terça-feira, 23 de setembro de 2008

Paradigmas

Nicole Kidman em "Os Outros": o Espírito e o médium num choque de realidade ou a horrível dor de cair em si.



O amigo Marcos, jovem pensador e pesquisador, nos enviou essas dúvidas sobre a atualidade da Doutrina Espírita. Achamos que seria uma boa oportunidade para testarmos as nossas convicções e fizemos o exercício logo em seguida. Que tal fazer o mesmo?


“Tenho 26 anos, sou estudante de Filosofia e de família espírita, abandonei a doutrina por um tempo e agora retorno aos estudos da obra da codificação. Contudo deparei-me com um problema a que, ao meu ver, é de estrema relevância: o paradigma de ciência de Kardec está enraizado no positivismo, que não é mais coerente com paradigma de ciência de hoje, após as reflexões de Popper, Kuhn e outros. Nesse sentindo, é possível falarmos em Leis desveladas por trás das coisas, sem cair no erro do mito científico do positivismo? Se a doutrina tem por base a Ciência (do grego ἐπιστήμη [episteme], ciência, conhecimento; λόγος logos, discurso), a Filosofia, que entre um dos campos está A teoria do conhecimento e a Espistemologia, que investiga justamente os modelos científicos e sua validade interna e externa, e a Religião, enquanto reencontro com sagrado?

Dessa forma, o sistema proposto pelos espíritos e codificado por Kardec, parte de axiomas incontestáveis tais como reencarnação, lei de causa efeito, etc. Internamente o campo doutrinário é coerente, enquanto sistema fechado, contudo do ponto de vista dos paradigmas colocados pela Filosofia da Ciência, estaríamos beirando o dogma, já que esses axiomas são dados como verdades incontestáveis. Vejo que a leitura do livro dos espíritos portanto, deve levar em conta o contexto científico e apresentar os limites do racionalismo positivista, nesse sentido, da minha perspectiva, a leitura deve ser interpretativa, sendo assim, acho necessário a fundamentação de uma Teologia Espírita, e revalorização da fé no âmbito da doutrina. Vejo muitos Dr. Espíritas elucidarem os fenômenos deste e do outro mundo com uma certeza inabalável de seus raciocínios e no poder da razão, em sinlogismos “tautológicos”, sem no entanto questionarem aquilo mesmo que os fundamenta, e o método que empregam. Mas a meu ver, essa certeza inabalável é sempre a maior inimiga da reflexão filosófica, da Verdade e da Religião”.

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Caro Marcos, grato pelo contato e pela oportunidade de conversarmos sobre tema tão atraente!

Kardec tinha plena consciência de que a ciência espírita não deveria se apegar exclusivamente aos dogmas ou paradigmas daquele contexto histórico. Recomendou cansativamente que , sendo a ciência um mecanismo dinâmico de conhecimento, é certamente também evolutivo e sofre as transformações impostas pelo tempo, pelas novas descobertas e enfoques. O Espiritismo deveria, segundo ele, acompanhar essas transformações, mesmo que tivesse de abrir mão de suas verdades primordiais. E assim tem sido. A física mecanicista de Newton cedeu lugar o paradigma quântico e praticamente confirmou todas as premissas das hipóteses espíritas sobre o universo, a energia, a matéria e principalmente a sobrevivência do ser extracorpóreo. A reencarnação sempre foi tratada por Kardec como premissa filosófica, hipótese científica, lei da natureza e não como crença dogmática. A pluralidade de mundos seguiu a mesma trajetória: aguardamos os rumos da ciência, como fez Kardec, colocando o assunto sempre como hipótese, mesmo quando se deparava com comunicações altamente convincentes. O intercâmbio mediúnico em diferentes dimensões nunca foi exclusividade do Espiritismo, sendo prática usual em todas as culturas. Mesmo alimentando a linguagem mítica e a abordagem mística, tais intercâmbios sempre adquiriram valor de verdade mais pela evidência de dados imprevistos ou incomuns, do que pela própria forma pela qual se manifestavam. Isso continua acontecendo, por exemplo, nos tribunais: quando aparece uma prova essa se destaca por ser algo que não estava previsto no processo e salta como evidência irrefutável porque não haveria outra forma de acesso a tais informações senão pelo próprio testemunho do Espírito. Como recusar uma informação até então desconhecida e que pode ser confirmada materialmente dessa forma? Isso não é crença! São fatos e contra fatos realmente não há argumentos. Você tem razão: o fenômeno espírita ainda é um desafio para a ciência positiva, que ainda não aceita os novos paradigmas da ciência transcendental. Nunca aceitou. Alguns cientistas aceitaram porque aceitavam os limites desses paradigmas e indicaram caminhos que continuam sendo rejeitados pelos seus parceiros dogmáticos e presunçosos. Einstein, Planck, Prigogine, Khun, Murayama, e tantos outros já desmontaram esse modelo positivo de certezas para mostrar que o universo é dinâmico e que a realidade não se baseia em evidências estáticas.

Sobre a teologia espírita, que é temática filosófica, não houve nenhuma revolução de conceitos, mas apenas a reafirmação de idéias há muito defendidas pelos pensadores antigos, incompreendidos em suas reflexões. A diferença é que eles não tinham uma metodologia experimental, como fez Kardec ao utilizar a mediunidade como ferramenta de pesquisa e verificação de hipóteses. O Livro dos Espíritos não foi produto da sua imaginação de escritor ou teólogo, mas de perguntas e respostas fartamente testadas em diversas fontes e oportunidades. Não são as respostas do Espírito X ou Y que possuem valor de verdade, mas os conteúdos e os argumentos. Essa metodologia está exposta claramente no Livro dos Médiuns e foi amplamente aceita, por exemplo, por Charles Richet, que embora não aceitando a revelação espírita (mesmo vendo, dialogando e apalpando espíritos materializados ) por razões pessoais e ideológicas, reconheceu que o método era científico e não permitia fraudes ou especulações "interpretativas". Concordamos com você sobre o perigo das verdades incontestáveis. Temos sempre que submetê-las ao crivo da razão. Kardec sempre fez isso e nunca colocou nenhuma tese espírita no pedestal do "incontestável". Dizia que a fé verdadeira era aquela que pudesse enfrentar a razão face a face. Quem teme esse axioma não é espírita autêntico, pois teme a verdade. Até agora ninguém nos convenceu que o fenômeno espírita não é fenômeno da natureza e que, sendo fenômeno, pode ser explicado na sua essência e realidade. Podemos até não aceitar, por questões emocionais ou ideológicas. Mas não podemos negar por questões racionais. Até que se "prove" o contrário!

sábado, 13 de setembro de 2008

Crimes e abusos sexuais

Cena de Oliver Twist : infância abandonda e inocência perdida pela precocidade



Ainda vai demorar muito para que se reduzam os efeitos nocivos da cultura de massas e a pornografia continua despontando como um do itens preferenciais nos hábitos de consumo da nossa sociedade. Na internet ela reina de forma absoluta nas estatísticas de acesso e até pouco tempo não havia regras claras sobre a sua exposição. Quando iniciamos a publicação desse blog há menos de um ano deparávamos a todo instante com páginas livres contendo todo tipo de violência e costumes pouco ortodoxos. Surgiram muitas reclamações pela adoção de critérios de uso dessa mídia e agora as coisas parecem estar sob algum controle ético.

O sexo é uma necessidade humana fundamental, mas sabemos que uma grande parcela da Humanidade não foi educada nem consegue atingir a satisfação de suas carências biológicas e psicológicas pelas chamadas vias “normais” das relações íntimas. E a precocidade pelo interesse sexual parece agravar o problema.
Então, até compreendemos porque a pornografia tornou-se a forma artificial e massiva de acesso fácil ao sexo. É a banalização social do amor e da afetividade sexual sadia. Antes esses desvios ou mecanismos ilusórios, próprios da fantasia humana, eram intensamente reprimidos ou então canalizados para as conhecidas formas de sublimação. Mas esse controle social, antes fortemente exercido pelas religiões dogmáticas, tornou-se praticamente impossível com o advento da sociedade industrial. Mesmo com o auxílio precioso da psicanálise e da psicoterapia, o erotismo continua ocupando lugar de destaque como causa dos excessos e desequilíbrios sexuais. É inegável a sua hegemonia ideológica nos meios de comunicação, seja como expressão artística, seja como apelo publicitário de consumo. No ocidente católico e puritano, em virtude disso, formou-se um curioso jogo de influências maniqueístas, de impacto e resistência, no qual as forças degenerativas levam ampla vantagem sobre a s forças educativas. Simultaneamente ao declínio da estrutura nuclear da família burguesa vêm surgindo diversos desafios ao senso comum da ética sexual.

Antes foi o homossexualismo, embora ainda confuso e divergente em certos aspectos, hoje caminha para uma harmonia na construção de conceitos e uma paciente eliminação de preconceitos. Agora o mundo todo se depara estupefato com o problema da pedofilia, alvo de graves e noticiosos escândalos. O abuso sexual de crianças é assunto muito antigo e vem ocorrendo há séculos sob o véu da privacidade e da censura. Com a facilidade dos meios e comunicação e a permissividade da sociedade de massas, o problema veio à tona, com toda a carga de dramaticidade e sensacionalismo dos temas moralistas, revelando aspectos obscuros da mente, da família e das demais instituições humanas. Sem contar que ainda estão para explodir os casos já notórios, fartamente registrados e catalogados pela ciência comportamental. Os pedófilos de hoje são aqueles que ontem também foram vítimas de abusos. Quem abusou dessas pessoas quando elas ainda eram inocentes? Quem são os responsáveis pela criação desses “monstros” que hoje afrontam a infância e semeiam novos traumas para o futuro?

A literatura espírita, pelas mãos de André Luiz e de muitos outros autores, já informava que o problema sexual extrapola as dimensões limitadas do mundo físico e se desdobra em interessantes experiências da vida espiritual, tanto na forma de dolorosos conflitos da vida além túmulo, pelos conhecidos meios obsessivos, como no esclarecimento da sexualidade como um poderoso fator de evolução espiritual. Há mais de meio século o médico carioca desencarnado já nos dava notícias de grandes trabalhos realizados nas colônias reencarnatórias vizinhas à Terra, no sentido de preparar o ser humano para os difíceis embates entre o instinto e a razão, ocorridos no terreno da sexualidade. Informava ele em “Sexo e Destino” que a colônia “Almas Irmãs”, especializada nessa temática evolutiva, registrava em seus currículos de aprendizagem os mais profundos temas de caráter fisiológico e psicológico. Também, de forma bem realista, mostrava uma coleção de poucas vitórias, grande maioria de fracassos probatórios e recaídas, com agravamento de débitos nesse aspecto da experiência carnal.

Talvez tudo isso seja o prenúncio de importantes mudanças nos hábitos pessoais e sociais. Talvez tudo isso tenha um lado positivo: mostrar que educação sexual não é modismo, nem porta larga para a licenciosidade. Trata-se de coisa série e urgente.



NOTÍCIA ANTIGA

Deputada critica veto a projeto sobre orientação sexual nas escolas


A deputada federal Iara Bernardi (PT/SP) criticou hoje, em Sorocaba, a decisão do presidente Fernando Henrique Cardoso de vetar o projeto de lei de sua autoria, aprovado pelo Senado, que institui um programa de orientação sexual e prevenção ao uso de drogas nas escolas brasileiras. O veto, assinado na última sexta-feira, já foi publicado na imprensa oficial.

O presidente acatou parecer de técnicos do Ministério da Educação, para quem a adoção dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) possibilita as escolas elaborar programas de educação sexual e prevenção das doenças sexualmente transmissíveis. A Coordenadoria Geral do Ensino Fundamental (COEF), órgão do Ministério, considera que o PCN criou as condições necessárias para a abordagem das questões referentes à sexualidade e à prevenção ao uso de drogas nas escolas.

A deputada afirmou que os argumentos do MEC não são verdadeiros. Ela desafiou o Ministério a relacionar as escolas brasileiras de ensino médio e fundamental que tratam desses temas com seus alunos de forma contínua e multidisciplinar. "Vetar um projeto como este num momento tão crítico, em que a juventude escolar brasileira está sendo alvo da violência, do tráfico de drogas e das doenças transmitidas sexualmente, é assumir total insensibilidade frente às necessidades dos jovens", criticou.

O projeto de Iara obrigava as escolas a oferecerem programas para a capacitação de professores que optassem pela participação no modelo pedagógico de orientação sexual e prevenção ao uso de drogas. Segundo ela, as escolas encontram enormes dificuldades para colocar em prática os parâmetros curriculares criados pelo MEC. "São poucas as escolas que conhecem o programa e menor ainda o número das que o adotam."

O Estado de São Paulo, 07/05/2002

sábado, 6 de setembro de 2008

Sexo, união, amor e separação


Muito amigos, e nós mesmos no decurso das nossas experiências, questionamos com muita intensidade as causas de tantos distúrbios nas relações conjugais. Sonhos desfeitos, fantasias desmascaradas, ilusões perdidas. Angústias e expectativas torturantes no coração dos pais e dos filhos.

Como compreender e agir diante de tais situações altamente dolorosas e conflitantes? A renúncia é um benefício ou uma violência ao espírito encarnado? Os filhos podem suportar e superar os traumas da separação dos pais? Eles merecem, compreendem e valorizam esse sacrifício?

Essas questões foram levadas ao médium Chico Xavier numa sessão pública em Goiânia, na década de 1970 e foram assim respondidas pelos Espíritos que o assistiam:


“Por que motivo o casal, muitas vezes, tem no noivado uma paixão marcante e experimenta a diminuição do interesse afetivo nas relações recíprocas, após o nascimento dos filhos ?
Grande números de desenlaces na Terra obedece a determinações de resgates, escolhidas pelos próprios cônjuges, antes do renascimento no berço físico. E aqueles amigos que serão filhos do casal, muitas vezes, agindo no Além, transformam, ou melhor, omitem as dificuldades prováveis do casamento em perspectiva para que os cônjuges se aproximem afetuosamente um do outro, segundo os preceitos das leis divinas e formem o lar, desfazendo dentro dele determinadas dificuldades das existências anteriores em motivos de amor e compreensão maior.

O namoro e o noivado, em muitas ocasiões, estão presididos pelos espíritos familiares que serão filhos do casal. Quando esses mesmos espíritos se corporificam em nossa casa, na posição de nossos próprios filhos, parece que há diminuição de amor entre os cônjuges, mas isso não acontece; existe, sim o decréscimo da paixão, no capítulo da afeições possessivas que nos cabe evitar.


Os casais, que experimentam o mesmo desinteresse afetivo, no campo das relações múltiplas, após a chegada do filhos, devem continuar unidos mesmo assim ?
Os nossos Amigos Espirituais explicam que ninguém pode exigir de alguém espetáculos de grandeza e que determinadas situações heróicas nem sempre podem ser abraçadas pela criatura humana. Mas, tanto quanto possível, por amor aos filhos e aos familiares outros, é aconselhável sofrer qualquer espécie de dificuldade para sustentar a família e resguardar a invulnerabilidade do lar.

Se tantos de nós, tantas vezes, nos sacrificamos, de modo quase absoluto, em grandes avais, para os quais não nos achamos preparados, em favor de determinados amigos, porque não nos seria possível igualmente sofrer ou lutar por amor aos filhos e dependentes ?


É uma pergunta para todos nós”.

sábado, 30 de agosto de 2008

Violência e reencarnação


Uma onda de criminalidade e matanças vêm invadindo as cidades brasileiras. Encontros e reencontros de desafetos. Espíritos rebeldes e muitas vezes credores da corrupção e dos desmandos públicos estão voltando e agindo como mandam os costumes das coletividades do umbral. O problema não é exclusivamente brasileiro, mas alguns países já conseguiram superar, em parte, a gravidade do assunto.

Tempos atrás vimos num documentário da National Geographic um caso envolvendo duas famílias inimigas na Turquia que vinham se destruindo há mais de cem anos, numa horrível escala de assassinatos entre seus membros. Recentemente, provavelmente por inspiração dos mentores familiares, já esgotados em seus esforços de exortação moral, apelou-se por uma solução prática. Os anciãos das duas famílias reuniram para firmar um acordo e botar fim nas mortes, atingindo a raiz do problema: o ódio e a vingança. Para neutralizar esses sentimentos arraigados há décadas, eles decidiram promover um casamento entre os membros das duas famílias. Foram escolhidos um rapaz de 26 anos e uma menina de apenas 13 anos. Questionada sobre sua escolha, a menina declarou que aceitava a tarefa com muita honra e se sentia muito feliz por contribuir com o fim daquelas mortes. Num cálculo simbólico e político, para um determinado número de perdas ocorridas entre as duas famílias nas décadas passadas deveria nascer da união do casal escolhido uma quantidade determinada de filhos. Vidas novas. E
spíritos que antes se repudiavam agora se atraem pela força sagrada do sexo, esperançosos na experiência do recomeço. Com sangue misturado, harmônicos, neutralizam a química do ódio e o impulso da vingança. Ressurreição pura pelas vias da reencarnação.



Pacto entre famílias inimigas delimita áreas exclusivas no PE


"Um pacto de paz selado hoje em Recife (PE) entre as seis famílias em guerra há cerca de 20 anos no "polígono da maconha" cria áreas para a circulação exclusiva dos clãs e delimita territórios livres, onde a convivência entre os integrantes dos grupos rivais será permitida. Para evitar os confrontos, que já provocaram a morte de aproximadamente cem pessoas, ficou estabelecido que os Araquan e os Gonçalves poderão circular livremente em Abaré e Mirandiba.

Já seus inimigos, os Benvindo, os Nogueira, os Simões de Medeiros (conhecidos por Russos) e os Gonçalves da Silva (chamados de Cláudios) passarão a ter como base territorial as cidades de Cabrobó e Belém do São Francisco. As rodovias federais e o município de Salgueiro, pólo regional do sertão pernambucano, receberão o status de "territórios livres", onde os seis clãs dizem que predominará a convivência pacífica entre as famílias. A criação das "zonas de exclusão" atende reivindicação feita pelos Russos na primeira tentativa de acordo entre os grupos, ocorrida no dia 17 de outubro e intermediada pela Igreja Católica, Ministério Público, Justiça estadual e a CPI do Narcotráfico e da Pistolagem de Pernambuco.

Os integrantes do clã consideravam "impossível" a assinatura de um acordo de paz sem a definição de uma regra de convívio que permitisse a reaproximação gradativa dos seis grupos.

"O ressentimento de 20 anos de confrontos não vai acabar de um dia para o outro", disse um dos líderes dos Russos, o produtor rural Cristian Diniz Simões de Medeiros, 32. "Um toma uma cachaça, vem outro e toma também e pronto, o acerto acaba em dois dias", justificou.

Outro impasse levantado na época, pelos Araquan, também foi solucionado na reunião realizada ontem na Assembléia Legislativa do Estado: a reivindicação de anistia para os 22 presos da família. Os Araquan só concordavam com o pacto de paz se o número de presos dos dois lados fosse igual. Como os rivais têm apenas três integrantes cumprindo pena, eles exigiam que a Justiça anistiasse 19 condenados da família ou prendesse 19 dos clãs rivais. A solução veio do juiz das execuções penais, Adeildo Nunes, que participou da reunião. Ele prometeu agilizar os processos de julgamento e autorizou a transferência de 13 detentos, de um presídio de Recife para a unidade penal de Salgueiro.

O presidente da CPI do Narcotráfico e da Pistolagem, deputado Pedro Eurico (PSB), disse que o acordo poderá fazer até com que alguns deles respondam o processo em liberdade, porque vários pedidos de habeas corpus já foram negados em razão do risco de envolvimento dos presos em novos confrontos.

Os clãs, disse o parlamentar, se comprometeram a entregar as armas que possuem, e a Secretaria da Defesa Social (equivalente à Segurança Pública) será acionada para intensificar as operações de desarmamento no sertão. Para tentar afastar do plantio e do tráfico de maconha alguns integrantes das famílias envolvidas nos conflitos, a CPI se comprometeu também a reivindicar linhas de crédito agrícola junto aos bancos do Nordeste e do Brasil.

O documento com os pontos do acordo deverá ser redigido e assinado ainda esta semana. Depois de seis meses, todos os envolvidos deverão se reunir novamente para avaliar a situação e revisar o pacto, se necessário".

Fábio Guibu, da Agêntcia Folha, em Recife

sábado, 23 de agosto de 2008

Finalmente, cinema espírita!



Desde sexta-feira, 29 de agosto, os espíritas brasileiros têm nas próximas semanas um compromisso histórico, obrigatório e intransferível. É o ingresso decisivo do Espiritismo no cinema nacional: direção, roteiro, produção, atuação, tudo feito com arte, carinho e dedicação de artistas espíritas. Só falta o público espírita da primeira hora, o exemplo para alavancar as bilheterias e transformar o sonho em realidade. Se for sucesso de público, têm todas as chances de ir para a TV e para o mercado internacional
Realizado com a mais avançada tecnologia digital e finalizado em 35mm, o longa-metragem “Bezerra de Menezes - O Diário de Um Espírito” fará uma fiel reconstituição de época para representar o Ceará e o Rio de Janeiro do Século XIX. Com cuidadosa pesquisa história de Luciano Klein, biógrafo de Bezerra de Menezes, aliada a extensa pesquisa iconográfica nos acervos mais importantes do país, a vida de Bezerra de Menezes será contada com passagens ficcionais e relatos de pesquisadores de sua vida e obra. A produção teve locações no Ceará, Pernambuco e Rio de Janeiro e contou com o talento do ator Carlos Vereza interpretando Bezerra de Menezes, além de grande elenco de artistas cearenses.



O Médico dos Pobres

Antes de Eurípedes e Cairbar, dois personagens também tiveram atuações marcantes como pioneiros do Espiritismo apostólico no Brasil: educadora Anália Emília Franco e o médico Adolfo Bezerra de Menezes.O Dr. Bezerra, cearense de Riacho do Sangue e conhecido no Rio de Janeiro como “o médico dos pobres”, interessou-se pelo Espiritismo ao ler O Livro dos Espíritos, presente do seu primeiro tradutor em língua portuguesa, o Dr. Joaquim Carlos Travassos. Alguns anos depois, no dia 17 de agosto de 1886, diante de um público de quase duas mil pessoas, no salão de honra da Guarda Velha, declara sua adesão à Doutrina Espírita. Essa atitude tinha sido provocada por um teste pelo qual Bezerra submetera a mediunidade do homeopata João do Nascimento. Bezerra solicitou uma receita para si mesmo, dando dados pouco esclarecedores sobre sua saúde. O diagnóstico veio rápido e confirmava a existência de uma dispepsia. A notícia foi dada em diversos jornais da Capital como mais um simples evento cultural promovido pela Federação Espírita Brasileira. Porém, o seu protagonista não era mais um dentre os inúmeros conferencistas que lá compareciam para expor suas idéias e sim uma espécie de mito vivo, daqueles que as pessoas comuns e as existencialmente indecisas ficam observando, ainda que de forma inconsciente, olhando-as como bússolas a oferecer um Norte para suas vidas sem rumo:


“Foi grande ontem a concorrência de senhoras e cavalheiros no salão da Guarda, para ouvirem o Dr. A. Bezerra de Menezes. O orador começou explicando os motivos poderosos que o levaram a abraçar o Espiritismo, dentre os quais denominava o preceito de que os princípios da religião estão fora do alcance da compreensão da razão, preceito que assim inutiliza a ação da mais elevada faculdade do homem. Foi estudando a moral e a teogonia romana que o orador se convenceu da veracidade dos ensinos espiríticos, completamente conformes com aquela, e se discordam desta, é por ser esta, como ele demonstra, o fruto de interpretações humanas. Tratou depois largamente da Doutrina Espírita; sendo acolhido, ao terminar, por calorosos aplausos”


Sobre a leitura da primeira edição brasileira de O Livro dos Espíritos, publicada em 1875 pela livraria Garnier, Bezerra comentou depois que, ao ler Allan Kardec, tivera uma dupla reação: ficou, ao mesmo tempo, admirado com aquele universo de revelações e também com a sensação de que nada daquilo lhe era estranho. Seu anúncio em público teve um grande impacto na Corte Imperial, pois o regime era ainda muito atrelado ao clero católico. Além disso, Bezerra havia sido vereador por dois mandatos e tornara-se deputado-geral. Escrevia, agora, artigos espíritas sob o pseudônimo de “Max” no jornal “O Paiz”, dirigido por Quintino Bocaiúva. A família deixada no Ceará também não lhe perdoou o gesto, acusando-lhe de renegar a religião de berço, como se renegasse o leite materno. A crítica vinha de um irmão e foi para ele que Bezerra enviou uma carta na qual expõe todo o seu sentimento sobre o novo compromisso ideológico. A carta tornou-se um dos opúsculos mais lidos de Bezerra e, num dos trechos, o bom médico confessa ao irmão o porquê da mudança:

“Não sou cristão, porque meus pais me criaram nessa lei e me batizaram; mas, sim, porque minha razão e minha consciência, livremente agindo, firmaram minha fé nessa Doutrina sublime, que, única na Terra, eleva o Homem, em Espírito, acima da sua condição carnal – que, por si mesma, se revela obra de infinita sabedoria, a que o Homem jamais poderá chegar. Tendo diante dos olhos de minha alma o código sagrado da revelação messiânica, procuro, sem descanso, arrancar de mim os maus instintos naturais e substituí-los pelas virtudes cristãs. Tendo fé, tenho esperança e, quanto à caridade, procuro tê-la o mais que me é possível, na medida do ensino de São Paulo. Não guardo ódio e perdôo as injúrias, evito fazer o mal e procuro fazer bem aos próprios que me odeiam.”


Nesta carta encontramos uma concepção muito diferenciada do Espiritismo que se praticava naquela época, no Brasil e na Europa, e que veio persistindo e ainda persiste em nossa época. Note-se que Bezerra de Menezes já havia superado as primeiras características das pessoas que se tornam Espíritas, apontadas por Allan Kardec. Tinha plena consciência da importância da transformação moral e do que era o trabalho de auto-análise e reformulação interior e qual o papel que o Espiritismo tinha que realizar nesse setor delicado da experiência humana. Aliás, como mudar a sociedade se não houver mudança de comportamento e de atitudes? Se não era essa a finalidade do Espiritismo, qual a vantagem de deixar de ser católico, protestante ou mesmo ateu? Por que adotar um novo ideal de vida, se continuamos esperando que as mudanças venham de fora para dentro? Deve ter sido essa a intenção de Bezerra ao responder ao irmão o significado da sua nova fé. É bem verdade que tais mudanças não ocorreram somente no campo intelectual e no muno do teórico-filosófico. Nem tudo era poesia e calmaria, pois na sua trajetória existencial as mudanças foram precedidas por severas provações severas, como um processo de adubação do solo moral. O biógrafo Francisco Acquarone mostra que o nome e a legenda em torno de Bezerra de Menezes foram construídos com sacrifícios e decepções que a maioria dos destacados militantes do Movimento Espírita nem ousaria pedir como prova. De fato, a vida de Bezerra foi, sem exagero, de completa renúncia, longe do egoísmo e da busca de notoriedade que tanto cultivamos e buscamos em nossas medíocres experiências, na vida comum e no ideal espírita. Bezerra não fez parte do corpo de trabalhadores espíritas da primeira hora, mas, pela própria natureza do seu caráter, se impôs, sem o querer, como o líder natural de todos os nomes que aparecem na lista dos históricos fundadores do Movimento Espírita Brasileiro. O Bezerra encarnado, militante espírita, político, ser humano sujeito aos altos e baixos da rotina cotidiana, é bem diferente desse Bezerra Espírito, cuja imagem mística foi sendo construída ao longo dos anos e que tendeu para uma espécie de santificação, dado o grande interesse do público religioso pelas suas atividades curativas. Muitos se chocam ao saber das suas preferências doutrinárias, das suas batalhas políticas contra os adversários ideológicos, achando que, pelo fato de ter sido um cristão exemplar, era ingênuo, imaturo e se deixava levar pela leviandade de querer agradar a todos. Todos os membros do Grupo Confúcius, sem exceção, viam em Bezerra uma autoridade espontânea para conduzi-los na busca de seus objetivos. Isso significa que viam nela a difícil habilidade de gerir conflitos. Eram elementos ligados à Medicina Homeopática e conheciam a história do médico que abandonara a estabilidade da vida militar, para dedicar-se aos riscos da política; conheciam também a sua fama de médico cristão e profundamente caridoso. Mas seu prestígio parlamentar e sua notoriedade moral não eram meros acessórios sociais e sim ferramentas para remover obstáculos que exigiam muita paciência e obstinação. Foi desse grupo, que durou apenas três anos, que surgiram as primeiras traduções brasileiras das obras de Allan Kardec.


Bezerra era orientado, pessoalmente, pelo Espírito Santo Agostinho, o propositor da idéia do compromisso e da técnica de reforma íntima, contida nas questões 918 e 919 de O Livro dos Espíritos. No auge do cisma, para convencer Bezerra a dirigir a Federação Espírita Brasileira, naquele momento um autêntico “presente de grego”, Bittencourt Sampaio sugeria-lhe a prática da homeopatia para viver dignamente e doar-se sem preocupações ao novo trabalho. Bezerra respondeu que não entedia “patavinas” de homeopatia e que usava a medicina dos Espíritos e não as dos médicos. O médium Frederico Júnior também estava presente e, através dele, manifestou-se Santo Agostinho, confirmando as palavras de Sampaio e querendo dizer que Bezerra fazia muito mais do que os homeopatas. Bezerra reagiu, educadamente, perguntando a Agostinho se lhe sugeriam ganhar dinheiro com o Espiritismo. O Espírito respondeu certamente que não, mas que o ajudaria a ganhar a vida dignamente e que, nas horas mais difíceis, lhe traria “alunos de matemática”. Bezerra entendeu o recado lembrando que, certa vez, num momento de dificuldade financeira, quando ainda era aluno da faculdade, apareceu alguém pedindo-lhe aulas particulares de matemática; o cliente pagou adiantado e nunca mais voltara para tomar uma única lição. O Espírito Agostinho insistiu para que Bezerra aceitasse o convite de Sampaio, lembrando que a união dos Espíritas dependia da sua boa vontade de homem e que eles, os Espíritos, dependiam dela para realizar o trabalho deles. O convite foi aceito e daí em diante o movimento espírita, como todos sabemos, não foi mais o mesmo. Bezerra deu a ele um novo tom, uma nova afinação com o seu diapasão inconfundível. Além da natural presença de espírito, marca pessoal de sensibilidade, Bezerra trazia uma enorme bagagem política, fator que facilmente poderia denegrir a imagem do Espiritismo, mas que em suas mãos significou um habilidoso instrumento de negociações num grave e delicado momento da efetivação da Doutrina em nosso país. Para os espíritas e adversários do Espiritismo Bezerra possuía todas as virtudes que engrandeciam ou os defeitos que diminuíam a importância da mesma. Mas para a opinião pública, tradicional expectadora de exemplos, ele continuava sendo inatacável, pois o seu perfil humanista estava acima de qualquer opinião doutrinária. Quando do seu desencarne, também a maioria dos jornais fluminenses noticiou o fato e nenhum deles deu publicidade de sua crença ou filiação filosófica, mas sim ao caráter e a imagem que os habitantes da cidade do Rio Janeiro tinham da sua pessoa:

“Sucumbiu ontem, às 11h30, após longos e dolorosos padecimentos, que foram a última prova imposta à sua resignação verdadeiramente cristã, o eminente brasileiro cujo nome, encimando estas linhas, como homenagem póstuma às virtudes da sua vida, por tantos anos fulgurou nos anais da política do império e hoje, apenas vive na tradição dos que o amaram, ou da inexaurível fonte da sua bondade receberam inesquecíveis benefícios. Foi esta a característica essencial do venerado extinto. Político militante, filiado à mais adiantada parcialidade do antigo Partido Liberal, deputado, vereador da extinta Câmara deste município, a cujos destinos por longos anos presidiu; escritor – que o era com raro merecimento e brilho – em todas essas manifestações da sua atividade, deu sempre o Dr. Bezerra de Menezes as mais brilhantes provas de sua capacidade, do seu valor moral e intelectual; mas foi sobretudo no abnegado sacerdócio da sua clínica e na doce penumbra da sua vida íntima que mais refulgiram os peregrinos dotes de seu espírito, multiplicando-se em desvelos, em solicitude, em carinhoso desinteresse por todos os que sofriam. E jamais bateu um desses, enfermo ou necessitado, inutilmente á sua porta.Tempo houve em que, fascinado pelo desejo de servir á sua pátria, em cargos públicos, exclusivamente de confiança popular, como acabamos de aludir, substituiu o exercício da Medicina pela tribuna parlamentar ou pelos onerosos encargos de chefe da Municipalidade, em que se conservou perto de vinte anos (...) Passou através das grandezas deste mundo e do fastigio do poder sem lhes sentir a vertigem, sobranceiro, indiferente, alheio a ambições, tendo pelas seduções da fortuna um desprezo que tanto contrasta com o culto hoje incondicionalmente rendido a essa mesquinha preocupação, cujo cultivo, em certas camadas da sociedade contemporânea, tanto rebaixa o espírito da nossa nacionalidade.É realmente edificante, no meio das ambições que na hora presente se disputam entre nós a posse das melhores posições, para a ostentação de inesperadas opulências, opor exemplo desse grande cidadão, que não é mera figura – encaneceu no serviço da Pátria e da Humanidade e, tendo entrado para a vida pública com fortuna, dela se retirou pobre, depois de haver exercido, gratuitamente por um largo período, o cargo de vereador, que não era então remunerado, em ter tido em suas mãos, como seu presidente, as chaves da Municipalidade, de que não se utilizou, senão para assegurar-lhe as condições de prosperidade, de que rezam as tradições desse tempo (...) Assim, de fato, viveu esse grande homem, misto de interesse, de abnegação, de fé e de grande moral, e que, de sessenta e oito anos, voltados à atividade constante do trabalho, extremo de ambições vulgares, sai da vida, deste charco, que o não conspurcou, cercado de uma auréola de virtude e através de uma glorificadora apoteose de bênçãos e lágrimas (...) A sociedade brasileira, particularmente a sociedade fluminense, contraiu com o venerando morto uma dívida que, revertendo em benefícios de sua família, honrará a memória daquele que tantos serviços lhe prestou. Resta que a pague, provando assim que a ingratidão não é a única moeda com que o povo costuma retribuir sacerdócios dos que serviram à Pátria e à Humanidade (...)” – O Paiz, 12 de abril de 1900.



NOVA HISTÓRIA DO ESPIRITISMO - Dos Precursores de Allan Kardec a Chico Xavier

domingo, 17 de agosto de 2008

A Cidade Luz no tempo de Kardec



Boulevard des Italiens, por Edmond Granjean. Cenário do encontro de Rivail e Carlotti.


Paris retratada nas gravuras de Rouarque. Rua Rivoli.

Palais Royal


Escola de Belas Artes


“(...) Atualmente, o visitante que chega a Paris encontra de 1,5 a 2 milhões de habitantes. Em 1860, os muros fortificados se tornaram limite da municipalidade – são mais de 35 quilômetros de circunferência, com 66 entradas ou portões. A cidade é dividida em vinte arrondissements, ou circunscrições administrativas, governadas pelo prefeito do Sena, o barão Georges Haussmann, e seu conselho municipal. O moderno e elegante quarteirão compreende a alegre e magnífica rue de Rivoli, a Place Vendôme, o Boulevard des Italiens e Champs Elysées. O palácio das Tulheries é a residência do imperador e da imperatriz, em Paris; na Île de la Cité estão os tribunais, a chefatura central de polícia e o grande hospital; não há nada de semelhante à “City” londrina – a Bolsa de Valores perto do quarteirão da moda. No Faubourg Saint-Germain, situado na margem esquerda do Sena, localizam-se as grandes e belas mansões da nobreza, em algumas das quais se mantêm as tradições da velha sociedade francesa; no vizinho Quartier Latin, milhares de estudantes levam uma vida de rebeldia e desregramento moral que o estrangeiro mal consegue entender. A leste, Faubourg S. Antoine, outrora estufa de terror e insurreição, há numerosas manufaturas e moradias operárias. Nas cercanias, como no Faubourg S. Vitor, Mouffetard, Belleville, etc., vivem os segmentos mais pobres da população.


Paris, entretanto, pode se orgulhar de ter menos antros de miséria, devassidão e vício do que as vizinhanças de Tottenhan Court Road ou Drury Lane exibem. Há cerca de 4 mil hotéis e hospedarias, carregando em seus nomes sinais da entente cordiale – daí, Chathan, Bristol, Windsor, Manchester, Brighton, Liverpool, Westminster, Dover, Bedford, Canterbury, Richmond, Lancaster, Clarendon, Nelson, Byron, Walter Scotch, Prince Regent, e vários Albions, Londres, Victorias, Îles Britanniques e Angleterres.
(...) Paris exibe com orgulho pelo menos 20 mil cafés. Os mais higiênicos apresentam ao visitante um cenário animado, decorado com sofás luxuosos, espelhos, enfeites e adornos dourados de bom gosto; todos os artifícios capazes de atrair e reter o visitante estão expostos – jornais diários, tabuleiros de damas e xadrez, dominós, baralhos e bilhares. Servem-se café, chocolate e excelentes licores a preços razoáveis. Os salões podem ser freqüentados livremente por senhoras. Prevalecendo o máximo decoro, as conversações transcorrem em voz baixa, o que constitui uma atração a mais nesses lugares populares de diversão. Em geral, só se permite fumar à noite. Tortoni, no Boulevard des Italiens, é famoso por seus sorvetes cremosos e de frutas. O Café du Helder é conhecido por seu absinthe, um licor alcoólico que, tomado em qualquer quantidade, pode ser danoso ao bem-estar físico e moral; abre depois do teatro e a comida é caríssima (meio frango, quatro francos!) O Café Leblond Favre, na Passage de l’Opéra, é onde os corretores de ações da Bolsa tomam seu desjejum; refrigerantes à base de vinho de xerez, limão, açúcar, xarope de menta, grogue norte-americano e outras bebidas ianques à disposição. O Café de Suède fica no Boulervard Montmartre; em cubículos fechados, depois do teatro, servem-se sopas de ganso aux marrons, chucrute e salada de batatas a uma clientela literária e jornalística, de tendências políticas radicais. Le Guillois, excêntrico editor do jornal Le Hanneton, costuma ser visto por lá, sempre fingindo ler um exemplar e resmungando alto, ridiculamente: “Este jornal é extraordinário! Críticas excelentes, paginação inteligente! É tão barato! Realmente, esse Le Guillois é um homem incrível, merece fazer sucesso.


(...) Quando a noite chega, Paris, a Cidade-Luz, converte-se num verdadeiro charivari de prazeres, cabendo ao visitante apenas uma certa cautela, para não lamentar, mais tarde, ter cedido com presteza ávida demais aos apelos da sereia – tentações e bebedeiras – cujos efeitos podem ser catastróficos.Grand Opéra, na rue Lepelletier, é a Ópera francesa, construído às pressas, em 1821, em substituição ao prédio da rue Richilieu, na porta da qual o duque de Berri foi apunhalado, e que por isso foi abaixo. Em 1858, defronte ao seu pórtico, três italianos tentaram assassinar o imperador e a imperatriz, de sorte que essa edificação também está sendo substituída por uma esplêndida construção projetada por Monseur Garnier, e deve ser inaugurada em 1871 (...) As reservas para todas as apresentações teatrais parisienses podem ser feitas num escritório central, situado no Boulevard des Italiens; evite os cambistas, que vagueiam do lado de fora dos teatros mais populares – suas ofertas são excessivamente caras e quase sempre inteiramente falsificadas!(...)


Além da profusão de igrejas, monumentos, galerias e vistas que todo turista conhece bem, chamaríamos a atenção dos visitantes para a MARCHA DO PROGRESSO evidenciada por essa grande cidade. Cada quarteirão de Paris parece admiravelmente renovado. O antiquário sentimental pode chorar a perda da velha Paris e seu passado romântico, assim como o moralista empedernido há de deplorar a glória atribuída à riqueza; mas com toda a justiça outros devem rejubilar-se pelo triunfo da ciência e da higiene modernas.
(...) São 35 linhas de ônibus que cobrem os principais pontos da cidade, das 8:00 à meia noite. Damas não podem viajar no andar superior: são freqüentes as quedas fatais de gente que escorrega na hora de descer os estribos... Pequenos botes a vapor cruzam o Sena: são conhecidos como muches – moscas, ou andorinhas. Cuidado! Recomenda-se a maior precaução com as floristas, nos bals publics, cafés chantants e à saída dos teatros, e com os manhosos avanços de mulheres bem-vestidas e falantes... Nos mercados, barganhar é regra... Não há vendedores ambulantes de peixe em Paris. Todo o pescado é vendido no mercado. Atenção com os judeus vendedores de binóculos para teatro, jóias folheadas, etc., que podem oferecer ao visitante literatura e ilustrações licenciosas: tais artigos são proibidos. Cautela com os zeladores ou encarregados de prédios de apartamentos. Caso se sintam ofendidos, eles poderão causar terríveis aborrecimentos, extraviando cartas, dando informações erradas às visitas e espalhando maledicências nas redondezas.Deve-se evitar discussões políticas. A vigilância policial é ubíqua, e seus agentes detêm amplos poderes para fazer detenções e prisões. Sábio será quem se expressar com grande comedimento ao falar do imperador e do governo da França, eximindo-se de fazer ou comentar qualquer coisa que possa acarretar diminuição da entente cordiale que existe entre nossas nações.”


Guia turistico londrino sobre Paris - Citado por Rupert Christian in "Paris Babilônia"

Nova História do Espiritismo


Moda em 1860

Paris em 1859

Paris romana: Lutécia

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Provas, deuses e heróis



Na Grécia antiga os jogos olímpicos eram uma celebração do Espírito Encarnado, um culto aos deuses, entidades imortais, isto é, evoluídas e mais experientes, que já habitavam o Olimpo, a utopia de um mundo perfeito e feliz dos gregos. Era também homenagem aos heróis, seres humanos que conquistavam esse status espiritual pelos seus esforços “hercúleos” durante a existência física. A maioria desses campeões das lutas contra si mesmos tinha sangue misto, pois eram considerados descendentes dos deuses, revelando suas origens divinas. Eles atingiam essa condição heróica superando os obstáculos do corpo e os limites da mente, sofrendo as mais duras provações circunstanciais.

Por inspiração dos gênios espirituais da Hélade, essas verdades, ainda que em metáforas, foram transpostas para as competições olímpicas, cujas provas difíceis certamente simbolizavam as dificuldades da vida e a exigência constante da coragem e da persistência. O soldado de Maratona, que sucumbiu fisicamente após correr 42 quilômetros para alertar sobre o perigo da invasão inimiga, tornou-se um exemplo universal dessa força moral. O corpo pereceu pelo esgotamento, mas o Espírito despertou forte, vibrante e vitorioso, sobretudo com intensa sensação de alegria pelo dever cumprido.

Esse evento cultural grego tinha também a intenção de cultivar a paz e a fraternidade entre as cidades-Estado, modelo político de todas as nações contemporâneas, seja da aristocracia ou da democracia. Era necessário tentar evitar a experiência dolorosa e destrutiva das guerras, mesmo fracassando nesse aspecto, que é na verdade uma fraqueza das civilizações.

Ainda hoje, como vemos, os jogos da Antiguidade repercutem fortemente nos tempos e entre os países modernos. Neles enxergamos nitidamente os ideais de Esparta e de Atenas. A China, terra de Confúcio e Lao Tsé, exemplo secular de paciência e superação, mesmo passando recentemente por uma difícil provação coletiva, preparou para o mundo uma grande festa para honrar a sua luta e vitória contra a adversidade.


A habilidade e a competência espiritual

“Estamos em guerra, não há dúvida (...) Refiro-me à guerra cotidiana, essa que pelejamos mal começa o dia. Guerra não declarada, não percebida pela maioria – mas guerra de fato (...) É a guerra do leite, da carne, do pão, da manteiga, do emprego, do amigo, do inimigo, do lotação, do trem , do elevador. Batalhas tachistas, indeterminadas e sinuosas. Não obstante, duras.”- Ferreira Gullar – in “O Menino e o arco-íris”


O exercício moral está para o espírito assim como o exercício físico está para o corpo. O exercício fortalece o corpo e dá a ele maior resistência ao cansaço e esgotamento gerados pelos esforços desgastantes. Já o exercício moral fortalece o espírito, dando ao mesmo maior resistência ao desânimo,à desesperança e desencantos causados tanto pelas decepções e fracassos corriqueiros do dia-a-dia, quanto nas grandes provações da existência. O exercício físico transforma o corpo numa ferramenta precisa, que obedece com sincronia elétrica ao comando do cérebro. O exercício moral também transforma faculdades mentais do espírito em instrumentos de alta precisão psíquica, sob controle da força de vontade e da espontaneidade das atitudes nobres. O primeiro integra o ser nos ambientes externos, onde sofre e resiste aos obstáculos e limites biológicos dos planos objetivos da matéria. O segundo integra o ser no seu ambiente interno, onde ele também sofre e resiste aos obstáculos e adversidades psicológicas, no plano subjetivo.

É verdade antiga e notória que o aperfeiçoamento do corpo físico fortalece o espírito, assim como o aperfeiçoamento mental reflete no corpo físico, em forma de força e resistência. Mas, apesar dessa admirável reciprocidade, a questão que nos parece essencial é que o corpo físico é sempre efêmero, transitório, um meio instrumental, enquanto o espírito é imortal, eterno e de finalidade evolutiva permanente. Um morre, em espiral regressiva, e se transforma nos elementos da sua origem material. O outro sobrevive e também se transforma, em espiral progressiva, retornando ao convívio das suas origens espirituais.

Então, na experiência existencial, o produto dessa integração corpo-espírito é que o espírito sempre colhe os melhores resultados dos esforços despendidos durante as provas. O produto do esforço físico termina no túmulo, se dele o espírito não souber subtrair dividendos psicológicos positivos. Já o produto do esforço espiritual supera a escuridão do túmulo e da consciência e penetra nos ambientes cada vez mais iluminados e perfeitos do universo metafísico, onde o corpo físico e suas sensações grosseiras e exteriores não possuem nenhuma utilidade. Nesses planos sutis o ser realiza experiências através dos sentidos interiores – a emoção equilibrada, a intuição, a clarividência – e muitas outras percepções ainda desconhecidas nos mundos físicos.

As faculdades psíquicas de alta precisão e percepção, típicas das inteligências superiores, somente são desenvolvidas através das experiências morais probatórias, pelo despertamento consciencial. Nelas o espírito, por vontade própria ou por imposição expiatória, se envolve em situações críticas, de alto risco existencial, porém de alta potencialidade ressurreicional. Nessas circunstâncias, não bastam, portanto, o uso das inteligências lógicas, mas sim das capacidades psicológicas, de habilidades emocionais, geralmente adquiridas nos momentos de graves decisões e escolhas delicadas. Essa inteligência superior, além dos limites da razão e maturada pelo sofrimento em mundos inferiores, está sintetizada na lei do livre arbítrio e no aforismo “a semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória”. Quem desconhece esse aspecto da educação metafísica não consegue compreender nem aceitar as provas, o sofrimento, a resignação e a humildade como poderosos fatores de inteligência e evolução espiritual. São esses os famosos tesouros que não enferrujam e que a traça não destrói. Este é o significado central da lição das bem-aventuranças ensinadas por todos os grandes educadores do espírito, iniciados na pedagogia cósmica e intuídos pela Consciência Universal.

Nas aparências exteriores, esses discursos crísticos e redentores – sempre vivenciais, exemplificados com atitudes – se mostram num primeiro momento, aos olhos comuns, como absurdos e contraditórios, pois que estão sendo observados somente pela ótica racional biológica. Mas, na perspectiva psicológica espiritual, essa aparência exterior se transmuta numa verdade nada absurda e contraditória, revelando as nuances do percurso entre a imperfeição e a perfeição relativa da experiência existencial; e depois desse primeiro estágio, o novo percurso entre a perfeição relativa e a perfeição absoluta, busca constante e infindável do nosso destino espiritual, sempre de acordo com o nosso esforço e merecimento.

O Monte Olimpo, na Grécia, utopia do mundo perfeito, destinado aos deuses da espiritualidade e aos heróis da carne.


sábado, 2 de agosto de 2008

Augusto César Vanucci


A obra de Chico Xavier, que até o ano do seu desencarne ultrapassou a casa dos 30 milhões de exemplares vendidos, não poderia permanecer restrita aos livros. Tratava-se de uma temática literária cuja diversidade teria que ser, mais cedo ou mais tarde, transmutada para em outras linguagens artísticas. Quem de nós, ainda hoje, não sonha em ver nas telas do cinema e da TV uma grande e sofisticada produção das obras de Emmanuel, André Luiz ou Lúcius? Ficamos imaginando que algum produtor de Hollywood um dia vai se interessar pelo assunto. Por que nenhum diretor do cinema de arte europeu não filmou ainda a história de Allan Kardec, mostrando a Paris dos primeiros tempos do Espiritismo?
Enquanto sonhamos é bom lembrar que grandes autores de novelas como os pioneiros Ivani Ribeiro, Janete Clair , Dias Gomes, e seus sucessores Benedito Ruy Barbosa, Walcir Carrasco, Glória Peres, Maria Adelaide Amaral e Agnaldo Silva, quando não trataram diretamente do assunto espiritismo, não perdem a oportunidade de colocar temas com forte teor de espiritualidade em seus roteiros. Mesmo que, em termos mercadológicos e de audiência, esses temas se tornaram praticamente obrigatórios nas novelas e mini-séries brasileiras, não se pode negar que muitos desses autores e diretores, na condição natural de médiuns, foram não somente influenciados pelos precursores, mas também porque passaram por provas pessoais que os conduziram positivamente para o texto de impacto esclarecedor e de “conspiração” artística espiritual. No Brasil dois nomes merecem ser lembrados como importantes pioneiros da arte e comunicação espírita de massa: os mineiros Wanda Marlene dos Santos e Augusto César Vannucci, que tiveram muita vontade, nem sempre com todas as condições, de transformar sonho em realidade. Foi um esforço histórico, de lançamento de sementes em terreno resistente e árido e que só depois de muitos anos iriam germinar. No início da década de 1960 a atriz Wanda Marlene ocupou um precioso espaço cedido pela TV Itacolomi, de Belo Horizonte, para produzir e levar ao ar algumas obras mediúnicas de Emmanuel. O ponta-pé inicial da série foi dado em 1961 com “Lívia”, adaptada do romance Há Dois Mil Anos, seguido de “O Grande Testemunho” (do livro 50 anos depois), Renúncia e concluída em 1964 com Ave Cristo. Para o ano seguinte previa-se a produção de Paulo e Estêvão. O “Anuário Espírita 1965” registrou como colaboradores do trabalho precursor de Wanda um numeroso elenco: Zélia Marinho, Geraldo de Oliveira, Vilma Henriques, Tales Pena, Nilda Almeida, Sérgio Luiz, Wantencyr Mattos, Carlos Farah, Toni Vieira, Anaíde Martins, Ari Fontenelli, Rogério Falabela, Jota Barroso e outros.Iniciado pelas mãos de Pascoal Carlos Magno, no Teatro do Estudante, Augusto César Vanucci, nascido em Uberaba, médium intuitivo, faria uma trajetória mais ampla, ocupando espaços de comunicação mais abrangentes como as grandes redes de televisão no Rio e em São Paulo. Discípulo de Chico Xavier, dividido pela prova do poder, entre o dever, a imagem profissional, e o ideal filosófico, Vannucci decidiu romper as amarras das aparências e, como Wanda Marlene, partiu para “tudo ou nada e seja o que Deus quiser”. Dono de um perfil cobiçado nos meios artísticos, no mercado promissor nas décadas de 1960 e 1970, em meio a perturbações cármicas e dramas familiares, o grande diretor deixou sua marca no maior veículo de comunicação de massa do século XX: “A verdade confessa era que eu assumia, mais ou menos, postura espiritualista, mantendo, todavia, os pés presos no materialismo. Depois de trabalhar em 146 peças teatrais, 30 shows noturnos, dirigir para a TV Globo 4.100 programas, descobri, numa viagem astral, em conversação com amigos espirituais, que o verdadeiro trabalho estava por vir”.

Essa luta entre o ser e o não ser, uma constante no trabalho de Vannucci, num delicado terreno onde predomina a vaidade e a ânsia pelo sucesso, foi assim comentada pelo jornalista e autor de TV, Eloy Santos[94]:

“Teatro, cinema, televisão. Essas três expressões da arte e da cultura brasileiras tiveram, no correr das últimas quatro décadas, a presença e o talento cintilante de Augusto Cesar Vannucci. Como um mestre do ofício, ele deixou sua marca pessoal em tudo. Marca do gênio. (...) Quer queira ou não este país sem memória, Augusto Cesar Vannucci é, hoje, uma referência importante na história da TV mundial. Lendo essas linhas, como eu sei que ele está lendo, vai dizer: ´O Eloy fez bobagem. Minha contribuição maior à televisão foram os programas que falam de espiritualidade...´ É verdade. Quando se discutia a sua obra na TV, Vannucci destacava programas como ´3ª Visão´, ´Percepção´, `Fronteiras do Desconhecido´ e o especial ´Chico Bondade Xavier´. Para ele sempre valeu mais a pena dar o espaço para os `Espíritos do Senhor que, semelhantes a estrelas cadentes, vêm iluminar o caminho e abrir os olhos aos cegos´. Aqui, um parêntese: também nos anos 1980 Vannucci produziu e dirigiu a peça ´Além da Vida´, com textos de Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco. Ela está em cartaz até hoje. Augusto César Vannucci. Um pioneiro. Ele andou por um caminho áspero e marcado muitas vezes pela incompreensão, ao se dispor à tarefa de dar câmeras e microfones na TV ao Espiritismo. Mas não recuou jamais. Mesmo quando o preço de tal gesto representasse, como muitas vezes representou, a perda de posições de mando e prestígio.


Fonte: Nova História do Espiritismo - Dos Precursores de Alla Kardec a Chico Xavier



Wanda Marlene e algumas cenas de "Lívia" na TV Itacolomi - Imagens:Carlos Fabiano Braga

sábado, 26 de julho de 2008

Espiritismo na TV

Na minha adolescência em São Vicente, sentado no meio fio da calçada com os colegas da rua Rio de Janeiro, ficava admirado, como todos, quando por lá aparecia uma senhora discreta, que descia de um táxi para visitar uma prima na vizinhança. Alguém então comentava: “Aquela é a Ivani Ribeiro, escritora de novelas. É prima da mãe da Silvia Helena".

Ivani Ribeiro era “calunga”, nascida e criada na antiga vila paulista e, de vez em quando, aparecia para matar as saudades. Ela teve o privilégio de ser a primeira autora espírita de sucesso em novelas de TV. Foi precedida nos anos 60 por Wanda Marlene e os pioneiros da TV Itacolomi, de Belo Horizonte, mas foram os seus textos que mostraram definitivamente ao Brasil a cara da doutrina como expressão de arte.

Nos anos 70 a televisão iria explodir no Brasil como meio de comunicação de massa e as telenovelas seriam o principal recurso desse vínculo entre as emissoras e o público. Já em 1973, o Programa Pinga Fogo , da Rede Tupi, mostrara que a relação entre Espiritismo e a sociedade brasileira não era apenas modismo e sim um fenômeno de forte identificação cultural. Não tardaria então para que se cobrasse dos diretores e autores algo mais palpável nesse sentido. A maioria deles tinha relação direta ou indireta com os temas da espiritualidade, mas Ivani Ribeiro foi quem rompeu essa simpatia distante para entrar de cabeça e coração no tema, sem temer as conseqüências. Levou Allan Kardec para a teledramaturgia. E a base literária dessa transmutação de texto escrito para texto visual foi Chico Xavier, com a consultoria impecável de J. Herculano Pires. “Nosso Lar”, de André Luiz, tornou-se então “A Viagem”, um grande campeão de audiência que foi ao ar em duas versões: uma na Tupi, em 1975, e outra na Rede Globo, em 2004.

A partir dessa ousadia de Ivani e dos produtores, a fenomenologia espírita tornou-se praticamente obrigatória nos roteiros dramáticos da televisão brasileira. Os outros autores, também por influência do cinema, mesmo com reservas, começaram a mostrar suas impressões sobre as coisas do outro mundo. Até mesmo o teatro, que certamente havia sido o primeiro formador desse público, voltou a encenar e deu um grande impulso na profissionalização das peças espíritas. Agora só falta o cinema nacional dar a sua contribuição. Aliás, faltava! Em agosto, de Riacho do Sangue para o mundo, teremos finalmente nos cinemas o filme “Bezerra de Menezes- Diário de um Espírito”, interpretado por Carlos Vereza. O longa metragem com grande elenco, é dirigido por Glauber Filho e Joe Pimentel. O roteiro é de Luciano Klein Filho. A estréia é muito emblemática e obrigatória para todos os espíritas: dia 29 de agosto, aniversário do nosso querido Bom Velhinho.


A calunga Ivani Ribeiro, ousadia e ruptura. Abaixo o elenco de 2004, sob a direção de Wolf Maia. Clique e veja trechos das duas versões da novela.

http://ca.youtube.com/watch?v=U2n-hhyXDb8&feature=related



sábado, 19 de julho de 2008

Decepções e alegrias da História


A história, quando contada pelos seus próprios atores e agentes, têm o brilho da autenticidade, mesmo que ela desagrade alguns corações e suas respectivas lembranças. Essa foi a impressão que tivemos ao ler pela primeira vez “60 anos de Espiritismo no Estado de São Paulo”, do Dr. Ary Lex.

Há alguns anos, quando buscávamos fontes para compor a nossa "Nova História do Espiritismo", achamos o livro numa pilha de muitos exemplares semelhantes, sendo vendidos a preço de banana num sebo do centro paulistano. Nossa história sendo vendida a 4 reais nos deu a alegria da oferta e do achado , mas também a tristeza de constatar o desinteresse e o desprezo pela memór
ia do Espiritismo. O autor provavelmente só conseguiu publicar o livro por causa do seu prestígio junto a então diretoria FEESP, já que, certamente, nenhuma editora correria o risco do encalhe. Nosso exemplar insignificante, retirado daquela imensa pilha escondida nos fundos da livraria de usados, hoje é destaque em nossa modesta estante doméstica, cheio de anotações à lápis. É leitura fundamental para quem pretende defender ou atacar o Espiritismo.

Um detalhe: o sub-título "Nossa Vivência" é uma alfinetada no manual "Vivência do Espiritismo Religioso", com autoria de Edgard Armond, atribuída pelos diretores da Aliança Espírita Evangélica.

Merece atenção também a forma como o Dr. Ary Lex analisava o problema do ensino espírita, assunto em que desenvolveu opinião curiosa quando tomou parte nas tentativas de materialização de projetos educacionais, como a chamada “pedagogia espírita”.

Surpreendentemente, ele não compreendia a educação andragógica ou iniciática, quando tornou-se um crítico curricular das Escolas de Aprendizes do Evangelho, embora admitindo sua grande eficiência técnica e social. Mas também não conseguia enxergar nem as raízes e muito menos os rumos da educação pedagógica, na época objeto de grande interesse idealístico de J. Herculano Pires.

Não conhecemos pessoalmente o Dr. Ary Lex, mas muito ouvimos falar da sua fama de purista doutrinário, polemista e eterno desconfiado das manifestações mediúnicas. Para ele , Ismael era simplesmente “aquele espírito mentor da FEB”. Por outro lado, tinha um enorme respeito, quase místico, pelas receitas do Dr. Bezerra de Menezes.

Um antigo livreiro, bastante conhecido, nos contou que, em certa ocasião, Ary Lex fez uma lista de erros científicos contidos nas obras de André Luiz, incluindo os de anatomia. A crítica certamente não se limitava a esse aspecto e avançava no terreno das “revelações”. O Espírito reagiu e mandou um recado para o Dr. Ary dizendo que, se toda a obra escrita por ele através de Chico Xavier não tivesse algum valor no seu conjunto, então ele não se importaria se a mesma fosse jogada no lixo...

Evidentemente esse episódio, como tantos outros, não está no livro, mas nele encontramos muitas preciosidades para reflexão, sobretudo as que desmistificam personalidades “sacralizadas” no Movimento Espírita.

Aliás, essa é a temática central da obra, assunto que mais o incomodou durante a sua trajetória como militante. Já na empolgante introdução, como aviso do que vai acontecer nas próximas 180 páginas, ele propõe, bem ao estilo médico-positivista, uma curiosa tipologia da militância espírita com que se deparou nessas seis décadas de percurso. Nela identificamos claramente as nossas reminiscências e tendências, incluindo o próprio estilo e características do autor. Quando tivermos alguma dúvida sobre as nossas atitudes perante a doutrina, às instituições e aos companheiros de jornada, seria muito útil consultar esses perfis e rever as nossas posturas.


TIPOLOGIA LEXIANA


“Conhecemos muitos tipos de pessoas:

- as TÍMIDAS, que freqüentam ambientes espíritas durantes anos, sem manifestar suas opiniões;

- as EXTROVERTIDAS, sempre falantes, com muitas idéias, mas sem realizações práticas;

- as SONHADORAS, com planos mirabolantes e inexeqüíveis, querendo modificar tudo e criar estruturas obras faraônicas;

- as DITADORAS, que não admitem qualquer contestação às suas idéias;

- as IRRITADAS, sempre contra tudo e contra todos;

- as MÍSTICAS, que buscam um Espiritismo que se assemelhe ás práticas de antes, cheias de rituais, substituindo os santos pelos guias e os deuses pelos espíritos desencarnados;

- e , finalmente, as EGOÍSTAS, que não perdem a oportunidade para a sua auto-promoção".

sábado, 12 de julho de 2008

Paulo e Estêvão



O cardeal arcebispo de São Paulo, Dom Odilo P. Scherer, escreveu neste sábado no “Estadão” um belo artigo sobre a trajetória e a importância histórica do Apóstolo Paulo. Baseada em textos do Novo Testamento, a narrativa de Dom Odilo desperta nos cristãos e nos homens de bem um forte sentimento de alegria e dignidade humanas ao lembrar episódios marcantes da biografia do Apóstolo dos Gentios. É assim que nos sentimos quando relembramos a transformação de Saulo ocorrida na estrada de Damasco e sua luta, muitas vezes solitária, para difundir o novo ideal. Em momento algum o arcebispo faz a apologia do catolicismo e sempre se refere à Igreja como uma entidade superior às instituições humanas, a Igreja de todos nós, da Humanidade, de cristãos e não cristãos.
Enquanto lia o artigo não pude deixar lembrar o relato de Emmanuel em “Paulo e Estevão”, obra que lançou inúmeras luzes sobre esses acontecimentos, antes somente restrito aos Atos dos Apóstolos e às famosas Epístolas. Chico Xavier conta que este livro foi psicografado com a ajuda de recursos ainda incompreensíveis para a ciência humana: desdobrado em corpo espiritual, o médium tinha a sensação de estar assistindo a um filme no qual observava vivamente como expectador os acontecimentos que deveria transcrever. Por ocasião da cerimônia que lhe concedeu o título de Cidadão Paulistano, Chico também nos presenteou com uma grata revelação de que, nos temos remotos da nossa Capitania, o Apóstolo apareceu “nimbado de luz” ao padre Manoel da Nóbrega, indicando a ele as diretrizes e o futuro da sua missão fundadora no Planalto de Piratininga.
A médium Marta Galego Thomas, mais recentemente , relatou numa obra sobre o aspecto espiritual da metrópole paulistana, que as primeiras pregações dos jesuítas aconteciam ao redor de uma grande pedra, exatamente onde hoje localiza-se o prédio da Federação Espírita do Estado de São Paulo. A FEESP, foi na década de 1940 palco de acontecimentos históricos na organização do movimento espírita paulista, com a criação das Escolas de Aprendizes do Evangelho, reunindo naquela casa antigos trabalhadores da cristandade, reencarnados e operantes em atividades anônimas e de alto grau de espiritualidade. Foi nessa época que o Espírito Ismael, manifestando-se através de um médium desconhecido que passava pela rua, investiu espiritualmente sobre esses operários da FEESP a tarefa de expandir a nova evangelização em bases espíritas “para o Brasil e para mundo”, nas palavras de Bezerra de Menezes. Lembrei também da participação de Paulo nos textos mediúnicos colhidos por Kardec e da inesquecível “Epístola aos Espíritas lyoneses”, enviada por Erasto, discípulo de Paulo, lembrando a remota de ligação dos cristãos de Lyon com os apóstolos contemporâneos do Espiritismo. São os espíritas do primeiro grau, a luz, diferentes da lama e da água que ainda vivem dentro de nós. Essa é a Igreja Viva que reconhecemos, que admiramos e queremos para todos os povos.


São Paulo, 2 mil anos

Dom Odilo P. Scherer


O apóstolo São Paulo é, sem dúvida, um dos personagens mais marcantes do início do cristianismo. Judeu da diáspora, nasceu em Tarso, na província romana da Silícia, hoje na Turquia; seu nome era Saulo, provavelmente em homenagem a Saul, o primeiro rei dos hebreus. Recebeu sólida educação nas tradições religiosas do seu povo e se tornou um ardoroso membro do grupo dos fariseus, que se destacava pela observância rigorosa das prescrições mosaicas. Em nome dessas tradições, ainda jovem, passou a perseguir de maneira impiedosa os seguidores de Jesus Cristo. Os Atos dos Apóstolos referem-se a ele no primeiro relato de martírios cristãos: "E Saulo estava lá, consentindo na execução de Estêvão" (Atos 8,1).

A mudança em sua vida aconteceu quando, às portas de Damasco, ele foi fulminado e cegado por uma luz fortíssima e interpelado por uma voz a lhe perguntar: "Saulo, Saulo, por que me persegues?!" Perseguia os cristãos e queria lançá-los na prisão; ele mesmo diz que a voz era de Jesus: "Eu sou Jesus, a quem tu persegues" (cf. Atos 9, 1-22). Aquele encontro tão desconcertante provocou uma nova trajetória na vida de Saulo, que passou a ser chamado Paulo; em várias passagens de seus escritos ele conta o que lhe aconteceu perto de Damasco (cf. Atos 22; 26; Carta aos Gálatas 1).

Daí em diante, Paulo dedicou todas as suas energias à pregação do Evangelho de Cristo. Com Barnabé, Lucas, Silas, Marcos e outros companheiros, fez diversas viagens missionárias pela Ásia Menor e pela Grécia, fundando comunidades cristãs e instruindo-as, depois, com suas cartas. O privilégio da cidadania romana lhe salvou a vida diante do tribunal de Jerusalém, que ameaçava condená-lo à morte por infidelidade religiosa; por seu apelo ao tribunal de César, foi levado a Roma, onde, mesmo prisioneiro, continuou sua atividade missionária. Sofreu o martírio, por decapitação, segundo uma tradição antiga, durante a perseguição movida contra os cristãos pelo imperador Nero, pelo ano 64 dC.

Seu túmulo é conservado sob o altar principal da Basílica Romana de São Paulo Fora dos Muros, uma esplêndida edificação em estilo romano feita construir pelo imperador Constantino no século 4º; depois do incêndio devastador de 1823, foi reconstruída no seu antigo esplendor com a contribuição de organizações e grupos do mundo inteiro. Estudos arqueológicos recentes confirmaram a autenticidade histórica do túmulo do apóstolo, venerado sob o altar. A basílica é meta de constantes peregrinações de religiosos, estudiosos e turistas e uma referência para encontros ecumênicos de cristãos. Uma comunidade monástica beneditina zela pela igreja e acolhe os visitantes.

Mesmo sem endossar a afirmação de Wrede, um estudioso do início do século 20, segundo o qual é Paulo o verdadeiro fundador do cristianismo, é inegável a importância do grande apóstolo para a Igreja. Mais que os outros apóstolos e discípulos de Jesus Cristo, ele difundiu o Evangelho entre os povos e fez uma primeira aproximação da mensagem cristã com as culturas da época, dando um cunho universalista ao "caminho" vivido pelos cristãos. Isso foi fundamental para que, ao longo dos séculos, os povos - sem deixarem de lado a sua identidade cultural - pudessem conviver na mesma grande comunidade de fé.

Na sua pregação, Paulo já faz um primeiro desenvolvimento da "doutrina cristã"; partindo do Evangelho de Jesus Cristo, ele reflete sobre os vários temas centrais da fé cristã, como as afirmações sobre Deus e a clara configuração trinitária de Deus. Por outro lado, Paulo desenvolveu muito a reflexão sobre Jesus Cristo, abordando aspectos relativos à obra, aos ensinamentos e à pessoa do Mestre. Sua cristologia foi determinante para a definição das verdades da fé cristã nos concílios ecumênicos dos primeiros séculos do cristianismo.

A cosmovisão de Paulo e sua maneira de entender a existência humana neste mundo, a convivência e as relações sociais e os valores morais também foram e são determinantes para o cristianismo. Sua reflexão sobre a Igreja é bem estruturada e parte sempre da experiência do seu próprio encontro com Cristo; mas também tem em conta sua missão nas comunidades que fundou e acompanhou e suas relações com Pedro, outros apóstolos e os demais companheiros de missão. Ele tem clara consciência de não ser o fundador da Igreja, mas colaborador numa causa bem maior que seus projetos pessoais. Para ele, a Igreja não é uma estrutura abstrata e meramente funcional, mas uma realidade viva, através da qual Jesus Cristo continua presente e sua missão se prolonga no mundo.

Paulo nasceu, segundo os estudiosos, entre os anos 6 e 9 depois de Cristo. Para comemorar os 2 mil anos do nascimento do grande apóstolo, o papa Bento XVI abriu no dia 28 de junho passado um ano santo especial. Durante este período, a Igreja convida às práticas habituais previstas para os anos jubilares, como peregrinações aos "lugares paulinos", a busca da reconciliação e do perdão de Deus e as celebrações especiais em igrejas localmente estabelecidas como metas de peregrinação. Para conhecer melhor o apóstolo é recomendada, de maneira especial, a leitura e o estudo dos escritos de São Paulo, no Novo Testamento.

Fica o registro deste aniversário histórico. Nossa cidade, o Estado e um número considerável de instituições e organizações da sociedade, inclusive nossa Arquidiocese e este jornal, levam o nome de São Paulo. Mesmo sem referência direta à fé religiosa, resta o fato que o apóstolo é um personagem da História da humanidade. Bem mais do que muitos filósofos, conquistadores e aventureiros, e sem recorrer à violência, ele influenciou a cultura de muitos povos.

Dom Odilo P. Scherer é cardeal-arcebispo de São Paulo

Sábado, 12 de Julho de 2008 Versão Impressa



O Marco Zero da capital paulista: daqui para o Brasil e para mundo.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Dias Gomes: o ser e o destino


Dias Gomes com Janete Clair

No dia 17 de maio de 1999, ainda residindo em São Paulo, eu e dois irmãos que são músicos, fomos visitar um amigo, pianista, onde ficamos até altas horas conversando. Na volta entramos na avenida 9 de julho e fomos em direção aos Jardins, para chegar até o Butantã, onde morava nossa mãe. A avenida estava praticamente vazia. Nesse instante passa por nós, em alta velocidade, um taxi Fiat Uno branco. Apressado, o táxi entrou na faixa exclusiva , talvez para fugir do semáforo, quando então escutamos um barulho forte , seco, uma pancada de som metálico. Sem parar, olhamos para trás e vimos que um ônibus havia batido no carro deixando-o muito amassado e com a frente voltada na direção contrária do seu destino. Continuamos lentamente, pois ali não era permitido estacionar, mas tentando saber o que se passava enquanto chegavam de alguns curiosos.
No dia seguinte soubemos pela TV o que realmente havia acontecido. Ao entrar na faixa exclusiva, o táxi colidiu violentamente com o ônibus, que seguia no mesmo sentido. No choque, o ilustre passageiro foi lançado para fora do carro e morreu na hora ao bater a cabeça numa mureta. O passageiro era o dramaturgo Dias Gomes, que voltava de um teatro no centro da cidade, onde tinha ido assistir a estréia de uma de suas peças.
Impressionado com o que ocorrera, comecei a pensar sobre a trajetória do famoso teatrólogo brasileiro. Teria sido mera coincidência esse fato? Nessa época eu costumava fazer caminhadas nos finais de tarde na Cidade Universitária e lá algumas questões tomaram conta do meu silêncio íntimo. Pensava: o Dias Gomes era realmente um cara genial, sempre lutando contra a censura, a opressão , a corrupção e os dogmas religiosos. Lembrei das suas peças mais famosas – O Pagador de Promessa e O Santo Inquérito. Lembrei das novelas O Bem Amado, Saramandaia, Roque Santeiro e a inesquecível Mandala, adaptação da tragédia Édipo- Rei, de Sófocles. Como os antigos dramaturgos gregos, ele ria constantemente das coisas sagradas e também brincava muito com destino. Talvez no futuro essa sua morte trágica e banal se transforme em folclore, como aconteceu com Ésquilo. Segundo a lenda, esse dramaturgo grego morreu quando uma águia, confundindo sua calva com um pedra (para que o casco partisse), soltou uma tartaruga sobre sua cabeça.


BIOGRAFIAS


Alfredo de Freitas Dias Gomes (mais conhecido como Dias Gomes). Salvador, 19 de outubro de 1922 — São Paulo, 18 de maio de 1999) foi um dramaturgo e autor de telenovelas brasileiro. Foi casado com Janete Clair, famosa autora de telenovelas da TV Globo, falecida em 1983, com quem teve quatro filhos: os músicos Guilherme Dias Gomes (trompetista) e Alfredo Dias Gomes (baterista), a poeta e violoncelista Denise Emmer e um falecido ainda criança. É avô, através de Alfredo, da também autora de telenovelas Renata Dias Gomes. Morreu num acidente de trânsito, ao ser lançado para fora de um táxi que colidira em uma manobra irregular do motorista, que sobreviveu. Um dos temas explorados com freqüência em seus trabalhos era o de uma visão esquerdista, de oposição à religião popular, considerada um instrumento das elites para pacificar e subjugar as massas pobres do país em prol dos interesses de poderosos como latifundiários, políticos e coronéis do Nordeste do Brasil, além dos próprios religiosos que se beneficavam desses interesses obscuros. Já havia ganho notoriedade como escritor teatral e projeção nacional em virtude do sucesso da peça O Pagador de Promessas (convertida em minissérie em 1988). Estreou como autor de telenovelas em 1969, quando escreveu A Ponte dos Suspiros. Em Saramandaia, sete anos mais tarde, criou o realismo fantástico na telenovela brasileira. Essa idéia seria aproveitada pelo futuro novelista pernambucano Aguinaldo Silva em trabalhos como Pedra sobre pedra (1992), Fera ferida (1993) e A indomada (1997). A novela Roque Santeiro foi baseada em uma antiga peça teatral de sua autoria, O berço do herói, escrita em 1963 e censurada dois anos após, às vésperas da estréia. No lugar foi exibida uma reprise compacta de Selva de pedra, de sua esposa Janete Clair, que então escreveria outro grande sucesso: Pecado capital. Roque Santeiro só foi liberada em 1985, no governo de José Sarney, obtendo estrondoso sucesso. No entanto, em sua reprise de 2000, como parte das comemorações dos 35 anos da TV Globo, não repetiu o mesmo êxito da exibição original. Também é pai da escritora Mayra Dias Gomes, e da atriz Luana Dias Gomes, filhas de seu segundo casamento com a atriz Bernadeth Lyzio.

Obras: Teatro: Pé-de-Cabra ; O Pagador de Promessas ; A Revolução dos Beatos ; O Santo Inquérito ; O berço do herói ; O Rei de Ramos ; Sargento Getúlio ; Grito no Escuro (O Crime do Silêncio) ; Meu Reino Por Um Cavalo ; Os Cinco Fugitivos do Juízo Final ; A Invasão ; O Bem-Amado . Televisão: A Ponte dos Suspiros - 1969 ; Verão Vermelho - 1970 ; Assim na Terra como no Céu - 1970/1971 ; Bandeira 2 - 1971/1972 , O Bem Amado - 1973 ; O Espigão - 1974 ; Roque Santeiro - 1ª versão censurada - 1975 ; Saramandaia - 1976 ; Sinal de Alerta - 1978/1979 ; Carga Pesada - seriado - supervisão de texto - 1979/1980 ; O Bem Amado - seriado - 1980/1984 ; Roque Santeiro - 1985/1986 ; Mandala - 1987/1988 - até o 35° capítulo ; O Pagador de Promessas - minissérie - 1988 ; Araponga - 1990/1991 ; As Noivas de Copacabana - minissérie - 1992 ; Irmãos Coragem - remake - supervisão de texto - 1995 ; Decadência - minissérie - 1995 ; O Fim do Mundo - 1996



Ésquilo - Elêusis c. 525 a.C. - Gela 456 a.C. - foi um poeta trágico grego. É considerado como o fundador da tragédia. Foi soldado em Maratona, Salamina e Plateias (o que explica várias peças de cariz militarista, como Sete contra Tebas e sobretudo, derivado da sua experiência direta, Os persas). Na sua biografia ressalta desde logo a sua naturalidade: Eleusis, na Ática, cidade famosa pelos Mistérios de Elêusis, cerimónia iniciática de que ainda se desconhece a verdadeira componente (a este propósito Ésquilo terá sido julgado pelo fato de ter revelado os Mistérios, tendo, no entanto, sido absolvido). Ao longo da sua vida Ésquilo assistiu à consolidação da democracia ateniense, tendo posteriormente viajado para Siracusa a convite do tirano Hiéron, onde terá travado conhecimento com os místicos pitagóricos. Na sua obra destaca-se a importância dada ao sofrimento, narrando as sagas dos Deuses e dos Mitos (como por exemplo em Prometeu Acorrentado). Terá escrito 79 tragédias (segundo alguns autores cerca de 90), das quais se conservaram apenas sete tragédias completas (para além de inúmeros fragmentos dispersos de outras): Os Persas (472 a.C.); Sete Contra Tebas (467 a.C.); As Suplicantes (c. 463 a.C.); Prometeu Acorrentado (c. 462-459 a.C.); Agamemnon (458 a.C.); Coéforas (458 a.C.); Eumênides (458 a.C.). As três últimas constituem a única trilogia que chegou inteira até nós: a Orestéia (ou Oréstia), uma das mais pungentes tragédias da Grécia Antiga narrando o drama protagonizado pelos últimos Atridas: Agamémon, Clitemnestra, Egisto, Electra e, naturalmente, Orestes (em torno do qual se realizam grande parte dos oráculos anunciados e que dá o nome de conjunto à trilogia). Fonte: Wikipédia