sábado, 28 de novembro de 2009

Combustível da violência

Degas: O Absinto, 1876


Muito antes do voluntariado se tornar referência no Terceiro Setor, os cursos do CVV já eram obrigatórios para assistentes sociais da prefeitura de São Paulo e muito recomendados
para os trabalhos de relações humanas. Durante anos assistimos a vários programas de seleção desses voluntários e um que jamais esquecemos foi o realizado na sede do Sindicato dos Metalúrgicos de Santos, no início da década de 1980. Naquela época havia no programa uma aula sobre alcoolismo e toxicomanias , cuja idéia educativa era sempre “entender para melhor compreender”. O expositor foi um conhecido advogado e também voluntário do posto do CVV paulistano da rua Abolição e que naquela noite nos brindou com duas coisas que nunca tiramos da memória: a música de Vinícius de Moraes e Toquinho, “Um homem chamado Alfredo” ( O meu amigo do lado se matou de solidão... porque ninguém o queria, ninguém lhe dava atenção...); e a associação que ele fez entre drogas e violência ao nos ensinar que os usuários de haxixe da região da Turquia eram chamados de “haxixim” e que dessa palavra derivou o termo utilizado no Ocidente para definir a figura do “assassino”.

Desde então as coisas parecem ter piorado, quando se trata do consumo de drogas lícitas e ilícitas, cada vez mais precoce entre jovens e crianças, sempre com a reconhecida omissão e permissão dos adultos.

A simbiose psíquica entre encarnados e desencarnados no consumo de substâncias que causam dependência química sempre foi conhecida entre os espíritas e nas religiões dogmáticas o problema é habilmente transferido para a responsabilidade de forças demoníacas (não deixam de ser). Os relatos mediúnicos sobre esse assunto (sobretudo de André Luiz e Yvone Pereira) são de um realismo apavorante e mesmo assim, muitos de nós insistem em brincar com as nossas tendências e fraquezas. Nossas idas ao supermercado sempre são aventuras de sedução e resistência quando passamos pelas gôndolas de bebidas alcoólicas, sempre repletas de atraentes variedades e ofertas. Nossa família, de ambas partes, sempre teve uma queda para o alcoolismo e para a boemia. Um dos nossos bisavós (era húngaro, músico e depressivo) – tinha um alambique particular e, depois de desencarnado, sempre acompanhava um dos nossos irmãos que durante a juventude foi um notório beberrão. Segundo nossa mãe, na gravidez de outro irmão nosso, ela sentia um irresistível desejo de beber vinho e a criança que nasceu dessa longa agonia desde cedo demonstrou forte atração para o vício. Aos seis anos, no sítio do nosso outro avô, tomou escondido uma garrafa inteira de Cinzano, que era também um vício do vovô, sendo os dois muitos afeiçoados. Esse nosso irmão já nasceu alcoólatra e milagrosamente parou de beber aos 30 anos ao voltar de um coma. Temos um amigo que, apesar de ser trabalhador e muito afetuoso, é um beberrão inveterado. Devoto de nossa Senhora de Aparecida, vivia nos dizendo que os Espíritos não existiam. Já sofreu vários acidentes de carro por estar embriagado e nós mesmos já fomos socorrê-lo em dois deles nos quais os automóveis foram totalmente destruídos e nos quais saiu praticamente ileso. Ele atribuiu a sua sorte ao Terço que carrega no retrovisor do carro, mas continua bebendo sem o mínimo cuidado consigo e com os outros. Esse mesmo amigo ao vir em casa ficava admirado com a quantidade de livros e o interesse da nossa família pelas leituras. A esposa dele reclamava que os filhos não gostavam de ler e nós não perdíamos a oportunidade de dizer que eles seriam futuros bons bebedores porque a estante da casa deles era forrada de garrafas de whisky. Ela concordava e ele ficava quieto, sorrindo cinicamente.

Outro dia tive desejo de comprar um garrafa de conhaque. Já vinha com esse desejo sendo cultivado há algum tempo. Comprei. Coloquei em cima da geladeira esperando uma frente fria para saboreá-lo “socialmente”, em pequenas doses. Nesse ínterim tive um sonho impressionate no qual via sob um lago muito amplo muitas pessoas e animais mortos por caçadores. Todos, pessoas e bichos, estavam de olhos abertos, porém estáticos. Havia também muitas placas de trânsito submersas, amarelas e enferrujadas. Acordei agoniado. Fui até cozinha peguei a garrafa de conhaque e despejei-a na pia. “Cena típica dos alcoólatras em conflito consigo mesmos”, diriam os especialistas. Estão corretíssimos. Mas naquele sonho tinha algo mais que a vã filosofia e cética medicina ainda estão longe de compreender.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Oportunidade no momento certo

Certa ocasião, no final da década de 1970 , os fundadores de uma nova e conhecida entidade federativa espírita receberam uma mensagem dos Espíritos sobre os rumos que poderiam tomar nas suas novas experiências doutrinárias. Eles haviam solicitado ajuda sobre como atuar no campo da comunicação de massa, pois ansiavam atender o grande público-multidão que então já se formara nas principais metrópoles brasileiras. Não tinham muitos recursos e os meios mais conhecidos como rádio e TV ainda eram praticamente inacessíveis nessas condições. A mensagem deveria esclarecer definitivamente o problema. Mas ela veio curta e objetiva:

“Preparem-se, no momento certo vai aparecer a oportunidade que todos aguardam.”
Certamente o conteúdo não agradou à todos, sobretudo os que esperavam uma indicação mais específica do poderia acontecer.

Tempos depois, em plena fase de expansão, o novo movimento doutrinário recebe a notícia de que já estava disponível para concessão um meio alternativo de comunicação. A informação foi dada por um dos próprios membros do grupo que possuía larga experiência em comunicação jornalística e publicitária. Era necessário reunir uma pequena quantia para conseguir a concessão pública e aguardar as regras que seriam brevemente definidas pelos órgãos oficiais reguladores. Era preciso agir rápido e aguardar.

Foi então que , a partir daquele instante, o tom das reuniões do grupo foi se modificando. Pequenas divergências, antes consideradas apenas diferenças estratégicas, passaram a tomar corpo de posicionamento pessoal. Cresce rapidamente a disposição para o afastamento dos pontos convergentes entre dois pólos nitidamente competitivos. Nem mesmo a intervenção experiente de um antigo líder comum a todos eles conseguiu diluir a contenda. Mais tarde decidiram pela cisão e cada um seguiu o seu caminho de idealismo e novos projetos.
Mas que tipo de comunicação alternativa poderia ser aquela?
Tratava-se então de uma nova categoria técnica ainda desconhecida e quase sem uso pelas emissoras brasileiras. O novo modelo emitia ondas em frequência modulada e por isso vinha sendo chamado de rádio FM. Em menos de três anos o sistema explodiu nas grandes metrópoles e o preço das concessões também foram para as alturas.
Poucos se lembraram que os Espíritos tinham realmente falado das rádios FM e que na época da mensagem chamaram-nas discretamente de “oportunidade no momento certo”

Revista Veja, edição de 26 de junho de 1984 - Imagem: Midiacliping

sábado, 7 de novembro de 2009

O fim da religião e o retorno do sagrado

"Angelus", por Jean François Millet, 1857

Renato Ortiz tem sido um dos pensadores mais lúcidos e cautelosos da nossa sociologia contemporânea. Desprendido das visões tendenciosas e dos vícios analíticos ideológicos que marcaram a geração anterior à sua, ele reflete sobriamente sobre a temáticas que tradicionalmente eram rotuladas ou rejeitadas pelos intelectuais acadêmicos, como por exemplo a religião e o sagrado. Para aqueles que acham que o Espiritismo não possui nenhuma relação com a religião e também para aqueles que, num outro extremo, reduzem e transformam o Espiritismo num simples objeto de culto religioso (como diria Herculano Pires “Num bezerro de ouro”, ao comentar o fanatismo dos protestantes em relação à Bíblia), nada como um olhar crítico de quem está de fora e, portanto, muito mais isento do que qualquer um de nós. Das suas Anotações sobre Religião e Globalização” (Revista Brasileira de Ciências Sociais- Vol.16, nº47, outubro de 2001) recolhemos o trecho abaixo, pois que fala inclusive do contexto e das circunstâncias nas quais os Espiritismo foi fundado no século XIX. Pena que não é possível publicá-lo na sua versão integral.

“A relação entre religião e modernidade foi amplamente discutida pelos sociólogos. Desencantamento do mundo, secularização das instituições e das relações sociais, separação entre Igreja e o Estado, emergência da ciência e da técnica enquanto saberes secularizados, enfim, perda da centralidade da religião como elemento de organização da sociedade como um todo. Muito desse debate, quando mal formulado, levou a certos impasses, como a discussão sobre “o fim da religião” no século XIX, e hoje, a meu ver, do “retorno do sagrado”. Não há dúvida de que uma leitura evolucionista do progresso levou inúmeros pensadores a imaginar a religião com um anacronismo. Diante do avanço da ciência, da técnica e da secularização, ela teria os seus dias contados. È bem verdade que o século XIX produziu também alguns sincretismos entre religião e progresso procurando mesclar pólos aparentemente tão díspares, penso em Auguste Comte e seu culto da Humanidade, e nos “fazedores de deuses”, como dizia Lênin, de Lunacharski e Gorki durante a revolução bolchevique. Mas certamente predominou uma visão simplificadora e menos sutil, conferindo à técnica, não uma primazia, mas o poder de eliminar definitivamente as crenças religiosas. No entanto, é suficiente estarmos atentos para compreender que o advento da sociedade industrial não implica no desaparecimento da religião, mas o declínio de sua centralidade enquanto forma e instrumento hegemônicos de organização social. Ou seja, o processo de secularização confina a esfera de sua atuação a limites mais estritos, mas não a apaga enquanto fenômeno social.. Nessa perspectiva, o debate sobre o desparecimento dos universos religiosos é simplesmente inconseqüente. Basta lembrar que Durkheim, quando discutia a supremacia da ciência sobre a religião, dizia que essa última de fato, do ponto de vista explicativo, perdia terreno para o pensamento científico, porém, como a ciência era para ele uma “moral sem ética”, isto é, um universo interpretativo incapaz de dar sentido às ações coletivas, o potencial das religiões, como forma de orientação de conduta, de uma ética de ação no mundo, permanecia inteiramente válido. Na verdade, a modernidade desloca,sem eliminá-lo, o lugar que ela ocupava nas sociedades passadas. O fim do monopólio religioso não coincide, portanto, com o declínio tout court da religião, sua quebra significa justamente pluralidade, diversidade religiosa, seja do ponto de vista individual, seja coletivo (em termos lógicos não há pois necessidade de imaginarmos “o retorno” de algo que nunca expirou). A sociedade moderna, na sua estrutura, é multireligiosa.”

sábado, 31 de outubro de 2009

Sálem e Hydesville

O episódio das Bruxas de Sálem é um dos capítulos mais interessantes da história social da mediunidade, marcada por fenômenos aparentemente anormais e nos quais as pessoas portadoras de faculdades psíquicas são combatidas pelas forças dogmáticas e, quando expostas em público, altamente hostilizadas pela massa em histeria coletiva.

Para os espíritas, cujo olhar diferenciado nos conduz a uma leitura mais tranqüila e não menos curiosa desses fenômenos, Sálem não foi somente um fato isolado, mas talvez a raiz mais remota dos acontecimentos de Hydesville, ocorridos 156 anos mais tarde. Não estranharíamos se identificássemos em 1848 os mesmos protagonistas de 1692, alguns em papéis invertidos e outros exercendo as mesmas funções que lhes marcaram gravemente as consciências. Os caluniadores, os acusadores e os omissos em Salem voltam ao cenário de Hydesville para ajustar contas consigo mesmos, removendo parcialmente os efeitos do crime que haviam cometido anteriormente. Alguns desses agentes históricos, que tiveram comportamento exemplar em 1692, agindo com equilíbrio e senso de justiça, talvez se dispuseram a voltar espontaneamente para ajudar os antigos criminosos nas provas dolorosas de Hydesville e também contribuir para o advento da nova revelação que se desdobraria da América para os quatro cantos do mundo.

1692 entrou para a história social da intolerância religiosa e 1848 também teria a mesma finalidade histórica, com a diferença de que este último estaria relacionado a um contexto muito mais amplo e de grande repercussão universal, como planejaram os Espíritos Superiores.

As irmãs Fox, mediunidade de prova a serviço da nova revelação

As Bruxas de Sálem


"É uma certeza que o demônio apresenta-se por vezes na forma de pessoas não apenas inocentes, mas também muito virtuosas". Rev. John Richards, século XVII


Mister Parris, o pobre reverendo de Sálem, estava exasperado. Betty, a sua única filha de apenas nove anos, acometida por uma série de estranhos espasmos, jogou-se petrificada sobre o leito, negando-se a comer. Naquela perdida cidadezinha, ao norte de Boston, não existiam muitos recursos além de um velho médico que por lá se perdera. Chamado para diagnosticar a doença, atestou para o aterrado pai que menina estava era enfeitiçada e que nada lhes restava a fazer além de uma boa e sincera reza. A conclusão do doutor correu de boca em boca e em pouco tempo os pacatos habitantes do pequeno porto tomaram conhecimento de que Satanás resolvera coabitar com eles.

Simultaneamente outras garotas, as amiguinhas de Betty, começaram a apresentar sintomas semelhantes aos da filha do clérigo. Rolavam pelo chão, imprecavam, salivavam, grunhiam e latiam. Foi um pandemônio. Pressionado a tomar medidas, Parris resolveu chamar um exorcista, um caçador de feiticeiras, que prontamente começou sua investigação.

No século XVII poucos punham em dúvida a existência de bruxas ou de feiticeiras porque uma das máximas daqueles tempos é de que "é uma política do Diabo persuadir-nos que não há nenhum Diabo".
Interrogadas por Cotton Mather, que iria se revelar uma versão americana do inquisidor-mor Torquermada, as garotas contaram que o que havia desencadeado aquela desordem toda foram uns rituais de vodu que elas viram Tituba fazer. Tratava-se de uma escrava negra que viera das Índias Ocidentais e que iniciara algumas delas no conhecimento da magia negra. Durante o último longo inverno da Nova Inglaterra, ela apresentara várias vezes os feitiços para uma platéia de garotas impressionáveis. Educadas no estreito moralismo calvinista e no ódio ao sexo que o Puritanismo devota, aquele cerimonial animista deve ter despertado as fantasias eróticas nelas. Provavelmente culpadas por terem cedido à libido, ou apavoradas por sonhos eróticos, as garotas entraram em choque histérico. Seja como for o caso merecia ser ouvido num tribunal. Toda a cidadezinha se fez então presente no salão comunitário.
Quando colocadas num tribunal especial, presidido pelo juiz S.Sewall, e inquiridas pelos juizes Corwin e Hathorne, as meninas começaram a apontar indistintamente para várias pessoas que estavam na sala apenas como curiosas. O depoimento mais sensacional foi o da escrava Tituba, que não só confessou suas estranhas práticas como afirmou que várias outras pessoas da comunidade também o faziam.
A partir daquele momento a cidadezinha, que já estava sob forte tensão, se transformou. Um comportamento obsessivo tomou conta dos moradores. Uma onda de acusações devastou o lugarejo. Vizinhos se denunciavam, maridos suspeitavam das suas mulheres e vice-versa, amigos de longa data viravam inimigos. Praticamente ninguém escapou de passar por suspeito, de ser um possível agente do demônio. Não demorou para que mais de 300 pessoas fossem acusadas de práticas infames. O tribunal que entrou em função em junho de 1692 somente parou em outubro. Resultou que dezenove pessoas foram enforcadas.
Deteve-se a execução quando as denúncias envolveram figuras eminentes da colônia, tal como a esposa do governador de Massachusetts e o pastor Samuel Willard, presidente do Harvard College (*). Enquanto a arraia-miúda foi enclausurada, acusada de práticas escusas, poucos se indignaram. O basta naquilo tudo foi dado quando os dedos dos fanáticos ousaram apontar para a elite local. Ainda em 8 de outubro de 1692 circulou uma carta redigida por um intelectual da região, Thomas Brattle, que se horrorizara com os enforcamentos, revelando a loucura coletiva que tomara conta dos aldeãos. Segundo Perry Miller, que estudou as idéias que circulavam pelas colônias americanas daquele século, a letter de Brattle teria sido o primeiro documento iluminista produzido na América do Norte, pois criticou veementemente os prejuízos do fanatismo religioso. Entre outras coisas Battle escreveu: "temo que os anos não apagarão esta desgraça, esta nódoa que essas coisas lançaram sobre nossa terra". E os processos dos endemoniados de Salém assim como começaram, num repente terminaram.
História - por Voltaire Schilling

sábado, 17 de outubro de 2009

O Deus dos cínicos e dos medrosos

Com o seu novo livro, Caim, José Saramago volta a infernizar a vida dos religiosos. É a especialidade dele, um descrente convicto e profissional. A convicção não é verdadeira, é claro. Trata-se, segundo a teoria dele mesmo, de um mecanismo de defesa do “cérebro”, em operação idêntica àquela que mantém a crença em Deus. Suas declarações são desconcertantes e provocam a irritação dos mais emotivos e sectários, que no fundo no fundo não possuem fé suficiente para sustentar essa opinião tão delicada em tempos pós-modernos. Minha filha de 7 anos já me disse que não tinha certeza se Deus existe. Fiquei chocado por alguns segundos e logo tratei de me posicionar dizendo a ela que essa idéia não está à altura de seres humanos como nós e que certamente um dia vamos compreender Deus de forma diferente de tudo isso que vem sendo ensinado sobre Ele. É o que aprendemos no Livro dos Espíritos, que para muitos espíritas ainda funciona – não deveria- como um “catecismo”. O Deus que Saramago tanto detesta realmente só existe na mente dos dogmáticos, sectários e hipócritas. É o Deus do clero, de todas as religiões que tratam o assunto com estupidez e política. Esse Deus é imoral e morreu no século XIX, condenado 100 anos antes pela pena de Voltaire.
O Deus do Espiritismo não é o mesmo Deus da Bíblia vertida para os ocidentais e da cultura dogmática judaico-cristã desenvolvida pelas teologias católica e protestante. Veja a coragem da pergunta de Kardec e a transparência da resposta dos Espíritos. O diálogo que abre o Livro dos Espíritos é direto, franco e não há submissão ou adoração supersticiosa por parte de Kardec. A conversa é dinâmica e os Espíritos estimulam ainda mais a curiosidade, embora recomendem a prudência filosófica. Nosso Deus é o Deus de Zênon(Logos Spermatikos) Sócrates (Pneuma), o de Spinoza e de Einstein ( O Universo pensando). Nosso Jesus também não é mesmo. Nosso Cristo é o educador, o libertador de consciências e não o salvador absoluto e que assumiu irresponsavelmente as nossas responsabilidades sobre os nossos destinos.
Com o advento de novos conhecimentos científicos e a ampliação da nossa capacidade de ler esse novo universo, a nossa concepção sobre Deus vai sofrer mudanças irreversíveis. Nosso respeito pela Divindade vai adquirir um novo sentido e a nossa conduta religiosa um novo significado. Uma coisa é certa: nos ensinaram muitas coisas absurdas sobre Deus e esqueceram de ensinar como manter ideologicamente vivas essa coisas que já nasceram mortas. Precisamos reaprender a ver e adorar a Deus. Os Espíritos já nos ensinaram os primeiros passos. Muitos ainda não conseguem andar sozinhos nesse terreno novo da incerteza. Enquanto isso fazemos preces amedrontadas e com muitas chantagens. Mas já estamos aprendemos a rir das nossas criancices teológicas. Isso é muito importante.

sábado, 10 de outubro de 2009

35 anos

Crepúculo em Cubatão, por Bob Wolfenson

Este ano, em março, fez 35 anos que saímos de Epitácio para morar na Baixada Santista. Achamos que iríamos morar em Santos, mas na verdade fomos para São Vicente, cidade vizinha, tão vizinha que o turista comum não percebe quando passa pelas duas divisas entre elas (na praia do José Menino e no monumento dos tambores , na zona noroeste. Fomos morar num sobradinho na rua Uberaba e depois mudamos para uma casa maior, na rua Rio de Janeiro, onde ficaríamos nos próximos dez anos, entre 1974 e 1984. Seria uma década revolucionária em nossa família, marcada por experiências incríveis e cheias de transformações. Nossa mãe teve essa intuição bem antes e não perdeu a chance quando surgiu a oportunidade. A vida em Epitácio havia atingido o limite para uma família grande e de poucos recursos: cinco filhos jovens com muitos sonhos, mas sem muitas perspectivas. A idéia inicial era irmos para São Paulo, como acontece com a maioria das famílias que passam pela mesma crise, mas optamos por uma cidade que não fosse tão grande como a Capital e não tão pequena como Epitácio. Santos, São Vicente, Guarujá, Cubatão e Praia Grande formam uma grande região composta por cidades medianas. Era a escolha certa e o lugar perfeito. Saímos na madrugada e chegamos no litoral perto do meio dia. Parte da nossa mudança foi levada numa camionete do Jorge Okada. No dia anterior, no feriado municipal de 27 de março de 1974, ficamos no jardim até quase meia noite nos despedindo dos amigos. Estávamos todos eufóricos e apreensivos. Esse sentimento permaneceu durante toda aquela semana de novidades. Bem diferente do que é hoje, São Vicente era muito pequena e funcionava como cidade dormitório. Trabalhar, estudar, fazer compras, tudo era feito em Santos – no Gonzaga ou no centro velho, próximo à zona portuária. Andar nos coletivos era um excelente programa porque todos circulavam a grande Ilha de São Vicente, que inclui Santos e São Vicente. O circular 7 ia pelas praias em direção ao ferry-boate e o circular 8 fazia o sentido inverso. Alguns deles percorriam os canais principais (1 e 2) em direção à Vila Belmiro e ao túnel. Tudo era muito fascinante. Sempre escolhíamos o percurso mais longo, para aproveitar a paisagem. O cheiro de mar e da vegetação litorânea eram muito fortes e completamente diferente de tudo que o nosso olfato conhecia. Além dos pontos turísticos, nossa diversão preferida era ver a entrada dos navios na barra da Ponta da Praia. Navios enormes, de todas as nacionalidades. Também gostávamos muito das visitas aos vasos de guerra e submarinos, nacionais e estrangeiros. Num deles fomos visitar o jovem marujo epitaciano Salvador Miazaki. Tudo isso ia se acumulando no baú das nossas emoções e não víamos a hora de retornar para Epitácio e contarmos tudo em detalhes para os colegas. Isso aconteceu pela primeira vez no mês de julho – que na época estava bem frio. Uns parentes baianos da minha avó tinham sofrido a perda do filho mais velho ( que morava no Morro do São Bento, juntamente com dois irmãos) e fizeram essa viagem de volta com a gente. Levei na bagagem um vidro com água do mar, para mostrar para o Gilmar Saraiva. Em pouco tempo já havíamos adotado um sotaque santista (o abusivo e incorreto uso do “Tu” antes das frases –Tu vai, Tu foi, etc) , logo motivo de muito sarro e indignação dos colegas. Quando chegamos fomos logo procurar a turma no campinho de futebol, num terreno na rua Cuiabá, em frete a Serraria do Lopes. A manhã estava deliciosa, fria e ensolarada, e a maioria da garotada usava aquelas japonas de nylon “dupla face”. A irmã da minha avó Maria, mãe do rapaz morto em Santos, veio para morar em Epitácio. Elas não se viam há mais de 40 anos. Foram morar na chácara do meu avô, na Estrada Boiadeira Norte, próximo da rodovia marginal. Terminadas as férias, voltamos para o litoral, agora com outros olhares e outros projetos. Tudo o que aconteceu certamente daria um livro de memórias com muitos capítulos. Novas experiências, novos vizinhos, novos amigos. Momentos difíceis e coisas maravilhosas, inesquecíveis. De todas elas, a que marcou mais foi a ajuda espiritual – numa reunião de Evangelho - que recebemos de uma entidade feminina desencarnada em Epitácio. Velha amiga da família, ela nos deus conselhos e consolos preciosos nas horas incertas. Estávamos nos preparando para uma segunda etapa de mudanças. Na década seguinte – entre 1984 e 1990, fomos todos para São Paulo para complementar essa primeira fase de transformações.

Vista da orla de São Vicente e Santos a partir da praia do Itararé


Quando fomos morar em São Vicente tinha eu 12 anos de idade. Éramos cinco irmãos e mais um jovenzinho de três meses chamado Natalino, cujo irmão gêmeo Natal havia desencarnado por causa de complicações do parto. Enquanto a mãe estava no hospital lutando pela vida, Natalino e os outros seis irmãos foram colocados sob os cuidados dos nossos familiares até que as coisas voltassem ao normal. Jamais voltariam. A mãe de Natalino também desencarnou. O pai, um oleiro ribeirinho do Porto XV, em completa situação de miséria, recolheu os filhos e voltou para a sua batalha diária. Amigos nossos tentaram adotar os irmãos mais novos, mas o pai não cedeu. A irmã mais velha cuidaria dos menores. Natalino foi o único que não voltou. Para a nossa surpresa, o pai disse que, se quiséssemos ficar com a criança, ele deixaria de bom grado. A nossa mudança para o litoral paulista já estava decidida e não havia nenhum plano de adoção para Natalino. Dias antes da mudança nosso pai chegou em casa com alguns documentos para nossa mãe assinar. Estava consumado. Natalino era o mais novo membro da família. Ele havia nascido em 23 de dezembro de 1973 e na tarde de 28 de março do ano seguinte já estávamos descendo pelas curvas da Via Anchieta em direção à Baixada Santista. Tudo foi muito rápido e assustador para os adultos, porém muito emocionante para as crianças. Nossos pais eram funcionários públicos e optaram pela mudança para aguardar uma nova orientação sobre o futuro profissional deles no Ministério dos Transportes, junto ao porto de Santos. As coisas seguiram o seu curso, mas nossa mãe, de vez enquando, nos dizia que um Espírito feminino muito luminoso visitava Natalino durante a noite. Nossa mãe, filha de retirantes nordestinos, tinha sido criada por Dona Manoela Borges, uma senhora que mais tarde tornou-se madrinha de todos nós e que também havia desencarnado dois anos antes do nascimento de Natalino. Ela era filha de um índia xavante com um desbravador vindo da região de Porto Feliz. Certa ocasião, visitando um tia-avó numa viagem ao interior, nossa mãe recebeu dela, sem que estivesse esperando, a informação que há alguns anos buscava: “Esse menino é parente da Dona Manoela, é o pai dela. Você tem uma dívida com ela e esse menino precisa muito da sua ajuda". Também ficamos sabendo depois que a nossa vinda para São Vicente não tinha sido uma simples escolha. Tínhamos coisas importantes para aprender e realizar na antiga Vila onde em outros tempos tínhamos adquirido as primeiras lições do Evangelho pelas mãos dos jesuítas.



Mapa paulista do final do século XIX: a região oeste permaneceu "milagrosamente" intacta por mais de 300 anos.


Séculos mais tarde, quando a região oeste de São Paulo estava sendo ocupada pelos mineiros (antigos paulistas ou vicentinos), o Capitão Francisco Whitaker, por ordem do governador de São Paulo, lançou-se numa expedição pelos rios Tietê e Paraná com a missão de fundar um porto na divisa com Mato Grosso, na região inóspita do Pontal do Paranapanema. A expedição foi organizada nos mesmos moldes das antigas monções, caravanas de batelões fluviais em busca do sertão distante. A missão foi realizada com êxito e em primeiro de janeiro de 1907 eles desembarcaram na barranca paulista do Paraná e ali fundaram o Porto Tibiriçá. O empreendimento era uma preparação para receber gado de corte da região mato-grossense de Vacaria , que seria conduzido por uma estrada boiadeira entre Tibiriçá e Indiana, a estação mais próxima da Ferrovia Sorocabana, distante 105 quilômetros. A Madrinha Manoela sempre nos contava que o pai dela, seu Daniel, estava na expedição histórica de Francisco Whitaker, o último bandeirante paulista e descendente de vicentinos. São Vicente tinha sido a primeira vila a ser fundada na Capitania , em 1532, e o Porto Tibiriçá a última. Eles haviam completado um ciclo de quase cinco séculos (475 anos). E nós, tibiriçaenses, há exatamente 35 anos, estávamos de volta, ao som das ondas e do cheiro da maresia, agora para aprender na Mocidade e na Escola de Aprendizes do C. E. Irmão Timóteo as lições renovadoras do Espiritismo. Dois anos antes da nossa chegada, em 1972, o grande médium e escritor italiano Pietro Ubaldi despedia-se de São Vicente, cidade que escolhera viver os últimos dias da sua existência e que dizia ser um recanto muito querido do seu velho espírito, desde os tempos do Padre Manoel da Nóbrega.



Maurão, Mia, eu e Bill, jovens músicos do Grupo Manvantara na travessia do Canal de Bertioga , 1981.

sábado, 3 de outubro de 2009

Ardi, a Eva sucessora de Lucy

Descoberta na Etiópia dá pistas sobre origens do homem

Agência Reuters - Washington

Um esqueleto humano de 4,4 milhões de anos mostra que os humanos não evoluíram de ancestrais semelhantes aos chimpanzés, relataram pesquisadores nesta quinta-feira (1º). Em vez disso, o elo perdido - o ancestral comum aos humanos e aos macacos de hoje - era diferente de ambos e os macacos evoluíram tanto quanto os humanos a partir desse ancestral comum, afirmaram eles.

Os pesquisadores salientaram que "Ardi" deve ser agora o hominídeo mais antigo que se conhece mas não é o elo perdido. "Em 4,4 milhões de anos, encontramos algo um tanto perto disso", disse Tim White, da Universidade da Califórnia em Berkeley, que ajudou a coordenar a equipe de pesquisa. Eles descreveram o esqueleto parcial de uma fêmea do Ardipithecus ramidus. A espécie hominídea viveu há 4,4 milhões de anos no que agora é a Etiópia. A criatura de 1,2 metro é um milhão de anos mais velha que "Lucy" o esqueleto de uma outra espécie, chamada Australopithecus afarensis, um dos pré-humanos mais conhecidos.

O estudo genético sugere que os humanos e nossos parentes mais próximos, os chimpanzés, diferenciaram-se há 6 milhões ou 7 milhões de anos, embora algumas pesquisas sugiram que isso pode ter ocorrido há 4 milhões de anos. "Ardi" é claramente um ancestral humano e seus descendentes não viraram chimpanzés ou macacos, relataram os pesquisadores na revista "Science". Ela tinha uma cabeça semelhante a de macaco e dedos dos pés oponíveis que permitiam que ela subisse em árvores com facilidade, mas suas mãos, pulsos e pélvis mostram que ela caminhava como um humano moderno e não como um chimpanzé ou um gorila.

"As pessoas meio que assumiram que os chimpanzés modernos não evoluíram muito, que o último ancestral comum era mais ou menos como um chimpanzé e de que a linhagem humana passou por toda a evolução", afirmou White. Mas "Ardi" é "ainda mais primitiva que um chimpanzé", disse White.

Folha de São Paulo - 01/10/2009 - 17h08


Adão não estava lá


“Adão ainda não tinha vindo. Porque eu via um homem, dois homens, muitos homens e no meio deles eu não via Adão e nenhum deles conhecia Adão. Eram homens primitivos, esses que meu espíritos absorto, contemplava. Era o primeiro dia da Humanidade; porém, que humanidade, meu Deus!... Era também o primeiro dia do sentimento, da vontade e da luz; mas de um sentimento que apenas se diferenciava da sensação, de uma vontade que apenas desvanecia as sombras do instinto.

Primeiro que tudo o Homem procurou o que comer; após, procurou uma companheira, juntou-se com ela e tiveram filhos. Meu espírito não via o Homem do Paraíso; via muito menos que o homem, coisa pouco mais que um animal superior. Seus olhos não refletiam a luz da inteligência; sua fronte desaparecia sob o cabelo áspero e rijo da cabeça; sua boca, desmesuradamente aberta, prolongava-se para adiante; suas mão pareciam com os pés e frequentemente tinham o emprego desses; uma pele pilosa rija cobria suas carnes duras e secas, que não dissimulavam a fealdade do esqueleto.
Oh! Se tivésseis visto, como eu vi, o Homem do primeiro dia, com seus braços magros e esquálidos caídos ao longo do corpo e com suas grandes mãos pendidas até os joelhos, vosso espírito teria fechado os olhos para não ver e procuraria o sono para esquecer.

Seu comer era como devorar; bebia abaixando a cabeça e submergindo os grossos lábios nas águas; seu andar era pesado e vacilante como se a vontade não interviesse; seus olhos vagavam sem expressão pelos, como se a visão não se refletisse em sua alma; e seu amor e seu ódio, que nasciam, de suas necessidades satisfeitas ou contrariadas eram passageiros como as impressões que se estampavam em seu espírito e grosseiros como as necessidades em que tinham sua origem.

O Homem primitivo falava, porém não como o Homem: alguns sons guturais, acompanhados de gestos, os precisos para responder às suas necessidades mais urgentes. Fugia da sociedade e buscava a solidão; ocultava-se da luz e procurava indolentemente nas trevas a satisfação das suas exigências naturais. Era escravo do mais grosseiro egoísmo; não procurava alimento senão para si; chamava a companheira em épocas determinadas, quando eram mais imperiosos os desejos da carne e, satisfeito o apetite, retraía-se de novo à solidão sem mais cuidar da prole.
O Homem primitivo nunca ria; nunca seus olhos derramavam lágrimas; o seu prazer era um grito e sua dor era um gemido. O pensar fatigava-o; fugia do pensamento como da luz. E nesses homens brutos do primeiro dia o predomínio orgânico gerou a força muscular; e a vontade subjugada pela carne gerou o abuso da força; dos estímulos da carne nasceu o amor; abuso da força nasceu o ódio, e a luz, agindo sobre o amor e sobre o tempo, gerou as sociedades primitivas.

A família existe pela carne; a sociedade existe pela força. Moravam as famílias à vista de todos, protegiam-se, criavam rebanhos, levantavam tendas sobre troncos e depois caminhavam sobre a terra. O Homem mais forte é o senhor da tribo; a tribo mais poderosa é o lobo das outras. As tribos errantes, como o furacão, marcham para adiante e, como gafanhotos, assaltam a terra onde pousam seus enxames.”
João Evangelista – Espanha, 1882 – Roma e o Evangelho, José Amigó y Pellicer – FEB Editora



Cenas de A Guerra do Fogo, de Jean-Jacques Annoud. França/Canadá, 1981

sábado, 26 de setembro de 2009

Os 85 anos de Wallace Leal Rodrigues

Wallace Leal Rodrigues, Dr. Pedro Francisco Barbosa e Deolindo Amorim, no VII Congreso Brasileiro de Jornalistas Espíritas em Juiz de Fora,1977. Fonte: PENSE –Pensamento Social Espírita.



Dia 13 de setembro último fez 21 anos que Wallace Leal Rodrigues retornou para o mundo espiritual. Se estivesse encarnado (11 de dezembro) estaria fazendo 85 anos. O célebre ativista capixaba foi um desses Espíritos europeus antigos que buscou o Brasil para reencarnar no século XX. No interior paulista realizou a sua marcante tarefa na seara espírita, seguindo a mesma trajetória combativa de muitos outros companheiros destinados a abrir caminhos para os militantes das horas mais avançadas das décadas seguintes.

Wallace foi um revolucionário tranqüilo e quem o conheceu não teria dificuldade para explicar esse perfil sereno, totalmente contrário do temperamento explosivo, típico das personalidades sensíveis e criativas. Foi criado com seis irmãos em Araquara, cidade pela qual tinha verdadeira paixão, expressa na constante ansiedade em transformá-la num influente centro cultural. Num celebrado texto futurista de 1964 ele imaginou como seria Araraquara em 2017. Não estava errado, a cidade seria um grande celeiro e também polo de atração de artistas e intelectuais. Foi lá que Jean Paul Sartre fez sua famosa conferência no Brasil em 1960, à convite do Professor Fausto Castilho, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Sartre estava acompanhado de Simone Beauvoir e do amigo Jorge Amado. A presença deles foi considerada “non grata” pela Igreja Católica local, que fez até campanha pelo rádio contra o evento. Não sabemos se Wallace esteve na seleta platéia da faculdade, ao lado de Fernando Henrique, Ruth Cardoso e Antônio Cândido, ou se preferiu juntar-se aos estudantes com quem Sartre conversou no Teatro Muncipal. Será que naquele mesmo dia ele também assitiu à inesquecível partida entre a Ferroviária e o Santos Football Club? O Alvinegro Praiano, que, inexplicavelmente, perdeu de quatro a zero, tinha como destaque ninguém menos que o jovem Pelé e muito outros craques, incluindo aquele que inspiraria a escolha do nosso nome, feita pelo nosso pai no ano seguinte.

Nas décadas de 1970 e 1980 Wallace atuou como editor e redator de O Clarim e também da Revista Internacional de Espiritismo, onde procurou manter aceso o idealismo de Cairbar Schutel , traduzindo obras importantes publicando artigos e entrevistas memoráveis. Quem fica conhecendo as suas atividades culturais fora do movimento espírita não consegue esconder a profunda impressão e admiração pelo seu talento e capacidade inovadora. Sem nenhum exagero, ele tinha tudo e mais um pouco para ser um dos grandes nomes de destaque da comunicação e da arte brasileira contemporâneas. Mas, ao invés de brilhar nos grandes centros, preferiu a discreta militância espírita e uma também modesta atuação cultural, típica das cidades interioranas. Sem dúvida, uma opção que causa estranheza no observador comum, mas nunca naqueles que sabem a causa das escolhas secretas e inconscientes que faz um Espírito na condição e portador de mediunidade-tarefa. Wallace precisava vencer essa prova do anonimato, da vida simples e discreta, embora sua potencialidade dissesse sempre o contrário. O médium R.A. Ranieri não escondia sua nítida impressão de que conhecia Wallace de outra existência e que tinha certeza que se tratava da escritora George Sand, ex-companheira de Chopin. Quando do desencarne de Wallace, em 1988, Ranieri lembrou num artigo publicado no seu Jornal Espírita que havia entre os dois Espíritos não somente uma grande afinidade de características intelectuais e artísticas, mas principalmente uma curiosa semelhança fisionômica. Segundo Chico Xavier, ao encontrar Allan Kardec em Paris, na manhã do dia 18 de Abril de 1857, Sand recusou como presente das mãos do Codificador o primeiro exemplar de O Livro dos Espíritos.

Ps. Na semana passada, não por acaso, conversamos por e-mail com a companheira de doutrina Maria Lúcia, quando falamos sobre a História do Espiritismo e de Espíritos revolucionários como Madame Pompadour e George Sand (Amandine Aurore Dupin). Claro que o assunto Wallace Leal Rodrigues teria que vir à tona.


George Sand (1804-1876) e Wallace Leal Rodrigues (1924-1988) Para saber mais sobre Wallace acesse:

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

A lembrança de Olavo (Conto)

Os fuzilamentos de três de Maio, por Francisco de Goya



Ele não lembrava direito quem tivera a idéia de fazer uma parada naquela estrada para fazer um lanche. Todos concordaram porque o lugar parecia agradável, um pouco afastado da margem. O quiosque que servia de abrigo era bem grande e dava para acomodar a todos. Era uma antiga barraca de água de coco com mesas grandes e rústicas. Ele era Olavo, o mais velho da turma de quatro amigos. Não faria a mínima diferença saber de quem tinha sido a idéia da parada. Só iria piorar as coisas se houvesse uma discussão com acusações entre eles. Olavo só não se perdoava por ter deixado as coisas terem chegado naquele ponto. Poderia ter tomado uma atitude logo no início, mas preferiu aguardar o momento mais seguro. Está arrependido porque , para ele, a melhor oportunidade já havia passado. Agora, somente uma ação muito arriscada poderia reverter a situação em que todos estavam em perigo, principalmente as crianças.

Olavo estava como muito medo e desde os primeiros preparativos para essa viagem pressentiu algo de ruim. Um frio na barriga o incomodava desde o início da semana. Tentou desistir, mas as mulheres e os filhos já estavam praticamente certos da viagem e muito entusiasmados. Era a primeira vez que os quatro amigos levariam as esposas e filhos. Isso só acontecia quando iam para a praia. Dessa vez decidiram levá-los para o Pantanal, onde alugariam um barco de pesca pelo período de uma semana. Nunca fizeram paradas imprevistas como essa e sempre buscavam os conhecidos postos de serviços. Dessa vez, logo dessa vez, tudo deu errado. Tinha que manter a calma. Tinha, sobretudo, que ficar de olho no Ivinho, o mais impulsivo e que poderia estragar tudo e colocar todos em risco. Paulo Henrique também era explosivo, valente, mas era mais inteligente do que Ivinho. Rachel, a mulher de Ricardo estava surpreendentemente calma, demonstrando tranquilidade e confiança de que as coisas iriam dar tudo certo. Olhava para as crianças e tentava fazer com que as amigas também agissem da mesma forma, sem demonstrar desespero. Olavo estava com um temor que jamais sentira exatamente porque tivera maus pressentimentos. Estava armado, coisa que nunca o havia acontecido ou lhe interessado. Havia tomado a arma emprestada de um colega da empresa, o mesmo que criticara por ter feito um curso de tiro e defesa pessoal. Ficou envergonhado por ter tido vontade pedir a arma , mas justificou da melhor forma possível. O colega o treinou rapidamente ensinando a lidar com o carregamento das munições e até ensaios alguns disparos , aprendendo como agir rapidamente em caso de assalto. “Que loucura...” , pensava ao recordar que jamais concordaria em usar uma arma para atirar em alguém.

Ricardo estava assustado e seus olhos percorriam a tudo e a todos que ali estavam . Isso deixava Olavo mais preocupado com o desfecho daquela situação.

Paulo Henrique parecia abalado com tudo que havia acontecido sem, no entanto, revelar medo. Se um deles tivesse que tomar uma atitude mais atrevida este seria Paulo Henrique. Era o mais inteligente do grupo, sabia negociar, tinha grande poder de convencimento e já poderia ter feito alguma proposta atraente para resolver aquela situação. “Se ele ainda não fez nada é sinal que as coisas realmente não estão indo muito bem”, pensou Olavo. Conversar o quê? Fazer que tipo de proposta? Como convencer alguém que se mostra tão insensível e ao mesmo ameaçado, continuava pensando Olavo enquanto os outros dois amigos pareciam também aguardar a decisão.

Das mulheres somente Rachel estavam procurando se inteirar do que estava acontecendo e do que poderia acontecer caso houvesse uma reação dos homens. As demais estavam somente assustadas e aguardando o momento pior no qual poderiam chorar e implorar pelas suas vidas e dos seus filhos. Ela estava um pouco distante deles e, de repente decidiu agir e comunicar-se através dos olhos. Queria saber o que poderia ser feito. As crianças já estavam a ponto de explodir e não suportariam mais. Tinha medo de que as coisas descambassem já nos próximos minutos e rompeu aquele silêncio de indecisão entre o marido os três amigos. Olhou para Ricardo, cobrando uma posição. Ricardo olhou para Paulo Henrique e também para Ivinho e todos se voltaram para Olavo, com o se o mesmo tivesse naquele instante sido escolhido para iniciar a reação. Todos estavam se sentindo acuados e conscientes de que aquela decisão iria mudar completamente o rumo de suas vidas. Nem todos iriam sobreviver e as crianças certamente seriam sacrificadas. Por outro lado não havia garantia nenhuma de que elas estariam em segurança caso permanecessem passivos. Era tudo ou nada. Ou pelo menos a esperança de que alguém poderia sair dali vivo.

Por alguns instantes Olavo recuperou a frieza e iniciou uma leitura ainda mais rápida da situação, tentando entender como tudo havia começado. Primeiramente contou quantos eram aqueles que ameaçavam suas vidas. Era oito, seis rapazes e duas adolescentes, todos de mal aspecto, vestindo roupas muito sujas, com manchas pretas parecendo serem cortadores de cana que voltavam das lavouras que ocupavam toda aquela vasta região. Tinham surgido na margem da estrada e de longe escutava-se uma intensa conversação entre eles. Embora tenham ficado atentos, não se preocuparam, pois viram que eram lavradores, pessoas simples que jamais poderiam causar algum tipo de problema. Na medida que se aproximavam, a conversação mais parecia uma algazarra e até mesmo brigas entre eles. Foi então que perceberam que não eram pessoas adultas e sim jovens completamente sem modos, sem a simplicidade e a timidez dos lavradores que conheciam e que até haviam conversado em algumas ocasiões. Esses tinham um jeito diferente, um olhar vago, perdido, que lembrava uma certa perturbação. Estavam visivelmente alcoolizados ou drogados e isso os tornava mais assustadores. Dois deles revelavam intenções de maldade e pareciam ter poder sobre os demais. Trocaram olhares entre si e partiram em direção aos carros que estavam estacionados sob algumas árvores. Foi então que Olavo percebeu o perigo e avisou os colegas. Mas já era tarde. Todos foram dominados pelos jovens, que empunhavam longos facões. Cercados e tomados de surpresa as mulheres e crianças começaram a gritar e isso fez com os jovens andarilhos demonstrassem mais agressividade e exigissem silêncio de todos.

Enquanto pensava e contava quantos eram os marginais que os haviam feito reféns , Olavo também tentava equacionar quem eles eram. Que tipo pessoas eram aquelas que de longe pareciam ser simples lavradores e que de perto revelaram-se seres perigosos e cheios de ódio no coração. O que estava acontecendo? Aquele passeio, que seria um dos mais divertidos em todos aqueles anos de amizade, desfizera-se num pesadelo e numa possível cena de horror. Com exceção de duas esposas, todos se conheciam desde a infância, cresceram no mesmo bairro, estudaram na mesma escola e sempre procuravam estar juntos. O feriado prolongado da Semana da Pátria prometia um fim-de-semana alegre agora jamais seria esquecido pela aquela turma de amigos. A viagem tinha sido planejada no inicio do ano, quando o mesmo grupo aproveitava as últimas horas da temporada de verão na praia.

Olavo foi tomado então por uma sensação muito estranha. Queria falar, mas sua voz não saia, enquanto era gravemente observado por alguns daqueles marginais. Tinha a nítida sensação de que as coisas não iriam ser boas e já se preparava para o pior. Olhou para os colegas e gesticulou intuitivamente para que todos tivessem calma. Na verdade queria dizer-lhe que tivessem confiança. Queria dizer-lhes que não perdessem a fé em Deus , mas a voz parecia estar mais presa no peito aumentando sua angústia. Seus olhos encheram de lágrimas ao ver as crianças naquela expectativa angustiante. Olhava para cada uma delas e pensava “Deus”, “Confiança”, “Fé”, como se quisesse enviar-lhes esses pensamentos de força. Lembrou que essas palavras foram repetidas várias vezes pelo preletor do centro espírita no qual tinha ido tomar passes há mais de um ano, a convite da copeira da sua empresa e que sempre deixada sobre a sua mesa um folhetinho com mensagens que nunca tinha tempo de ler. Não recordava o rosto do preletor, mas não esqueceu que ele sempre sorria e repetia aquelas palavras, para ele soltas em frases incompreensíveis: “”Deus”, “Confiança” e “Fé”.

Antes de ter a sensação de que iria desmaiar, Olavo desfechou aquele que acreditava ser o último olhar para o seu amigo Paulo Henrique e abriu os braços pedindo a ele que corresse em sua direção. Paulo obedeceu e partiu para socorrer o amigo que lhe parecia estar tendo um colapso. Abraçou-o e sentiu que Olavo tinha algo escondido sob a camiseta. Apalpou e pegou a arma que lhe pareceu muito pesada e estranha. Voltou-se rapidamente e deu um tiro para o alto, enquanto gritava raivosamente para que os jovens se afastassem. Não podia vacilar e foi incisivo na segunda ordem, aproximando-se dos dois marginais que pareceriam ser os mais atrevidos. Olavo já estava no chão sendo socorrido pela esposa e Raquel se encarregou de motivar os outros a assumir a atitude de enfrentar os inimigos. Mas Paulo Henrique parecia estar tomado por uma grande força vingativa e fez com os jovens fossem rapidamente dominados, levando-os sob ameaça em direção ao canavial. Eles entenderam que agora estavam em desvantagem seguiram caminhando rapidamente com as mãos sobre as cabeças. A certa altura Paulo fez com que todos se deitassem de bruços. Estava ali com todos eles, dominados. Ricardo e Ivinho já estavam ao seu lado e o três passaram a compartilhar os mesmos sentimentos de ódio e vingança. “É preciso fazer justiça”, falava Ivinho. Tomando pela mesma sensação, Ricardo segurava nas mãos um dos facões tomados dos jovens e intimidava Paulo Henrique: "Vai, cára, eles iam matar todos nós. Se você não fizer isso agora eles vão fazer isso com outras pessoas e , quem sabe, com a gente mesmo. Se você não fizer , faço eu mesmo!"

Paulo já estava convencido e já havia tomado a decisão de atirar nos jovens. Não havia outro jeito de terminar aquela história de covardia e terror a que foram submetidos. Um dos jovens já tinha sido ferido por um golpe de Ricardo quando tentou correr para dentro do canavial. Paulo apontou a arma e disparou o primeiro tiro. Foi um barulho ensurdecedor, que ecoou fortemente pelo ar. Os jovens então ficaram inquietos e alguns deles entraram em desespero clamando pelo amor de Deus. Paulo já ia disparar o segundo quando ouviu a voz de Olavo dizendo: “Paulo, Paulo! Eu acabo de ver tudo. Eles já nos mataram uma vez, lembra? Atiram em nós dizendo que daquela vez finalmente iriam nos mandar para o inferno! Estávamos todos, Ricardo e Ivinho também, encostados num muro muito alto, cantando o nosso hino. Era o muro de um grande cemitério. Antes de atirarem em nós um velho padre tentava nos consolar dizendo “Crêem em Deus!” “Tenham confiança em Nosso Senhor e não percam nunca a esperança, pois uma dia todos iremos morrer e ressurgir para a eternidade!”. O padre também voltou!

A mão de Paulo ainda estava tremendo quando já podia-se ouvir o alarde de várias sirenes de carros da polícia se aproximando.

A pescaria tinha sido finalmente adiada. Paulo, ainda perturbado, pouco antes de dormir confessou para a esposa que naquela semana tivera um sonho. Durante uma pesca ele jogava uma grande rede no rio e ao puxar ficava desesperado ao ver que nela não tinha peixes e sim vários jovens agonizando. Gritava para os colegas Ivinho, Ricardo e Paulo Henrique , mas somente Paulo o atendia e ajudava-o a tirar os jovens da rede.

A vida segue normal. Os quatro continuam muito amigos. De vez em quando Olavo visita a região, talvez para superar um trauma que se instalou na sua alma. Mais tarde descobriu que era apenas uma cobrança da consciência. Quis saber quem eram os jovens daquele dia. Visitou anonimamente alguns onde estavam detidos e depois até teve coragem de conversar com aquele que era o mais agressivo. Todos o olhavam com desconfiança. Olavo sentia necessidade de dizer-lhes que não tinha raiva de nenhuma deles e que, na verdade queria se desculpar se alguma vez lhes fizera algum mal. Eles não entendiam muito bem o que Olavo dizia e só mudavam o semblante quando ele dizia que sempre orava por todos e que um dia todos iriam ser amigos. Voltou lá várias vezes e sempre levava roupas, tênis, livros. Conheceu também as duas jovens. Uma delas já era mãe e recebeu Olavo com sincera alegria. A outra era mais rebelde, mas foi mudando aos poucos quando percebeu que Olavo só queria ajudar. Depois que os jovens saíram da detenção Olavo nunca mais os viu. Mais ainda faz oração por eles todos os dias antes de deitar-se.

Olavo sempre vai centro espírita assistir a preleção das segundas-feiras. Ao seu lado está Paulo Henrique. Quando o preletor começa a falar, Olavo vira-se para Paulo e diz: “Olha lá o nosso padre! Lembra?


sábado, 12 de setembro de 2009

Consolador em todos os aspectos

Camille Flammarion: astronomia como portal do Espiritismo e uma nova visão de mundo.


Herdeiro histórico legítimo das filosofias humanistas antigas e também das tradições religiosas monoteístas, o Espiritismo tem a consolação como marca principal da sua essência doutrinária. Consola através de respostas todas as carências humanas contidas nos pensamentos, nas ações e nos sentimentos.

A grande maioria das pessoas que buscam o Espiritismo está em situação de crise moral, experimentando angústias e anseios que só podem ser amainados através do esclarecimento sobre os limites da natureza humana mortal e as possibilidades do espírito imortal. Quem está satisfeito com o mundo e consigo mesmo, geralmente não se interessa , nem precisa de consolo. Quem não tem dúvidas nem preocupações, também não carece e nem se interessa por filosofia. Com exceção daqueles que estão em crise ou se preocupam com as dúvidas e sofrimentos dos outros, todos os demais seguem a rotina de suas vidas, sem dar atenção para esses problemas do ser, da dor e do destino.

Para uns poucos, as informações científicas do Espiritismo são satisfatórias. Para outros tantos, só tem sentido as especulações intelectuais e respostas filosóficas. Mas, para a grande maioria, que tende a crescer cada vez mais, só tem cabimento em suas experiências pessoais as verdades que lhes amenizem o sofrimento, que acalmem seus impulsos, que diminuam suas revoltas, que ampliem um pouco seus horizontes e, finalmente, que lhes dêem a esperança de sonhar com um mundo melhor e mais justo.

Que importa se essa busca tenha ênfase sentimental ou emotiva? Que importa se o consolo tem sentido religioso, místico e até desperte expectativas supersticiosas? Que diferença faz se a procura ocorre no terreno da experimentação científica ou na especulação filosófica ?

O importante é que a Doutrina Espírita contempla todas essas dimensões da natureza humana, cuja existência física tem sido marcada pela dureza inexorável das provas e das expiações. Consola e esclarece porque sempre ressalta a imortalidade como fato, o livre arbítrio como ferramenta evolutiva, a lei de ação e reação como justiça Divina , a reencarnação como lei natural; e principalmente o constante sentido da transformação e do progresso do Espírito.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Narrativas mediúnicas da sexualidade


Alguns leitores questionam não somente as origens das informações mediúnicas, mas também a qualidade e a utilidade e social dos textos trazidos à público pelos médiuns e editoras.

Qual a finalidade dessas publicações? São realmente educativas ou apenas expressam a necessidade de comunicação de diferentes pontos de vista de alguns Espíritos e seus respectivos médiuns?

O último questionamento que recebemos a respeito disso foi sobre o tema da sexualidade, assunto sempre curioso e atraente na sociedade atual, dividida entre o esclarecimento e a culpa.

Os três livros escolhidos aqui são bons exemplos de como esse tema vem sendo abordado, sob todos os aspectos levantados pelas dúvidas dos leitores. Foram publicados respectivamente em 1963 (Sexo e Destino), 1972 (Sexo Além da Morte) e 2002 (Sexo e Obsessão), cada qual seguindo o estilo pessoal, a proposta doutrinária e o objetivo pessoal dos seus autores. São ao mesmo tempo semelhantes e muito diferentes entre si, refletindo inclusive as limitações morais e a contextualização da sexualidade de suas respectivas épocas. Lendo e comparando as três obras é possível logo da cara estabelecer uma comparação de linguagem entre elas. A diferença na qualidade textual literária salta aos olhos.

André Luiz não é um mestre da narrativa, mas deixa os textos de Manoel Philomeno de Miranda e de R.A. Ranieri em situação devantajosa. Nessa situação Ranieri é médium e também narrador. Segundo esse autor, a obra foi produto de suas incursões nas regiões espirituais descritas sob a orientação do Espírito André Luiz.

Chico e Xavier e Waldo Vieira produziram Sexo e Destino em condições diversas, pois cada um escreveu um capítulo (pares e ímpares) em cidades diferentes. Divaldo, apesar do esforço, não tem a mesma facilidade descritiva e a riqueza de detalhes dos médiuns de André Luiz. O texto de Ranieri é simplista e apela o tempo todo para a curiosidade do leitor. Sexo além da Morte foi alvo de muitas críticas e restrições (assim como as outras obras do autor, sobretudo O Abismo). Um editor muito experiente nos disse que Herculano Pires recomendou ao médium que o livro não fosse publicado, pois este causaria má impressão no público. Mas o próprio autor insiste nesse detalhe afirmando ser o livro o "único no mundo" a fazer esse tipo de abordagem e que , dependendo dos objetivos, não há entre os Espíritos um padrão de critérios na revelação de informações. Já o texto de Divaldo em Sexo e Obsessão é apenas simples e repete algumas abordagens já feitas por Chico Xavier, citando inclusive como fonte uma informação de Chico sobre detalhes que anteriormente não foram permitidos colocar na obra do médium mineiro. O mesmo aconteceu com relação aos livros Libertação (André Luiz) e Nas Trihas da Libertação (Manoel Philomeno de Miranda). Os textos de André Luiz e Chico são alvos constantes da imitação ou necessidade de "complementação" das revelações mais curiosas. No final de Sexo Além da Morte Ranieri e seu mentor visitam um médium famoso (tudo indica que é Chico) e ficam sabendo que haverá uma reunião no Reino das Trevas no qual o gênio do mal Tamerlão vai substituir Gregório (personagem revelado por André Luiz em Libertação). Anos mais tarde Divaldo/Manoel Philomeno resolveram esclarecer melhor essa história e produziram Nas Trilhas da Libertação, enfocando principalmente o assédio aos médiuns de cura que serviram aos espíritos-médicos do tipo Dr Fritz.

Surge então uma dúvida importante na difícil capacidade avaliar quem define a qualidade do texto mediúnico: o Espírito, o médium ou ambos? Surge também uma certeza: dificilmente teremos narrativas da alta qualidade como as de Chico Xavier e Ivone Pereira, cujos textos são primordiais em estilo e conteúdo.

Em nossa opinião Sexo e Destino é o melhor e mais esclarecedor dessas três publicações, em todos os aspectos, embora Divaldo e Ranieri tenham trazido à tona assuntos próprios do seu tempo, incluindo alguns lances históricos muito curiosos e atraentes.

Não vamos entrar no mérito da autenticidade mediúnica, pois tal capacidade de julgamento deve ser desenvolvida pelo próprio leitor e nós mesmos ainda não temos condições justas e precisas de avaliar a veracidade dessas revelações. Há os que aceitam, os que rejeitam e os que são absolutamente indiferentes. Ainda assim, achamos válido o esforço dos médiuns e intenção dos Espíritos, pois ao término da cada uma dessas leituras ficamos impressionados e reflexivos sobre as nossas idéias, sentimentos e atitudes sobre assunto ainda tão influente e conflitante em nossa Humanidade.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Dona Martinha


Conhecemos Dona Martinha quando, na adolescência, acompanhávamos nossa mãe nas reuniões gerais da Aliança Espírita Evangélica, nos finais de ano em São Paulo. Eram reuniões cerimoniais cujo ponto máximo acontecia com a manifestação dos Espíritos mentores. Não havia nenhuma badalação em torno das pessoas que faziam esses intercâmbios mediúnicos, pois todos eram muitos discretos nessas horas. Dona Martinha estava entre esses. Em reuniões menores e mais privativas conhecemos outros médiuns que transmitiam orientações mais técnicas e especificas daquele movimento, sem nunca interferir em questões administrativas dos grupos. Todos eles, como Dona Martha, tinham sido educados na escola mediúnica armondiana, criada originalmente nos anos 1940 na Federação Espírita do Estado de São Paulo.

Anos mais tarde revimos dona Martinha, reencontro unilateral porque ela não nos conhecia. Fomos apresentados pelo amigo Arnaldo Coutinho, da Fraternidade Esperança, um ativista que havia trabalhado mais de vinte anos com o Comandante Armond. Aliás, a única vez e o mais próximo que chegamos de Edgard Armond foi quando, certa vez , ele conversava pelo telefone com o Coutinho na Secretaria da Aliança, na rua Genebra. Aparentemente parecia um cabo falando com o General. Na verdade era uma relação de amor e respeito, fruto dessa longa convivência.

Dona Martha segurou então a nossa mão por alguns instantes e olhou fundo em nossos olhos. Foram alguns segundos que nos pareceram uma eternidade. Ela olhava para nós e depois olhava para o Countinho e não dizia nada. Sorria educadamente, entre o espanto e a preocupação. Nosso rápido encontro ficou nisso e nunca perguntamos ao Coutinho se ela viu ou pensou algo que fosse do nosso interesse ou que deveríamos saber. No mínimo deve ter percebido que o nosso compromisso com a doutrina espírita estava defasado e que ainda deveríamos passar por umas “poucas e boas” para chegar ao ponto ideal de trabalho.

Mais alguns anos se passaram. Estávamos agora concluindo as nossas pesquisas para a publicação de um livro e resolvemos pedir ajuda para Dona Martha. Tínhamos muitas dúvidas e precisávamos falar com alguém "confiável" que nos desse "acesso" aos Espíritos. Não ligamos inclusive para a experiência mediúnica de nossa mãe, que humildemente nos forneceu algumas informações que buscávamos e, como todo filho teimoso e ingrato, não poderia valorizar a lição de casa. Novamente o Coutinho nos ajudou. Telefonamos para Dona Martha e ela nos atendeu prontamente. Pediu que enviasse as nossas dúvidas e nos alertou que o pedido seria submetido a um grupo mediúnico e que, se houvesse divergência, outros médiuns seriam consultados separadamente. Com grande expectativa, certamente estávamos dando muita importância ao assunto pessoal e, mesmo assim, recebemos um tratamento muito atencioso.

É claro que não houve nenhuma revelação bombástica, muito menos algum tipo de alarde que pudesse realçar a nossa personalidade. Havíamos mandado algumas questões sobre o nosso trabalho e, ao nosso ver, todas elas foram respondidas. Nãoo ficamos totalmente satisfeitos porque na época não conseguíamos enxergar as coisas com "os olhos de ver". Somente depois de algum tempo fomos comprendendo o que havia de mais importante naquelas respostas.

Dessas instruções, especificamente dirigidas a nós , separamos quatro que consideramos essenciais para a nossa experiência, espiritualmente falando:

“Tarefa de divulgação Evangélico-Doutrinária, através da vivência cristã”.

“Tudo que um médium faz tem influência espiritual. É preciso orar e vigiar para conhecê-la”.

“Conhecimento é positivo, polêmica traz perturbação”.

"Demolir dogmas exige conhecimento, compreensão, amor e humildade"