triângulo amoroso, que originou a tragédia. Estava agonizando. Dilermando achegou-se ao seu lado e, com os olhos marejados de lágrimas falou: "Sianinha, você me perdoa?". Meses depois fechou os olhos para o mundo, readquirindo sua identidade. Morreu como General do Exército Brasileiro.


Cel. Edilberto de Oliveira Melo - São Paulo, SP, Brazil

Inativo da Polícia Militar do Estado de São Paulo e escritor de vários livros sobre a PM, sendo eles: Asas e Glórias de São Paulo (parceria Cel. Canavó); O Salto da Amazônia; Raízes do Militarismo Paulista; Marcos Históricos da PM e o mais recente Clarinadas da Tabatinguera.

http://memoriasdeumveterano.blogspot.com/


sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Acordo amistoso



Em suas memórias de serviços mediúnicos realizados na Federação Espírita do Estado de São Paulo- FEESP , o Comandante Edgard Armond relembra, entre muito outros, um interessante episódio de intercessão espiritual. Trata-se da crônica “Acordo amistoso”, do livro “Relembrando o passado”.

Diz ele:

“Apresentava-se ameaçadora e negra a atmosfera espiritual nos arredores do grande orfanato, situado em vasta gleba a sudeste da capital, que pertencera, há mais de um século, a um sacerdote que teve notável atuação nos fatos históricos referentes ao Brasil monárquico; ela era agora disputada por pessoas criminosas, cujo intuito era se apoderarem da terra e aniquilarem a obra grandiosa realizada por uma irmã nossa, já desencarnada, de nome muito conhecido no setor das obras de benemerência espírita. Fechada há algum tempo e rodeada de fluidos e vibrações mortíferas, o grande edifício se apresentava sombrio e quase inacessível. Somente com a interferência de uma jovem índia, muito bela e cheia de luz espiritual, foi possível constatar, rapidamente, que o prédio estava ocupado por inúmeras entidades desencarnadas. Após colocarem à entrada um guarda índio e reunidos para examinarem a situação, compareceu ao nosso local de trabalho uma entidade sacerdotal, trajando uma túnica bege e uma cruz vermelha ao peito o qual, com desembaraço e sem o menor constrangimento, declarou que viera espontaneamente nos procurar, após entendimento prévio com o chefe índio encarregado da vigilância espiritual da propriedade, na parte exterior. Explicou que instalara no casarão um posto de socorro, para recolher companheiros desencarnados que permanecessem estagiando, até que tomem rumo. São independentes no seu trabalho e, se ali se estabeleceram, foi porque encontraram o prédio praticamente abandonado; e consolidaram a ocupação porque o abandono, ultimamente, se completou ( o que era realmente exato). Demos-lhe o motivo do abandono, efetivado pela direção anterior do orfanato e lhe afirmamos que se tratava de uma situação transitória”.

Na sequência da narrativa Armond explica que foi solicitada a intervenção do plano espiritual superior, surgindo no local um emissário de Ismael, que instruiu e conduziu o sacerdote e seus tutelados para uma região do litoral norte de São Paulo, instalando ali um novo núcleo de socorro espiritual. Os videntes descreveram em detalhes as novas instalações idealizadas e plasmadas pelo emissário e também uma projeção antecipada de um grupo de crianças em franca correria pelos pátios do antigo casarão. A obra do orfanato seria restaurada.


Outros relatos sobre o mesmo assunto esclarecem melhor essa ação socorrista conjunta entre encarnados e desencarnados, permitida pelo conhecimento e experiência em trabalhos mediúnicos em bases espíritas. Falando de Carlos Jordão da Silva, pioneiro espírita e também militante da FEESP (60 anos de Espiritismo), Ary Lex escreveu :

“Foi diretor financeiro do Lar Anália Franco, entidade criada pela grande educadora Anália Franco, no Alto da Mooca, na avenida Regente Feijó, em vasta área territorial comprada em 18 de fevereiro de 1914. Jordão e o Sr. Braga, também dirigente do Lar, lutaram durante anos para evitar que mais da metade da área (cerca de 40 mil metros quadrados) fosse grilada, mas não conseguiram impedir, graças à corrupção existente em cartórios e outros setores. Hoje centenas de casas e várias ruas estão em área que pertenceria ao Lar”.


Para saber mais sobre Anália Franco:

http://www.geae.inf.br/pt/boletins/geae459.html#Entrevista


O resgate do Lar em fotos da Revista do Tatuapé


Fotos: http://revistadotatuape.institucional.ws/2010/09/tatuape-ontem-e-hoje/


sábado, 8 de janeiro de 2011

Por onde andará Ary Casadio ?

Ary Casadio (de bigode) é o quarto da direita para a esquerda (clique na foto para ampliar)




Nas comemorações dos 60 anos do Pacto Áureo destacam-se nomes conhecidos como Leopoldo Machado e Lins de Vasconcelos e outros mais discretos, senão mais obscuros, como o médium Ary Casadio.

Quem foi esse nome que aparece nos documentos e livros como signatário e participante ativo desses eventos históricos?

Ary Casadio foi um do integrantes da famosa Caravana Fraternidade, organizada como extensão do Pacto Áureo, evento ocorrido no Rio de Janeiro em 1940 como tentativa de unificação nacional do movimento espírita. Casadio foi convidado exatamente por ser médium de incorporação com alta potencialidade e sintonia. Na biografia publicada no site da FEB consta que ele ingressou no movimento espírita sob o patrocínio de Edgard Armond , mas não cita a fonte da informação. Também nas memórias do Dr. Ary Lex (60 anos de Espiritismo em São Paulo), o destino do médium foi citado com um tom de quem lamenta a fuga de um desertor: “ ...como acontece frequentemente com aqueles que são servidos, abandonou a Federação e mudou-se para Osasco, desaparecendo do meio espírita”.

Na biografia de Armond , redigida pelo próprio e codificada pelo jornalista Valentim Lorenzetti, Ary Casadio é apresentado juntamente com outros médiuns que tiveram participação significativa nos acontecimentos históricos da Federação Espírita do Estado de São Paulo- FEESP, sobretudo na formação do conselho diretor daquela entidade. A origem desse e de outros médiuns foi descrita por Armond numa narrativa na qual podemos perceber a importância daquele contexto e a qualidade dos médiuns que surgiam naquelas circunstâncias.

Mesmo assim, persistem as perguntas que não querem calar e que não tratam somente da vida de alguém especificamente e sim dos médiuns e servidores em geral:

Por onde andará Ary Casadio? O que aconteceu com ele após aqueles episódios? Por que se afastou do meio espírita? Como lidou com a sua mediunidade nesse longo período de anonimato?

“Naqueles primeiros dias, predominavam por toda parte os efeitos físicos e era marcante a falta de médiuns de confiança para o intercâmbio com o Plano Espiritual Superior; atendendo a um pedido, o Espírito Bezerra de Menezes prometeu sanar a lacuna; passados poucos meses, apareceu na Casa um rapaz moreno escuro, que se dizia graxeiro da Sorocabana, em Assis, e médium de incorporação. Submetido a uma prova, satisfez plenamente. Chamava-se Ary Casadio e ficou combinada sua mudança para a capital, sob a proteção da Casa, onde ficou alojado. Mais tarde, trouxe esposa e filhos pequenos e se dedicou inteiramente aos trabalhos da Casa, prestando durante longo tempo ótimos serviços, tanto internos como externos, em ocasiões solenes e em trabalhos práticos, inclusive depois dos congressos de unificação realizados a partir de 1947, acompanhando, inclusive, como médium, a Caravana da Fraternidade, que viajou por vários estados do País, na propaganda da unificação doutrinária. Para melhorar as condições da família, arranjou-se-lhe um emprego no Tribunal de Justiça, como escrevente; bem mais tarde formou-se em Direito e abandonou o serviço por conveniência familiar, mudando-se para Osasco.

Essa carência inicial de médiuns já levara antes à formação do Grupo Razin, com sete membros, com o que o intercâmbio melhorou grandemente. Eis os nomes de seus membros primitivos, além do comandante: Raul de Almeida Pereira, funcionário do IBC, médium de incorporação, vidência e audição; José Quintais, mais tarde funcionário do departamento de projetos da Indústria Villares: vidência, audição, psicografia e desenho mediúnico; Rubens Fortes, oficial reformado do Exército: incorporação consciente; Altair Branco, engenheiro;Luiz Verri, cabeleireiro de senhoras: vidência e audição; Paulo Vergueiro Lopes de Leão, pintor, diretor da Escola de Belas Artes.

O Grupo funcionou bem até 1950, data em que foi dissolvido por não haver concordado com a criação da Escola de Aprendizes do Evangelho, exceto dois membros: Paulo Vergueiro eCarlos Jordão, que fora convidado e passou a fazer parte do Grupo nos últimos dois anos.

Durante suas reuniões, duas coisas importantes aconteceram:

1) Manifestou-se pela primeira vez a entidade feminina designada pelo nome de "Castelã", que a partir de então, dispensou ao Grupo valiosíssima colaboração e 12 anos mais tarde, em 1953, pelo médium Divaldo, se identificou como protetora pessoal do comandante, tendo sido, na Itália papal, rainha de Nápoles, em 1481, como Margarida de Médicis.

2) Em uma de suas reuniões, em 1941, surgiu de improviso um médium desconhecido, jovem, que se dizia médico e se chama Élio. Sua trajetória foi rápida porém proveitosa. Acercou-se da reunião, no saguão do salão superior, sentou-se ao lado do comandante, ouviu durante alguns momentos uma mensagem que estava sendo transmitida e interrompeu o trabalho, convocando o comandante para uma reunião urgente. Atendendo ao solicitado, a reunião foi decidida e feita na Escola de Belas Artes, à rua Onze de Agosto, onde não haveria interrupções; acompanharam o comandante o engenheiro Altair, Luiz Verri, Lopes de Leão, diretor da Escola, e o médium. Foi nesta imprevista reunião que foram feitos os primeiros contatos com Ismael, o preposto de Jesus para a condução espiritual do Brasil, o qual, incorporado no referido médium e sob controle do vidente Verri, transmitiu suas primeiras instruções ao comandante, investindo-o na tarefa de dirigir a Federação, estabelecendo a prevalência do Espiritismo Evangélico e construindo, oportunamente, as bases para o êxito desse transcendente empreendimento espiritual”.


*Foto do arquivo digital da FERN disponibilizado por Maria da Conceição Queiroz; legenda com informações de Antonio Cesar Perri de Carvalho em artigo extraído da revista Reformador (FEB)

A Caravana da Fraternidade na capital do Rio Grande do Norte em 1949. Pela ordem da esquerda para a direita: Leopoldo Machado (calça branca e paletó escuro)- ; Luiz Burgos Filho (sem paletó); Abdias Antônio de Oliveira (paletó branco) – vice-presidente da FERN; Francisco Spinelli (paletó escuro); Major Felipe Soares (atrás, aparece só a cabeça) – presidente do Centro Espírita Victor Hugo – RN; Carlos Jordão da Silva (paletó branco e segurando chapéu); Severino Rodrigues Viana; Sebastião Félix de Araújo, ex-presidente da FERN, pioneiro da Unificação no Estado; Ary Casadio (com bigode); Major Alfredo Lemos da Silva; Sebastião Avelino de Macedo (trabalhador vinculado à orientação de juventudes); Hilpert Viana – trabalhador do Centro Espírita Victor Hugo – RN.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Canuto, Delanne e Roustaing

Eugênio Lara, nos comunicou o resgate e publicação no PENSE - Pensamento Social Espírita - de um belo artigo de Canuto Abreu falando de Gabriel Delanne.

Publicado originalmente na revista “Metapsíquica”, nele o célebre historiador paulista revela a face científica de um dos mais importantes discípulos de Allan Kardec.

Mas o que mais chama a atenção no artigo é o trecho no qual Canuto ensaia, num rápido e delicado diálogo com Delanne, o problema “Roustaing”, um dos mais controvertidos temas do movimento espírita. Delanne é cauteloso, porém de uma sinceridade impressionante.

Também a definição que faz de Jesus como "um chefe espiritual" traduz bem bem o que os Espíritos pensam à respeito, isto é, alguém que manda mais em nossos corações do que em nossas mentes.

Talvez tenha sido esse tom cuidadoso e realista que influiu na decisão de Canuto ao acultar opinião de Kardec, transformando-a no famoso "segredo documental".

Leia o artigo no blog Memória do Espiritismo.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Luciano e o verdadeiro André Luiz

Luciano dos Anjos nos enviou, como colher de chá adoçada em mel, parte do capítulo 6 ( As Comprovações) do seu livro “O Verdadeiro André Luiz”.

Trata-se do ítem 18 – O Papel da Mulher - que fala de Odete Portugal , esposa do Dr. Faustino Esposel, comparando-a com a esposa de André Luiz.

Na época a FEB fez algumas recomendações de cortes em vários assuntos que, segundo seus dirigentes, eram considerados polêmicos (feminismo, sexualidade e política) e que poderiam atrair propaganda negativa para a obra e também para o Espiritismo.

O assunto pesquisado por Luciano vem à tona num momento muito propício, não somente pelo estrondoso sucesso de Nosso Lar no cinema, mas principalmente por ser um divisor de águas nas discussões doutrinárias do movimento espírita. Como se sabe, até hoje a obra de André Luiz causa incômodo em alguns críticos que não aceitam essa abordagem como literatura fiel aos princípios kardecistas. Apesar de Herculano Pires – um dos principais defensores da ortodoxia espírita- ter afiançado que André Luiz seria totalmente compatível com as obras da Codificação, a narrativa ousada do médico carioca ainda atrai muitos contestadores das teses científicas expostas na série psicografada por Chico Xavier.

Capítulo 6 – As comprovações


18. O Papel da Mulher

Georgeana van Erven, era uma dos oito filhos do fazendeiro Antônio de Sampaio van Erven, casado com Maria Clara de Faria Salgado. Eram proprietários de catorze grandes fazendas, no estado do Rio de Janeiro. Segundo registros da família, anotados pelo descendente Domingos de Gusmão van Erven, com quem até hoje me correspondo, Antônio de Sampaio era homem de grande visão. Prevendo o fracasso da cafeicultura, voltou as vistas para a pecuária, que iniciava seus avanços. Nesta empreitada, contou com a colaboração do dr. José Teixeira Portugal, clínico de renome, que casara com a Georgeana. Tiveram duas filhas, Odete e Olga. Em 1922, Odete se casa com Faustino Monteiro Esposel, colega médico de seu pai. Ele deixa o endereço da rua São Clemente nº 393 e vai morar ali perto, no casarão da rua Martins Ferreira nº 23. Quando José Teixeira Portugal desencarna, em 1927, Antônio de Sampaio van Erven prosseguiu praticamente sozinho à frente das fazendas e das indústrias de leite e café, valendo-se, às vezes, da colaboração daquela filha.

Faustino Esposel (quem me narra é a Odete) não via com muito agrado a sogra nessa atividade, preferindo que algum irmão dela, como homem, assumisse os encargos. Ficava incomodado quando a Georgeana buscava, em casa, alguma ajuda das filhas Odete e Olga, embora de forma muito esporádica.

Em 1930, é o pai da Georgeana quem desencarna, O patrimônio passa aos sucessores e ela assume o papel de principal gestora dos negócios. Faustino Esposel já está bastante adoentado, tendo inclusive renunciado à presidência do Flamengo. Daí que a Odete, assistindo o marido, não tem mesmo muitas condições de ajudar a mãe. Mas também não o faz porque o Faustino, alinhado ao raciocínio da época, sempre fora avesso a que as mulheres trabalhassem fora de casa, e que deveriam dedicar-se tão somente às tarefas do lar. Até porque ele tem ótima situação financeira e não necessitava de maiores recursos.

Nesse particular, a Odete me confirmava sorridente que o Faustino não transigia; não queria que ela trabalhasse fora, mesmo em seu próprio negócio, preferindo que o acompanhasse nas programações sociais.

Ocorre que logo no final do ano seguinte o Faustino desencarna, em 1931. Georgeana, a mãe da Odete, prossegue à frente dos negócios, que irá ampliar-se, a partir de 1938, quando é iniciada a fabricação da afamada manteiga Van Erven, cuja razão social era Van Erven Portugal e Filhos. Ao mesmo tempo, Georgeana assume a presidência da Cooperativa de Cordeiro, para onde mandava doze mil litros de leite por mês. Em 1943, a Fazenda Santa Clara era a maior produtora de leite e de manteiga da região.

Bem, é com esse entendimento do papel da mulher – forte e generalizado naquela época – que Faustino Monteiro Esposel desencarna. É verdade que já não eram as décadas radicais de 20 e 30, mas, na década de 40 ainda existia muito preconceito, que só vai amainar com a explosão da II Grande Guerra, dada a imperiosa necessidade de mão de obra em substituição aos convocados para o front e de novas fontes de recursos para subsistência das famílias.

E, então, podemos também entender, agora, por que, ao ditar, em 1943, Nosso Lar, André Luiz/Faustino Esposel escreve, no capítulo 20:

A mulher não pode ir ao duelo com os homens, através de escritórios e gabinetes, onde se reserva atividade justa ao espírito masculino. Nossa colônia, porém, ensina que existem nobres serviços de extensão do lar, para as mulheres. A enfermagem, o ensino, a indústria do fio, a informação, os serviços de paciência, representam atividades assaz expressivas. O homem deve aprender a carrear para o ambiente doméstico a riqueza de suas experiências, e a mulher precisa conduzir a doçura do lar para os labores ásperos do homem. Dentro de casa, a inspiração; fora dela, a atividade. Uma não viverá sem a outra. Como sustentar-se o rio sem a fonte, e como espalhar-se a água da fonte sem o leito do rio?

Prossigo transcrevendo parte do capítulo em que abordo o assunto, em meu livro O Verdadeiro André Luiz, quando falo dos cortes ou alterações que eram sugeridos pela FEB para serem submetidos ao espírito, através do próprio Chico Xavier.

Em 1943 e 1944, quando Nosso Lar é psicografado e lançado, persistia – friso outra vez – a mentalidade de que mulher não deveria trabalhar fora do lar. O quadro que já podia ser observado, com as fábricas cheias de operárias, não significou de pronto qualquer mudança de conceito, sendo encarado apenas como emergencial. Era esse, pois, o entendimento de André Luiz. As lições do capítulo 20 são lindas e perfeitas na visão esférica dos papeis do homem e da mulher quanto à divisão de tarefas e à mais forte característica de cada sexo. Não podemos dizer que a colocação de André Luiz esteja errada, ao refletir o conceito firmado na sociedade. Faustino Esposel pensava no mesmo diapasão. No entanto, não seria uma colocação que valesse para sempre. Assim, a omissão dessa colocação (que, no fundo é mais um alerta do que uma recomendação determinativa) teria evitado a justa crítica dos leitores dos anos do pós-guerra, quando o papel da mulher efetivamente se ampliou de direito e de verdade, valorizando-se. Andaria bem a FEB se tivesse, mais uma vez, consultado André Luiz sobre a conveniência de ser cortado o pequeno trecho. Ou que a redação fosse aprimorada. Como nos demais casos, não tenho dúvida de que o espírito concordaria, a despeito do ranço de sua ideia pessoal. Salvo se desconheço que tenha havido mais essa consulta e que, de repente, André Luiz recomendou que o texto fosse mantido. Mas o Wantuil nunca me falou dessa recomendação.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Cachoeira continua sem respostas para os fenômenos



Os moradores do pequeno distrito de Cachoeira, em Itatira-Ceará, continuam sem respostas para os fenômenos ocorridos na escola local. Os fenômenos não cessaram, pelo contrário, surgem novos casos e ocorrem em diferentes lugares. Para evitar a publicidade e expor a comunidade na mídia, os moradores foram instruídos a evitar falar sobre o assunto. As alunas que entraram em transe estão proibidas de frequentar as aulas.
 
Trata-se de um caso típico de mediunidade que poderia ser esclarecido de forma instrutiva e equilibrada, mas quando entra em cena os questionamentos sobre as causas e efeitos dos acontecimentos, certamente ocorre uma forte reação a cultura dogmática e dos interesses religiosos tradicionais. Quando interessa tais fatos são divulgados como “milagrosos” , porém, quando se tornam inconvenientes, são interpretados como “eventos diabólicos”. Há também a interpretação “paranormal” e “psiquiátrica”, rotulando o fenômeno como “surto psicótico”. Mesmo com toda essa diversidade de leituras, a população continua sem respostas plausíveis e as vítimas em situação de sofrimento, agora agravada pelas ameaças e discriminação social. Elas foram encaminhadas e atendidas no hospital da cidade como se o problema fosse simplesmente de ordem médica. Como não houve nenhuma solução e também a persistência dos fenômenos, optou-se então pela lei do silêncio, como mostram diversas reportagens feitas por emissoras da região.
 
Lembrando de fatos semelhantes ocorridos em outras épocas, denominados por Conan Doyle de “invasão organizada”, é possível que Cachoeira venha ser alvo de uma ação mais ampla e que esses fenômenos sejam apenas eventos precursores de grandes manifestações psíquicas no futuro. Uma ex-professora lembrou que na década de 1980 houve uma onda de fenômenos semelhantes naquela região.
 
Comunidades onde acontecem tais fenômenos , de acordo com inúmeros relatos históricos, são escolhidas previamente pelo Plano Espiritual para a reencarnação e atuação de médiuns com missões e tarefas de grande impacto social. Isso ocorreu em Hydesville , nos EUA, em 1848, com a irmãs Fox e em diversas cidades da Europa nos anos que antecederam o movimento Espiritualista anglo-saxônico e a codificação do Espiritismo na França. Na mesma época no distrito de São João da Mata , na Bahia, foram registrados casos semelhantes. As regiões de Minas Gerais onde atuaram Eurípedes Barsanulfo, Maria Modesto Cravo, Chico Xavier e Zé Arigó também foram palco de intensos fenômenos precursores das atividades mediúnicas desses missionários. A presença de meninas da mesma faixa etária (entre 11 e 14 anos) também é histórica, pois estas são mais sensíveis e vulneráveis aos fenômenos. Além da irmãs Fox, lembramos que grande parte das informações obtidas por Allan Kardec para compor os livros da Codificação Espírita foram obtidas através do trabalho equilibrado em bem conduzido de três adolescentes: as irmãs Baudin e a menina Japhet, todas filhas de pais médiuns e educadas na tradição espiritualista cristã.
 
Apesar da presença predominante do catolicismo, o Ceará possui uma significativa trajetória histórica espírita iniciada pela família do Barão de Vasconcellos, mais tarde consagrada pelas atividades do médico Adolfo Bezerra de Menezes, na época radicado no Rio de Janeiro. O Dr. Bezerra, nascido em Riacho do Sangue, era conhecido como o Médico dos Pobres.


 

AJUDA DE TODOS
Diretora da escola defende ajuda de todas as fontes de conhecimento.
“O desespero gerado pela repetição do transe coletivo que vem atingindo, há cerca de um mês, alunos das escolas de Ensino Fundamental Eduardo Barbosa e Estadual Nazaré Guerra - que funcionam no mesmo prédio, em Cachoeira, no Sertão Central do Ceará – levou a direção e o prefeito de Itatira, José Ferreira Matheus, a pedir ajuda a outras religiões. Sem entender o fenômeno, os moradores da cidade, de maioria católica, estão em pânico. A primeira tentativa de pôr fim ao sofrimento dos estudantes e de suas famílias foi sugerida por um padre, mais ainda não surtiu efeito.
 
- Procuramos um especialista (o padre José Élio Correia de Freitas, parapsicólogo) e ele nos orientou a fazer acompanhamento psicológico dos jovens. O trabalho começou na semana passada, mas os casos voltaram a ocorrer. Eu quero uma resposta. Se for para ir atrás dos espíritas, eu vou – afirma Maria Eliane Dias, diretora da Nazaré Guerra, escola cuja sede fica em Lagoa do Mato, mas que possui um anexo em Cachoeira para 159 alunos do ensino médio.
Maria Eliane colocou o telefone da escola sede ((88) 3436-3890) à disposição de especialistas que possam auxiliar os estudantes. Desde que os primeiros transes ocorreram, evangélicos e espíritas da cidade vizinha de Canindé estiveram em Cachoeira para oferecer ajuda. A diretora explica por que não aceitou a opinião de outros religiosos logo após os primeiros casos:
 
- Depois que o padre indicou o acompanhamento com psicólogos, não deixamos mais ninguém entrar para não misturar as estações, nem criar rumores. Se fizéssemos tudo paralelamente, ficaríamos sem saber o que tinha resolvido o problema. Os pastores queriam fazer um culto na escola, mas não queríamos aglomerar os alunos no pátio novamente. Um deles disse que ia expulsar o demônio das meninas no dia da missa, impôs as mãos sobre elas, mas não conseguiu.
Prefeito de Itatira, município ao qual Cachoeira pertence, José Ferreira Matheus presenciou o transe de 25 pessoas no pátio da escola, no dia 2 de junho. Ele também se diz receptivo a todo tipo de apoio.
 
- A gente aceita ajuda de igreja A ou B. Estamos procurando um filho de Nossa Senhora que nos ajude. Os alunos não querem mais ir à escola, que sempre foi bem estruturada. Isso é péssimo para o nosso município.
De acordo com o prefeito, um caso semelhante ao que vem acontecendo com os alunos já teria sido registrado, há cerca de 20 anos, no distrito de Lagoa do Mato.
 
- Ouvi falar só de uma pessoa, uma senhora que ficava com a voz diferente. Mas só acontecia na casa dela”.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Discutindo Jesus ou a nossa mania de perfeição

Jesus e a samaritana em cena descrita pelo discípulo João: " O Messias sou eu que falo contigo!"


Volta e meia Jesus entra em discussão no meio espírita. Isso não é perigoso, pelo contrário: é maravilhoso. Personalidade de múltiplas facetas no imaginário social, o rabi nazareno é líder em elucubrações e significações filosóficas humanas, que vão desde simples “ carpinteiro” até “governador planetário”. Entre muitas coisas, Jesus é psicólogo, líder político, educador, médico, advogado, ecologista, escritor, astrônomo, químico e físico. Só não faz muito sucesso como líder religioso ou espiritual. Fora desse aspecto comum, Jesus também é um ser mitológico, cuja imagem construída pela coletividade de anseios e expectativas recebe títulos pomposos e responsabilidades fora das possibilidades mortais. O tratamento místico e sobrenatural também se estende ao seu antigo círculo familiar judaico e aos grupos de discípulos e ativistas.

Tudo isso por que publicou oral e vivencialmente uma obra considerada desconcertante na experiência humana. Seu Evangelho funciona ao mesmo tempo como relógio e bússola da experiência do Espírito: o primeiro para a existência carnal e o segundo para a consciência espiritual. Indecisos entre o determinismo e o livre arbítrio, o ego e o Eu, quem entra em contato autêntico com as suas observações éticas sofre danos irreversíveis na personalidade, provocando as mais curiosas crises e reações comportamentais : arrependimento, lágrimas sentidas, gargalhadas irônicas, medo, entusiasmo, ódio, inveja, esperança, ansiedade, inconformismo. Lembrando o Espírito Verdade, a obra confunde os orgulhosos e glorifica os justos. Também dissipa as trevas, ilumina caminhos e abre os olhos aos cegos.

Recentemente um conhecido místico judeu declarou que Jesus cometeu apenas um erro, que lhe foi fatal: revelou sua luz interna, que deveria ser mantida oculta, restrita ao mundo sacerdotal. Sem comentários.

No movimento espírita Jesus é um pouco de tudo isso. Não poderia ser diferente. É só lembrar a diversidade social e psicológica que compõe a nossa vasta agremiação. Somos herdeiros da cultura cristã em vários aspectos históricos e sociológicos. Allan Kardec fez essa avaliação para entender e depois compreender por que o Espiritismo repercute de forma tão diferenciada nas pessoas. Publicou os resultados e sua avaliação na Revista Espírita num curioso artigo denominado “Quem são os Espíritas”. Sua apreciação sobre os espíritas lyoneses – segundo ele os mais autênticos e históricos – é forrada de adjetivos e características cristãs.

O Brasil, nação autenticamente espírita (afirmação dos antropólogos), é filha de Portugal e sobrinha da Espanha, países forjados secularmente nas lutas medievais entre cristãos, bárbaros e muçulmanos. O nome original do nosso País não era esse apelido vulgar dado à madeira e aos contrabandistas de pau-brasil (Brasil e brasileiros), mas Terra de Santa Cruz ou Vera Cruz. Os nossos mais influentes líderes foram forjados nas mais diferentes escolas espiritualistas, que vai do catolicismo simplório do mundo colonial até os mais ousados núcleos esotéricos e escolas científicas contemporâneas. Até mesmo alguns setores considerados anti-místicos e areligiosos não conseguem se livrar dos antigos hábitos da lei adoração e auxílio ao próximo, mesmo dando nomes modernos e disfarçados para essas antigas práticas de caridade cristã.

Enfim, Jesus está entre nós. Mais do que nunca. Quanto mais questionamos, mais atraímos e nos aproximamos dessa grande força inteligente e transformadora das pessoas e da sociedade. Ainda não sabemos ao certo quem é e o que realmente significa Jesus e seu Reino, porém estamos certos que essa é uma marca que nos torna mais iguais e muito mais próximos dos nossos semelhantes de outras crenças e filosofias de vida.

À propósito:

Um Feliz Natal à todos!

sábado, 18 de dezembro de 2010

O fio tênue entre o crime e a justiça

Cena do filme 5 x Favela


Dia desses ouvimos, com certa decepção, a opinião de um professor indignado com a expansão da criminalidade. “A situação é de guerra e todos que estão fora da lei devem ser fuzilados. Não há outra maneira de resolver a situação”, desabafava o colega, assustado e inconformado com a aparente impotência do Estado e da sociedade durante a recente crise nas favelas cariocas.

Diante das novas circunstâncias e interesses políticos, as forças de segurança agiram rapidamente em conjunto; alguns criminosos foram presos; muito deles fugiram e algumas comunidades foram libertadas. Até quando estarão livres dessa opressão? Tudo vai depender de como as coisas serão conduzidas pelas autoridades e também pela população.

Na década de 1960 surgiu no Brasil, precisamente no Rio de Janeiro, o chamado “esquadrão da Morte” , grupo clandestino que praticava a execução sumária de criminosos e suspeitos. Esse modelo de justiça paralela se disseminou no Brasil, ganhando notoriedade em São Paulo em 1970, quando o país vivia sob a ditadura militar. A crença social imediatista de que a pena de morte (legalizada ou não) seria a solução para o problema da criminalidade seduzia tantos os executores quantos os apoiadores dessa prática, abrindo precedentes perigosos na organização e na hierarquia dos sistemas públicos de segurança. Segundo o jornalista Percival de Souza, conhecido especialista no assunto, foram exatamente essas práticas que , a longo prazo , estimularam a criação das facções criminosas que hoje desafiam as autoridades e ameaçam a sociedade com as suas ações cada vez mais ousadas e surpreendentes. Todo grupo social ameaçado em sua integridade tende a criar situações defensivas e também ofensivas diante da possibilidade de extinção. Todos sabem que tais ações jamais serviram para extirpar o crime da sociedade. Pelo contrário, com elas as coisas pioraram em todos os aspectos, pois o comportamento defensivo e também as ofensivas violentas se ampliaram assustadoramente nos dois lados, colocando em risco a vida dos cidadãos. As desigualdades e a degeneração social contribuíram para que as coisas chegassem ao ponto mais crítico, como vinham sendo mostradas diariamente na mídia.

Mas os mortos não se calam como pensam os imediatistas. Mais ainda: eles também voltam como fantasmas vivos para assombrar a sociedade da qual fazem parte, queiram ou não queiram os homens e suas crenças. Criminosos também reencarnam e voltam ao mesmo cenário onde sofreram suas experiências trágicas. Muitos voltam em papéis invertidos e não conseguem sustentar as promessas de regeneração; outros ingressam nos antigos quadros adversários com a intenção de cometer crimes sob a proteção ou disfarce das instituições as quais juraram honrar. Poucos conseguem distinguir o fio tênue que separa o crime e a justiça no cenário da carne (veja abaixo história do detetive Perpétuo de Freitas).

Muitos criminosos mortos nos anos 50, 60 e 70 provavelmente reencarnaram nas décadas 80 e 90 e hoje se encontram na fase mais crítica da existência física, novamente privados das mínimas condições de educação e dignidade social. A maioria são descendentes de antigos escravos e filhos de retirantes nordestinos (principalmente no Rio e São Paulo), os dois grupos sociais onde estão concentrados a parte mais significativa dos nossos problemas sociais e os mais graves débitos espirituais. Não é coincidência que eles sejam a população predominante nos cárceres e nas estatísticas de criminalidade. Diante das novas condições e dos cenários que todos nós conhecemos de pobreza e discriminação, sucumbem facilmente às tentações de consumo e poder. São espíritos fracos, endividados, mergulhados em situações de regates expiatórios desanimadores aos olhos comuns e que ainda desconhecem a complexidade da vida espiritual. Precisam do rigor da educação familiar e do bom exemplo da sociedade e das instituições. Algumas iniciativas diferenciadas já acolhem esses desvios e os transformam em novas perspectivas de vida. Mas é preciso ter paciência e serenidade, pois muitos ainda não compreendem essas oportunidades, preferindo o caminho mais fácil e o conseqüente choque com as leis humanas. Como já disse o Dr. Bezerra, comentando as origens desse antigo problema, “continuam a apanhar sucessivas surras da vida”, até que se dobrem ao cansaço.

A Lei das Favelas - Revista Time

A foto da revista O Cruzeiro registra a prisão de Mauro Guerra (no centro), criminoso considerado de altíssima periculosidade nos anos 50. Enquanto vivo, Perpétuo visitou regularmente Mauro Guerra na Lemos de Brito. Passavam horas conversando. Perpétuo começou a levar revistas e depois livros. Mauro Guerra cumpriu a pena, arrumou emprego, casou, teve filhos e netos. Pelo que eu sei, é um simpático velhinho aposentado que mora em São Gonçalo.



As favelas do Rio de Janeiro são a parte mais problemática da cidade: bairros pobres que não param de crescer, cujo índice de crimes, por comparação, faz o Harlem parecer um local tranqüilo. Os aglomerados de barracos pintados em tom pastel têm nomes enganosos - “Morro dos Prazeres”, “Pavãozinho”, “Chácara do Céu” - e neles proliferam bandidos com apelidos como “Maremoto”, “Tião Medonho” e “Carne-Seca”.

Os policiais pouco podem fazer. Sempre patrulham em grupos e somente durante o dia. Exceto um. Nos últimos 25 anos, a lei das favelas, ou o que ainda existe de lei nelas, depende bastante de um detetive da cidade: Perpétuo de Freitas.

Para ganhar autoridade nos bairros pobres, Perpétuo precisava ser bom, inteligente - e ter muita sorte. Nunca perdeu tempo prendendo pés-de-chinelo, distribuía balas para a criançada, arranjou emprego para dezenas de ex-presidiários, pessoalmente enviava comida e roupas a mães convertidas em viúvas por assassinos que Perpétuo não conseguira prender em tempo.

Era capaz de sacar sua 45 mais rápido do que qualquer bandido e tinha mira tão certeira que fazia criminosos se entregarem apenas por saberem que Perpétuo estava atrás deles. Por tantas vezes, as balas não o acertaram que parecia que isso nunca aconteceria. Uma vez, subiu ileso um morro, em meio a uma saraivada de tiros, e desceu trazendo dois pistoleiros pelo colarinho. Em outra ocasião, conseguiu prender um pistoleiro que descarregara o revólver disparando contra ele à queima-roupa.

Por um erro.

Há três semanas, a sorte de Perpétuo do “corpo-fechado” teve fim. Seu trágico destino iniciou quando um assassino condenado, Manuel Moreira, o “Cara-de-Cavalo”, conseguiu liberdade condicional “por um erro” e, assim que saiu da prisão, matou a tiros um grande companheiro de Perpétuo.

Furioso com a negligência burocrática que prontamente dera liberdade a Cara-de-Cavalo, Perpétuo largou tudo e foi atrás do assassino. Embora o restante da força policial nada conseguisse descobrir, Perpétuo encontrou uma boa pista após dois dias.

Enquanto aguardava Cara-de-Cavalo aparecer em uma birosca na Favela do Esqueleto, surgiram dois policiais de outro distrito. Ciumentos da fama de Perpétuo, iniciaram uma discussão sobre quem tinha autoridade naquela região e começaram uma briga. De repente, um deles puxou a arma, enquanto o outro segurava por trás os braços de Perpétuo. Assim, sem ter como se defender, Perpétuo do corpo-fechado, 51 anos, foi assassinado a tiros por outro policial.

Seu funeral atraiu figurões e poderosos. Mas Perpétuo pertencia aos favelados e 5 mil deles apareceram para marchar na procissão e se aglomerar ao redor do caixão para um último olhar, ou toque, ou lágrima. Após o enterro, líderes da favela do Esqueleto se reuniram solenes com o objetivo de discutir a mudança de nome para favela Perpétuo. “Ele iria gostar”, era a explicação.

Revista Time - 25 de setembro de 1964 - citado no Blog do Freitas

domingo, 5 de dezembro de 2010

Finalmente Hawking “amadurece” seu conceito de criação


O físico britânico Stephen Hawking parece estar mais maduro na sua visão sobre Deus e o Universo. O problema ainda está na concepção sobre o verdadeiro sentido de “divindade” e “criação” , fator tradicional de oposição entre religião e ciência. Para as religiões dogmáticas a criação continua sendo uma ação sobrenatural e mágica, produto da vontade absoluta de um ente superior (incriado). O cientista tenta explicar a sua visão de mundo, mas ainda esbarra numa definição mais precisa, o que afeta as explicações teológicas religiosas, que aliás não possuem nada de lógica, mas somente mitológica. Para elas Deus é alguém ou pessoa simbolizada no Verbo. É uma espécie de humanização teórica que permite nos aproximar de algo ainda incompreensível. É difícil compreender que Deus não se trata de alguém, mas de alguma coisa que não conseguimos explicar.

- O que é Deus? perguntou Kardec aos Espíritos.

E estes lhe responderam: - É a inteligência suprema, causa de todas as coisas.

E perguntamos nós: mas seria somente Deus o responsável pela manifestação da vida?

Seres inteligentes, criados à sua imagem e semelhança , não seriam capazes de atuar como agentes criadores ou co-criadores, executando suas vontades ou leis naturalmente estabelecidas pela sua supremacia inteligente?

'Não é preciso um Deus para criar o Universo', diz Hawking

Cientista britânico polemiza papel da religião na criação do universo em seu novo livro


Estadão - 13 de novembro de 2010

MADRI - Em seu mais recente livro, "The Grand Design" (O Grande Projeto, em tradução livre), o cientista britânico Stephen Hawking, afirma que "não é preciso um Deus para criar o Universo", pois o Big Bang seria "uma consequência" de leis da Física.

"O fato de que nosso Universo pareça milagrosamente ajustado em suas leis físicas, para que possa haver vida, não seria uma demonstração conclusiva de que foi criado por Deus com a intenção de que a vida exista, mas um resultado do acaso", explicou um dos tradutores da obra, o professor de Física da Matéria Condensada David Jou, da Universidade Autônoma de Barcelona.

Há 22 anos, em seu livro "Uma Nova História do Tempo", Hawking via na racionalidade das leis cósmicas uma "mente de Deus". O cientista inglês acredita agora que as próprias leis físicas produzem universos sem necessidade de que um Deus exterior a elas "ateie fogo" às equações e faça com que suas soluções matemáticas adquiram existência material.

Assim, aquela "mente que regia nosso mundo" se perde na distância dessa multiplicidade cósmica, segundo o tradutor. Hawking admite a existência das equações como fundamento da realidade, mas despreza se perguntar se tais equações poderiam ser obras de um Deus que as superasse e que transcendesse todos os universos.


EXTRA-TERRESTRES

Hawking afirma em um novo documentário intitulado “Into the Universe with Stephen Hawking” que formas de vida alienígena inteligente certamente existem, mas adverte que se comunicar com eles poderia ser “muito arriscado”.

“Nós só temos que olhar para nós mesmos para ver como a vida inteligente pode evoluir para algo que não gostaríamos de encontrar”, disse Hawking.

“Imagino que possam existir em grandes naves … ter esgotado todos os recursos de seu planeta natal. Esses extraterrestres avançados poderiam ser nômades, buscando conquistar e colonizar planetas em busca de alimentos para suas populações e/ou matéria prima para suas naves.”
O cientista de 68 anos, disse que a visita de extraterrestres à Terra poderia ser como Cristóvão Colombo chegando nas Américas “, que determinou o fim das civilizações nativas.”